sábado, 17 de janeiro de 2026

A CIDADE QUE NUNCA DORME -

  


Sob a lua cheia, 
os telhados da cidadezinha eram cobertores 
que agasalhavam seu sono.

Na cidade grande, 
a mesma lua vê os prédios 
e arranha-céus 
como um imenso porco-espinho,
 
sempre eriçando farpas 
ao alto, 

a se defender de si mesmo.

Por isso não dormem.


Walter Biancardine

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

NORMAL POR QUÊ? -


A normalidade é uma gaiola.
Homens normais são passarinhos, que cantam disfarçando a dor da prisão.
Quem olha, acha o canto belo, invejável e pensa como deve ser feliz.

Fingem amores que não sentem, riem em festas que não encontram amigos, bradam bravuras que não tem e escondem a flacidez na mentira de um passado ereto, glorioso, desses que os garotos de hoje jamais conseguiriam viver.

Não entendem o que leem, não entendem sequer o que ouvem - como poderiam entender o que veem e sofrem na pele? Apenas esbravejam, clamam, gritam uma virilidade defunta e organizam opiniões como torcidas de futebol: a favor ou contra, o resto é traíra.

Pobres homens que não pensam. Pobres homens que não ousam. Pobres homens que não enlouquecem. Que vida miserável devem levar.

O fim inevitável da lucidez é a solidão, mas ela é o único lugar onde temos uma companhia que nada precisamos explicar ou mentir: nós mesmos, pois o vazio é o lugar onde a alma mora.

Mas trocamos tudo isso por aplausos, por curtidas, pertencimento, inclusão, reconhecimento. Tudo em nossa vida é externo, agrega-se valor como se coloca acessórios em um carro, esquecendo que o motor é o mesmo e ele não vai correr mais por isso.

Mas só queremos o aplauso, porque nossa alma já nos trata - há anos - com profunda indiferença.

Sim, nós matamos nossa alma.

Por isso não entendemos um simples texto.


Walter Biancardine



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

MEUS UÍSQUES COM BUKOWSKI -


Não se bebe para esquecer, mas para suportar lembrar.

Um bom uísque destila a hipocrisia, dissolve as máscaras e deixa o homem nu, diante de si mesmo. E isso causa dor.

A dor é o idioma da verdade. Ela fala baixo, mas quem a escuta, desperta. E quem desperta, nunca mais volta a dormir.

Quem não dorme vê que o trabalho é o disfarce da escravidão - não a do corpo, mas a da mente.
É a prisão invisível que transforma o homem em engrenagem: quanto mais ele trabalha, mais pobre se torna de si mesmo.

São rostos em ônibus, olhares vazios nas ruas, conversas bestas sobre o tempo ou salário. E quem não dorme sabe que a rotina é a assassina da alma. O tédio é mortal, mata homens e mulheres, e a rotina é a morte lenta e inexorável.

Todo dia é igual, todo sonho é adiado, toda alegria é parcelada - e ninguém percebe, porque o mundo chama isso de "normalidade".

O trabalho é necessário, mas a necessidade - tal como o medo - é uma grande forma de controle. Quem tem medo de perder o emprego obedece, quem depende do salário se cala, e quem cala se esquece quem é - e até quem já foi.

Você, útil cidadão, tem seu trabalho como religião. Chefes são sacerdotes, metas são dogmas e a exaustão, penitência. Só que, ao contrário das igrejas, esta religião não promete salvação.

Desde crianç
a você é treinado para obedecer, estudar, produzir e consumir. É um ciclo sem significado, sustentado por medo e culpa.
Você aprende, te dão um emprego e chamam isso de "vida".

E você fica ocupado demais para pensar. Se você der tempo a um homem para pensar, ele vai perceber que está sendo enganado. E essa é a tragédia moderna: todos estão ocupados, mas ninguém está vivo.

O homem nasce selvagem, mas morre domesticado.


Walter Biancardine

(Baseado em produção do canal Mente Filosófica)






quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O AMANHÃ NUNCA CHEGOU -

 

Tantas vezes prometi a mim mesmo que amanhã seria outro dia,
um novo ar, sangue a pulsar, decidido a ganhar.
Mas só vontade não basta, os ares não sustentam, o sangue a pingar.

Deixava minha cama sem saber o que fazer, olhar no espelho e chorar,
depois rir a lembrar que ontem era igual, mas o amanhã acabou.
Veio o novo dia, permanece a agonia e não sei onde vou.

Prometi ao amor que seria diferente, nunca mais insistente,
e tudo isso no amanhã, o melhor dia dessa vida poente.
Mas nem na vida ou no amor, o amanhã nunca chegou.

Eu iria melhorar, voce iria se alegrar,
Mas o amanhã nunca chegou.

Sento, espero, sonho e tolero o que sou,
Melhor mentir, acreditar no amanhã,
Mas o amanhã nunca chegou.

Já fui jovem, hoje sou velho,
e o amanhã nunca chegou.


Walter Biancardine 



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

MÃOS


Onde ponho minhas mãos
Que não se queimem de medo,
Que não deixe os anéis 
Para salvar os dedos?

Onde ponho minhas mãos 
Que não sangrem o que toquei,
Não esmaguem o que agarrei?

Onde ponho minhas mãos 
Que não pareça sem ter onde usá-las,
Que não seja para dá-las

Em adeus a quem se foi?


Walter Biancardine



A ESTUPIDEZ HUMANA -



A burrice é o mais democrático dos defeitos, atingindo a todos independentemente de raça, credo, nacionalidade ou escolha sexual.

Veja por exemplo o povo dos EUA, que construiu a maior potência que este planeta já viu: suas mulheres urbanas, na faixa dos 20/30 anos e com boas colocações no mercado de trabalho corporativo - portanto o discernimento deveria ser item obrigatório - elegeram para a cidade de Nova Yorque um prefeito muçulmano.

Estas mulheres lutam contra o patriarcado, mas o Islã é patriarcal até a raiz dos cabelos - e das barbas.

Estas mulheres eram recém nascidas ou crianças quando muçulmanos lançaram aviões contra as Torres Gêmeas e mataram mais de 4000 habitantes da mesma cidade que elas moram - e nada viram de errado em colocar outro muçulmano após um deles matar 4000 vizinhos seus.

E tudo isso acontece na maior potência do planeta.

Quem sou eu para condenar o anencéfalo que segue a cartilha esquerdista?

Quem sou eu para criticar o gado de corte que segue cegamente os milhares de flautistas de Hamelin da direita, que encantam seus seguidores repetindo as opiniões de seus próprios inscritos ou vendendo cursinhos, livrinhos chupados de outros ou outras enganações?

Quem sou eu para apontar o dedo para os infames "coachs", que nos ensinam tudo - desde andar de cabeça erguida e sermos quem nunca quisemos ser, até coisas básicas como o sentido correto do papel higiênico ao limpar a bunda? E pagamos por isso!

Quem sou eu para condenar quem não tem vida própria e corre atrás das opiniões alheias para formar a sua?

Não sou ninguém e nem tenho nenhuma moral para isso, pois quem não tem onde cair morto é por sua idêntica burrice em jamais ter conseguido prover a si próprio.

Apenas dou graças a Deus de estar já no fim desta terrível viagem.


Walter Biancardine



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O QUE SE QUER É DINHEIRO -


O sujeito faz uma página nas redes sociais dizendo que está fornecendo informação confiável; que naquele site somente a verdade tem lugar e que os valores que você busca estão todos ali, à sua disposição. Leia, leia e leia!

Ótimo, o cidadão faz sucesso e seu perfil lotou.

Qual é a providência seguinte? Fazer um Clube de Assinantes, um Sócio Premium ou qualquer outra palhaçada que pareça importante e faça de você uma pessoa exclusiva, que terá informações exclusivas, comentários exclusivos e bastidores exclusivos. É só pagar.

Mas...e o resto dos mortais, que não querem ou podem pagar?

Estes ficam com as sobras, com as migalhas que caíram da mesa...que, se você pensar bem, certamente eram as mesmas migalhas que ele oferecia antes de seu clube VIP, e que serão iguais às que ele cobra aos trouxas - pagam para ter o mesmo, apenas com palavras diferentes e gestos teatrais.

Assinatura? Clube de Assinantes? Área VIP?

O mais refinado conto do vigário, onde idiotas pagam por algo que não custou um centavo ao pilantra que o oferece.

Pense bem antes de assinar qualquer coisa.


Walter Biancardine



A MAIS FÁCIL DAS MULHERES -


A todos aceita,
A todos se impõe;
Não faz distinções 
Se homem bonito
Ou mulher de ladrões;

Ela deseja, ela quer
E sempre vem buscar,
Pobres, ricos, bons 
Ou maus;

Santos e pecadores,
Milionários ou perdedores,
Pretos ou brancos,
Agiotas e devedores;

Ela não falha, sempre vem,
Insaciável, aparece quando convém;
Cedo ou tarde, mal ou bem;

Dela ninguém foge;
A mais democrática, 
A puta inevitável, 
Sem azar ou sorte;

Ela atende
Pelo nome de Morte.


Walter Biancardine




CORRA -


Você pode correr o quanto quiser,
Deus pode até perdoar
Mas a vida não vai.

Você pode correr,
Pode mentir, pode beber;

Siga dançando, bata palmas;
Aumente o volume,
Não escute sua alma;

Você pode correr o quanto quiser,
Deus pode até perdoar
Mas a vida não vai.


Walter Biancardine


NOVO ANO, NOVO EU - OU É O VERDADEIRO?


Escrevi recentemente que "não tenho estofo d'alma para preencher os requisitos morais do conservadorismo do Instagram" e, muito menos, dos fariseus do templo das redes sociais.

Eles são perfeitos, santos, imaculados, felizes - e se não estão próximos do céu por sua piedade, certamente estarão pela idade, eis que a direita é a ala geriátrica dos militantes políticos.

Mas os conservadores do Instagram e os Fariseus do Facebook só falam para a bolha - tal qual acusam a esquerda - pregam para doutrinados e mantém cativo um público de anciãos, incapazes que são em cativar audiências jovens.

Eu, ao contrário deles, sou apenas um cara que escreve para manter a sanidade mental. Matei o personagem "jornalista", que tantas desgraças me causou e roubava minha liberdade de ser o que sou; mudei meu perfil e voltei a ser o velho Walter de sempre: absolutamente livre - sim, LIVRE, ouviram? - dependente químico de alguns momentos de solidão e incapaz de me decepcionar com ninguém, já que nada espero do ser humano em geral - esta maravilha capaz de ser divino e mesquinho em um só dia.

Fiz questão de frisar a palavra "livre" pelo fato de ser um atributo que pouquíssimas pessoas alcançam. Não sou prisioneiro de um circunspecto personagem, construído para angariar seguidores e me tornar um "influencer". Não sou prisioneiro de ideologias ou pensamentos políticos - já que um conservador de Instagram jamais declararia, de maneira tão descarada, seu amor por uma mulher: ele seria casto, comedido e puro - e, sequer, aprisionei-me em minha fé católica, pois os pensamentos e desejos impuros que povoam minha mente não são espantados: pelo contrário, eu os busco ao lembrar de quem amo. Para piorar, sou um apreciador explícito do bom whisky Jack Daniel's e considero uma eventual bebedeira como a janela que permite a passagem do sol, nunca da hipocrisia.

Sou um escritor. Tenho seis surtos (livros) publicados mas vendas porcas, pois me recuso a fazer propaganda, uma questão de vergonha. Tenho ensaios filosóficos escritos e publicados, um histórico como aluno de Olavo de Carvalho (que inclusive compartilhou coisas minhas), escrevo para três revistas (uma delas, européia), antecedentes em rádios, jornais e TV's e uma cultura que já desmontou e humilhou teses de mestrado e relatórios de doutorado, mas percebi que tudo isso era mesquinharia e pura vaidade; não passa de torpe sentença, prisão e morte de minha alma. E da alma de qualquer um que ceda à vaidade, o pecado predileto do demônio.

Assim, tudo varri para baixo do tapete, me sobrando apenas o ato de escrever livros - doravante apenas romances - e minha liberdade plena e absoluta de viver sendo quem sou, pouco me lixar para o que pensam de mim e de amar a mulher mais maravilhosa que existe - sim, minha onça do Pantanal, e tamanha é a liberdade com que a amo que o faço sem esperar que me ame de volta. Alguém pode apontar um sentimento mais sincero e descaradamente transcendente?

Não tenho onde cair morto, portanto ninguém teria qualquer despeito material sobre mim. Mas a vida me ensinou que existe a "inveja da alma", que é quando uma pessoa se adesiva a você e se torna um organismo em eterno processo de osmose de sua personalidade, gostos, tiques, prazeres, qualidades e até defeitos - tal pessoa está em um processo auto inflingido de despersonalização e em busca de um personagem melhor, pois percebeu que o anterior já não faz mais tanto sucesso.

E o que penso de tais pessoas? Pouco se me dá. A verdade é que jamais as dei a mesma importância que aparentam dar a mim e, por isso, nenhum espaço ocupam em meus pensamentos. Se neste momento os cito, bem como as demais vicissitudes expostas acima, isso se deve a uma satisfação de final de ano, devida aos amigos que me seguem nesta rede e que certamente sentiram as modificações que fiz em meu perfil.

Sim, tudo mudou, mas não se trata de uma nova pessoa: apenas o verdadeiro homem - poço de defeitos e poça de qualidades - está de volta, para o melhor ou pior.

Como disse meu parceiro e alma gêmea Charles Bukowski, "prefiro que me odeiem pelo que sou a me amarem pelo que finjo ser".

Prazer, amigos! Meu nome é Walter e desejo um Feliz 2026 para vocês!


Walter Biancardine



REINICIANDO AO REVEILLON -


Não será um novo dia,
De um novo tempo
Que começou. 

É só uma noite,
Renovando o contrato
Entre você e as esperanças. 

Todos fingem, comemoram,
E tudo passa, tudo muda?
Não, não é assim.

Nada há que seja novo
Sob o sol que nos queima;
É um miserável reboot.

Um restart do cérebro, 
Reiniciando sua fé 
E toda a sanidade possível. 

É mais uma vida,
Nova chance que você ganhou,
No X-Box da existência. 

Mas um dia será game over
E verá que nada mudou;
Traga meu Jack sem gelo, por favor.


Walter Biancardine



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NANA NATAL -

 


Pai do céu, 

Pai Noel,

Protege em seus braços 

Quem tanta dor já sofreu;

Livrai do mal que viveu,

Soltai esses laços, 

Derramai o seu mel.


Traga um presente,

Nos dê sorridente,

Em seu amor que não cobra;

Acolhe no colo,

Raízes no solo,

E a vida desdobra

Nessa noite tão quente.


E se Noel não existe

O sonho insiste,

Pois o céu nos abriga;

Ressona em meu peito,

O mal é desfeito,

O amor já nos liga

E Deus nos assiste.


Walter Biancardine 




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL COM UM AMIGO -


Nunca fui referência para ninguém; toda a minha vida sempre foi estranha e contraditória e mesmo tantos anos frequentando redes sociais - os quais acabaram por situar-me como um "conservador" aos olhos alheios - jamais conseguiram aprisionar meu monstro interior em rótulos, embalagens e definições, as quais apenas tornam todo o universo que habita a alma humana em um porco e simplório estereótipo.

Onde um conservador - dos atuais, daqueles que postam no Instagram e estão a apenas um degrau abaixo da santidade do padre Pio de Pietrelcina - se embebedaria até cair desmaiado, em casa? Onde um legítimo guardião da moral e dos bons costumes espiaria, sedento, a bunda de sua linda amada em qualquer descuido que ela desse, mesmo não sendo ainda casado com ela? Em que hipótese apocalíptica este conservador - bastião da correção de atitudes - jamais teria oferecido uma "merreca" pro guarda liberar seu carro com IPVA atrasado?

Sim, esta coisa imunda, abominável, falha e quase inviável - também chamada de "ser humano médio" - sou eu, e por isso o cotidiano hipócrita da "direita conservadora" (essa, a do Instagram) tem me enojado e forçado a conclusão de que a mesma é apenas uma esquerda com sinal trocado.

Se a esquerda tem papagaios que apenas repetem slogans e palavras de ordem, os "conservadores de Instagram" são capazes de repetir artigos, textos ou até videos inteiros, como fossem de sua autoria. Repetem ad nauseam temas que já passaram, se detém em factóides que são, claramente, "false flags" - a sandália Hawaiana é um deles, pois enquanto todos repetiam opiniões alheias, ninguém comentou a sobretaxa de 30% de imposto em bebidas alcoólicas (o "Imposto do Pecado", aprovado pelos deputados Federais) ou a nova lei que invalida a CNH de devedores.

E então chega o Natal, data que a vida já se encarregou - com soberba competência - de retirar todo o significado para mim e transformou a Noite Feliz em um enorme e empoeirado galpão de lembranças inúteis. Olho para o que fiz, no inevitável balanço de fim de ano, e descubro que passei uma vida lutando contra o inimigo errado: soubesse eu o que sei hoje e jamais teria desperdiçado tanto tempo lutando contra ideologias, quando o maior problema é a falta de caráter dominante.
E me sento no sofá.

Quis o bom Deus que eu tivesse ao menos um amigo fiel, o bom e velho Jack, e com ele me consolasse de tais desvios do destino.

Sim, Jack - o Daniel's - é um bom sujeito: me dá a liberdade de falar o que sequer sabia que poderia, me deixa à vontade para me perder em galanteios chorosos pela amada que não me quer, me faz esquecer uma lenda chamada dinheiro - sim, em minha vida é lenda - e me dá a coragem necessária para dizer um amplo, sonoro e corajoso "dane-se" para todas as minhas dívidas, minhas lutas inglórias, minhas asneiras olímpicas e toda a ampla coleção de equívocos que me tornaram isso que sou: alguém que chamam de "conservador" mas não passa de imundo pecador.

Sim, pois não tenho estofo d'alma para preencher os requisitos morais do conservadorismo do Instagram.

Resta-me eu, o amigo Jack e uma boa ressaca no dia 25.

Feliz Natal a todos!


Walter Biancardine


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

BERCEUSE POUR NANA -


Nana neném, meu bem,
o mundo é rude - eu sei -
mas nada te alcança além
do abraço que te dei.

Nana, neném e flor leve,
que a noite não te assombra;
se algum temor se atreve,
eu o calo antes da sombra.

Dorme sem peso, enfim,
que eu guardo o que te falta;
se o mal vier contra ti,
em mim se sobressalta.

Dorme, amor meu, Nana assim,
tranquila, mansa, serena;
pois tudo em mim diz por mim
que te amar é a minha pena -
e a minha alegria também.


Walter Biancardine


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

“PODERIA TER SIDO” NÃO SUSTENTA UMA VIDA -


Não é novidade para a meia dúzia de almas que me seguem o fato de eu sempre ter sido alguém com uma quase mórbida fixação no passado. Já escrevi artigos, ensaios e mesmo um livro, cujo tema central era a fixação do protagonista com os dias idos, onde ele imaginava terem sido melhores e que, tivesse agido de outra forma, o presente seria diferente e bom.


Não vejo problemas em apreciar antiguidades, automóveis vintage, músicas de outras décadas – até porque as atuais não merecem assim serem classificadas – e demais apetrechos da rotina de outrora. Uma pessoa que não valoriza aquilo de bom que já foi feito não possui base para julgar o que lhe é oferecido nos dias atuais, e assim, satisfaz-se com qualquer coisa.

A preocupação começa quando começamos a achar os dias passados – memórias, em suma – melhores do que a árdua tarefa de viver o presente, e isso pode se configurar em verdadeira patologia, a depender do grau atingido.

Pois esta patologia atinge seu grau máximo quando gastamos os dias que Deus nos deu a lamentar por amores perdidos – na verdade, perdido está quem assim age, pois sofre de uma dor que se condenou a não mais parar de sentir. “E se eu não tivesse feito isso?” Ou “e se eu houvesse agido diferente?” E esta é uma sentença que pode ser perpétua, se o condenado não enxergar que – não importam as causas – o amor se foi e nada mais pode ser feito.

Sim, todo amor que acaba é triste e um luto deve ser cumprido, mas tal resguardo não pode se transformar em um museu de sentimentos, no qual estaremos servindo como meros visitantes das obras ali expostas – posso ver, mas não tocar. Isso é torpe, cruel ainda que autoimposto, e deve ter um fim no mais breve tempo possível. Gastar uma vida entre lamentos e saudades é condenar-se à estagnação e, queiramos ou não, os dias passam.

Falar é fácil, entretanto. Para alguém como eu, que reconhece a própria doença, torna-se quase um cinismo – a apostasia dos mal amados, como já escrevi. Mas gastei décadas de minha vida entre fracassos e lembranças, poucos anos me restam e não pretendo gastá-los na ante sala de um museu.

Também escrevi, em um arroubo de raiva, que sinto saudades apenas de quem ainda não conheci – mas logo caí em mim e confessei ser a saudade mais dolorosa a que sentia de mim mesmo, de minha inocência e ilusões. Pois que esta última seja jogada no lixo – sou o que sou, um amontoado de defeitos e qualidades e não vou mais me importar com isso.

Que me reste a saudade de quem não conheço – e Deus sabe o esforço que faço por este otimismo.

Um novo dia sempre vem.

Há de vir.


Walter Biancardine


domingo, 16 de novembro de 2025

CADA VEZ MENOS JORNALISTA -


Primeiro veio o cansaço após um dia de trabalho duro, e deixei para escrever de noite.
Depois veio a falta de internet, que durou até agora há pouco, e deixei para escrever de tarde.
Agora a tarde chegou e nada quero escrever, mesmo com um Brasil em chamas e a vergonha de comemorarmos um golpe de Estado que depôs um Imperador amado, tudo por culpa de chifres remoídos e recalcados.

Não, nada quero escrever. O ímpeto jornalístico está cada vez mais fraco, em proporção direta aos meus naufrágios pessoais - e isto, profissionalmente, é péssimo: como confiar em alguém assim? E os prazos? E o sempre explosivo factual das matérias? E o leitor?

Me sinto cada vez menos jornalista e cada vez mais mergulhado no egoísmo do escritor, a trabalhar somente sob o tacão das musas ou das desventuras, tudo isso como corolário de um enorme e narcísico ego que viciou-se a usar a escrita como divã de analista. E isso é inviável, intragável e - pior - inaproveitável, editorialmente falando.

Neste momento não quero escrever. Aliás, sequer desejo existir. Todo meu desejo se resume a possuir um botão "on/off" para desligar ou, ao menos, um "reboot" que reinicie meu coração, que salve minha alma, que me conceda a redenção.

Desejo ou redenção?

Para mim, o livro que escreví - "Pretérito Perfeito" - quase me pareceu uma profecia que se cumpria, mas creio que meus poderes mediúnicos sempre foram abaixo da média - e, por mais que parecesse, tudo se resumiu a nada. Apenas a pergunta - desejo ou redenção - permanece, por mais que me doa ter julgado encontrar ambos em uma só alma.

Mas não somos donos da alma de ninguém - eu, sequer da minha - e nenhuma vontade tenho de fazer jornalismo.

O antigo iceberg derreteu.

E manchou a cama.


Walter Biancardine



quinta-feira, 6 de novembro de 2025


Escrevi que Deus não usa relógio. Tentei até explicar amores. Muita gente não entendeu. Eu não me entendi. Muitos não sabem. Eu também não - mas sou teimoso.

Por isso piso, repiso, bato no mesmo prego e esmurro a mesma ponta de faca.
Eu tento.

O AMOR, O RELÓGIO E ALGUM TROCADO PRA DAR GARANTIA -
Muito já se disse sobre o amor, mas quase tudo foi ruído de ferida. Poetas o cantaram, santos o ofereceram, filósofos o desconfiaram – e no fim ninguém saiu ileso. Porque o amor, quando é verdadeiro, não é um sentimento: é uma ferida aberta por onde o eterno tenta entrar.

Amar é sempre sofrer um pouco – não por castigo, mas por grandeza. Só o que ultrapassa os limites da carne pode doer assim. O amor é o peso do infinito sobre um coração finito.

Santo Agostinho, que sabia mais de lágrimas do que de definições, dizia que “amamos para não morrer”. E estava certo: o amor é a recusa da morte. É o protesto do espírito contra o relógio. Todo amante, no fundo, quer que o instante dure para sempre – e é por isso que ele se desespera.

Mas Deus, com sua ironia amorosa, fez o tempo para ensinar-nos a esperar. E é aí que o amor se torna mais divino: quando aprende a ser paciente sem deixar de arder.

As almas certas nem sempre se encontram na hora certa. Às vezes o amor chega tarde, como uma bênção fora de sincronia. Um está preso a deveres, o outro a feridas; um está pronto, o outro já cansado. E o mundo, cruelmente pontual, fecha as portas que o coração abriu.

Não é tragédia – é liturgia. O amor humano é sacramento imperfeito do Amor divino: contém a forma da eternidade, mas dentro de um vaso que se quebra. E cada desencontro é um lembrete de que o Céu ainda não começou.

Pascal escreveu que “o coração tem razões que a razão ignora”.
Talvez a razão do amor seja justamente essa ignorância: amar é aceitar o mistério de não entender, e ainda assim permanecer.

C.S. Lewis via no amor a escola da renúncia: não para sufocar o desejo, mas para purificá-lo. Ele dizia que o amor só é pleno quando suporta o risco da perda.
E esse é o ponto em que o humano se toca com o divino – quando amamos não para possuir, mas para servir, para permanecer mesmo na ausência.

Há quem diga que o amor é só uma ilusão biológica. Pobre ilusão essa, que atravessa séculos, destrói impérios e consola moribundos.

Rilke, que sabia das solidões humanas, dizia que amar é “guardar o outro no coração como uma tarefa”. E é isso: uma tarefa. Sagrada, cansativa, luminosa.
O amor não é um consolo, é convocação.
Não é uma pausa na vida, é o próprio campo de batalha onde alma e tempo duelam pelo direito de permanecer.

Deus não nos quer anestesiados de felicidade, mas maduros de esperança.
E maturidade, neste mundo, é saber sofrer com elegância, sem se embrutecer.
Porque o cinismo é a apostasia dos que amaram mal.

No fim, o amor é a pedagogia mais sublime da perda. Ensina-nos a morrer um pouco a cada dia – e ainda assim agradecer pela vida.
Chorar é rezar com os olhos.

E o amor, mesmo quando falha, não é um fracasso – é um ensaio da eternidade.
Que ele doa, sim. Mas que doa como um coração crescendo.


O AMOR TEM SEDE DE SANGUE -
O amor entrou no quarto com botas de chuva, pisou o tapete da inocência e estourou o vidro da janela. Se vestia de riso, trouxe a cicuta, o sono leve e o pensamento pesado.

Você quis um alguém para sempre – imbecil de fé – que veio como espelho quebrado, te refletindo mil vezes e devolvendo metade com cortes, com sangue e rotina.

Sussurrou juras de amor e você engoliu, sorrindo, sem ver o limo da promessa.

E você virou mesa posta, prato servido, a comida que gosta – e o garfo tremeu antes do brinde.

Porque amar é isso: domar o fogo com as mãos nuas, servir a ceia e ter sede no meio da festa.

O amor dói quando nos joga na cara: imortais só quando sonhamos – e quando a chama apaga, sobra a fuligem da pele desejada, só as gotas da vela fumegante são testemunhas.
Se deite no colo, encontre abrigo, e acorde no abismo da própria ausência.
Sangue escorre, não só da carne, mas da alma que se jurou indestrutível.

O tempo é carrasco e amante, vestido de sonho, fez ar condicionado no inferno, cantou “amor, amor” e fechou a porta.
Almas certas chegam tarde – uma tombou, outra foi embora. Uma traz o alforje, a outra os grilhões.
E o amor humano, esse pobre idólatra, sempre perde contra o relógio.

Mas eu digo verdades, o amor vale mesmo assim. Vale porque é o bom combate, vale porque, no fim, sobreviver ao amor não é fugir da dor – é dançar com ela, olhar nos olhos e dizer: “sou teu espelho quebrado, ainda assim me refaço”.

Então sim: o amor tem sede de sangue, que só se sacia na febre.

O amor bebe ternura – e no fel, na ferida, encontra-se o resíduo de divino: todo amor que hover nessa vida.

Porque amar é morrer todos os dias, querer levantar para o café da manhã com o outro.

E algum trocado, pra dar garantia.


Walter Biancardine


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

DEUS NÃO USA RELÓGIO -


I – O tempo que não passa em Deus
Deus não usa relógio.
Essa frase, dita ao acaso, soa como consolo de beato – mas é, na verdade, um abismo metafísico.
O homem mede tudo em horas; Deus, em essências.
O que para nós é demora, para Ele é medida justa. O que chamamos de acaso, Ele chama de providência.

Santo Tomás de Aquino, na Summa Theologica (I, q.10, a.1), define a eternidade como “posse total, simultânea e perfeita da vida sem fim”.
A eternidade, portanto, não é tempo estendido ao infinito; é ausência de tempo.
Deus, sendo ato puro, não “espera” nada, pois já contém em Si toda a plenitude do ser.
Mas nós esperamos.

E nesse hiato entre o eterno e o temporal se instala a tragédia humana.
Deus traça o fio da providência sobre uma tapeçaria que só vemos pelo avesso: nós enxergamos o nó, Ele vê o desenho.

II – A lentidão divina e a pressa humana
Deus governa o tempo sem ser governado por ele – e isso fere a alma moderna, que só sabe amar o que é instantâneo, imediato, bom para sair no Instagram.

Vivemos sob o tirano tique-taque da urgência metabolizada pelo vício em dopamina cibernética. Queremos promessas com prazo de entrega, bênçãos com data de validade, amores sem espera.

Nosso drama é exigir que o eterno se comporte como um aplicativo, bastando clicar e obter.
Mas a Providência, ensina Santo Agostinho, é uma pedagogia e Ela não se apressa, eis que o tempo é uma ferramenta educativa. Em Confissões (XI, 13), o bispo de Hipona escreve:

“O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei.”

Eis o espanto de quem compreende que o tempo é o lugar da nossa ignorância.


A eternidade, para nós, é incomunicável; só a sentimos em lampejos – na oração, no amor, na arte, no arrependimento. E Deus nos educa por meio desses mesmos lampejos: ora atrasando, ora adiantando, suspendendo o relógio, até que o coração aprenda o ritmo certo.

III – O descompasso das bênçãos tardias
Quantas vezes o homem recebe tarde demais aquilo que mais desejou?
A oportunidade que chega depois da juventude, o reconhecimento quando o vigor já secou, o amor quando o corpo já cansou – é a maldição do “tarde demais”, que tantos tomam por crueldade divina.

Mas talvez não seja crueldade – talvez seja uma forma superior de justiça.
Santo Tomás de Aquino, ao tratar da providência (Summa contra Gentiles, III, 94), explica que Deus permite certos males aparentes para um bem maior, invisível a quem sofre, pois a alma que recebe tarde aprende a desejar corretamente. O atraso pode educar o coração e fazê-lo desapegar-se do tempo, desejando o que é permanente.

E, se quisermos ser francos, o contrário também é verdadeiro: quantos foram destruídos por receber cedo demais o que pediram? A bênção adiantada costuma se tornar veneno e o tempo, portanto, não seria castigo e, sim, cura. Mais lógico concluir que Deus não se atrasa; nós é que nos adiantamos.

IV – O relógio do amor: desencontros e ironias
Eis o ponto mais cruel e mais humano deste mistério: o amor e seus desencontros.
Se o tempo divino não obedece ao nosso, o amor se torna a mais delicada vítima do descompasso.

Chegam tarde as almas certas. Encontram-se, por vezes, quando já não podem se possuir. Um está casado, o outro velho, um livre demais, o outro ferido demais. Parece ironia, mas é estrutura da realidade: o amor humano é sujeito ao tempo, e o tempo é servo de Deus.

Em O Banquete, Platão já intuía que o amor é um desejo de eternidade: amamos para vencer o tempo, para dar permanência ao que perece. Mas o amor humano, sendo sombra do Amor divino, sempre será condenado à frustração.

E o que chamamos de “amor impossível” seria, na verdade, um lembrete: a eternidade ainda não começou.

Dante, ao ver Beatriz na Vita Nuova, compreendeu que o amor é teofania – um lampejo do eterno.

Mas Deus, que nos permite o relâmpago, nos nega o raio contínuo. O amor é sagrado justamente porque é passageiro e, se dura, é porque aprendeu a morrer todos os dias – sem reclamar da hora.

No extremo oposto, meu velho conhecido Bukowski, esse santo bêbado de Los Angeles, dizia:

“O amor é uma névoa que queima na primeira luz da realidade.”


Ele tinha razão a seu modo: quando o amor se prende ao relógio, evapora. E a única maneira de amar de verdade é aceitar o tempo como campo de batalha – e não como juiz.
Os desencontros amorosos são, portanto, uma espécie de provação divina: um treino de eternidade.

Deus nos deixa perder o que mais amamos para que aprendamos a amá-Lo acima de tudo.
É um sadismo pedagógico, sim, mas é também o único modo de purificar o amor humano de sua idolatria.

O tempo, aqui, é o bisturi da alma: corta para curar.
E sempre deveremos saber que o verdadeiro amor deve saber morrer todos os dias pelo ser amado, dentro do cruel campo de batalha de nossas vidas.

V — A pedagogia da perda
Agostinho chora por Mônica, Jó por seus filhos, e nós por nossas oportunidades mortas, mas o pranto, na economia divina, é argumento.
Chorar é rezar com os olhos.

As perdas temporais – inclusive as amorosas – são o sórdido material que Deus usa para fabricar o ouro da eternidade de nossa alma. É ruim, é péssimo – mas é bom.
A bênção tardia, vista de fora, parece punição, mas vista de dentro, é convite à purificação.
Deus não nos quer felizes apenas: quer-nos maduros.
E maturidade, neste vale de lágrimas, é saber perder sem se tornar cínico – ou um arremedo de Bukowski.

Há um tipo de graça que só floresce sobre a ruína: os santos chamam isso de felix culpa – a “culpa feliz”. A falha, o desencontro, o tempo perdido – tudo pode ser transformado em matéria de redenção. O atraso divino, assim, é a oportunidade de descobrir que a vida não é um cronograma que obedece ao nosso script, mas sim uma provação contínua.

VI – O relógio e a cruz
A cruz é o grande relógio de Deus.
Nela, a eternidade e o tempo se cruzam literalmente – uma haste vertical e outra horizontal.
No alto, o eterno; na base, o instante – e Cristo é o ponto onde Deus se deixa medir em horas.
Três horas de agonia: o tempo entrou em Deus.
Desde então, nenhuma espera é absurda, nenhum atraso é vão.
Deus se atrasou três dias para ressuscitar – e mudou o conceito de “tarde demais”, para os atentos.

Por isso, quando um homem diz “já não há tempo”, o céu sorri com ironia: há sempre tempo, pois há a eternidade por detrás.
Mas a eternidade, sendo o inverso da pressa, exige paciência.
E a paciência é a virtude mais humilhante, porque obriga o orgulho a esperar – todos sabemos disso por experiências próprias, não é preciso ensinar.

VII – Quando o relógio para
Deus não usa relógio porque não precisa medir o que já possui.
Nós, sim, precisamos – porque ainda não somos o que devemos ser.
A diferença entre o tempo divino e o humano é, em última análise, a diferença entre o ser e o vir a ser.
Deus é.
Nós, estamos sendo.

E enquanto estivermos sendo, o relógio baterá – não como inimigo, mas como lembrete: há um sentido a cumprir.

Quando o último segundo cair, e o tempo se dissolver na eternidade, compreenderemos que cada bênção tardia era um sinal do cuidado perfeito – e cada desencontro amoroso, uma lição de desapego, eis que o “tarde demais” já não existe.

Até lá, meu humilde conselho é bastante simples: ore, trabalhe, ame sem cronômetro, e desconfie dos relógios demais certos – eles mentem mais que o diabo.

Porque o diabo obedece o tempo, é pontual – e Deus, nunca. Pois é o dono dele.


Walter Biancardine

PEQUENOS COMENTÁRIOS SOBRE A IDIOTICE : É RIR PARA NÃO CHORAR -


Se há algo que salta aos olhos logo em uma primeira e infeliz visão é a feiúra - não a feiúra genética, pois esta é aleatória e meu próprio aspecto não me deixa muito à vontade para comentar - mas a feiúra proposital, deliberada, buscada com o objetivo de agredir a todos em volta: é a agressão pela agressão, a ofensa visual, o choque, o escândalo estético.

A pobre coitada é feia, e sabe disso. Talvez tenha sido essa a origem de todas as suas patologias mentais. Isso posto e sentindo-se plenamente justificada por uma ideologia que promove sua feiúra como virtude, tratou de piorar o que já era péssimo: cabelos cor de água de salsicha, um par de óculos que - propositalmente - fazem seus olhos parecerem desalinhados e tortos e ainda reforça tal danação visual esbugalhando estes mesmo olhos, grandes de natureza, de forma a demonstrarem explicitamente toda a sua ira contra a beleza, acompanhados pelo esgar de sua boca babada de raiva. A pobre é um aborto estético e uma ofensa ameaçadora em suas intenções. Funcionou, portanto.

Uma vez explanado todo o tormento visual da pobre, passemos ao pior: os claros sinais de demência - ou entorpecimento artificial - que este escombro humano exibe em suas falas, exemplificadas pelos recortes da fotografia que ilustra este ensaio sobre a feiúra e frustração.

1 - "Os policiais não precisam ficar ostentando um fuzil. Isso tem baixo rendimento criminal"

Vamos por partes: "ostentar um fuzil". Ok, mas os traficantes também os "ostentam", e de uma forma muito mais explícita e ameaçadora, desfilando em bondes armados pelas ruas das favelas e dando tiros à esmo para o alto, até em comemoração por um simples gol de seu time. Eles podem, mas os policiais não. É isso que esta dismórfica quer dizer?

A outra parte: "Isso tem baixo rendimento criminal". Quanto a tal frase, só posso atribuir semelhante disparate ao uso de drogas ou simples demência senil. O que é um "baixo rendimento criminal"? Os policiais são criminosos e os fuzis seriam sua "ferramenta de trabalho", agora por ela definidos como de "baixo rendimento"? Ou que os tais fuzis, simplesmente e mais de acordo com a doentia ideologia que habita as trevas de sua cabeça, seriam apenas algo que "não funcionam contra o crime"? Talvez esta última esteja mais de acordo, eis que a mesma doente advoga o uso de pedras - ao melhor estilo da Lei Sharia muçulmana - para combater hordas de traficantes armados até com bazucas anti-aéreas.

2 - "O criminoso com um fuzil na mão é facilmente rendido por uma pistola". Tal afirmação mostra claramente que mesmo a mais empedernida esquerdista assistiu, quando jovem, os filmes policiais norte-americanos, onde o herói assim fazia e obtinha êxito. Sim, pois somente em produções de Hollywood ou no total e absurdo desconhecimento - isso para não falar da falta de senso lógico - de quaisquer questões sobre Segurança Pública alguém poderia proferir tamanho disparate. Cabe notar que, mesmo assim, a TV a apresentou como alguém apta a opinar sobre a Segurança Pública do Rio de Janeiro, e até do Brasil como um todo.

3 - "Enquanto ele (o traficante) tá tentando levantar o fuzil, alguém já o derrubou com uma pedra". Sim, o leitor não compreendeu errado: ela disse isso. "Tentando levantar o fuzil"? quantos quilos esta imbecil pensa que pesa uma arma desta? Uns 50, 60 quilos? E pior: "alguém já o derrubou com uma pedra". Meu Deus, então as indústrias bélicas no mundo inteiro gastam milhões de dólares com armas que podem ser facilmente neutralizadas por um calhau nas fuças? Isso significa que poderemos ter, em breve, a obrigatoriedade do "Porte de Pedras"? Caminhões basculantes terão de ser acompanhados por escolta militar? Pedreiras serão área de segurança máxima? Ou é simplesmente uma tosca felação aos xiitas muçulmanos que ela tanto admira e que já executaram milhares de mulheres, gays e loucos como ela, à base de linchamento por pedradas? Sim, amigos. O caso é de hospício, mas foi à TV como referência em Segurança Pública!

4 - "E sobre os drones, drone é apenas um brinquedo que você usa e ele quebra". Não há muito o que comentar sobre isso, até pela exaustão que a demência incensada pela grande mídia me provoca. Apenas fico pensando na perda de tempo que tantos exércitos recentemente sofreram, ao bombardearem cidades inteiras, matarem civis e militares - mas tudo isso com um "brinquedo que vc usa e ele quebra". Encerro este apenas declarando minha piedade por tal criatura, a qual certamente valeu-se de "brinquedos que vc usa e ele quebra" em seus momentos de mais profunda e íntima solidão, causada pelas escolhas de vida que adotou.

Arrisco dizer que é de tal frustração que nasceu este conceito.

Não vá o amigo leitor me julgar por escrever laudas e laudas sobre uma demente, que deveria estar internada em um manicômio. Apenas devolvo, na mesma moeda, o tanto de tempo e importância que a grande mídia usou para tentar nos obrigar a levar a demência como ponto de referência na formação de nossas opiniões.

Sim, a grande mídia tem certeza que somos completamente idiotas.

Tal como a louca entrevistada.


Walter Biancardine

terça-feira, 4 de novembro de 2025

A TORMENTA É BELA QUANDO ESCRITA, NÃO QUANDO VIVIDA -


Todo aquele que possui uma sensibilidade ligeramente mais apurada pode encontrar beleza e, talvez, até mesmo lições ao ler os escritos de um atormentado. A aflição nos despe da vergonha, do pudor, e passamos a exorcizar de forma pública - eis que ao redor nada ou ninguém resta - os fantasmas que perseguem nossa alma.

Sim, a depender do talento e sensibilidade do atormentado, realmente poderemos colher algumas preciosidades, entre os escombros daquilo que o pobre infeliz chama de "vida" e na qual desfilam procissões de sofrimentos, dúvidas, aflições, frustrações e angústias. Tais hemorragias - causadas por fraturas expostas de sua alma - eventualmente nos oferecem lições, conselhos ou mesmo servem como tema de meditações mais pessoais e profundas, naquele buraco infinito que todos temos na alma, mas a ninguém confessamos.

Eis que é bom e belo lê-lo; jamais queira vivê-lo, entretanto.

Dores não podem ser compartilhadas nem sentidas por outrem - a empatia tem um cada vez mais curto limite - e tudo o que o infeliz escritor faz não é reclamar e, sim, extravasar. Quem reclama busca solução, mas quem desabafa já desistiu das mesmas há tempos e tudo o que faz é escrever - escrever para não explodir, rabiscar linhas como se o papel fosse lixeira, a vomitar tudo o que de pior tal alma carrega dentro de si.

E esta é a necessidade de escrever: ou escrevo ou explôdo, e isso se torna claro em simples contabilidade bibliográfica que façam sobre minha pessoa, onde textos personalíssimos, intimistas - ainda que temperados pela inevitável filosofia adotada como modus vivendi - são muito mais numerosos que análises políticas, ensaios filosóficos ou mesmo os velhos e divertidos (ao menos para mim) textos onde me entregava, sem pudores, à mais escrachada gaiatice.

Haverão alguns, temerários, que eventualmente apreciarão as linhas deste velho atormentado - o qual gasta dias se irmanando aos inomináveis Bukowski ou Schoppenhauer - e, por isso, me honrem seguindo-me. À eles, agradeço do fundo de meu coração, pois ouvir (ou ler) lamentos alheios é a suprema solidariedade, limitado que estamos às redes sociais. Mas deixo, entretanto, um conselho que considero valiosíssimo: tormentos alheios podem ser-nos úteis ou até soarem belos, mas nem em seus piores pesadelos queiram romantizar a situação deste escriba e, porventura, vivê-los.

Ser escritor, ter tal defeito como profissão - piorada pela minha formação jornalística - já é uma condenação à pobreza e frustração, e as tempestades que varrem minha cabeça ainda tornam tal sina vocacional ainda mais empedrada. Por isso, principalmente em um país como o Brasil, não percam tempo ou gastem neurônios no caminho das letras.

Elas nada significam numa terra de emojis.


Walter Biancardine


terça-feira, 21 de outubro de 2025

MINHA ALMA CANTA...VEJO O RIO DE JANEIRO -


Estou morrendo de saudades, Rio teu mar, praias sem fim, Rio você foi feito pra mim...
Sim, pois chegou a minha vez de cantar o refrigerante “Samba do Avião”, do mesmo Tom Jobim que ensinou meu quase irmão Luís Antônio – "The House of Rock and Roll” – a tocar piano.

E eis que me encontro tal qual o Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, sorvendo cada gole de uma tardia mas bem-aventurada volta à minha terra natal, me sentindo novamente nativo a xingar os engarrafamentos, a debutar no estranhíssimo BRT e tendo sempre à mão o deslumbrante caos luminoso da Avenida das Américas, à noite, uma vez já instalado em meu simpático apartamento no Recreio dos Bandeirantes…

Uma outra cidade, outrora capital do glorioso Império do Brasil e também – nada é perfeito – desta soluçante República; uma outra atmosfera, outras pessoas, outras modas, vestimentas, maneiras de falar, linguagem do corpo, dos sons e dos cheiros – tudo isso soube eu no passado, mas duas décadas e meia de exílio deslocaram e quase sepultaram a gênese carioca e estapafúrdia deste que ora vos escreve.

Este artigo é só porquê/ Rio eu gosto de você/ A morena vai sambar/ Seu corpo todo balançar” enquanto eu, da janela do carro, as vejo em um desfile propositalmente blasé, pela orla da praia.

Então, na crônica diária de minha vida, uma nova página se abre e me pego exercitando as pernas no contínuo sobe-e-desce pelas escadas deste duplex – povoado somente por mim, subitamente desperto na vaidade de saber se tais escadas melhorarão o triste aspecto de minhas pernas, em intempestiva volta à adolescência. O amigo leitor não deverá se iludir, se neste momento considera que desfruto de férias cariocas: não, há trabalho – e muito – que ainda me espera.

Trata-se, porém, do saudoso abraço que dou à cidade que me pariu, mostrou a vida e pôs-me a correr o mundo. E a quanto tempo não a via…

Rio de sol, de céu, de mar… Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão…
Aperte o cinto, vamos chegar… E vamos aterrar.


Estou de volta, Rio.


Walter Biancardine



sábado, 4 de outubro de 2025

A LONG WAY HOME -


E de repente tudo muda: uma vida inteira dá meia volta, e novas estradas se abrem diante de nós mostrando que a viagem ainda não acabou.

Na verdade talvez mal tenha começado, e todo aquele caminho cheio de tombos, buracos, quedas e machucados esteja ficando para trás.

O dia está chegando, muito próximo, o tanque está cheio e a rota na cabeça.

Agora é quicar a moto, acender um charuto e desfrutar desta "long way home".

Até chegar, beber meu Jack Daniel's e brindar: de volta ao lar.


Walter Biancardine


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

FENIX -


Tempos idos, tinha minha enorme moto custom e nela me divertia com meus cabelos longos, colete do motoclube, charuto nos dentes - pois cigarros apagam com o vento - e minhas tatuagens, dentre elas a Fênix, o lendário pássaro que morre e renasce das cinzas.

Não à toa a fiz: muito mais que uma capacidade autoproclamada, era prece e esperança. E neste momento me vejo tal como ela, a renascer de minhas cinzas quase já frias, sentindo outra vez o calor do sol, aspirando o ar à minha volta, sentindo meus músculos novamente fortes - eu, redivivo, renascido e repaginado, com sangue nas veias e um homem novamente.

Bastou uma notícia, uma mão estendida - e seu autor não citarei, por não ter pedido autorização - para que, tal como Lázaro, me levantasse e caminhasse para fora da cova ao encontro dos vivos.

Confesso que jamais me senti assim. Todos sofremos altos e baixos, temos picos e vales mas, desta vez, há algo acima e além. Novamente compromissos, responsabilidades, tarefas, obrigações e a alegria de cumpri-las - mas o corpo não engana, há algo mais e melhor.

A alma volta e quer escrever - e voltarei, pois meus editores aceitaram que retornasse - e me descubro pleno de gasolina para queimar, nesta longa estrada que o Brasil sofre caminhar. A cabeça desperta e volta a trabalhar, com responsabilidades que breve assumirei. E o corpo volta a existir, me dando conta que o mesmo havia me abandonado há anos e sequer percebi.

Mas bastou um chamado.


Walter Biancardine