Eu vi coisas que vocês não querem ver.
Vi multidões ajoelhadas diante de homens medíocres só porque
gritavam mais alto.
Vi bandeiras erguidas como se fossem
relíquias sagradas – e rasgadas na semana seguinte para virar pano
de chão.
Eu vi heróis nascerem às oito da manhã…
…e serem
executados às cinco da tarde por aqueles mesmos que pediram sua
salvação.
Vocês sempre querem um salvador.
Alguém para culpar quando
falha.
Alguém para apedrejar quando não cumpre o milagre
prometido.
Eu vivi para conhecer o ciclo.
É sempre o mesmo.
Primeiro, o entusiasmo – aquele calor juvenil, quase
religioso.
Depois, a idolatria cega.
Então, a suspeita.
A
decepção.
E por fim, o descarte.
Vocês não querem heróis.
Querem anestesia.
Querem alguém que carregue o peso da própria covardia enquanto
vocês assistem de braços cruzados.
E quando esse homem
fraqueja – porque todo homem fraqueja – vocês o transformam em
prova de que não vale a pena acreditar em nada.
Eu vi líderes que pareciam montanhas.
Desmoronaram como
areia molhada.
Vi jovens inflamados jurarem que mudariam o
mundo…
e envelhecerem confortavelmente defendendo o mesmo
sistema que juraram destruir.
O povo ama o fogo, mas tem medo da chama constante.
Prefere o
clarão do fósforo – dramático, breve – ao calor disciplinado
da fogueira que exige lenha, esforço, vigilância.
Eu sobrevivi aos entusiasmos coletivos.
Sobrevivi aos
fanatismos que prometiam eternidade e duraram uma estação.
Sobrevivi
às revoluções que terminavam em promoção de cargos.
Restou o silêncio.
Não o silêncio da derrota.
Mas o silêncio de quem
aprendeu.
Os heróis não falham porque são fracos.
Falham porque são
humanos – e vocês querem deuses descartáveis.
Não espero nada da multidão.
Tem memória curta e paixão
volátil.
Hoje ela aclama.
Amanhã exige sangue.
Tudo que vi – todas aquelas marchas, discursos, promessas
inflamadas —
vão desaparecer.
Como lágrimas na chuva.
Mas não por tragédia.
Por hábito.
Porque esquecer é mais confortável que enxergar.
E talvez…
talvez o maior heroísmo não seja salvar
ninguém.
Seja resistir à tentação de ser adorado.
"Eu vi coisas que vocês, humanos, nem iriam acreditar. Naves de ataque pegando fogo na constelação de Órion. Vi Raios-C resplandecendo no escuro perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva.
Hora de morrer."
(Replicante Roy Batty, Blade Runner – Rutger Hauer)
Walter Biancardine

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