domingo, 16 de novembro de 2025

CADA VEZ MENOS JORNALISTA -


Primeiro veio o cansaço após um dia de trabalho duro, e deixei para escrever de noite.
Depois veio a falta de internet, que durou até agora há pouco, e deixei para escrever de tarde.
Agora a tarde chegou e nada quero escrever, mesmo com um Brasil em chamas e a vergonha de comemorarmos um golpe de Estado que depôs um Imperador amado, tudo por culpa de chifres remoídos e recalcados.

Não, nada quero escrever. O ímpeto jornalístico está cada vez mais fraco, em proporção direta aos meus naufrágios pessoais - e isto, profissionalmente, é péssimo: como confiar em alguém assim? E os prazos? E o sempre explosivo factual das matérias? E o leitor?

Me sinto cada vez menos jornalista e cada vez mais mergulhado no egoísmo do escritor, a trabalhar somente sob o tacão das musas ou das desventuras, tudo isso como corolário de um enorme e narcísico ego que viciou-se a usar a escrita como divã de analista. E isso é inviável, intragável e - pior - inaproveitável, editorialmente falando.

Neste momento não quero escrever. Aliás, sequer desejo existir. Todo meu desejo se resume a possuir um botão "on/off" para desligar ou, ao menos, um "reboot" que reinicie meu coração, que salve minha alma, que me conceda a redenção.

Desejo ou redenção?

Para mim, o livro que escreví - "Pretérito Perfeito" - quase me pareceu uma profecia que se cumpria, mas creio que meus poderes mediúnicos sempre foram abaixo da média - e, por mais que parecesse, tudo se resumiu a nada. Apenas a pergunta - desejo ou redenção - permanece, por mais que me doa ter julgado encontrar ambos em uma só alma.

Mas não somos donos da alma de ninguém - eu, sequer da minha - e nenhuma vontade tenho de fazer jornalismo.

O antigo iceberg derreteu.

E manchou a cama.


Walter Biancardine



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