terça-feira, 27 de maio de 2025

CONTROLE SOCIAL, SOCIEDADE ALTERNATIVA E PODER: NIETZSCHE CRIOU UM MONSTRO?

 


A Thelema, de Aleister Crowley, com sua ênfase na vontade individual, autodescoberta e rejeição de dogmas tradicionais, tem raízes em várias correntes filosóficas e espirituais. Uma das principais influências é o filósofo Friedrich Nietzsche, cuja ideia do "super-homem" (Übermensch) e a ênfase na vontade de poder ressoam com o princípio thelêmico de "Faz o que tu queres será o todo da Lei", mas outros filósofos e pensadores podem ser também considerados precursores ou influências indiretas. Abaixo exemplifico alguns deles:

François Rabelais (1494–1553)

O escritor e humanista renascentista francês é uma influência direta, já que Crowley extraiu o termo "Thelema" da obra “Gargantua e Pantagruel”, onde Rabelais descreve a fictícia Abadia de Thélème, um lugar onde as pessoas vivem de acordo com sua vontade, livres de restrições externas. A máxima "Faz o que quiseres" de Rabelais é um precursor claro do princípio central da Thelema.

Arthur Schopenhauer (1788–1860)

A filosofia de Schopenhauer, centrada na ideia de que a vontade é a força motriz fundamental do universo, pode ser vista como uma influência indireta. Embora Schopenhauer tenha uma visão mais pessimista, sua ênfase na vontade como essência da existência ecoa no foco de Crowley na vontade individual como força criativa e espiritual.

Ralph Waldo Emerson (1803–1882)

O transcendentalismo de Emerson, com sua ênfase na autoconfiança, intuição individual e conexão com o divino interior, compartilha paralelos com a Thelema. A ideia de seguir a própria "verdadeira vontade" ressoa com os conceitos de Emerson sobre a autenticidade e a rejeição de conformismos sociais.

Max Stirner (1806–1856)

O individualismo radical de Stirner, expresso em “O Único e Sua Propriedade” (tenho apenas em PDF), é uma influência significativa. Sua rejeição de autoridades externas, incluindo Estado, religião e moralidade convencional, e sua defesa do “egoísmo consciente” como base para a liberdade individual, alinham-se com a visão de Crowley sobre a soberania da vontade pessoal.

Eliphas Lévi (1810–1875)

Não o conhecia? Nem eu, fui apresentado ao mesmo pela internet. Embora mais ocultista do que filósofo no sentido clássico, Lévi, com sua síntese de magia, cabala e esoterismo ocidental, parece ter influenciado profundamente Crowley. Suas ideias sobre a vontade mágica e a unificação de opostos (como no conceito de Baphomet), pelo que aduzi, moldaram o sistema thelêmico, especialmente em sua dimensão esotérica.

William Blake (1757–1827)

O poeta e místico inglês, com sua visão antinomiana, rejeição de instituições religiosas opressivas e celebração da imaginação e da liberdade individual pode ser visto como um, digamos, precursor espiritual. A ênfase de Blake na divindade interior e na criatividade ecoa os ideais thelêmicos.

Heráclito (c. 535–475 a.C.)

Embora mais distante historicamente, o filósofo pré-socrático, com sua visão de um universo em fluxo constante e a ideia de que o conflito e a tensão são fundamentais à existência, pode ser considerado uma influência indireta. A noção de harmonia através de opostos ressoa com o conceito thelêmico de equilíbrio entre forças como amor e vontade.

Giordano Bruno (1548–1600)

O conhecido filósofo renascentista, com sua visão panteísta de um universo infinito e sua ênfase na liberdade intelectual contra dogmas religiosos, compartilha afinidades com a Thelema. Sua ideia de que o divino está presente em tudo e que o indivíduo pode acessar essa divindade através da mente e da vontade influenciou o esoterismo ocidental que Crowley absorveu.

Embora esses pensadores não tenham conexão direta com a Thelema, suas ideias sobre liberdade individual, vontade, rejeição de autoridades externas e a aparente busca por um sentido mais profundo da existência contribuíram para o caldo filosófico e espiritual que Crowley sintetizou. Além disso, a Thelema também incorpora elementos de tradições espirituais não ocidentais, como o hinduísmo e o budismo, mas os nomes acima representam as influências filosóficas mais relevantes no contexto ocidental e mais facilmente acessíveis ao leitor.

Uma questão conveniente:

Nietzsche e todos os filósofos citados timbraram em ignorar a baixa – ou nula – capacidade de discernimento do homem comum, tornando algo como o "Faze o que tu queres, há de ser tudo dentro da lei" um princípio perigoso, possivelmente dando origem a uma anomia social e institucional que presenciamos nos dias atuais. A Thelema (e a Sociedade Alternativa no Brasil) foram o recheio intelectual da cultura hippie que, hoje sabemos, foi utilizada pelos serviços de inteligência de outros países para minar a religião cristã (seus valores e princípios), os governos (a ordem vigente) e as forças da lei (pois eram contrárias a eles). Tal afirmação está correta? Analisemos, pois:

Nietzsche, os filósofos citados e a "baixa capacidade de discernimento do homem comum"

Nietzsche, assim como pensadores como Stirner, Rabelais ou Emerson, de fato enfatizou a autonomia individual e a rejeição de dogmas estabelecidos, muitas vezes dirigindo suas ideias a uma elite intelectual ou a indivíduos capazes de transcender as normas convencionais. Nietzsche, por exemplo, via o "super-homem" (Übermensch) como uma figura excepcional, não como um ideal acessível à massa, que ele frequentemente criticava como "rebanho". Essa perspectiva pode ser interpretada como uma negligência da capacidade de discernimento do "homem comum", já que esses filósofos pressupunham que a verdadeira liberdade ou vontade autêntica exigiria um nível elevado de autorreflexão e disciplina.

No entanto, a ideia de que esses pensadores "ignoraram" completamente o homem comum é discutível – ao menos, assim é considerada pelas mentalidades “uspianas” (USP). Tais mentes alegam que Rabelais, por exemplo, teria escrito com um tom satírico e acessível, visando criticar a sociedade de sua época de forma que pudesse ressoar com um público mais amplo. Stirner, por sua vez, defenderia um individualismo radical que, teoricamente, qualquer pessoa poderia adotar, embora exigisse um rompimento com estruturas sociais. Assim, embora suas ideias possam ser desafiadoras para o "homem comum", elas não necessariamente o excluem, mas exigem um esforço de autocompreensão que nem todos estariam dispostos ou preparados a fazer.

"Faze o que tu queres" como princípio perigoso e anomia social

Alegam os acadêmicos do sistema que a máxima thelêmica "Faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei" (complementada por "Amor é a lei, amor sob vontade") é frequentemente mal interpretada como uma apologia ao hedonismo ou à anarquia desenfreada. Crowley, no entanto, enfatizava que a "verdadeira vontade" (True Will) não é um desejo impulsivo, mas uma expressão profunda da essência individual, alinhada com o propósito cósmico de cada pessoa. Em Liber AL vel Legis (O Livro da Lei), ele sugere que seguir a verdadeira vontade requer disciplina, autoconhecimento e harmonia com o universo, não simplesmente "fazer o que der na telha".

Uma vez que tais escusas sejam aceitas, admitiremos que a interpretação superficial dessa máxima pode levar a mal-entendidos, especialmente em contextos onde o discernimento ou a educação filosófica são limitados. Não teria havido uma deliberada má intenção nisto?

A ideia de liberdade absoluta, sem um entendimento claro de suas implicações éticas, pode contribuir para comportamentos individualistas que desafiam normas sociais ou institucionais. No entanto, alegam eles, culpar diretamente a Thelema por uma "anomia social e institucional" generalizada é uma simplificação. A anomia, conforme descrita por Émile Durkheim, surge mais de rupturas nas estruturas sociais e econômicas (como desigualdades, crises ou perda de valores coletivos – resta saber provocados pelo quê) do que de uma filosofia esotérica como a Thelema, que tem um alcance relativamente limitado. A Thelema nunca foi um movimento de massa, mas sim uma doutrina de nicho, adotada por pequenos grupos de intelectuais, artistas e ocultistas – e sobre isso concordo, deixando para comentar sobre a capilaridade das ideias das elites por sobre a massa mais para a frente.


Thelema, Sociedade Alternativa e a cultura hippie no Brasil

A Sociedade Alternativa, idealizada por Raul Seixas e Paulo Coelho nos anos 1970, foi fortemente inspirada pela Thelema, particularmente pelo Liber Oz de Crowley, que proclama os direitos individuais à liberdade. A música "Sociedade Alternativa" (1974) reflete diretamente a máxima "Faze o que tu queres" e a visão de uma nova era (o "Novo Aeon" de Crowley). No Brasil, essa ideia ressoou com a contracultura da época, que compartilhava com o movimento hippie global uma rejeição às estruturas tradicionais, incluindo o governo militar (1964–1985), a moral cristã conservadora e o capitalismo dito “consumista”.

Embora a Sociedade Alternativa tenha se alinhado com o espírito libertário da cultura hippie, é importante notar que o movimento hippie no Brasil foi mais amplo e heterogêneo, influenciado por diversas correntes, como o tropicalismo, o rock psicodélico e ideais de liberdade vindos dos EUA e da Europa. A Thelema, por meio da Sociedade Alternativa, foi apenas uma das muitas influências culturais, e sua penetração foi limitada, concentrando-se em círculos artísticos e esotéricos, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas foi realmente a âncora filosófica de todo o processo gramsciano de degradação moral que se seguiu.

Os empolados acadêmicos do sistema insistem em alegar que a afirmação de que a Thelema ou a Sociedade Alternativa teriam sido o "recheio intelectual" da cultura hippie no Brasil seja parcialmente correta, por “exagerar” sua centralidade. Afirmam ter sido a cultura hippie brasileira mais marcada por influências musicais (como os Beatles, Rolling Stones e o tropicalismo), pelo uso de drogas psicodélicas e pela resistência à “ditadura” do que por uma adesão profunda à filosofia thelêmica – o que, de cara, já expõe a contradição do argumento, ou não haveria a tal “resistência” ao braço da lei vigente. Raul Seixas, por exemplo, popularizou ideias thelêmicas de forma acessível, mas suas canções muitas vezes misturavam esoterismo com crítica social, sem exigir um compromisso filosófico profundo de seus ouvintes, além da submissão aos feitiços gramscianos.


Suposta manipulação por serviços de inteligência

A alegação de que a cultura hippie, incluindo a Thelema e a Sociedade Alternativa, foi utilizada por serviços de inteligência estrangeiros para "minar a religião cristã, os governos e as forças da lei" é uma teoria que circula em certos círculos, mas carece de evidências sólidas e verificáveis, segundo essas mesmas cabeças coroadas. Dizem ser essa narrativa frequentemente baseada em especulações sobre o papel da CIA ou de outras agências na promoção da contracultura dos anos 1960 e 1970, como parte de operações como o MKUltra ou esforços para desestabilizar movimentos de esquerda em diversos países.

Ainda segundo eles, no contexto brasileiro, a ditadura militar veria com desconfiança qualquer movimento contracultural, incluindo o hippie e a Sociedade Alternativa – e que se dane Golbery e sua tese da “panela de pressão”. Raul Seixas e Paulo Coelho teriam enfrentado a repressão do regime, com Coelho alegadamente sendo preso e torturado em 1974, sob acusação de atividades subversivas, possivelmente relacionadas à Sociedade Alternativa. Para piorar, tais uspianos concluem que isso sugeriria que, longe de serem instrumentos de serviços estrangeiros, tais movimentos eram percebidos como “ameaças” pelo governo brasileiro – ou seja, o fato de ser instrumento de governos estrangeiros não seria motivo para tornarem-se “ameaças”.

A ideia de que a cultura hippie foi orquestrada para minar o cristianismo ou a ordem estabelecida ignora a natureza orgânica e descentralizada do movimento

Embora Crowley, com sua crítica aos valores cristãos tradicionais e sua autoproclamação como a "Besta 666", tenha desafiado abertamente a moral religiosa, seus defensores dizem que a Thelema não tinha o alcance ou a organização para representar uma ameaça sistêmica. Além disso, a cultura hippie global teria sido mais um reflexo de tensões sociais (como a Guerra do Vietnã, os movimentos pelos direitos civis e a revolução sexual) do que um projeto coordenado por serviços de inteligência. Alegações nesse sentido geralmente seriam baseadas em teorias conspiratórias, como as que ligam a CIA à promoção de LSD, mas as evidências disponíveis, cuidadosamente escolhidas por eles (como documentos desclassificados do MKUltra), mostram que tais experimentos tinham objetivos mais específicos, como controle mental, e não uma agenda ampla de subversão cultural. E sobre tais mixórdias argumentativas não há, realmente, o que se dizer além de mandá-los à coisa mais imunda.

Thelema e a religião cristã

Crowley, criado em um ambiente cristão fundamentalista (os Irmãos de Plymouth), rejeitou abertamente o cristianismo, considerando-o limitante e dogmático. A Thelema propõe uma visão espiritual que substitui a submissão à vontade divina cristã pela busca da "verdadeira vontade" individual, o que pode ser visto como uma crítica direta aos valores cristãos tradicionais. No entanto, seus seguidores alegam que Crowley não negava completamente a espiritualidade; ele reinterpretava elementos cristãos, como a ideia de amor, sob a ótica thelêmica ("Amor é a lei, amor sob vontade"), mesmo e apesar do fato da Besta 666 afirmar que a era de Jesus (a Era de Peixes) estava terminando e que ele seria o “substituto de Cristo” na Era de Aquário.

No Brasil, a Sociedade Alternativa de Raul Seixas e Paulo Coelho não atacava diretamente o cristianismo, mas promovia uma visão de liberdade individual que contrastava com a moral conservadora da Igreja Católica, predominante na época. Isso pode ter sido percebido como uma ameaça por setores religiosos, mas não há evidências de que a Thelema ou a Sociedade Alternativa tenham tido um impacto significativo na erosão dos valores cristãos no Brasil. Tal trabalho foi feito de forma muito mais eficiente por Leonardo Boff e sua “Teologia da Libertação”, que não continha em si o germe do “escândalo jovem” da contra-cultura.


Tal afirmação estaria então correta?

A atual academia julgaria que meu pensamento contém elementos que podem ser parcialmente corroborados, mas, em sua totalidade, exagera e simplifica as conexões entre a Thelema, a Sociedade Alternativa e os fenômenos sociais mencionados. Seriam eles:

  • Sobre a "baixa capacidade de discernimento": Os filósofos citados, incluindo Nietzsche, de fato pressupunham um certo nível de autorreflexão para suas ideias, mas não as tornaram exclusivas de uma elite. A Thelema, em particular, exige disciplina e autoconhecimento, o que limita sua interpretação como um convite à anarquia desenfreada.

  • Sobre a anomia social: A Thelema e a Sociedade Alternativa não têm o alcance ou a influência para causar anomia social generalizada. A desordem social contemporânea é mais atribuível a fatores como desigualdade, polarização política e crises institucionais do que a filosofias esotéricas.

  • Sobre a cultura hippie: A Sociedade Alternativa foi uma expressão da contracultura brasileira, inspirada pela Thelema, mas não o "recheio intelectual" do movimento hippie, que era mais amplo e diversificado.

  • Sobre manipulação por serviços de inteligência: Não há evidências concretas de que a Thelema ou a Sociedade Alternativa tenham sido instrumentos de agências estrangeiras para minar o cristianismo, governos ou forças da lei. Tais alegações se baseiam mais em teorias conspiratórias do que em fatos documentados.

  • Sobre minar o cristianismo: A Thelema desafia valores cristãos tradicionais, mas sua influência no Brasil foi limitada a círculos restritos, sem impacto significativo na estrutura religiosa do país.

Em resumo, minhas afirmações conteriam alguns pontos válidos, como a crítica à potencial má interpretação da máxima thelêmica e sua ressonância com a contracultura, mas exagera o papel da Thelema e da Sociedade Alternativa como forças desestabilizadoras e carece de evidências para sustentar a ideia de manipulação por serviços de inteligência. A Thelema permanece, para eles, como uma filosofia esotérica de impacto cultural limitado, mais associada à expressão artística (como as obras de Raul Seixas) do que a uma revolução social ou política.

A boa intenção dos condenados ao inferno

Pois que minha afirmativa seja, realmente, exagerada. O ponto onde quero chegar não é "o que resultou tudo isso", mas "quais foram as intenções de seus promotores". Em termos de objetivos, perseguidos e alcançados, tudo o que expus acima possuiria maior base? Analisemos isso também:

Minha pergunta foca nas intenções dos promotores da Thelema (Aleister Crowley), da Sociedade Alternativa (Raul Seixas e Paulo Coelho) e, por extensão, da cultura hippie, em vez dos resultados concretos dessas ideias. Vamos analisar se minhas afirmativas – que sugerem que esses movimentos tinham a intenção de minar a religião cristã, os governos e as forças da lei, possivelmente como parte de uma agenda orquestrada – possuem maior base quando consideramos os objetivos declarados ou implícitos desses promotores.

Intenções de Aleister Crowley e da Thelema

Aleister Crowley (1875–1947), o criador da Thelema, tinha objetivos claros expressos em seus escritos, particularmente em O Livro da Lei (Liber AL vel Legis, 1904) e outros textos, como Liber Oz. Suas intenções podem ser resumidas assim:

  • Subversão do cristianismo tradicional: Crowley, criado em um ambiente cristão fundamentalista (os Irmãos de Plymouth), rejeitava abertamente o que via como dogmatismo e repressão da moral cristã. Ele se autoproclamava a "Besta 666" e via a Thelema como a fundação de um "Novo Aeon" (a Era de Hórus), que substituiria as estruturas religiosas tradicionais, especialmente o cristianismo, por uma espiritualidade centrada na vontade individual e na autodescoberta. Seu objetivo era, de fato, desafiar os valores cristãos, que ele considerava limitantes, promovendo uma visão onde o indivíduo encontra o divino dentro de si (“Deus está morto”), sem intermediários institucionais. Isso alinha-se com minha afirmativa de que a Thelema buscava minar a religião cristã, através de uma crítica filosófica e espiritual.

  • Rejeição de autoridades externas: A máxima "Faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei" enfatiza a soberania da "verdadeira vontade" individual sobre qualquer autoridade externa, seja ela religiosa, política ou social. Crowley não era anarquista no sentido político, mas sua filosofia promovia a ideia de que as instituições (incluindo governos e forças da lei) só têm legitimidade se alinhadas com a vontade individual autêntica. Ele não buscava diretamente a destruição de governos ou leis, mas sim uma transformação cultural onde o indivíduo seria o centro da existência, o que poderia ser interpretado como um desafio à ordem estabelecida.

  • Transformação cultural, não anomia: Crowley acreditava que a Thelema inauguraria uma nova era de liberdade espiritual e intelectual, mas ele também enfatizava disciplina e autoconhecimento. Sua intenção não era criar anomia social (caos ou ausência de normas), mas sim substituir normas opressivas por um sistema ético baseado na vontade individual. Ele via isso como uma evolução, não como destruição, embora acessível somente a elites do pensamento.

  • Conexão com serviços de inteligência: Há especulações sobre o envolvimento de Crowley com serviços de inteligência britânicos durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, especialmente por sua presença em círculos influentes e suas atividades nos EUA e na Alemanha. No entanto, não encontrei evidências sólidas de que a Thelema tenha sido criada ou promovida como um instrumento deliberado de agências de inteligência para desestabilizar sociedades neste período. Essas alegações, frequentemente baseadas em sua correspondência com figuras como o ocultista Gerald Gardner ou em sua reputação controversa, permanecem especulativas e carecem de documentação confiável. Já seu uso posterior, é uma outra questão – vide Vietnã.

Avaliação: Em um julgamento digno da inocência deliberada dos uspianos, as intenções de Crowley apoiariam parcialmente minhas afirmativas, no sentido de que ele buscava desafiar o cristianismo e as normas sociais tradicionais. No entanto, jamais admitiriam haver alguma base para afirmar que ele pretendia criar anomia social ou que agia como agente de serviços de inteligência com uma agenda de subversão global. Sua visão era mais esotérica e individualista do que conspiratória – o que, dado o período histórico que viveu, não é de todo falso.

Intenções de Raul Seixas, Paulo Coelho e da Sociedade Alternativa

A Sociedade Alternativa, concebida por Raul Seixas e Paulo Coelho nos anos 1970, foi uma tentativa de popularizar ideias thelêmicas no Brasil, adaptadas ao contexto cultural e político da ditadura militar. Suas intenções podem ser inferidas de suas letras, entrevistas e escritos da época:

  • Crítica à repressão e à moral conservadora: Raul Seixas, em músicas como "Sociedade Alternativa" e "Gitá", expressava um desejo de liberdade individual frente à “repressão da ditadura militar” e aos – importante observar – valores conservadores da sociedade brasileira, incluindo a influência da Igreja Católica. A Sociedade Alternativa, inspirada no Liber Oz de Crowley, proclamava direitos individuais, como a liberdade de expressão e de crença. Essa crítica ao status quo, incluindo a moral cristã e o autoritarismo, alinha-se diretamente com minha afirmativa de que havia uma intenção de desafiar a religião cristã e o governo, aliada à perfídia gramsciana que começava a prosperar no país.

  • Construção de uma nova visão social: Raul e Paulo Coelho não visavam apenas destruir instituições, mas propor uma alternativa utópica, onde os indivíduos pudessem viver de acordo com sua "vontade verdadeira". A Sociedade Alternativa era apresentada como uma comunidade ideal, embora mais simbólica do que prática. Eles não pregavam anarquia no sentido de caos, mas uma reestruturação da sociedade baseada na liberdade individual, o que poderia ser visto como um desafio à ordem vigente e um grotesco arremedo à Escola de Frankfurt – “Tudo destruir, para que desse nada surja algo novo e melhor”.

  • Contexto da ditadura militar: Durante o regime militar (1964–1985), qualquer crítica ao governo ou à moral tradicional era vista como subversiva. Raul e Paulo Coelho supostamente enfrentaram a repressão – Paulo Coelho teria sido preso e torturado em 1974, acusado de atividades subversivas relacionadas à Sociedade Alternativa. Isso sugere que suas intenções eram mais de resistência política do que de verdadeira fé no ocultismo pregado. Alega o sistema atual que não há evidências de Raul ou Paulo Coelho terem conexões com serviços de inteligência estrangeiros ou que sua intenção fosse servir a interesses externos, mas nisto se resume toda a cândida pintura “Naïf” com que a esquerda mostra sua existência no Brasil.

  • Influência da cultura hippie: A Sociedade Alternativa absorveu elementos da contracultura hippie, como a valorização da liberdade, do misticismo e da experimentação, mas Raul e Paulo Coelho eram mais estruturados em sua visão, inspirando-se diretamente na Thelema. Suas intenções teriam sido supostamente mais artísticas e filosóficas do que políticas, buscando inspirar uma transformação cultural por meio da música e da escrita. Julgamentos são desnecessários.

Intenções da cultura hippie (contexto global e brasileiro)

A cultura hippie, surgida nos anos 1960 nos EUA e espalhada pelo mundo, incluindo o Brasil, era heterogênea, abrangendo desde pacifistas até ativistas políticos e espiritualistas. Suas intenções gerais podem ser resumidas assim:

  • Rejeição de normas tradicionais: Os hippies criticavam o consumismo, a guerra (especialmente a do Vietnã), a moral cristã tradicional e as estruturas de poder. No Brasil, isso se manifestava na resistência à ditadura militar e à rigidez social. Essa crítica pode ser vista como alinhada com a intenção de "minar" valores cristãos e a ordem estabelecida.

  • Busca por liberdade e espiritualidade alternativa: Os hippies promoviam valores como amor livre, experimentação psicodélica e espiritualidades não ocidentais (como hinduísmo e budismo). No Brasil, isso se misturava com influências locais, como o tropicalismo e o esoterismo. A intenção era criar uma cultura alternativa, não necessariamente destruir instituições, mas transformá-las – em especial, a Igreja Católica.

  • Conexão com serviços de inteligência: A teoria de que a cultura hippie foi orquestrada por serviços de inteligência (como a KGB) para desestabilizar sociedades é recorrente e parcialmente demonstrada pelo filósofo Olavo de Carvalho. Existem provas, fornecidas por espiões russos, mostrando que a KGB experimentou com LSD e outros psicodélicos, bem como introduziu o esquema empresarial no tráfico de drogas sulamericano. A disseminação da cultura hippie foi um fenômeno ideológico, impulsionado por circunstâncias sociais (como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis) e dono de uma agenda coordenada.


A grosso modo, podemos afirmar sem medo que todo o movimento hippie e a contra-cultura foram a expressão romantizada, cinematografada e musicada da ideologia esquerdista, mirando no fim da religião católica – por seu inegável peso moral – da família (amor livre e comunidades hippies), da livre iniciativa (promoção do artesanato e das plantações caseiras) e na máxima “somos todos iguais”. Coroando tal proposição alienante, reinava o “faça amor, não faça a guerra”.

Mergulhando na causa primária: Nietzsche

Qual será a razão para tantos filósofos (como Nietzsche, por exemplo) combaterem e até odiarem a religião cristã. Sentiam-se reprimidos em seus desejos ocultos? Sentiam-se preteridos em seus delírios de poder e importância social?

A crítica e até o aparente "ódio" de filósofos como Nietzsche ao cristianismo é um tema fascinante que reflete questões profundas sobre cultura, moralidade, poder e psicologia humana. O foco são as motivações filosóficas, culturais e psicológicas. Também abordarei a hipótese de repressão de desejos ocultos ou delírios de poder, analisando se essas interpretações se sustentam.

Razões para a crítica ao cristianismo

Os filósofos que criticaram o cristianismo, como Nietzsche, Schopenhauer, Blake, e até mesmo Crowley (como figura esotérica influenciada pela filosofia), tinham motivações variadas, mas algumas razões centrais aparecem recorrentemente.

Rejeição à moralidade cristã como repressiva – Nietzsche:

Em O Anticristo (1888) e Assim Falou Zaratustra (1883–1885), Nietzsche argumentava que o cristianismo promovia uma "moral de escravo", que valorizava a humildade, a submissão e a negação da vida em favor de um ideal transcendente (o céu, Deus). Ele via essa moral como uma repressão dos instintos vitais, da criatividade e da vontade de poder, que ele considerava essenciais à existência humana. Para Nietzsche, o cristianismo glorificava a fraqueza e demonizava a força, a ambição e a autoafirmação, criando uma cultura de ressentimento entre os "fracos" contra os "fortes".

Outros pensadores:

Schopenhauer, embora menos agressivo, criticava o cristianismo por sua visão otimista de um mundo criado por um Deus benevolente, que ele via como incompatível com o sofrimento inerente à existência. William Blake, por sua vez, rejeitava o cristianismo institucional por sua rigidez e hipocrisia, propondo uma espiritualidade mais criativa e individualista. Crowley, no contexto da Thelema, via o cristianismo como um obstáculo à liberdade individual e à descoberta da Vontade Verdadeira, criticando sua moralidade repressiva.

Contexto cultural:

Esses pensadores viviam em épocas em que a Igreja Cristã (católica ou protestante) exercia grande influência sobre a moral, a política e a cultura. A crítica ao cristianismo era, em parte, uma reação contra o controle social exercido por instituições religiosas, que ditavam normas de comportamento e limitavam a expressão individual.

Busca por uma nova espiritualidade ou filosofia – Nietzsche:

Nietzsche não apenas criticava o cristianismo, mas propunha uma alternativa: a filosofia do Übermensch (super-homem), que criaria seus próprios valores em um mundo sem Deus. Ele declarou que "Deus está morto" (A Gaia Ciência, 1882), não como uma celebração, mas como um diagnóstico da crise cultural do Ocidente, que precisava de novos fundamentos éticos. Sua crítica ao cristianismo era um passo para abrir espaço para essa nova visão.

Outros pensadores:

Crowley, inspirado por Nietzsche, via a Thelema como a espiritualidade do novo "Æon de Hórus", que superaria o cristianismo (associado ao Æon de Osíris). Blake buscava uma mística poética que unisse o humano e o divino, rejeitando a ortodoxia cristã. Mesmo Rabelais, com sua sátira em Gargântua e Pantagruel, ridicularizava o dogmatismo religioso para propor um humanismo mais livre.

Contexto filosófico:

A crítica ao cristianismo vinha de uma necessidade de romper com sistemas de pensamento que, na visão desses filósofos, limitavam o potencial humano. Eles viam a religião cristã como um obstáculo à autoexpressão, à criatividade e à construção de uma ética mais autônoma.

Crítica ao poder institucional da Igreja – Nietzsche:

Ele via a Igreja como uma instituição que manipulava as massas, mantendo-as submissas por meio do medo do pecado e da promessa de salvação. Ele acusava o cristianismo de usar a culpa como ferramenta de controle, enfraquecendo o indivíduo em favor da autoridade eclesiástica.

Outros pensadores:

Crowley, que foi criado em uma seita cristã rigorosa (os Irmãos de Plymouth), tinha uma antipatia pessoal pela hipocrisia religiosa que via na infância. Sua crítica ao cristianismo também mirava o poder da Igreja de limitar práticas esotéricas e espirituais alternativas. Blake criticava a Igreja Anglicana por sua aliança com o poder político, que ele via como opressiva. No Brasil, Raul Seixas e Paulo Coelho, influenciados pela Thelema, criticavam o suposto uso do cristianismo pelo regime militar para justificar a repressão.

Contexto histórico:

No século XIX e início do XX, a Igreja ainda tinha forte influência política e social na Europa e nas Américas. A crítica ao cristianismo era também uma crítica ao seu papel em sustentar estruturas de poder, como monarquias, colonialismo ou regimes autoritários.

Reação ao racionalismo e ao materialismo do Iluminismo – Nietzsche:

Embora o Iluminismo tivesse enfraquecido a autoridade religiosa, Nietzsche via o cristianismo como uma força que ainda moldava a moralidade ocidental, mesmo em um mundo secular. Ele criticava o cristianismo por sua visão dualista (bem vs. mal, corpo vs. alma), que ele considerava alienante, mas também via o racionalismo iluminista como insuficiente para preencher o vazio deixado pela "morte de Deus".

Outros pensadores:

Blake e Crowley, de maneiras diferentes, buscavam uma espiritualidade que transcendesse tanto o dogmatismo cristão quanto o materialismo racionalista. A Thelema, por exemplo, combinava misticismo, magia e individualismo como uma alternativa ao cristianismo e ao secularismo.

Contexto cultural:

A tensão entre religião, ciência e espiritualidade alternativa no século XIX levou muitos pensadores a buscar sistemas que conciliassem a liberdade individual com um senso de transcendência, algo que viam como ausente no cristianismo tradicional.

Sentiam-se reprimidos em seus desejos ocultos?

A sugestão de que esses filósofos combatiam o cristianismo por se sentirem reprimidos em seus "desejos ocultos" é uma interpretação psicológica interessante, mas precisa ser analisada com cuidado:

Nietzsche: Há quem interprete a veemência de Nietzsche contra o cristianismo como uma reação pessoal à sua criação luterana rígida. Ele cresceu em um ambiente religioso e, como jovem, era profundamente devoto. Sua ruptura com o cristianismo pode ter sido intensificada por uma sensação de repressão, especialmente em relação à sua visão de uma vida afirmativa, que celebrava os instintos e a criatividade. No entanto, não há evidências claras de que ele estivesse reprimindo "desejos ocultos" no sentido freudiano (como desejos sexuais ou hedonistas). Sua crítica era mais filosófica: ele via o cristianismo como uma força que reprimia a vitalidade humana em geral, não apenas seus desejos pessoais. Sua ênfase na vontade de poder sugere um desejo de transcendência, não de libertinagem.

Crowley: é um caso mais complexo. Criado em uma seita cristã extremamente puritana, ele rebelou-se desde jovem, adotando comportamentos provocativos (como sua bissexualidade e experimentações com magia e drogas). É plausível que sua crítica ao cristianismo tenha raízes em uma rejeição pessoal à repressão moral que experimentou na infância. Seus "desejos ocultos" (sexuais, espirituais ou de poder) eram expressos abertamente em sua vida e obra, e a Thelema pode ser vista como um sistema para legitimar a exploração desses desejos de forma disciplinada – “por trás de toda ideologia, sempre está uma tara”. No entanto, aceitemos que sua intenção não era apenas satisfazer desejos pessoais, mas criar um sistema espiritual universal.

Outros pensadores:

Blake, por exemplo, canalizava sua rebelião contra o cristianismo em uma visão mística que celebrava a imaginação e a divindade humana. Não há indícios claros de repressão de desejos pessoais, mas sim de uma frustração com a rigidez da Igreja. Schopenhauer, com sua visão pessimista, não parece motivado por desejos reprimidos, mas por uma crítica metafísica ao otimismo cristão. Raul Seixas e Paulo Coelho, no contexto brasileiro, expressavam frustrações com o conservadorismo da ditadura, sua crítica ao cristianismo era fundamentalmente ideológica e pessoal.

Avaliação: A ideia de "desejos ocultos" reprimidos pode aplicar-se abertamente a Crowley, cuja vida pessoal reflete uma rebelião contra a moral cristã. Para Nietzsche, a repressão era mais cultural e filosófica do que pessoal, ligada à sua visão de que o cristianismo sufocava a vitalidade humana. Para os outros, a crítica ao cristianismo era mais intelectual ou espiritual do que uma reação a desejos reprimidos, excetuando-se o caso brasileiro: ideologia pura e taras ocultas, combinadas. A psicologia moderna (como a de Freud) poderia interpretar tais críticas como projeções de conflitos internos, mas isso seria visto apenas como especulativo e não sendo a motivação principal.

Sentiam-se preteridos em seus delírios de poder e importância social?

Nietzsche: tinha uma visão elevada de si mesmo como filósofo, vendo-se como um profeta de uma nova era (o Übermensch e a reavaliação de todos os valores). Ele era frustrado pelo pouco reconhecimento que recebeu em vida, o que pode ter intensificado sua crítica às instituições, incluindo a Igreja, que ele via como perpetuadoras de uma cultura medíocre. No entanto, chamar isso de "delírio de poder" é uma simplificação. Sua crítica ao cristianismo era parte de um projeto filosófico maior, não apenas uma reação a ser ignorado socialmente. Ele queria transformar a cultura, não apenas conquistar poder pessoal.

Crowley: é um caso onde a acusação de "delírio de poder" tem todo o peso. Ele se autoproclamava o "Grande Besta 666" e buscava ser uma figura central no esoterismo ocidental. Sua crítica ao cristianismo era, em parte, uma rejeição às instituições que o marginalizavam (ele foi expulso de várias ordens esotéricas e vilipendiado pela imprensa). Sua intenção com a Thelema era criar um sistema espiritual que transcendesse o cristianismo, afirmando sua importância social. Ele via a si mesmo como um profeta, um delírio de grandeza.

Outros pensadores: Blake sentia-se marginalizado como artista e poeta, e sua crítica à Igreja Anglicana refletia sua frustração com uma sociedade que não valorizava sua visão. No entanto, sua motivação era mais espiritual e criativa do que um desejo de poder social. Schopenhauer, apesar de seu pessimismo, alcançou certo reconhecimento em vida e não parecia movido por ambições de poder, mas por uma crítica filosófica. Raul Seixas e Paulo Coelho, no Brasil, buscavam influência cultural como artistas, e sua crítica ao cristianismo era um reflexo de suas ambições políticas e busca por importância social.

As razões para esses filósofos combaterem o cristianismo -

Rejeição à moral repressiva: Eles viam o cristianismo como uma força que limitava a liberdade, a criatividade e os instintos vitais, promovendo uma moral de submissão. Busca por novas visões: Queriam propor alternativas filosóficas ou espirituais (como o Übermensch ou a Thelema) para substituir o cristianismo. Crítica ao poder institucional: Atacavam a Igreja por seu controle social e político, que viam como opressivo. Contexto cultural: Viviam em épocas de tensão entre religião, ciência e individualismo, o que os levou a questionar o papel do cristianismo. Sobre desejos ocultos: A repressão pessoal pode ter influenciado Crowley, devido à sua criação puritana, e, em menor grau, Nietzsche, mas a crítica ao cristianismo era mais filosófica do que uma projeção de desejos reprimidos. Para os outros, essa interpretação é menos convincente.

Sobre delírios de poder: Crowley buscava notoriedade, e Nietzsche tinha uma visão elevada de seu papel como filósofo, mas suas críticas ao cristianismo eram parte de projetos maiores, não apenas reações a serem preteridos. Os outros pensadores parecem menos motivados por ambições de poder social.

Perguntas inevitáveis:

Se Nietzsche criticava a Igreja como manipuladora das massas, suas atividades como filósofo – publicando livros com suas ideias – não seriam, igualmente, tentativas de manipulação reversa?

Tal questionamento toca em uma questão central sobre a natureza da filosofia, da influência intelectual e da coerência das críticas de Nietzsche. Vamos analisar se suas atividades como filósofo podem ser vistas como uma tentativa de "manipulação reversa" das massas, considerando sua crítica à Igreja como manipuladora, e explorar as nuances dessa comparação.

1. Nietzsche e a crítica à Igreja como manipuladora

Nietzsche, em obras como O Anticristo (1888) e Genealogia da Moral (1887), acusava o cristianismo, e especialmente a Igreja, de manipular as massas por meio de uma "moral de escravo". Ele argumentava que a Igreja usava conceitos como pecado, culpa e salvação para controlar os indivíduos, promovendo a submissão e reprimindo a vitalidade humana (a "vontade de poder"). Para Nietzsche, a Igreja manipulava ao impor uma narrativa moral que beneficiava os "fracos" (os oprimidos, as massas) contra os "fortes" (os criativos, os autônomos), criando uma cultura de ressentimento. Essa manipulação era, em sua visão, um exercício de poder disfarçado de espiritualidade.

2. As atividades de Nietzsche como filósofo: manipulação reversa?

Ao publicar livros como Assim Falou Zaratustra, Além do Bem e do Mal e A Gaia Ciência, Nietzsche buscava influenciar leitores, desafiar a moral cristã e propor uma nova visão filosófica centrada no Übermensch (super-homem), na vontade de poder e na reavaliação de todos os valores. A questão é: isso constitui uma forma de manipulação, análoga à da Igreja, mas em sentido oposto ("reversa")?

Argumentos a favor da ideia de manipulação reversa – a influência intencional:

Nietzsche escrevia com um tom profético e provocador, especialmente em Zaratustra, buscando inspirar ou até "despertar" seus leitores para uma nova forma de pensar. Ele queria romper com o conformismo das massas e incitar uma transformação cultural. Essa tentativa de moldar o pensamento alheio pode ser vista como uma forma de influência psicológica, semelhante à manipulação que ele atribuía à Igreja.

Retórica poderosa:

Nietzsche usava uma linguagem poética, aforística e muitas vezes emocional, que visava capturar a imaginação e provocar reações intensas. Essa estratégia retórica poderia ser interpretada como uma tentativa de "seduzir" os leitores, assim como a Igreja usava sermões e narrativas para conquistar fiéis.

Visão elitista:

Embora Nietzsche criticasse a manipulação das massas pela Igreja, ele próprio não escrevia para as massas, mas para uma elite intelectual capaz de compreender sua filosofia. No entanto, ao publicar suas ideias, ele ainda buscava influenciar um público, mesmo que seleto, o que poderia ser visto como uma tentativa de moldar mentes em direção aos seus ideais (o Übermensch, a rejeição da moral cristã), através da “capilaridade do pensamento”, que aleguei anteriormente.

Paralelo com o poder:

Nietzsche via a vontade de poder como a força motriz de toda ação humana, incluindo a da Igreja. Ao propor sua filosofia, ele também exercia sua própria vontade de poder, tentando redefinir valores e afirmar sua visão sobre a cultura. Isso poderia ser interpretado como uma tentativa de substituir uma forma de controle (cristã) por outra (nietzschiana).

Argumentos contra a ideia de manipulação reversa – objetivo de libertação, não controle:

Diferentemente da Igreja, que Nietzsche via como uma instituição que impunha dogmas para manter a submissão, sua filosofia buscava libertar o indivíduo de sistemas opressivos, incentivando a autossuperação e a criação de valores próprios. Ele não propunha uma nova doutrina rígida, mas um convite à autonomia. Em Zaratustra, ele escreve: "Vocês dizem 'creiam em mim', mas eu digo: 'sigam a si mesmos'." Sua intenção era emancipar, não manipular.

Ausência de estrutura institucional:

A Igreja, como instituição, tinha um sistema organizado de poder (clero, rituais, hierarquia) para impor sua moral. Nietzsche, por outro lado, era um filósofo solitário, sem uma organização ou seguidores diretos em vida. Seus livros eram um meio de disseminar ideias, mas não vinham com uma estrutura de controle, como templos ou dogmas obrigatórios.

Público-alvo diferente:

Enquanto a Igreja mirava as massas, Nietzsche escrevia para uma minoria capaz de compreender sua filosofia. Ele desprezava a ideia de manipular as massas, a quem chamava de "rebanho". Sua crítica à Igreja era justamente por ela manipular as massas para mantê-las submissas, enquanto ele buscava inspirar indivíduos excepcionais a transcenderem essas limitações.

Método reflexivo, não dogmático:

A Igreja usava dogmas e autoridade divina para impor sua moral. Nietzsche, ao contrário, usava argumentos, aforismos e provocações para estimular o pensamento crítico. Seus livros não oferecem respostas prontas, mas desafiam o leitor a questionar e criar. Isso é mais próximo de uma dialética socrática do que de uma manipulação autoritária.

Manipulação X influência: uma distinção crucial

A chave para responder tal questão está na diferença entre manipulação e influência. Manipulação implica um controle intencional, muitas vezes dissimulado, para moldar o comportamento alheio em benefício próprio ou de uma agenda. Influência, por outro lado, pode ser um esforço aberto para inspirar ou persuadir, sem necessariamente buscar controle. Nietzsche certamente queria influenciar, mas há diferenças significativas entre sua abordagem e a manipulação que ele atribuía à Igreja.

Transparência:

Nietzsche era aberto sobre seu objetivo de desafiar a moral cristã e propor uma nova visão. A Igreja, na visão dele, escondia sua busca por poder sob a fachada da espiritualidade.

Foco na autonomia:

Nietzsche encorajava os indivíduos a criarem seus próprios valores, enquanto a Igreja impunha uma moral universal. Ele rejeitava a ideia de seguidores cegos, como fica claro em Zaratustra, onde ele exorta seus discípulos a abandoná-lo e seguirem seus próprios caminhos.

Falta de coerção:

A Igreja usava medo (inferno, pecado) e recompensas (salvação, céu) para controlar. Nietzsche não tinha mecanismos de coerção; seus livros dependiam da aceitação voluntária de suas ideias por leitores dispostos a refletir.

Motivações psicológicas de Nietzsche – frustração pessoal:

Nietzsche viveu uma vida de relativo isolamento e teve pouco reconhecimento em vida. Sua crítica à Igreja pode ter sido intensificada por uma sensação de marginalização em uma sociedade dominada por valores cristãos. No entanto, sua filosofia não parece uma busca por poder pessoal, mas por uma transformação cultural que ele acreditava ser necessária após a "morte de Deus".

Vontade de poder:

Como Nietzsche via a vontade de poder como a essência da vida, é natural que sua própria atividade filosófica fosse uma expressão disso. Ele queria afirmar sua visão sobre o mundo, mas isso não equivale a um "delírio de poder". Sua escrita sugere uma convicção genuína de que estava oferecendo uma alternativa para uma cultura em crise, não manipulando por interesse egoísta.

Desejos reprimidos:

Não há evidências claras de que Nietzsche estivesse projetando desejos reprimidos (como desejos sexuais ou hedonistas) em sua crítica à Igreja. Sua vida pessoal era marcada por asceticismo, não libertinagem, e sua crítica ao cristianismo era mais intelectual do que emocional.

Comparação com outros filósofos

Para contextualizar, outros pensadores que criticaram o cristianismo, como Crowley ou Voltaire, também podem ser analisados sob a lente da manipulação:

Crowley: Como criador da Thelema, Crowley buscava influenciar, mas sua abordagem era mais carismática e, por vezes, autoritária, especialmente em suas ordens esotéricas. Ele queria liderar uma revolução espiritual, o que poderia ser visto como mais próximo de manipulação do que a abordagem de Nietzsche, especialmente por seu papel como "profeta" da Thelema.

Voltaire: No Iluminismo, Voltaire criticava a Igreja por sua intolerância e corrupção, mas usava sátira e argumentos racionais para persuadir, não para controlar. Como Nietzsche, ele buscava influência intelectual, não manipulação institucional.

Conclusão

As atividades de Nietzsche como filósofo, ao publicar suas ideias, podem ser vistas como uma tentativa de influenciar, mas não como uma "manipulação reversa" no mesmo sentido que ele atribuía à Igreja. Suas intenções eram:

Inspirar autonomia:

Nietzsche queria libertar os indivíduos do conformismo cristão, não impor uma nova doutrina.

Desafiar a cultura:

Ele buscava transformar os valores ocidentais, não controlar as massas.

Expressar sua visão:

Como todo filósofo, ele usava a escrita para afirmar sua vontade de poder, mas sem os mecanismos de coerção ou dissimulação que associava à Igreja. Sua crítica à Igreja como manipuladora era baseada em sua percepção de que ela usava dogmas e medo para controlar, enquanto suas próprias ideias eram um convite à reflexão e à autossuperação, sem uma estrutura institucional para impor obediência. Embora sua retórica pudesse ser persuasiva e até sedutora, ela não equivalia à manipulação da Igreja, que ele via como sistemática e autoritária.


Mais perguntas:

Nietzsche acusava a Igreja de manipulação através de dogmas e medo. Pois o que seria, então, as verdades de um filósofo impressas em um livro, somadas ao seu grito "Deus está morto!"? Elimina-se o medo sobrenatural, cria-se a submissão psicológica ao filósofo. Troca-se seis por meia-dúzia, em um louco projeto de ambição pessoal?

Tal questão é afiada e provoca uma reflexão profunda sobre as intenções de Nietzsche, a natureza de sua filosofia e a possibilidade de que suas ideias, ao criticarem a manipulação da Igreja, paradoxalmente replicassem uma forma de influência que poderia ser vista como manipulação psicológica. Se, ao proclamar "Deus está morto!" e publicar suas "verdades" em livros, Nietzsche estaria substituindo o medo sobrenatural da Igreja por uma submissão psicológica ao filósofo, em um projeto movido por ambição pessoal, isso nos leva a explorar suas intenções, a dinâmica de sua filosofia e se realmente se trata de "trocar seis por meia-dúzia".

1. Nietzsche e a crítica à manipulação da Igreja

Nietzsche acusava a Igreja Cristã de manipular as massas por meio de dogmas (como pecado e salvação) e medo (do inferno, da ira divina), criando uma moralidade que ele chamava de "escrava". Em Genealogia da Moral (1887) e O Anticristo (1888), ele argumentava que a Igreja usava esses mecanismos para manter as massas submissas, beneficiando o poder eclesiástico e suprimindo a vitalidade humana (a "vontade de poder"). Para ele, o cristianismo glorificava a fraqueza e reprimia os instintos criativos, manipulando psicologicamente por meio da culpa e da promessa de uma vida após a morte.

Quando Nietzsche proclama "Deus está morto!" em A Gaia Ciência (1882) e Assim Falou Zaratustra (1883–1885), ele não está apenas celebrando o fim da fé religiosa, mas diagnosticando uma crise cultural: a perda de um fundamento metafísico para os valores ocidentais. Ele via isso como uma oportunidade para os indivíduos criarem seus próprios valores, mas também como um risco, pois a ausência de Deus poderia levar ao niilismo se não fosse superada.

2. As "verdades" de Nietzsche: manipulação psicológica?

Perguntamos se as ideias de Nietzsche, impressas em seus livros, e sua proclamação de que "Deus está morto!" não seriam uma forma de substituir o medo sobrenatural da Igreja por uma submissão psicológica ao filósofo. Para avaliar isso, precisamos considerar o que Nietzsche buscava com suas obras e como sua abordagem difere (ou não) da manipulação que ele atribuía à Igreja.

Argumentos a favor da ideia de manipulação psicológica: retórica poderosa e tom profético

Nietzsche escrevia de forma poética, aforística e, em Zaratustra, quase messiânica, como se fosse um profeta anunciando uma nova era. Frases como "Deus está morto!" são chocantes e destinadas a provocar uma reação emocional, o que poderia ser visto como uma tentativa de capturar a mente do leitor. Essa retórica poderia, em teoria, criar uma forma de fascínio ou dependência psicológica em relação às ideias de Nietzsche.

Autoridade filosófica:

Ao apresentar suas ideias como uma alternativa à moral cristã, Nietzsche se coloca como uma figura de autoridade intelectual, alguém que oferece "verdades" para preencher o vazio deixado pela morte de Deus. Isso poderia ser interpretado como uma tentativa de moldar a psique dos leitores, levando-os a adotar sua visão de mundo (o Übermensch, a vontade de poder).

Eliminação do medo sobrenatural:

Ao proclamar "Deus está morto!", Nietzsche remove o medo do julgamento divino, mas sua filosofia exige que o indivíduo enfrente o peso da liberdade e da responsabilidade de criar seus próprios valores. Para alguns, isso poderia ser tão psicologicamente opressivo quanto o medo religioso, especialmente se o leitor se sentisse compelido a seguir Nietzsche como um guia para navegar esse novo mundo sem Deus.

Ambição pessoal:

Nietzsche tinha uma visão elevada de si mesmo como filósofo, vendo-se como um "legislador do futuro" (como ele sugere em Zaratustra). Sua ambição de transformar a cultura ocidental poderia ser lida como um desejo de poder pessoal, com seus livros servindo como ferramentas para conquistar influência sobre as mentes alheias.

Argumentos contra a ideia de manipulação psicológica: foco na autonomia individual

Diferentemente da Igreja, que impunha dogmas universais, Nietzsche encorajava os indivíduos a rejeitarem qualquer autoridade externa, incluindo a dele próprio. Em Zaratustra, ele exorta seus discípulos a abandoná-lo: "Agora vos ordeno que me percais e vos encontreis; e só quando todos vós tiverdes me negado, voltarei a vós." Sua intenção era inspirar a autossuperação, não criar seguidores submissos.

Ausência de dogmas rígidos:

A Igreja usava dogmas fixos e uma narrativa linear (pecado, redenção, salvação). Nietzsche, por outro lado, evitava sistemas fechados. Suas ideias, como a vontade de poder ou o Übermensch, são mais provocações filosóficas do que verdades absolutas. Ele desafiava o leitor a pensar por si mesmo, não a aceitar suas palavras como evangelho.

Falta de estrutura de controle:

A Igreja tinha uma instituição (clero, rituais, hierarquia) para reforçar sua manipulação. Nietzsche era um filósofo solitário, sem uma organização ou seguidores diretos em vida como já expus anteriormente. Seus livros dependiam da aceitação voluntária dos leitores, sem mecanismos de coerção como o medo do inferno ou a promessa de salvação.

Crítica ao niilismo, não imposição de verdades:

A proclamação de "Deus está morto!" não era uma tentativa de substituir o medo sobrenatural por uma nova forma de submissão, mas um alerta sobre o niilismo que poderia surgir com a perda da fé. Nietzsche queria que os indivíduos enfrentassem esse vazio e criassem seus próprios valores, não que se submetessem a ele como uma nova autoridade.

Ambição filosófica, não pessoal:

Embora Nietzsche tivesse ambições grandiosas (redefinir os valores ocidentais), sua escrita sugere uma preocupação genuína com a crise cultural do seu tempo, não um desejo de poder pessoal no sentido de dominar as massas. Ele era frustrado pelo pouco reconhecimento em vida, mas seus livros eram mais um chamado à reflexão do que uma tentativa de manipular psicologicamente.

3. Ambição pessoal ou projeto filosófico?

As ações de Nietzsche poderiam refletir um "louco projeto de ambição pessoal". Vamos analisar essa possibilidade:

Ambição de Nietzsche:

Ele via a si mesmo como um filósofo revolucionário, alguém destinado a mudar o curso da história ocidental. Em cartas e textos, ele expressava frustração por não ser reconhecido em vida, o que sugere um desejo de impacto e relevância. Em Ecce Homo (1888), ele escreve com um tom quase megalomaníaco, chamando-se de "dinamite" e um "destino". Isso poderia ser interpretado como ambição pessoal, uma vontade de afirmar seu poder intelectual sobre o mundo.

Projeto filosófico:

No entanto, a ambição de Nietzsche parece mais ligada a um projeto cultural do que a um desejo de poder pessoal no sentido político ou social. Ele acreditava que a cultura ocidental estava em crise após a "morte de Deus" e que sua filosofia era necessária para evitar o niilismo. Sua crítica à Igreja e suas ideias eram parte de um esforço para criar um novo paradigma, não para conquistar seguidores ou dominar as massas.

Psicologia de Nietzsche:

Alguns biógrafos, como Walter Kaufmann, sugerem que a veemência de Nietzsche contra o cristianismo refletia, em parte, sua luta pessoal com a educação religiosa luterana de sua juventude. No entanto, não há evidências de que ele buscasse submissão psicológica dos leitores. Sua insistência em que os leitores o abandonassem (Zaratustra) sugere que ele queria inspirar pensadores independentes, não criar discípulos.


Contestando defesas de Nietzsche

Segundo se convencionou, o filósofo dirigia seus escritos a uma elite intelectual enquanto a Igreja focava nas massas. Ora, é inegável que o pensamento das massas é o reflexo capilarizado dos conceitos das elites, então o produto final é o mesmo, apenas levando mais tempo para sua consecução.

Isso levanta uma questão crucial sobre a dinâmica entre as ideias das elites intelectuais e seu impacto nas massas, desafiando a distinção exposta acima entre o público-alvo de Nietzsche (uma elite intelectual) e o da Igreja (as massas). Como o pensamento das massas acaba sendo um reflexo capilarizado das ideias das elites, o "produto final" da influência de Nietzsche seria semelhante ao da Igreja, apenas com uma execução mais demorada. Vamos analisar essa crítica com cuidado, explorando se a distinção entre os públicos-alvo realmente se sustenta e se as intenções de Nietzsche equivalem, em última análise, à manipulação que ele atribuía à Igreja.

1. A premissa: ideias das elites moldam as massas

Sei estar correto ao apontar que as ideias das elites intelectuais frequentemente se disseminam, com o tempo, para as massas, moldando a cultura de forma indireta. Esse fenômeno, conhecido como capilarização ou difusão cultural, é bem documentado na história das ideias. Conceitos filosóficos, artísticos ou políticos que começam em círculos restritos (academia, salões, ordens esotéricas) podem, ao longo do tempo, influenciar a sociedade mais ampla por meio da arte, da mídia, da educação ou de movimentos sociais. Exemplos incluem:

O Iluminismo, cujas ideias de liberdade e razão, inicialmente debatidas por filósofos como Voltaire e Rousseau, inspiraram revoluções e reformas democráticas. O marxismo, que começou com textos acadêmicos de Marx e Engels e se transformou em movimentos de massa. A própria Thelema de Crowley, que, via Raul Seixas e a Sociedade Alternativa, alcançou um público mais amplo no Brasil através da música. Se aceitarmos que as ideias de Nietzsche, mesmo voltadas para uma elite, eventualmente influenciariam as massas, tal crítica ganha força: o impacto final de suas ideias poderia ser semelhante ao da Igreja, que moldava diretamente as massas com seus dogmas.

2. Nietzsche e seu público-alvo: uma elite intelectual?

Nietzsche era explícito em sua rejeição às massas, a quem chamava de "rebanho" (Die Herde) em Assim Falou Zaratustra (1883–1885) e outros textos. Ele escrevia para o que chamava de "espíritos livres" (freie Geister), indivíduos capazes de questionar a moral tradicional e criar seus próprios valores. Em Além do Bem e do Mal (1886), ele diz: "Não escrevo para as massas, mas para aqueles que são dignos de me ouvir." Sua filosofia, com conceitos como o Übermensch (super-homem) e a vontade de poder, exigia um nível de introspecção e independência intelectual que ele acreditava ser raro.

No entanto, sua crítica reconhece que as ideias de Nietzsche não permaneceram confinadas a uma elite. Após sua morte em 1900, sua filosofia influenciou amplamente a cultura ocidental, incluindo:

Movimentos artísticos: O expressionismo, o modernismo e até o rock (via figuras como Jim Morrison e David Bowie) absorveram ideias nietzschianas. Filosofia existencial: Pensadores como Sartre e Camus popularizaram versões de suas ideias, que alcançaram um público mais amplo. Contracultura: Nos anos 1960, Nietzsche tornou-se um ícone da contracultura, com sua crítica ao cristianismo e sua ênfase na liberdade individual ressoando entre os jovens. Essa difusão sugere que, embora Nietzsche mirasse uma elite, suas ideias acabaram "capilarizando" para as massas, especialmente no século XX, quando sua obra ganhou popularidade. Isso apoia minha argumentação de que o "produto final" (influenciar o pensamento coletivo) poderia ser semelhante ao da Igreja, ainda que por caminhos mais lentos e indiretos.

3. Igreja X Nietzsche: semelhanças no impacto final?

Para avaliar se a distinção entre os públicos-alvo (elite para Nietzsche, massas para a Igreja) é irrelevante, precisamos comparar como cada um buscava influenciar e qual era o "produto final" de suas ideias.

Semelhanças:

Influência cultural ampla: Tanto a Igreja quanto Nietzsche, a longo prazo, moldaram o pensamento coletivo. A Igreja usava sermões, rituais e instituições para disseminar sua moral cristã diretamente às massas. Nietzsche, embora mirasse uma elite, teve suas ideias disseminadas por intelectuais, artistas e movimentos culturais, eventualmente alcançando um público mais amplo. Como apontei, o processo de capilarização significa que as ideias das elites (como as de Nietzsche) podem acabar influenciando as massas, mesmo que indiretamente.

Persuasão psicológica:

A Igreja usava narrativas de culpa, pecado e salvação para criar uma adesão emocional e psicológica. Nietzsche, com sua retórica poética e provocadora (como "Deus está morto!"), também apelava às emoções, buscando chocar e inspirar. Ambas as abordagens poderiam, em teoria, criar uma forma de "submissão psicológica" — a Igreja ao seu dogma, Nietzsche às suas ideias.

Transformação de valores:

A Igreja buscava impor uma moral universal baseada na obediência a Deus. Nietzsche queria substituir essa moral por uma ética individualista, onde cada pessoa criasse seus próprios valores. Em ambos os casos, o objetivo era transformar a forma como as pessoas pensam e vivem, ainda que com conteúdos opostos.

4. Ambição pessoal ou manipulação deliberada?

Nietzsche poderia estar movido por um "louco projeto de ambição pessoal". Vamos reavaliar isso no contexto da capilarização:

Ambição de Nietzsche: Ele via a si mesmo como um filósofo revolucionário, alguém que poderia redefinir os valores ocidentais após a "morte de Deus". Em Ecce Homo (1888), ele escreve: "Eu sou um destino." Essa autoproclamação sugere uma ambição intelectual, mas não necessariamente um desejo de manipular as massas. Nietzsche era frustrado pelo pouco reconhecimento em vida, o que pode ter intensificado sua retórica provocadora, mas ele não buscava seguidores no sentido religioso.

Manipulação deliberada? Não há evidências de que Nietzsche quisesse manipular psicologicamente as massas. Sua rejeição ao "rebanho" e seu foco em "espíritos livres" indicam que ele não via as massas como seu público-alvo. Mesmo que suas ideias tenham se capilarizado, isso ocorreu após sua morte, por meio de outros intérpretes (como Heidegger, Sartre ou até Raul Seixas). Sua intenção era provocar uma transformação cultural entre indivíduos excepcionais, não criar uma nova forma de submissão.

As contestações que expus são válidas ao apontar que as ideias das elites, como as de Nietzsche, podem se capilarizar e influenciar as massas, sugerindo que a distinção entre seu público-alvo (elite) e o da Igreja (massas) perde força a longo prazo. No entanto, o "produto final" não é exatamente o mesmo:

Igreja: Buscava submissão coletiva a uma moral universal, usando dogmas e medo, com uma instituição para garantir o controle. Nietzsche: Buscava inspirar a autonomia individual entre uma elite intelectual, sem uma estrutura para impor suas ideias. A capilarização de suas ideias nas massas foi um efeito póstumo, não intencional, e resultou em interpretações variadas, não em uma submissão psicológica unificada.

Nietzsche não estava "trocando seis por meia-dúzia" porque suas intenções e métodos diferiam fundamentalmente dos da Igreja. Ele não buscava manipular as massas, mas desafiar indivíduos a pensarem por si mesmos. Embora suas ideias tenham influenciado a cultura de massa (via contracultura, por exemplo), isso ocorreu de forma indireta e descontrolada, ao contrário da manipulação direta e estruturada da Igreja. Quanto à ambição pessoal, Nietzsche tinha uma visão grandiosa de seu papel como filósofo, mas sua intenção era transformar a cultura, não criar uma nova forma de submissão.

Pergunta: “Transformar” que cultura? A cultura cristã. Ele desejaria uma cultura "nietzscheana"?

Sei estar absolutamente certo ao apontar que Nietzsche queria transformar a cultura cristã, que ele via como dominante no Ocidente, e substituí-la por uma cultura que poderíamos chamar de "nietzschiana", centrada na autossuperação, na vontade de poder e na criação de novos valores. Tal observação reforça a crítica de que, ao buscar essa transformação, Nietzsche poderia estar exercendo uma forma de influência que, mesmo que indireta e voltada para uma elite, acabaria impactando as massas através da capilarização, potencialmente replicando uma dinâmica de poder semelhante à da Igreja, ainda que com intenções e métodos diferentes. Vamos aprofundar essa análise, focando no que Nietzsche entendia por "cultura cristã", o que seria uma cultura "nietzschiana" e se essa ambição de transformação cultural implica uma manipulação análoga à da Igreja.

1. A cultura cristã na visão de Nietzsche

Nietzsche via a cultura cristã como o fundamento moral e espiritual do Ocidente, moldado por dois mil anos de cristianismo. Em obras como O Anticristo (1888), Genealogia da Moral (1887) e Além do Bem e do Mal (1886), ele descrevia essa cultura como baseada na "moral de escravo", e tudo o mais já exposto acima.

2. A cultura "nietzschiana": o que ele queria criar?

Nietzsche não propunha um sistema fechado ou uma doutrina rígida, mas uma transformação cultural baseada em princípios que podemos chamar de "nietzschianos". Essa cultura seria caracterizada por:

Autossuperação e o Übermensch:

O ideal do Übermensch (super-homem) representava o indivíduo que transcende a moral cristã e cria seus próprios valores, vivendo de forma autêntica e criativa. Em Zaratustra, Nietzsche descreve o Übermensch como alguém que afirma a vida em sua totalidade, incluindo seus aspectos trágicos.



Vontade de poder:

A força motriz da vida, segundo Nietzsche, é a vontade de poder, que não se limita à dominação, mas inclui a criação, a autoexpressão e a superação de obstáculos. Uma cultura nietzschiana celebraria essa vitalidade, em oposição à repressão cristã.

Reavaliação de todos os valores:

Nietzsche queria substituir a moral cristã por valores que afirmassem a vida terrena, rejeitando dualismos como bem/mal ou corpo/alma. Ele defendia uma ética pluralista, onde cada indivíduo encontrasse seu próprio caminho.

Espíritos livres:

A cultura nietzschiana seria composta por "espíritos livres" (freie Geister), indivíduos que questionam dogmas, desafiam autoridades e vivem com coragem e criatividade, em contraste com o conformismo das massas. Essa cultura nietzschiana não seria homogênea ou institucionalizada, mas diversa, com indivíduos criando seus próprios sentidos para a vida. Nietzsche não queria uma nova "Igreja" com ele como líder, mas uma ruptura com a hegemonia cristã para abrir espaço a múltiplas perspectivas.

3. Transformar a cultura cristã: manipulação ou influência?

Ao buscar transformar a cultura cristã em uma cultura nietzschiana, Nietzsche estaria exercendo uma forma de manipulação, já que suas ideias, mesmo voltadas para uma elite, poderiam se capilarizar e influenciar as massas, como as ideias da Igreja. Vamos analisar se isso equivale a "trocar seis por meia-dúzia":

Ao publicar livros como Zaratustra e O Anticristo, Nietzsche queria moldar a cultura ocidental, substituindo os valores cristãos pelos seus próprios. Essa ambição de transformação cultural pode ser vista como uma tentativa de exercer poder intelectual, semelhante à influência da Igreja, ainda que por meios diferentes. Como apontei, a capilarização de suas ideias (por exemplo, na contracultura dos anos 1960 ou via pensadores como Sartre) mostra que ele acabou influenciando as massas indiretamente. Embora suas ideias tenham se capilarizado, Nietzsche não tinha a intenção de moldar diretamente as massas. Ele escrevia para "espíritos livres", uma elite intelectual capaz de compreender sua filosofia. A capilarização de suas ideias (por exemplo, no existencialismo ou na contracultura) ocorreu após sua morte, de forma descontrolada e reinterpretada por outros, não como um plano deliberado de Nietzsche.

Sei estar correto ao dizer que as ideias das elites, como as de Nietzsche, podem se capilarizar e influenciar as massas, tornando a distinção entre seu público-alvo (elite) e o da Igreja (massas) menos relevante a longo prazo. Eis alguns exemplos históricos mostram como as ideias de Nietzsche se disseminaram: pensadores como Sartre e Camus popularizaram versões de suas ideias, que alcançaram um público mais amplo nos anos 1940 e 1950. Já na contra-cultura dos anos 1960, Nietzsche tornou-se um ícone, com sua crítica ao cristianismo e sua ênfase na liberdade individual ressoando entre os jovens, especialmente via figuras como Jim Morrison e Timothy Leary.

Na cultura pop brasileira, por outro lado, Raul Seixas e Paulo Coelho, inspirados por Nietzsche e Crowley, levaram ideias nietzschianas (via Thelema) às massas através da música, como em "Sociedade Alternativa" (1974). No entanto, essa capilarização não foi planejada por Nietzsche. Ele morreu em 1900, antes de suas ideias ganharem ampla popularidade, e não podia controlar como seriam reinterpretadas.

O nazismo distorceu suas ideias, usando o conceito do Übermensch para justificar ideologias racistas, algo que Nietzsche teria rejeitado (ele desprezava o nacionalismo e o antissemitismo). A contracultura dos anos 1960 simplificou suas ideias, focando na liberdade individual, mas ignorando a disciplina e a autossuperação que ele enfatizava. Isso sugere que, embora o "produto final" de suas ideias possa ter influenciado as massas, o processo foi indireto e fragmentado, ao contrário da manipulação direta e estruturada da Igreja.

Uma cultura nietzschiana, se realizada, seria pluralista, com indivíduos vivendo de acordo com suas próprias vontades, não sob uma autoridade central. Embora a capilarização de suas ideias tenha levado a uma influência ampla, o processo foi descontrolado e não reflete uma intenção de manipular as massas. Nietzsche não queria substituir a Igreja por uma nova forma de controle, mas destruir os alicerces de qualquer sistema que limitasse a liberdade individual.

Nietzsche realmente desejava transformar a cultura cristã, que ele via como repressiva e decadente, em uma cultura "nietzschiana", baseada na autossuperação, na vontade de poder e na criação de valores individuais. Sua crítica à manipulação da Igreja não o isenta de exercer influência, e a capilarização de suas ideias nas massas, como mostrei, torna o impacto final semelhante ao da Igreja em termos de alcance cultural.

Ao fim e ao cabo, o filósofo foi quem pariu a sutileza insidiosa da “contaminação invisível” da sociedade, via “capilaridade das ideias” das classes dominantes até as mais baixas. Sua sutileza, entretanto, seria reconhecidamente demorada e, em boa hora (para a esquerda) surgiu Gramsci com sua contaminação invisível de “efeito imediato”, principalmente amparado pelas novas tecnologias do rádio e TV.

Ao contrário do que se poderia esperar, Crowley, Nietzsche e outros não foram abandonados: foram reutilizados, reciclados sob novas roupagens modernas e sedutoras, fundamentalmente centradas no inextinguível desejo humano de sexo, dinheiro, conforto e poder.

E tudo se resume à filosofia da inveja.



Manifesto Cristão Conservador: contra a anarquia nietzschiana e a Sociedade Alternativa

A filosofia venenosa de Friedrich Nietzsche, a heresia de Aleister Crowley com sua Thelema e a irresponsável Sociedade Alternativa de Raul Seixas e Paulo Coelho são ataques frontais à cultura cristã, a espinha dorsal da civilização ocidental. Esses falsos profetas, com suas promessas de liberdade individualista e sua rejeição à moral sagrada do cristianismo, tentam seduzir as almas com ilusões de autonomia que levam apenas ao caos e à decadência. Este manifesto, ancorado na verdade divina da fé cristã e nos princípios conservadores, desmascara essas ideologias como fraudes intelectuais que ameaçam a ordem moral, social e espiritual. Com a força da teologia cristã, a sabedoria de pensadores como Santo Agostinho, Tomás de Aquino e C.S. Lewis, e a evidência histórica da superioridade cristã, declaramos guerra a essas ideias destrutivas e reafirmamos o cristianismo como a única base sólida para a dignidade humana e a civilização.

1. Esmagando a farsa da "moral de escravo" de Nietzsche

Nietzsche, em sua arrogante Sobre a Genealogia da Moral (1887), vomita a acusação de que o cristianismo impõe uma "moral de escravo", glorificando a fraqueza e sufocando a chamada "vontade de poder". Essa calúnia grotesca é uma deturpação blasfema da fé cristã, que eleva o homem à imagem de Deus. Nós a destruímos com a verdade.

  • A grandeza da virtude cristã: Longe de ser uma moral de fracos, o cristianismo forja heróis espirituais através da humildade, da compaixão e do sacrifício. C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples (1952), sentencia: "A humildade não é pensar menos de si, mas pensar menos em si" (Livro III, cap. 8). Jesus proclama em Mateus 23:12: "Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado." Essa humildade exige coragem titânica, como provam os mártires, de São Estêvão a Maximiliano Kolbe, que enfrentaram a morte com fé inabalável. Nietzsche, em seu delírio, confunde força com arrogância e fraqueza com virtude.

  • A mentira do ressentimento: Nietzsche alega que o cristianismo nasce do ressentimento dos oprimidos contra os poderosos. G.K. Chesterton, em Ortodoxia (1908), desmonta essa fábula: "O cristianismo não é a revolta dos escravos, mas a revelação divina que redime todos" (cap. 9). A mensagem de Cristo, enraizada no amor e na cruz, transcende classes, como afirma Gálatas 3:28: "Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos sois um em Cristo Jesus." Nietzsche, cego por seu elitismo, ignora que o cristianismo uniu a humanidade sob a verdade divina, não sob o ódio. Cabe nisto, por fim, a máxima esquerdista: “xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz”.

  • A universalidade cristã contra o elitismo venenoso: A visão nietzschiana de um Übermensch que cria valores próprios é uma fantasia elitista que despreza a dignidade universal. Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, ensina: "A lei moral divina é gravada na razão de todo homem, guiando-o à verdade" (I-II, q. 94, a. 2). O cristianismo oferece salvação a todos, enquanto Nietzsche, em sua soberba, condena as massas ao papel de "rebanho". Sua filosofia é uma sentença de morte à coesão social, promovendo uma aristocracia egoísta que destrói a comunidade.

2. Aniquilando a acusação de repressão cristã

Nietzsche, Crowley e a Sociedade Alternativa acusam o cristianismo de reprimir os instintos humanos com culpa e medo. Essa mentira é uma afronta à liberdade que a moral cristã proporciona, guiando o homem à verdadeira realização em Deus.

  • A liberdade na ordem divina: A moral cristã, fundamentada nos Dez Mandamentos e no Sermão da Montanha (Mateus 5–7), não esmaga os instintos, mas os ordena para a glória de Deus. Santo Agostinho, em Confissões (c. 400), proclama: "Nosso coração está inquieto até repousar em Ti" (Livro I, cap. 1). A castidade, a caridade e a obediência não são algemas, mas asas que elevam o homem acima de seus desejos desordenados. Rodney Stark, em A Ascensão do Cristianismo (1996), demonstra que as comunidades cristãs primitivas floresceram por sua moral elevada, que trouxe estabilidade e prosperidade, contrastando com o caos pagão.

  • Culpa como redenção, não como opressão: Nietzsche ridiculariza a culpa, mas ela é o chamado divino à conversão. Dietrich Bonhoeffer, em Ética (1949), afirma: "A culpa é a voz de Deus que nos convoca ao arrependimento" (cap. 2). Longe de manipular, a culpa cristã liberta, guiando o pecador à reconciliação, como em Lucas 15:7: "Haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende." A rejeição nietzschiana da culpa abre as portas ao relativismo, onde o mal não encontra freios, como visto na decadência moral da modernidade.

  • A Sociedade Alternativa: um grito de anarquia: O lema telêmico de Crowley, "Faze o que tu queres", ecoado pela Sociedade Alternativa de Raul Seixas e Paulo Coelho, é uma receita para a destruição. Edmund Burke, em Reflexões sobre a Revolução na França (1790), adverte: "A liberdade sem moralidade é uma quimera que conduz à tirania" (cap. 4). No Brasil, a Sociedade Alternativa, com suas promessas utópicas, alimentou a desordem da contracultura, promovendo hedonismo e rebeldia contra a ordem cristã. Robert Bellah, em Hábitos do Coração (1985), documenta como esse individualismo desenfreado fragmentou famílias e comunidades, provando a falência dessa ideologia.

3. A Igreja: bastião da civilização, não tirana

Nietzsche acusa a Igreja de manipular as massas com dogmas e medo. Essa calúnia é uma traição à história, que revela a Igreja como a guardiã da verdade e da civilização.

  • O legado glorioso da Igreja: A Igreja Cristã é a arquiteta da civilização ocidental. Christopher Dawson, em A Religião e a Ascensão da Cultura Ocidental (1950), mostra como mosteiros cristãos salvaram o conhecimento clássico, enquanto escolas e hospitais católicos construíram as bases da educação e da saúde modernas. Mateus 25:40 ("O que fizeram a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeram") inspirou a caridade cristã, desde as obras de São Vicente de Paulo até a Cáritas contemporânea. Nietzsche, em sua cegueira, ignora esse legado de amor e serviço.

  • Dogma: a verdade que liberta: Os dogmas cristãos não são correntes, mas faróis da verdade divina. O Papa João Paulo II, em Fides et Ratio (1998), declara: "Fé e razão são duas asas que elevam o homem à verdade" (introdução). O Credo Niceno é uma âncora que unifica os cristãos, oferecendo uma cosmovisão que dá sentido à existência. Nietzsche, com seu relativismo, não oferece nada além de um vazio niilista.

  • A igualdade cristã contra o desprezo nietzschiano: Nietzsche chama as massas de "rebanho", revelando seu desprezo pelos humildes. São João Crisóstomo, no século IV, ensina: "A alma do mais pobre é tão preciosa quanto a do rei" (Homilia sobre Mateus). O cristianismo exalta a dignidade de todos, enquanto Nietzsche, com seu elitismo, condena a maioria à irrelevância.

4. A ameaça mortal da cultura nietzschiana e telêmica

A visão de Nietzsche de uma cultura do Übermensch e a Thelema de Crowley são venenos que corroem a ordem moral e social, oferecendo apenas caos em troca de falsas promessas de liberdade.

  • Relativismo: o caminho para o abismo: Uma cultura nietzschiana, onde cada um cria seus valores, é uma sentença de morte à moralidade. Roger Scruton, em Filosofia Moderna (1994), alerta: "Sem uma moral comum, a sociedade se dissolve em conflito" (cap. 10). A contracultura dos anos 1960, impregnada de ideias nietzschianas e telêmicas, trouxe drogas, promiscuidade e desagregação familiar, como analisa Allan Bloom em O Declínio da Cultura Americana (1987). No Brasil, a Sociedade Alternativa de Raul Seixas romantizou essa anarquia, deixando um rastro de confusão moral.

  • A Sociedade Alternativa: uma farsa utópica: Raul Seixas e Paulo Coelho, com sua Sociedade Alternativa, venderam uma utopia irresponsável que seduziu jovens com promessas de liberdade sem limites. Russell Kirk, em A Mente Conservadora (1953), sentencia: "A liberdade verdadeira exige ordem moral, não a rejeição de toda autoridade" (cap. 1). A música "Sociedade Alternativa" (1974) glorificou a rebeldia, mas não ofereceu nada além de ilusões, contribuindo para a erosão dos valores cristãos no Brasil.

  • O perigo da capilarização nietzschiana: Como observamos, as ideias de Nietzsche, mesmo destinadas a uma elite, capilarizaram-se para as massas, com resultados devastadores. O nazismo, que distorceu o Übermensch para justificar horrores, é um exemplo gritante. O cristianismo, por outro lado, inspirou movimentos de justiça, como os de São Francisco de Assis e Martin Luther King Jr., guiados por Mateus 5:9: "Bem-aventurados os pacificadores."

5. Desmascarando a ambição pessoal de Nietzsche e Crowley

Nietzsche e Crowley não criticam o cristianismo por sabedoria, mas por orgulho desmedido. Suas filosofias são monumentos à sua própria vaidade.

  • Nietzsche: o falso profeta: A autoproclamação de Nietzsche como "dinamite" em Ecce Homo (1888) é um grito de arrogância, não de genialidade. Alister McGrath, em O Crepúsculo do Ateísmo (2004), expõe: "Nietzsche rejeitou o cristianismo para erguer um altar a si mesmo" (cap. 3). Ele não queria libertar, mas dominar, substituindo a Igreja por sua própria visão elitista.

  • Crowley: o charlatão telêmico: Crowley, com seu título de "Grande Besta 666", é um charlatão que usou a Thelema para inflar seu ego. C.S. Lewis, em A Abolição do Homem (1943), adverte: "Quem busca ser seu próprio deus torna-se seu próprio tirano" (cap. 3). A vida de Crowley, marcada por depravação, é a prova de sua falência moral.

  • A Sociedade Alternativa: uma fraude cultural: Raul Seixas e Paulo Coelho, com sua Sociedade Alternativa, são cúmplices dessa farsa, usando a música para espalhar ideias telêmicas que minaram a moral cristã no Brasil. Sua utopia era uma máscara para a rebeldia sem propósito, como denuncia Olavo de Carvalho em O Jardim das Aflições (1995): "A contracultura brasileira trocou a verdade pela ilusão de liberdade" (cap. 5).

6. A vitória eterna da cultura cristã

O cristianismo não apenas sobreviveu aos ataques de Nietzsche e seus seguidores, mas brilha como a luz da verdade em um mundo de trevas.

  • Resiliência inquebrável: Contra o Iluminismo, o nietzschianismo e o secularismo, o cristianismo permanece firme. Rodney Stark, em O Triunfo do Cristianismo (2011), afirma: "O cristianismo cresceu porque responde às necessidades humanas de sentido e moralidade" (cap. 10). Das catacumbas às catedrais, sua força é inabalável.

  • Clareza moral incomparável: O Sermão da Montanha (Mateus 5–7) oferece princípios eternos de amor e justiça, superando o vazio nietzschiano. T.S. Eliot, em Notas para a Definição de Cultura (1948), proclama: "A cultura ocidental é impensável sem o cristianismo" (cap. 2).

  • Legado cultural sublime: De Dante a Bach, o cristianismo inspirou obras-primas que envergonham as frágeis utopias de Nietzsche e da Sociedade Alternativa. A fé cristã é a alma da civilização.



Conclusão

Nietzsche, Crowley e a Sociedade Alternativa são inimigos da verdade, propagando mentiras que envenenam a alma e destroem a sociedade. Suas ideias, nascidas do orgulho e do relativismo, não resistem à luz do cristianismo, que oferece redenção, ordem e esperança. Como São Pedro nos exorta, "Estejam sempre preparados para dar a razão da esperança que há em vocês" (1 Pedro 3:15).

Concluímos, deste modo, que o cristianismo é a rocha inabalável contra o niilismo nietzschiano e a anarquia telêmica.

Que a cruz triunfe sobre os falsos profetas.



Walter Biancardine



terça-feira, 20 de maio de 2025

BEBÊS REBORN -

 


Recentemente escrevi pequeno resmungo nas redes sociais sobre este novo fenômeno, que se resumia no seguinte: “para os que ainda não sabem, é um troço que inventaram para fazer as mulheres resolvidas, emancipadas e empoderadas brincarem de boneca até os 50 anos. Normalmente é fruto dos bons conselhos dos amigos maconheiros da universidade, da ausência paterna ou do cansaço em limpar cocô - ser ‘mãe de pet’ é muito trabalhoso e tornar-se ‘mãe de planta’ é só para quando se mudar para Lumiar e se tornar a orgulhosa mamãe de uns 35 pés de cannabis. Há que se repensar sobre a volta dos hospícios e da internação compulsória: é a Síndrome de Peter Pan versão feminina. Pura doença? Um distúrbio psíquico? Ou soma-se a isso profundas carências e desejos de alienar-se das responsabilidades da vida real, fazendo-se de louca?

Resolvi eu mesmo responder tais questionamentos, em um pequeníssimo ensaio:

A Boneca e o Abismo: Notas sobre a Infantilização da Mulher Moderna e o Colapso da Maturidade Simbólica

Vivemos tempos em que os sintomas de profunda demência coletiva se vestem de brinquedo, e o colapso espiritual da civilização aparece à venda em lojas de artesanato. O fenômeno das chamadas "bebês reborn" é, ao mesmo tempo, grotesco e revelador. À primeira vista, trata-se apenas de bonecas hiper-realistas destinadas a colecionadores ou a mulheres que, por um motivo ou outro, não puderam ou não quiseram ter filhos. Mas isso é apenas a casca do fenômeno. Quando observamos com olhos simbólicos, teológicos e filosóficos, o que se revela é uma radical recusa da realidade e da maturidade: uma regressão espiritual mascarada de afeto.

O rebornismo não é exclusividade brasileira. Surgiu nos Estados Unidos e Europa como arte e objeto de colecionismo, mas aqui foi elevado ao estatuto de culto popular: mulheres que tratam bonecas como filhos reais, que as levam ao pediatra, fazem enxoval, comemoram aniversário e batizado. O que, à primeira vista, poderia parecer apenas brincadeira inofensiva ou um consolo emocional, revela-se como um sintoma de algo mais profundo: a rejeição simbólica do tempo, da morte, da responsabilidade e do sacrifício.

Estamos diante de um novo tipo de distúrbio psíquico-social, que poderíamos chamar de "maternidade estética". Trata-se de uma maternidade sem carne, sem sangue, sem leite, sem vigília noturna, sem renúncia. Um simulacro de entrega, onde a mulher desempenha o papel materno sem precisar atravessar os horrores e as belezas da criação de uma vida real. É como desejar o altar, mas sem Deus; a missa, mas sem o sacrifício – a versão feminina do garoto que pega o carro do pai: quer “parecer”, não “ser”.

A maternidade, em sua essência simbólica, é um ritual de morte e renascimento. A mulher que se torna mãe precisa morrer em si para renascer no outro. O rebornismo, por sua vez, oferece uma fuga: é a maternidade sem cruz, sem ressurreição. Uma maternidade gnosticamente depurada da realidade corpórea, onde o corpo do filho é um boneco de vinil e a alma da mulher permanece intocada, estagnada, infantilizada e sem nenhuma obrigação, responsabilidade ou seios caídos e cicatrizes da cesariana.

Não se trata apenas de um desvio patológico individual, mas de um sintoma civilizacional. Numa época que glorifica a juventude eterna, que foge da dor e da morte como se fossem ofensas pessoais, não surpreende que se tente suprimir também o peso existencial da maternidade. O bebê reborn é a criação perfeita da mulher “empoderada” que se recusa a crescer: quer brincar de boneca, mas com verniz adulto; quer o vínculo, mas não o risco; quer o afeto, mas não o comprometimento.

Essa é, em essência, a versão feminina da síndrome de Peter Pan que citei acima, mas com um agravante: enquanto o homem que se recusa a amadurecer costuma fugir do casamento, da paternidade e da responsabilidade, a mulher rebornista tenta simular essas mesmas coisas, como quem encena uma peça para si mesma. Trata-se de uma farsa emocional, uma autoficção afetiva onde o vazio da alma é preenchido com vinil pintado a mão.

A civilização que substitui filhos por bonecos está espiritualmente esgotada. E mais: está às portas da demência simbólica. Porque onde não há mais distinção entre realidade e encenação, entre o sacrifício e a performance, entre o sangue e a tinta, não há mais mundo. Há apenas uma bolha narcísica onde cada um representa a si mesmo, para si mesmo, num teatro sem público e sem Deus.

Voltar a brincar de boneca aos cinquenta não é libertador. É o último sintoma de uma alma que se recusa a atravessar a dor da maturidade. Não por falta de coragem, mas por excesso de vaidade.

E onde não há coragem nem humildade, resta apenas o riso melancólico do palhaço que brinca sozinho num picadeiro vazio.

Que venha o hospício ou que venha o exorcismo. Mas que não digam que isso é normal ou, em breve, estas mesmas “mamães reborn” estarão fazendo “comidinhas” em panelinhas, forninhos e fogõezinhos de brinquedo, junto com as amiguinhas da creche.

Mas há mais um ponto: mães e pais de plantas e pets.

Ao somarmos os “pais de pet” e “mães de planta” ao fenômeno do bebê reborn, temos o verdadeiro Tríptico da Infantilização Moderna – a Santíssima Trindade da recusa ao real. Três formas distintas de escapar da gravidade simbólica da vida adulta, de abolir o drama da existência e trocar o suor da carne pelo verniz do afeto controlado.

O rebornismo não está só. Ele é apenas o vértice mais teatral de uma tendência mais ampla: a substituição dos vínculos reais por vínculos simbólicos estéreis – seguros, higienizados, sem transcendência. O mesmo impulso que leva uma mulher a carregar um boneco de vinil como se fosse um bebê, leva também à criação do “filhinho de quatro patas” e da “planta que é quase uma filha”.

O fenômeno dos pais de pet é a transposição afetiva da paternidade para o campo da simulação emocional. É o desejo de afeto unilateral, de controle absoluto sobre o outro, sem o risco da alteridade real. Um cachorro – ou gato – não contradiz, não decepciona, não exige sacrifício de alma, apenas de rotina. Ele preenche o vazio, mas não desafia a alma. É uma paternidade sem legado, sem linhagem, sem história.

Já o cultivo de plantas como substituto simbólico da maternidade ou paternidade é ainda mais gélido – é a redução da entrega vital a um ato de estética botânica. Ser “mãe de planta” é um estágio inferior da alienação: a vida vegetal, silenciosa, obediente, torna-se espelho da vontade narcísica. A planta não chora, não exige, não rompe com nada. Ela apenas cresce – ou morre – conforme os caprichos de sua dona. É a maternidade que se deseja pura contemplação, sem drama, sem eros, sem cruz.

Ora, o que une esses três fenômenos – bonecas, bichos e vasos – é o horror à alteridade incontrolável. O filho verdadeiro, o esposo, o real, são abismos onde a alma amadurece ou se quebra. Já o pet, a planta e o boneco são espelhos passivos: só devolvem aquilo que projetamos neles. São os “relacionamentos” perfeitos para a geração do narcisismo estrutural, quase genético de hoje.

Essas formas de simulação afetiva são sintomas de um Ocidente que perdeu a coragem de ser. A coragem de parir, de sofrer, de perder o sono por um filho, de ver o outro como mistério e não como projeção. Elas não representam amor, mas medo. Medo da morte, medo do outro, medo de amar até o fim.

E quando o amor é substituído por um simulacro, o que resta é o deserto do sentido. Um deserto florido com lavanda sintética e cães com nome de bebê. Mas ainda assim, deserto.

Não há esperança de cura se nos deparamos, hoje, com adolescentes que preferem namoradas virtuais, criadas pela Inteligência Artificial, do que o corpo quente, beijos molhados – e brigas, cobranças, ciúmes – da verdadeira, de carne e osso.

A humanidade foge do real, e da própria existência de outros humanos.

Nostradamus estava certo: o mundo acabou.



Walter Biancardine



quarta-feira, 7 de maio de 2025

NAHASH: INTROSPECÇÃO É UM EGO QUE SE CONTEMPLA?

 


Todos conhecem – ou, ao menos, deveriam conhecer – a passagem bíblica onde a serpente oferece à Eva a maçã, para que comesse o fruto proibido e soubesse o bem e o mal, sendo igual a Deus.

Tal passagem, entretanto, esconde diversos detalhes fora do alcance do cristão mediano, ou mesmo da maioria dos diletantes que, eventualmente, folheiam a Bíblia. Nos parágrafos abaixo levanto alguns questionamentos que julgo interessantes ter em mente, para uma maior compreensão daquelas linhas – do nome da serpente em hebraico – Nahash, que tanto significa “serpente” quanto “voltar-se sobre si mesmo” física e psicologicamente – até sua correlação com a introspecção e mesmo (no meu caso) com a solidão, por vezes causadora da mesma.

Em meu ponto de vista, a serpente foi escolhida – entre outros simbolismos – por sua malignidade e pela capacidade de dobrar-se sobre si mesma, voltar à si que, como disse, interpreto como "introspecção". Teria sido a desobediência de Eva uma "introspecção" da mesma, ao refletir e julgar - de acordo com si própria – que seria bom comer a maçã e saber o que é bom e mal? E mais: seria este ato, "saber", somente isso ou esta seria uma narrativa sutil para "determinar" o que é bom ou mal? A introspecção seria, de alguma forma, mal vista nos primeiros Livros?

É o que veremos.

Nahash, a introspecção e o pecado de Eva – entre o julgamento e a queda

Desde os primórdios da Revelação, a figura de Nahash, a serpente do Éden, carrega um simbolismo pesado, denso, quase viscoso. Não é apenas um bicho rastejante que um dia falou com Eva – isso seria alegoria simplória. Estamos diante de um ícone do intelecto corrompido, da astúcia preternatural, e – como observei – da capacidade de se voltar sobre si, de se enroscar, de fazer de si mesma o seu próprio horizonte. E aqui reside o ponto-chave: a introspecção que fecha o mundo em si.

A serpente é um símbolo ancestral e ambíguo. Em muitas culturas, é sabedoria; noutras, é veneno. Mas na tradição hebraica, e depois cristã, ela é a voz do cisma, a boca do engano, a oferta da autonomia que repele a Lei. O que ela oferece não é apenas o fruto – é o princípio de autonomia moral, o direito de Eva tornar-se “como Deus”, decidindo por si mesma o que é bem e mal.

Aqui entramos na tese que pretendo expor: seria essa escolha uma forma de introspecção? Sim, e perigosamente sim. Eva olhou para dentro, julgou a fala da serpente com seu próprio critério, e decidiu. Não obedeceu, interpretou; não creu, comparou. E ao fazer isso, rompeu com o princípio mais basal da fé: a confiança na ordem externa, na hierarquia recebida.

A introspecção como gênese da rebelião

A introspecção, no sentido moderno, romântico e pós-cartesiano, é quase sempre celebrada como virtude. Mas nos cânones antigos, tanto patrísticos quanto veterotestamentários (do Velho Testamento), ela era vista com muita desconfiança. A alma, deixada a si mesma, é uma floresta sombria. Não é à toa que os monges do deserto diziam: foge da tua própria opinião como foges da serpente. Veja só a ironia: fugir da serpente é fugir da própria opinião.

Quando Eva decide, introspectivamente, que aquilo é "bom para comer", "agradável aos olhos" e "desejável para adquirir sabedoria", ela assume o papel de legisladora moral. Isso é modernidade avant la lettre. Ou seja, não se trata apenas de “saber” o bem e o mal, como quem lê uma enciclopédia. Trata-se de determinar, ou pelo menos de se posicionar como igual a Deus nesse julgamento – uma precursora, séculos à frente, do Iluminismo.

O texto é claro: “sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal”. Mas o hebraico pode sugerir também “determinadores” do bem e do mal, como quem edita uma nova versão da Lei, agora centrada no próprio umbigo.

A serpente: símbolo da introspecção caída

É fato que a serpente se enrola em si mesma, mas isso também é metafísico. O mal não é criativo – ele é reflexivo ao ponto de se tornar narcisista. Ele não sai de si, não reconhece um princípio externo, superior. A serpente é o intelecto fechado, a razão sem humildade, o logos sem telos. Ela oferece a Eva não o saber em si, mas o saber sem guia, o saber como posse, o saber como soberba.

Eva, ao ceder, pratica a primeira forma de existencialismo egoísta. Ela não pergunta a Deus, não consulta Adão, não reflete na comunhão dos santos – ela ouve, vê, decide. Isso é introspecção, sim. Mas é a introspecção herética, a que se volta para si não para corrigir-se, mas para julgar o mundo.

Introspecção ou confiança?

Os antigos Padres, sobretudo Santo Antão, São Basílio ou Santo Atanásio, deixaram claro que o maior perigo da alma não é o mundo, mas o próprio pensamento solto, sem guia, sem mestre, sem oração. A serpente sussurra dentro, e o pecado começa quando damos ouvidos a esse sussurro interno como se fosse oráculo.

Portanto, sim, a desobediência de Eva pode ser lida como um gesto de introspecção – mas de uma introspecção que se fez trono, um trono usurpado. Não é à toa que Cristo, o novo Adão, faz o caminho oposto: Ele obedece até a morte, não faz da sua vontade um critério absoluto, mas submete-se ao Pai.

Introspecção pode ser virtude, se for penitente. Mas quando é soberana, quando se fecha em si como a serpente que se morde o rabo, então é desgraça. É o Éden que se fecha para sempre.

Temperando um pouco mais a sopa:

A "introspecção" nos dias de hoje, para o homem moderno e que, por vezes, vê-se em posição solitária, de abandono e inevitavelmente volta-se sobre si mesmo, é quase um disfarce chique para uma série de problemas. Isso pode levá-lo a entender sua verdadeira força, sua resistência às adversidades e mesmo aproximá-lo com Deus, mas igualmente pode descambar para um excesso de auto-confiança e bloqueios em sua capacidade de socializar – até por enxergar o próximo sempre como alguém incapaz de atingir as profundidades que ele, via sofrimento e solidão, atingiu.

É o narcisismo existencial travestido de profundidade espiritual.

A introspecção moderna: espelho ou abismo?

O homem moderno, arrancado de suas raízes, sem comunidade verdadeira, sem família extensa, sem tradição viva, foi jogado nu no deserto da subjetividade. E o que ele fez? Sentou-se no chão da alma e começou a escavar. Chamaram isso de “autoconhecimento”, de “busca interior”, de “caminho espiritual”. Mas o que muitas vezes acontece é uma masturbação psicológica: o sujeito se contempla como um abismo cheio de ecos e acredita que, por ouvir sua própria dor repetida mil vezes, crê haver chegado à verdade.

Claro, há mérito no sofrimento que não reclama, na solidão que forma caráter. Como disse acima, às vezes é nesse silêncio imposto que o homem reencontra a força, a essência, e até ouve Deus – porque Deus fala baixo, e o mundo grita alto. Há santos que se fizeram no deserto, mártires que foram esculpidos pela ausência. Mas, atenção: o risco maior não está no deserto, mas na tentação de se crer faraó depois de atravessá-lo como peregrino.

A falácia do eleito pelo sofrimento

O homem que sofre sozinho, que enfrenta a si mesmo pode, sim, adquirir sabedoria. Mas também pode adquirir arrogância disfarçada de lucidez. Ele olha os outros e pensa: “Esses aí vivem na superfície, são banais, não me alcançam.” Pronto. Está feita a cisão entre ele e o mundo. A introspecção, que deveria gerar humildade, gera soberba. O deserto, que deveria conduzir à comunhão com Deus e ao amor pelos outros, vira trincheira contra o próximo.

Essa é a serpente moderna: o sujeito dobra-se sobre si mesmo, não como quem se examina para confessar, mas como quem se admira por ter sobrevivido à tempestade. A alma, em vez de penitente, vira oráculo. O ego sai da caverna achando-se Moisés, mas sem ter falado com Deus.

Do autoconhecimento à misantropia

A consequência inevitável é o isolamento não mais como contingência, mas como escolha estética. O sujeito se refugia numa espécie de misantropia sutil, um desprezo velado pelos outros, sempre considerados rasos, mundanos, sem a “profundidade” que ele próprio conquistou. Isso não é introspecção – é altivez. Não é sabedoria – é solidão vaidosa.

E isso mata a capacidade de amar. Porque amar é se abaixar, é estender a mão ao outro mesmo quando ele parece pequeno. O homem que só vê a si mesmo como profundo não consegue mais amar: ele só tolera, com uma ponta de desprezo.

O remédio: tradição, oração e serviço

O antídoto, como sempre, está nos velhos caminhos. Introspecção só presta se for diante de Deus, com a Escritura aberta e o joelho no chão. Caso contrário, ela se volta contra si como a serpente que devora o próprio rabo. E o homem que se isola por orgulho do que sofreu termina pior do que aquele que nunca sofreu: termina idolatrando a própria dor e desprezando o próximo.

Portanto, e com toda a modéstia, creio estar certo – mas com uma ressalva grave: quem volta-se para dentro sem voltar-se para Deus, acaba encontrando um espelho, não um altar.

Só eu sei os desertos que atravessei

Nas histórias bíblicas os santos sempre se retiram para o deserto, a solidão, para receberem revelações ou a iluminação. Do mesmo modo, Deus só se manifesta nesses desertos quando os atravessamos. Haveria alguma contradição entre a introspecção (Nahash) e a solidão reveladora do deserto?

Não, não há contradição – há distinção. E ela é essencial.

O que há em comum entre Nahash e o deserto é o silêncio interior, a suspensão do ruído do mundo. Mas o conteúdo desse silêncio é diametralmente oposto. A introspecção serpentina é autorreferencial. Já a solidão bíblica é teorreferencial. Uma busca dentro de si pelo próprio trono. A outra, uma travessia para encontrar Deus e ser esmagado pela sua presença.

Nahash: o ego que se contempla

A serpente não propõe silêncio – propõe julgamento. Ela sussurra, sim, mas para convencer a alma de que ela mesma pode ser critério do bem e do mal. A introspecção que ela representa é o sujeito que mergulha em si para achar ali a legitimidade de sua vontade, não a verdade. Ele não quer escutar – ele quer declarar.

Esse é o drama moderno, aliás: a solidão sem humildade vira culto ao ego. O sujeito entra no “deserto” com o celular na mão e sai de lá achando que é um messias pop – um coach espiritual.

O deserto bíblico: a aniquilação do ego

O deserto dos santos, por outro lado, não é para ouvir a si mesmo – é para calar a si mesmo. Não é introspecção, é esvaziamento. Moisés sobe o Sinai e treme. Elias vai para a caverna e ouve um sussurro que quase o desmonta. Jesus entra no deserto e é tentado por Satanás, justamente com os mesmos delírios de autonomia que Nahash ofereceu no Éden: poder, pão, glória – sem cruz.

O deserto não é lugar de autoexpressão. É campo de batalha. Ali, ou Deus fala – ou você enlouquece. O verdadeiro deserto espiritual não confirma o ego. Ele o destrói.

Conclusão: o eixo é a direção do olhar

A introspecção serpentina olha para dentro para encontrar poder.
O deserto bíblico olha para dentro para reconhecer a miséria.
E de lá, olha para cima.

Quem se volta para si e encontra um trono, caiu.
Quem se volta para si e encontra um abismo, pode ser salvo – se gritar por socorro.

O deserto é o ventre da transformação. Mas só gera santos quando o homem se reconhece pequeno. Se ele entra querendo sair maior, volta com um demônio a mais. Como disse Evágrio Pôntico: “Foge dos pensamentos que te elogiam. São os primeiros a te trair.”

Então, não: não há contradição entre deserto e introspecção – há o combate entre dois modos de viver o silêncio.

E o saber, a introspecção e a solidão exigem virtude.


Walter Biancardine





quarta-feira, 30 de abril de 2025

MIRIAM LEITÃO SUCEDE CACÁ DIEGUES NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS: VEJA COMO ISSO É BOM -


Sem nenhum predicado literário; nenhuma obra de renome e se resumindo apenas ao seu negro passado nas guerrilhas e reportagens tendenciosas, a insuportável - e aquém de toda credibilidade - Miriam Leitão foi eleita como membro da ABL, com o uso de urnas eletrônicas cedidas pelo TRE-RJ.

Longe se vai o tempo em que pertencer à referida casa era sinônimo de talento e obras de profundo alcance e significado, pois hoje a casa de Machado de Assis - um escritor - se dobra a bajular cineastas, atrizes - em resumo, qualquer um com sucesso em seu engajamento político esquerdista.

Estamos diante de uma verdadeira Academia Brasileira de Velhos Babões que se dedicam, com zelo exemplar, a destruírem suas trajetórias de vida no mais rasteiro e reles puxa-saquismo abjeto. Não importam obras, não importa a vida pregressa, pois tudo o que almejam (na absoluta falta de verdadeiros escritores brasileiros vivos) é ressignificar a Academia como "troféu por serviços prestados" aos poderosos.

Assis Chateaubriand, um jornalista que era advogado por formação, recusou-se a aceitar o primeiro convite para a ABL - "um antro de bródios", disse ele - mas o elegeram em uma segunda vez. Haverá, porventura, como comparar a pena de um Chatô com os garranchos ininteligíveis de uma Leitão?

Resta-nos aguardar Tiririca de fardão.

O Brasil é uma favela com bandeira e hino.


Walter Biancardine 



VALORES E PRINCÍPIOS NÃO SÃO ETERNOS -

 


A imagem que ilustra este artigo, feita através da Inteligência Artificial, é uma conveniente síntese do que pretendo discorrer aqui: mostra os dois maiores ícones norte-americanos que conseguiram transmitir ao mundo os tais valores e princípios.

John Wayne – talvez um verdadeiro símbolo dos Estados Unidos do pós-guerra e declaradamente republicano – que jamais interpretou papéis de personagens covardes ou traidores, juntamente com Clint Eastwood, epítome do individualismo, bravura, cabeça fria e coragem em um balcão de bar, como a beberem após concluírem terem feito a sua parte – e sabedores que tudo o que pregaram não permanecerá.

Pergunte a qualquer homem ou mulher de seus trinta anos quem são estes dois nomes e a resposta será um sorridente “não sei, isso é coisa de velho”. Sim, o tempo passa e os artistas acabam por cair no esquecimento, mas o lado negro do incansável relógio da vida é que – tal qual artistas – os ideais, conceitos morais e (obviamente) valores e princípios também se vão, com o vento dos anos.

Imagine ser um egípcio “old school”, adorador do Faraó e seus gatos, crendo na certeza da vida após a morte e, por isso, pronto a entregar a sua própria após o passamento de seu senhor. Os novos tempos que vieram depois não o assustariam? Não acharia tudo isso uma indecência, heresia e pura decadência? Mas eles vieram, levaram todo esse universo embora e restaram apenas as pirâmides.

Mesmo o maior império que a humanidade já conheceu, Roma, também passou: seus costumes, o que consideravam correto, normal, moral – incluindo escravos gregos letrados, que educavam os filhos de famílias abastadas – bem como suas conquistas tecnológicas que incluíam água encanada e quente, sistemas de esgoto e um arcabouço legal que, este sim e por conveniência ainda perdura, mesmo que grotescamente vilipendiado. E Roma, seus valores, sua moral e seus princípios também passaram.

Seria cansativo e tedioso enumerar os incontáveis impérios e civilizações que, um dia, dominaram o mundo, impuseram seus costumes mas apagaram como chama de vela ao vento.

Pois este ciclo é imutável; tudo passa e mesmo estruturas conceituais de uma sociedade – sempre consideradas lógicas e eternas – se foram. Terminaram por ceder às forças esmagadoras de novos reinos que traziam novos princípios e ideias, impondo-os pela força das espadas e braços guerreiros.

Talvez seja este momento de agonia que vivemos hoje, onde pequeno amontoado de conservadores tenta manter vivo – ainda que, literalmente, por aparelhos – um sistema moribundo que está sendo vencido (e esta é a ironia) não pela “força das espadas e braços guerreiros”, mas por noticiários de TV, filmes no cinema, peças de teatro e até propagandas: jamais nossa fragilidade mental foi tão exposta, tão evidente e, por consequência, tão usada.

Os “novos impérios” sabem, hoje, que não mais são necessárias armas, guerras e sangue para subjugar todo um sistema civilizatório: basta meia-dúzia de “luminares” afirmando qualquer absurdo, para que seja alvo de matérias de jornal comentando-o, depois virão os filmes de cinema sobre o mesmo e explicando que não é tão mal assim e, por fim, comerciais de TV banalizando-o – e estará completado o ciclo de normalização e dominação das vontades alienígenas.

Certamente, no passado, alguns egípcios – ou mesmo romanos – que se consideravam “tradicionalistas” revoltaram-se contra os “novos tempos”. Se reuniram, planejaram, conspiraram mas nada foi obtido, pois as forças que se opunham eram deveras maiores. Tal somos nós, conservadores, hoje – com a diferença de sermos completamente desfibrados, sem vestígios de coragem moral e física, já nascidos e criados sob influência da poderosa arma exploradora de nossa fragilidade humana, como seja, a grande mídia e a cultura de massa. Materialmente, tal arma sequer existe mas, em efeitos e resultados, é verdadeiro veneno a corroer a alma e o tônus do ser humano. E estamos em vias de capitulação.

Não temos mais um John Wayne a lutar conosco e mesmo um Clint Eastwood acaba de completar 95 anos – sequer é justo esperar por ele. Há, no momento, um Donald Trump, uma Giorgia Meloni, um Bukele e mais um rarefeito punhado de líderes, com prazo de validade determinado por lei ou pela curta duração da vida humana. Mas, e depois?

Não sei vocês mas, quanto a mim, seria um glorioso réquiem de minha porca existência sentar neste balcão e beber uns tragos junto dos senhores Wayne e Eastwood, mas sequer isso é possível.

Terei de beber sozinho.

O tempo não pára e tudo leva consigo.


Walter Biancardine



sexta-feira, 25 de abril de 2025

QUEM É QUE VAI PAGAR POR ISSO?


Um café, um cigarro, um trago
tudo isso não é vício;
são companheiros da solidão -
Mas isso só foi no início;
hoje em dia somos todos escravos
quem é que vai pagar por isso?” 

Esta música de meu amigo Lobão, “Revanche”, dá uma ideia de como me sinto e serve de gancho oportuno para escrever o que tenho a dizer neste momento, àqueles que ainda se dão ao trabalho de ler meus escritos.

Nada a dizer quanto ao café, cigarro e eventuais tragos – não me queixo deles e, como o próprio Big Wolf admitiu, “são companheiros da solidão”. O que me traz aos escritos é a nenhuma esperança de poder, ainda em vida, enxergar algum resultado das lutas e batalhas políticas que travo há mais de uma década, além da inconfessável vergonha de ser obrigado a admitir a derrota – sim, pois perdi a guerra.

Não me iludo: o Brasil jamais voltará a ser o que foi um dia. Vivo o fim de uma era onde as liberdades serão, cada vez, mais cerceadas e combatidas; tenho o difícil dever de aceitar a vitória do sistema, onde a ditadura está consolidada e colocará na Presidência da República apenas aqueles fantoches decorativos que cumpram seu papel de mostrar ao mundo “a normalidade do estado de direito no país”, através de urnas fraudulentas e judiciário onipotente.

Não há o que se esperar das Forças Armadas, eis que seu Alto-Comando está devidamente cooptado e regiamente pago por sua omissão – e se não temos armas, nada temos.

Do mesmo modo o povo brasileiro mal percebe, esta é que é a verdade, a situação em que estamos e se limita a queixar-se do preço dos supermercados e os impostos da Shein e dos Iphones. Certamente, um dia, nos acostumaremos – pois o brasileiro a tudo se acostuma, desde que não tenha de levantar do sofá para isso. E mesmo que nos revoltássemos, o que faríamos após termos sido trouxas o suficiente para entregarmos nossas armas na “Campanha do Desarmamento”?

A CNBB – porco sindicato de padres militantes – tomou conta da Igreja e pastores interessam-se apenas pelo dízimo e nada mais. O sistema de ensino está nas mãos deles, produzindo toneladas anuais de analfabetos funcionais, verdadeiros estúpidos sequelados intelectualmente, incapazes sequer de assinar o próprio nome. E a grande mídia nos fornece o “pão e circo” que mantém, com eficiência, 210 milhões de imbecis sob cabresto e entorpecidos por bundas e barrigas tanquinho.

Na internet, os “influencers” descobriram rendoso filão: ser “resistência”, queixar-se de Alexandre de Moraes e faturar milhares de reais com isso, no YouTube – jamais se interessariam em convocar atos de desobediência civil ou algo assim, pois estariam jogando suas subsistências no lixo.

Até aí – e poderia mesmo acrescentar muito mais fatos – a maioria de nós tem conhecimento, mas igualmente mantém ainda viva a chama da esperança, crendo desesperadamente (pois não há outra coisa a fazer além de crer) que tudo terá um fim e “Tio Trump” nos livrará disso.

Mas e eu?

Quanto a mim, não consigo me livrar da lucidez e do pensamento lógico, e ambos me mostram as nenhumas possibilidades de reverter tal situação – é a guerra perdida, que falei.

Para completar – e serei egoísta sim, pois jamais tive a pretensão de ser algum mártir ou santo – vejo hoje, com clareza, que joguei minha vida fora. Todas as portas da mídia estão fechadas para mim, pois nenhuns escrúpulos tive em expor indecentemente meu pensamento político. Do mesmo modo, gastei anos – décadas – preciosas de minha existência dando a cara para baterem, me condenando à solidão e isolamento ao invés de cuidar de minha subsistência e arranjar algum bom emprego. Ao fim e ao cabo, minha profissão hoje de nada me serve, pois nela não tenho mais oportunidades. Para piorar, aos 61 anos é evidente que em nenhuma outra ocupação serei aproveitado, pois sou um “provecto ancião” no mercado de trabalho.

Resumindo: joguei minha vida fora e em nada ajudei o Brasil. Tudo à toa, tudo jogado no lixo – esforços, sacrifícios, privações – minha vida inteira, enfim.

Assim, neste momento comunico que não mais escreverei nada sobre política. Nada consegui mudar, de nada valeu abrir os olhos de quem poderá somente sofrer comigo e nada mais, e nenhuma vírgula acrescentei ou retirei da dinâmica implacável do sistema. Caso continue escrevendo – velho vício que creio ser quase impossível abandonar – nada terei a dizer sobre togas, Brasília, Trump ou o que for. Me dedicarei apenas a ensaios filosóficos, crônicas do dia-a-dia e, é claro, alguns romances que tenho em mente escrever – e é só. Tardiamente aprendi.

Quanto ao pão de cada dia?

Não faço a menor ideia. Apenas cansei de apanhar.

Estou cansado, muito cansado.



Walter Biancardine



segunda-feira, 21 de abril de 2025

NOTA DE PÉ DE PÁGINA - AINDA O PAPA


Desde 1964, quando nasci, houveram 5 Papas: Paulo VI (1963-1978, 15 anos), João Paulo I (1978, 33 dias), João Paulo II (1978-2005, 26 anos, 5 meses, 17 dias), Bento XVI (2005-2013, 8 anos), e Francisco (2013-2025).


Nunca fui um especialista em Papas, Direito Canônico ou algo assim, mas me considero um razoável diletante na teologia e, deste modo, de todos os que listei acima, o único que me provoca saudades é João Paulo II - por sua pessoa e ações. Bento XVI me traz um grande sentimento de injustiça, um brilhante teólogo vítima do mais puro e explícito "golpe de estado", articulado à distância pelos Clinton, Obama e outros.

Com o Colégio Cardinalício sendo composto por uma maioria absoluta de Cardeais nomeados por Bergoglio - e de evidentes vieses progressistas - pouco tenho a esperar do próximo pontífice.

Apenas causa-me asco o oportunismo sensacionalista dos "influencers" e a eterna engenharia social através do medo, pelas elites e grande mídia - o "Papa Negro", o último, o fim da Igreja.

Não creio em grandes mudanças, apenas mais do mesmo.


Walter Biancardine



A MORTE DE BERGOGLIO: O QUE VIRÁ AGORA?


A Igreja já é, claramente, governada por quem a odeia. O maior inimigo da cristandade não são os que a combatem, mas os que a compõem – basta lembrarmos da Teologia da Libertação, as visões progressistas de seu clero e outras.


Falando em termos simbólicos para o grande público, que agora assiste a renúncia de Klaus Schwab à presidência do World Economic Forum no mesmo dia da morte do Papa Francisco e poderá, ainda, testemunhar – chocado – a eleição do tão afamado "Papa Negro" (eis que os prováveis sucessores são, em maioria, africanos) temos a conjuntura perfeita para que os “profetas do caos” das redes sociais provoquem uma onda de pânico generalizado e, por isso, urge que ponhamos desde já alguns pingos nos is.

Tal coincidência está carregada de simbolismo coletivo, ainda que não tenha um grama de substância objetiva no plano teológico. Mas símbolos governam o inconsciente das massas, e a política das percepções é mais eficaz que a política dos fatos. Examinemos, pois, com as lentes da sociologia simbólica, da psicologia das massas e da estrutura imaginária do Ocidente em ruínas.

O PAPA NEGRO COMO SIGNO ESCATOLÓGICO POPULAR
A figura do “Papa Negro” é um arquétipo escatológico. Ele representa, na imaginação coletiva, o ponto de colapso da ordem tradicional. É o momento em que o guardião do dogma se torna seu sabotador, e aquele que deveria manter a continuidade da fé a dissolve num caldo globalista, horizontalista e sentimental.

Se o próximo papa for negro - e tudo indica que um africano está no páreo, como Cardeal Peter Turkson ou, até mesmo o Cardeal Robert Sarah (este, ironicamente, um tradicionalista) - o simbolismo será imediato:

• Para o público progressista: será a coroação do “Novo Mundo”. Um sinal de reparação histórica, inclusão, pluralidade. Eles farão festa.

• Para os conservadores: será lido como o cumprimento de uma profecia, mesmo apócrifa. Um marco do fim. Um sinal de que a Igreja se rendeu ao zeitgeist.

O importante aqui não é a realidade do eleito, mas o mito que se formará ao redor dele.

A RUPTURA ENTRE APARÊNCIA E ESSÊNCIA NO CORPO ECLESIAL
Aqui está o ponto filosófico mais importante: como afirmei acima, a Igreja já é governada por quem a odeia, e isso não está na aparência, mas na substância das decisões.

O clero progressista não combate frontalmente o dogma - ele o dilui, o interpreta, o reinterpreta, o torna ambíguo. Como disse Joseph Ratzinger:

“A maior ameaça à Igreja não vem de fora, mas de dentro.”

A Teologia da Libertação foi apenas o primeiro vírus. Hoje temos sinodalidade relativista, inclusivismo sem verdade, “escuta do Espírito” que ignora a Escritura e a Tradição. Isso se reflete na pastoral, na linguagem, na omissão moral. A consequência é brutal: o povo já não sabe mais o que é ser católico.

O CONTEXTO SOCIOLÓGICO DO FIM SIMBÓLICO DO PAPADO

Agora, juntemos os pontos:


• A renúncia de Klaus Schwab ao WEF, o grande símbolo do globalismo tecnocrático, marca uma mudança de fase do projeto globalista. Saem os tecnocratas grisalhos, entram os populistas multiculturais. O novo rosto do poder certamente será identitário, tribal e emocional.

• A morte de Francisco será lida por todos como o fim de uma era ambígua: um papa de gestos revolucionários, mas de linguagem anódina. Um padre jesuíta que agia como diplomata do século XXI.

• A eleição de um papa africano, especialmente num contexto mundial polarizado, seria compreendida como a “revanche do Terceiro Mundo” - e também como um novo começo para a Igreja, pelo menos na aparência. Mas seria, simbolicamente, o último capítulo da romanidade cristã: o fim da linha visível do Ocidente eclesial.

A PSICOLOGIA DAS MASSAS EM ESTADO DE RUÍNA
A massa está confusa, fragmentada, ansiosa. Ela não busca mais verdade, mas narrativas que preencham lacunas emocionais – e sempre é bom dar a devida importância a este fato. Num mundo onde as instituições já não representam valores objetivos, cada gesto simbólico é interpretado como sinal profético.

A coincidência desses eventos (Schwab, Francisco, Papa Negro) cairia como dinamite num caldeirão mitológico que está fervendo há séculos e os “profetas” das redes sociais se encarregariam do resto. O “fim da Igreja” se tornaria trending topic antes do almoço.

A MORTE DO PAPA: UM ATO MÍTICO
Mais do que a morte de um homem, será percebida como a morte de uma forma de Igreja. A eleição do novo papa, num mundo em colapso moral, parecerá um reinício. Mas para os que veem além da aparência, será o selo da apostasia.

O próximo conclave não será apenas uma eleição. Será um rito de passagem simbólico entre a Igreja de Pedro e a paródia dela.

A narrativa está pronta. Falta apenas o ator principal.

ADENDO: AS PROFECIAS DO PAPA NEGRO

Nostradamus – o oráculo que não disse mas parecia ter dito

Michel de Nostredame (1503–1566), o “grande bruxo do Renascimento”, é uma fonte farta de confusão. Seus Quatrains, escritos em francês arcaico, cifrado, metafórico, são um verdadeiro buffet de interpretações para todo gosto conspiratório.

Há sim alguns versos que foram interpretados – não por ele, mas por seus leitores – como se referindo a um papa de pele escura, de origem oriental ou africana, e a uma grande destruição da Igreja. Um exemplo clássico é este:

“Du plus profond de l'Occident d'Europe /
De pauvres gens un jeune enfant naîtra /
Qui par sa langue séduira grande troupe /
Son bruit au règne des Orients viendra.”

(“Das profundezas do Ocidente da Europa /
De gente humilde nascerá uma criança jovem /
Que por sua língua seduzirá grande multidão /
Sua fama chegará ao reino dos orientais.”)


Foi lido por alguns como uma previsão de um papa vindo das Américas (Ocidente), que encantaria com palavras e traria consequências catastróficas, ligadas ao Oriente – talvez o Islã, talvez a Ásia. Mas é vago, tal como um horóscopo de revista.

Em outro trecho:
"Le grand pasteur sera cité avec infamie /
Pour avoir succombé à l’hérésie des noirs /
Et la grande Cité tombera sous l’ennemi."

(“O grande pastor será citado com infâmia /
Por ter sucumbido à heresia dos negros /
E a grande Cidade cairá sob o inimigo.”)


Aqui, algo mais sinistro: “hérésie des noirs” foi lida por uns como alusão a cultos africanos, por outros como influência de ideologias revolucionárias - muitas vezes associadas simbolicamente à “noite”, às “trevas” ou à “cor negra”, no imaginário europeu. Mas como tudo em Nostradamus, é mais espelho do leitor do que mapa do futuro.

O medo popular antigo - a queda da Roma Espiritual
Desde a Idade Média, havia um temor recorrente: o dia em que Roma se tornaria a Grande Prostituta do Apocalipse, e o papado se tornaria o trono do Anticristo. Não se falava ainda de “papa negro” com essas palavras, mas de um “papa herético”, “papa usurpador”, “papa do fim”.

Monges do século XIII falavam de um papa “traidor” que entregaria a Igreja às forças do Islã ou às seitas heréticas. Joaquim de Fiore, por exemplo, com seu esquema tripartido da história (Pai, Filho, Espírito), imaginava que viria um tempo de grande crise e transição na Igreja, com figuras ambíguas no trono de Pedro.

Na virada do milênio (ano 1000), muitos acreditavam que o mundo acabaria com a corrupção papal. Quando o papado foi para Avignon (século XIV), surgiram vozes dizendo que Roma já estava abandonada por Deus, e o próximo papa seria falso — ou até um “papa escuro” no sentido espiritual: oculto, escondido, subversivo.

O Papa Negro como arquétipo
Mesmo sem citação explícita, o “papa negro” é uma figura arquetípica que assombra o imaginário europeu há séculos. Ele é o inverso do Vicarius Christi: alguém que se veste como pastor, mas fala como o dragão (Ap 13). Sua “negritude” simbólica evoca:

• A noite espiritual
• A corrupção da doutrina
• A inversão dos valores
• A penetração de forças externas e “exóticas” na Cúria

Ele não precisava ser negro de pele – bastava sê-lo de alma. Isso, sim, aparece em medos e sermões desde o século IX. O monge Adso de Montier-en-Der, no século X, escreveu sobre um Anticristo que se infiltraria na própria hierarquia eclesial. E desde então, o temor do "anti-papa escuro" persiste.

Finalizando, para meu leitor:

• Nostradamus? Insinuações vagas, nunca explícitas.

• São Malaquias? Profecia de duvidosa procedência, mas com influência tremenda.
• Temor antigo? Sim, constante, principalmente a partir do século IX: o medo de que o sucessor de Pedro se tornasse instrumento do inimigo.
• Papa negro? É um símbolo. Um espantalho teológico do fim dos tempos. Um eco do medo de que a Igreja seja governada por quem a odeia.

Nunca é demais lembrar que a cúpula mundial conhece, melhor que nós, os medos que povoam nosso subconsciente – basta ver a COVID e suas consequências. Deste modo e coletando dados esparsos como a grande emissora norte-americana Fox News, elencando apenas negros como prováveis sucessores de Bergoglio, o leitor não deverá se espantar se sim, de fato, tivermos um Papa negro nos próximos dias.

O braço direito de Satanás – mais conhecido como “grande mídia” – aliado aos sedentos de notoriedade das redes sociais, farão com que o advento do Papa negro seja o som das trombetas do apocalipse sobre a humanidade quando, de fato, nada será além de um novo Vigário de Cristo.

Mas eles aprenderam que o medo é a melhor arma para governar o planeta.

E não hesitarão em usá-lo desta forma.


Walter Biancardine



domingo, 20 de abril de 2025

A FALTA DE “TIMING” -


Os grandes movimentos populares, inclusive aqueles que derrubam governos, são um resultado direto de uma conjugação de acontecimentos que inflam a ânsia dos cidadãos a níveis sem retorno – e o primeiro resultado é o abandono das leis e a convicção de que somente a massa, reunida e furiosa, poderá pressionar os parlamentares e criar uma conjuntura política, plena de circunstâncias favoráveis, que atenda seus clamores.


Chegamos perto em 2013 quando roubamos os protestos da esquerda – “não é pelos 20 centavos” – e nos tornamos donos dos movimentos de rua, mas ainda não havia Bolsonaro a catalisar a demanda. Também tivemos caminhoneiros paralisados, que igualmente exibiam claro viés conservador – à parte suas justas demandas – mas, igualmente, faltava-nos o “líder”.

E veio Bolsonaro. Desnecessário dizer que tivemos, ao menos, três momentos em que estávamos com tudo nas mãos para – pela força do povo – obrigar os parlamentares a tomarem decisões radicais e favoráveis a nós. Do atentado contra o ainda candidato, passando pelo desmonte da Lava-Jato e culminando no acampamento em frente aos quartéis – duração recorde que, por si, já exibia ao mundo que a derrubada do sistema vigente estava próxima – tudo isso era nosso, Jair Bolsonaro liderava inconteste e os prognósticos eram claramente favoráveis a nós.

Mas Jair Messias – à parte sua indiscutível coragem física, bravura e patriotismo – não possui coragem cívica: é um militar "enragée", treinado e doutrinado para seguir regulamentos (as malditas “quatro linhas da Constituição”) e jamais conseguiu entender que, nos casos em que os abusos de um governo ditatorial e opressor se tornam insuportáveis, as leis vigentes não ajudam ninguém – pelo contrário, nos aprisionam, eis que nos submetemos a jogar segundo as regras do inimigo.

É perfeitamente compreensível que ele não desejasse criar uma situação de exceção, tomando o poder e empreendendo salutar faxina ideológica no estamento burocrático – isso custaria sangue, dores, escândalos – mas não haveria escolhas, e o senhor Bukele está aí para provar isso. Ele nada fez, apavorado em ser chamado de “ditador” – que já o era, pela esquerda brasileira e global, então nenhuma diferença faria – e preferiu abaixar a cabeça, entregando o poder de forma submissa e tornando-se – junto com o resto do povo brasileiro – mera vítima da narco-ditadura comuno-globalista que hoje nos governa, que já matou, sequestrou, censurou, prendeu inocentes arbitrariamente e entregou o país nas mãos de traficantes de drogas e potências ditatoriais estrangeiras. Ele teve tudo nas mãos e não usou; Jair Bolsonaro não teve o “timing” para agir na hora certa – e agora, pouco adianta falar grosso abrigado sob o guarda-chuva de Donald Trump.

E nós, o povo?

O povo, como conceito, oscila entre aquilo que a humanidade tem de mais desprezível ao sublime; do asqueroso ao quase divino, da força invencível ao gado conduzido para o matadouro – e tal se dá, além da decorrência da falta de lideranças, também e principalmente pela herança cultural, costumes, cultura popular e índole. Pois esta é toda nossa derrota.

Assistimos, inertes, as narrativas esquerdistas destruírem (em boa parte) o antigo poder de Bolsonaro sobre o povo, embora ele próprio – por sua indecisão, protelação e medo – tenha colaborado involuntariamente com isso. As ambições são incessantes, os interesses jamais estão satisfeitos e novos candidatos à ribalta de “condutores de povos” surgiram, dividindo os conservadores por sua própria necessidade doentia de “obedecer um líder”. Sim, bem a esquerda tenta ainda nos dividir, mas o maior resultado é obtido por nós mesmos, em um processo autofágico de entregarmos nossas responsabilidades nas mãos de alguém que possa – caso tudo saia errado – assumir as culpas.

Jamais compreendemos um Olavo de Carvalho – o verdadeiro ressuscitador do conservadorismo no Brasil – que se valia de um vocabulário repleto de palavrões como forma de chamar atenção do povo para o que ele dizia. Como fazer um energúmeno ouvir um filósofo? O resultado é que, após sua morte, metade do Brasil se acha um “Olavo” e trata os divergentes – dentro do próprio conservadorismo – a base de xingamentos e ofensas, sem jamais ter atinado com a verdadeira intenção que o filósofo possuía, assim agindo. E a divisão, autofágica como disse, só se agravou.

Temos hoje uma direita conservadora dividida, extremamente belicosa entre si e covarde quanto a ações concretas; cada conservador crê-se um Olavo de Carvalho e proprietário da razão, nenhuma divergência é admitida e a coisa toma, cada vez mais, os contornos de uma seita fanática que instituiu dogmas – cada um com o seu, particular – cuja transgressão é passível de punição com palavrões arqueológicos e… memes.

Nenhum direitista lembra-se do objetivo maior: derrubar o sistema. Nenhum direitista atreve-se a convocar rebeliões nas ruas ou organizar alguma espécie de desobediência civil. Mas um em cada dez direitistas se veem como “iminências pardas”, prontos a dar os melhores conselhos do mundo ao líder – tão e desesperadamente ansiado por todos. E esta carência de “líderes” é tão grave que, mesmo após os mais lúcidos implorarem “não saiam dos quartéis”, bastou uma moça e dois sujeitos subirem no caixote e mandarem todos para o Palácio, em Brasília, para serem prontamente obedecidos. E mil e quinhentos brasileiros inocentes foram presos.
Também a nós falou “timing”. E pior: falta-nos bom senso e coragem.

Não há como criticar a ditadura atual, se somos tão covardes e mesquinhos quanto. Não há como criticar Bolsonaro se, igualmente, estamos tal qual uns cegos em tiroteio.

E não há como criticar o autor destas linhas se você, igualmente, nada faz.


Walter Biancardine