terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ESCREVENDO COM SANGUE -

 


Creio que foi Nietzsche que disse ser preciso escrever com sangue para ter um bom livro.

Juntando tudo o que escrevi, dá uma hemorragia. Tudo o que disse, uma hemoptise. Toda a minha vida caberia em cerca de seis litros vermelhos.

Nunca escrevi ou vivi como sujeito passivo. Não. Tudo foi porque quis, pedi ou, no máximo, aceitei. Não há culpas alheias. Mas pensar assim é perigoso.

Você sai à rua e é assaltado. Quem mandou sair? Ninguém, você saiu porque quis. Então, no fim das contas, tudo é culpa minha? Não existe o mal alheio? Só os que estão em minhas ações e decisões?

A profissão que tenho, não escolhi: foi imposta pela minha vocação - mas eu poderia ter seguido outra carreira, algo que pagasse o aluguel. Não escolhi e me condenei à miséria perpétua. Culpa minha.

As mulheres que amei me deram um pé na bunda. A dor de uma cólica renal é fichinha perto disso. Desisti de amar? Não, persisti, mesmo sabendo ser quase inevitável quebrar a cara. Culpa minha.

Posso dizer que até minha existência é, na metade ao menos, culpa minha: um espermatozóide ganhou a corrida e cá estou.

Por quê diabos, então, o mundo tanto me irrita? por quê a hipocrisia me enoja? As trapaças? As perfídias? As fofocas de alcova? A imundície da vida como um todo? No fim das contas, nada disso pode ser mal. O mal só está em mim.

Eu escolhi nascer.
Eu escolhi escrever e ser miserável.
Eu escolhi amar e sofrer.
E concluí que me enojar com a vida é terceirizar minha culpa.

Ela é minha.
Sempre minha.
E minha morte também será.

Quem mandou eu não me cuidar?


Walter Biancardine



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