Meu currículo é uma coleção de erros.
Não tem diploma, só cicatriz.
Errei distraído. Errei achando que era esperto.
Errei certo, errei bonito, errei até cansar.
É assim que a vida ensina: repetindo a surra.
Errei ao voltar pro Rio de Janeiro.
Vinte e cinco anos depois, achei que o passado ia me reconhecer.
Não reconheceu.
Cidades não têm memória – só dentes.
Não vejo drama nisso.
Errar não é vergonha.
Vergonha é fingir que não errou.
Quem se espatifa aprende.
Quem vence demais vira burro elegante.
Vitória não ensina nada.
Erro traz a vida real – à força.
Ninguém é velho demais pra cair num conto barato.
Eu caí.
Outros, mais velhos, caíram também.
A diferença é que eles juram que estão de pé.
Fracasso, ao menos, ensina a hora de fechar a porta e ir embora.
Agora, sem olhar pra trás.
Nunca tive problema com canalhas.
Convivo bem com qualquer um.
Antes eu sentia o cheiro de longe.
Desta vez demorou. Os piores ratos usam religiões.
Hipocrisia.
A idade não nos ensina tudo sobre todos.
Só reduz a paciência.
Todo mundo pode errar.
Todo mundo pode ser enganado.
A maioria prefere mentir pra si mesma.
É mais confortável.
Estou empacotando as coisas.
Volto para onde saí, tarde demais.
Não é fuga.
É correção de rota.
Uma última chance de continuar inteiro.
Vai ser duro.
Mais duro do que tudo que já vivi.
Mas sem carregar cruz alheia.
Sem salvar ninguém.
Sem pedir aprovação.
Vou viver quieto.
Escrever.
Pagar minhas contas.
Dormir em paz.
E isso –
isso não tem preço.
Walter Biancardine
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