quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

COLEGAS -


Terça-feira.
Cabo Frio e a bebedeira da noite anterior ainda grudadas em mim como cheiro de cerveja velha.
A cabeça latejava.
Não era só ressaca, era cobrança também.

Sentei numa padaria qualquer.
Café forte. Gosto de palha de milho.
Aspirina demais.
O tipo de manhã que não promete nada e cumpre.

Diante das prateleiras, duas mulheres conversavam.
Uma ofereceu pão de queijo.

- Quer?

A outra fez cara de santa recém-convertida.

- Tô de regime. Quero ficar gostosa.

Falou sorrindo.
E estava quase lá. Era potável.
Bunda firme, peitos que não pediam desculpa, cintura – um milagre estatístico.
A outra era mais larga, mais antiga, mais cansada. Uns vinte quilos a mais de sabedoria.
Olhou de cima a baixo e deu um sorriso postiço.

- Quer voltar pro maridinho, é?

A frase caiu pesada, como saco de farinha no chão.
A gostosa não recuou.

- Já voltei.

Aquilo doeu.
Deu pra ver.
A gorda sentiu.
Sentiu fundo.
Abaixou o queixo e cuspiu:

- Foi a pior coisa que você fez.

Pronto.
Amor feminino dura até a primeira comparação.
Depois vira campeonato.
Sem medalha.
Só ressentimento.

É abraço com faca no bolso.
Admiração misturada com contabilidade.
Todo elogio vem com juros.

A verdade é simples e feia:
a felicidade do outro incomoda.
Não inspira. Humilha.
Ninguém posta a alegria alheia no Instagram.
Só a própria farsa bem iluminada.

A gorda respirou fundo, ajeitou o avental e soltou:

- Tô sozinha há sete meses. Nunca fui tão feliz.

Mentira dita com dentes.
Daquelas que precisam ser repetidas até convencer o espelho.

Depois começaram a falar mal de todo mundo.
Patrão, colega, cliente, vida.
Especialmente dos que estavam de folga.
Os ausentes sempre apanham mais.

Enquanto isso, três meninas em silêncio carregavam caixas.
Não opinavam.
Não sorriam.
Trabalhavam.
Essas aprendem cedo.

Fiquei olhando, mastigando o pão na chapa com café ruim.
Padarias, colegas e amizades podem ser, às vezes, uma radiografia de todos nós.

Engoli a última aspirina.
Paguei.
Levantei.

A cabeça ainda doía.
Mas não era mais só a ressaca.
Era o mundo mesmo, funcionando normalmente.

Entrei no ônibus e voltei pro Rio de Janeiro.


Walter Biancardine





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