domingo, 1 de fevereiro de 2026

VOLTANDO A MIM -

 


O fracasso pertence aos corajosos, por insistirem em respirar após o abismo.

A vida acontece em surtos, avalanche de pancadas misturadas a momentos de felicidade absurda, e nesse redemoinho se desenrolam todos os dramas, todas as dúvidas, se clamam vitórias ou choram-se derrotas.

Mais de quarenta anos gastei nesta roda-viva, me perdi em filosofias ou questões que transcendiam a porca vida de sempre; me senti forte o bastante para mudar o mundo, acreditei ser minha voz a verdade estampada em papel. E não me arrependo, pois vi que o inimigo é fraco, é falho e é burro – mas também aprendi que somos piores que ele: eu, você, nossos pais, filhos, netos e avós. Ninguém escapou da omissão e do medo, travestidos de prudência.

O preço me saiu caro, mas não escrevo para lamentar e, sim, para estampar a decisão de que está na hora de abandonar o personagem – metade de minha autoria, metade construída por outros – e ser apenas e tão somente eu mesmo.

Sim, esta criatura ambivalente e contraditória, que se embebeda com Bukowski e transcende com Tomás de Aquino; que deposita sua fé na lógica de Aristóteles mas mergulha no pessimismo de Schoppenhauer;

um niilismo que deixou cicatrizes em meu corpo e alma, rodeado pelo cinismo da vontade de apreciar máscaras e falsidades alheias;

a morbidez de enxergar o personagem vitorioso que cada um estampa em suas vidas sociais, contrastando com a angústia de saber-se uma farsa ao trancar-se no banheiro.

Sim, este sou eu; alguém que, um dia, foi amado e odiado.

E um homem que jamais despertou amores e ódios não pode, sequer, dizer-se como tal – é uma vida em branco.

Este lixo maravilhoso, esta excrescência divina, este parvo com o dom de escrever, sentir, intuir e enxergar – para logo depois jogar tudo fora na imundície cética – este, ou isto, sou eu. E não mais tratarei de política, políticos, tribunais ou causas patrióticas, pois ninguém jamais se levantou do sofá – eu, inclusive.

A partir de agora mudo este perfil. A política, o Brasil e o mundo são causas perdidas ao menos por meio século, e isso não mais me interessa. O que me diz respeito são as pessoas, a alma humana, a farsa ou heroísmo embutidos em cada um; o patético da vida e a glória do fracasso – sim, pois da vitória não se extraem lições.

Sento no bar, bebo um trago e tudo o que escrevo é o que vejo, o que sinto e, até, qualquer delírio filosófico que perturbe a santa paz de um atormentado que, finalmente, reconhece seu tamanho, lugar e função.

E o amigo leitor e seguidor terá toda a liberdade de aqui continuar ou ir embora, pois não o julgarei.

Eis que não é outra a essência da vida: partidas e chegadas.


Walter Biancardine


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