sábado, 21 de fevereiro de 2026

O FOGO E A CHUVA -

 


Eu vi coisas que vocês não querem ver.

Vi multidões ajoelhadas diante de homens medíocres só porque gritavam mais alto.
Vi bandeiras erguidas como se fossem relíquias sagradas – e rasgadas na semana seguinte para virar pano de chão.

Eu vi heróis nascerem às oito da manhã…
…e serem executados às cinco da tarde por aqueles mesmos que pediram sua salvação.

Vocês sempre querem um salvador.
Alguém para culpar quando falha.
Alguém para apedrejar quando não cumpre o milagre prometido.

Eu vivi para conhecer o ciclo.
É sempre o mesmo.

Primeiro, o entusiasmo – aquele calor juvenil, quase religioso.
Depois, a idolatria cega.
Então, a suspeita.
A decepção.
E por fim, o descarte.

Vocês não querem heróis.
Querem anestesia.

Querem alguém que carregue o peso da própria covardia enquanto vocês assistem de braços cruzados.
E quando esse homem fraqueja – porque todo homem fraqueja – vocês o transformam em prova de que não vale a pena acreditar em nada.

Eu vi líderes que pareciam montanhas.
Desmoronaram como areia molhada.
Vi jovens inflamados jurarem que mudariam o mundo…
e envelhecerem confortavelmente defendendo o mesmo sistema que juraram destruir.

O povo ama o fogo, mas tem medo da chama constante.
Prefere o clarão do fósforo – dramático, breve – ao calor disciplinado da fogueira que exige lenha, esforço, vigilância.

Eu sobrevivi aos entusiasmos coletivos.
Sobrevivi aos fanatismos que prometiam eternidade e duraram uma estação.
Sobrevivi às revoluções que terminavam em promoção de cargos.

Restou o silêncio.

Não o silêncio da derrota.
Mas o silêncio de quem aprendeu.

Os heróis não falham porque são fracos.
Falham porque são humanos – e vocês querem deuses descartáveis.

Não espero nada da multidão.
Tem memória curta e paixão volátil.
Hoje ela aclama.
Amanhã exige sangue.

Tudo que vi – todas aquelas marchas, discursos, promessas inflamadas —
vão desaparecer.

Como lágrimas na chuva.

Mas não por tragédia.
Por hábito.

Porque esquecer é mais confortável que enxergar.

E talvez…
talvez o maior heroísmo não seja salvar ninguém.

Seja resistir à tentação de ser adorado.


"Eu vi coisas que vocês, humanos, nem iriam acreditar. Naves de ataque pegando fogo na constelação de Órion. Vi Raios-C resplandecendo no escuro perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva.

Hora de morrer."

(Replicante Roy Batty, Blade Runner – Rutger Hauer)


Walter Biancardine



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