quarta-feira, 9 de abril de 2025

UMA SALADA FILOSÓFICA SOBRE O AMOR, EGO, SACRIFÍCIO, ETERNIDADE E FERNANDO PESSOA -

 


Lá pelos idos de 1985 ou 1986 este que vos escreve — ainda jovem, crendo que os adultos sabiam mais do que aparentavam — foi buscar a então namorada na faculdade, em sua sala de aula. Um professor, cujo nome as décadas varreram mas era o arquétipo esquerdoso daquele tempo – magrelo, calças frouxas (bag, dizia-se) e rabo de cavalo – disse uma frase que ficou gravada para sempre em minha memória, dado o choque que levei: " Nós não amamos ninguém; apenas amamos o que o outro nos dá."

Aquelas palavras, ditas como se fossem uma evidência lógica e reveladora do óbvio, me atingiram como um tapa. O mundo pareceu, por um instante, mais frio, mais seco, mais opaco. Seria isso o amor? Um comércio espiritual? Um espelho vaidoso?

Quarenta anos depois, já calejado pela vida, pelas perdas, pelos abismos do pensamento – e dos amores também – reencontrei uma formulação semelhante em uma postagem nas redes sociais, sobre Fernando Pessoa. Agora entretanto, já farto de tal zumbido ecoando em minha cabeça e com maturidade suficiente para não esquecê-lo, decidi não apenas encarar a ideia — mas julgá-la, combatê-la, desenterrá-la até o osso. Este ensaio nasce dessa provocação antiga, desse desaforo nunca inteiramente levado para casa.

INTRODUÇÃO: O ESPANTO COM FERNANDO PESSOA

Tudo começou com uma citação de Fernando Pessoa, postada nas redes:

" Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa."

A frase é um escândalo. Mas como todo escândalo bem posto, exige resposta. Pessoa propõe, sem floreio, que o amor é um jogo de espelhos — um narcisismo sofisticado. Não amamos o outro, amamos a ideia do outro, amamos – como diria o magricelo dos anos 80 – “aquilo que o outro nos dá”. E essa ideia, claro, é um recorte, uma projeção, uma moldura. Um retrato nosso com outra moldura.

Mas isso seria tudo? Amar seria, no fim das contas, uma masturbação mental com o corpo ou a imagem de alguém, como cenário? Fernando Pessoa crava: sim. Mas eu não engulo.

"Nunca amamos ninguém."
A frase é de uma frieza cirúrgica, quase blasfema — especialmente numa cultura sentimentalóide como a nossa, que adora falar de " amar o outro como ele é", como se isso fosse
facílimo, possível ou corriqueiro.

"Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém."
Aqui está o coração da sentença: Pessoa denuncia a estrutura narcísica do amor. Não o amor idealizado dos manuais religiosos ou dos filmes de romance, mas o amor nu e crú — aquele que serve ao espelho interno, não ao outro real. O outro? É só um suporte. Um cabide onde penduramos as nossas projeções mais íntimas, as carências mais antigas, os desejos mais indecentes ou as virtudes que nos faltam –
e que é, convenhamos, o mais comum.

"É a um conceito nosso — em suma, é a nós mesmos — que amamos."
Essa é a facada mais profunda. O amor, segundo Pessoa, é um ato de auto-engano sofisticado. Amamos a ideia que temos do outro, e essa ideia é, no fundo, um recorte da nossa psique. Não amamos a mulher — amamos o papel que ela representa no nosso teatro mental. Não amamos o amigo — amamos o reflexo que ele confirma em nós. É o " espelho mágico" de Baudelaire: queremos ver algo belo, e usamos o outro como superfície polida.

" No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho."
Aqui, ele desmascara o eros: o prazer é nosso, o corpo do outro é meio, nunca fim. O romantismo morre aqui, sem flores, no velório. Pessoa trata o sexo como
um comércio de sensações privadas. A carne do outro é um caminho para um êxtase que é só nosso, Narciso com um parceiro.

" No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa."
E
nesta frase ele mata também a amizade, o amor fraterno, o amor platônico, o amor materno, até mesmo o amor cristão, se duvidar. Tudo vira um prazer mental — não da carne, mas da imagem, da ideia construída. Um autoerotismo espiritual, por assim dizer. O outro continua fora da equação.

Conclusão? Pessoa está afirmando uma verdade terrível e elegante: o amor, tal como experimentado pela maioria, não é comunhão, é reflexo. É ego mascarado. É estética do eu. É delírio vestido de vínculo. É o que vemos hoje em cada esquina – mas não é o que todos sentem, acrescento eu.

O que seria, então, amar de verdade? Seria possível despir-se de si mesmo e ver o outro como outro? Talvez. Mas isso exigiria um esvaziamento de si quase místico. Algo que nem Pessoa acreditava ser possível… e talvez por isso tenha escrito tal coisa.

No fim das contas, o que ele diz é que o amor — assim como a vida — é um sonho lúcido, onde o outro é personagem, não protagonista. O verdadeiro amor? Talvez só exista onde o ego morre. Mas isso, convenhamos, é coisa rara.

A IDOLATRIA DO EU E O DESMONTE DA CIVILIZAÇÃO

A afirmação de Pessoa não é neutra — ela revela o espírito de uma época, um espírito que adoeceu. O amor que se autoconsome é reflexo de um narcisismo sistêmico que, ao longo do século XX, desmoronou os pilares da alteridade.

Não é só o amor conjugal que apodreceu: é o amor ao próximo, o amor à família, o amor à verdade. Tudo virou consumo de sensações próprias. Quando o outro só existe para confirmar minha imagem de mim mesmo, então ele não é amado — é usado. E quando o amor se torna uso, a civilização entra em colapso.

O eu absolutizado torna-se, paradoxalmente, o algoz de si mesmo. O sujeito pós-moderno, adorador de sua própria imagem, não é apenas incapaz de amar — é também incapaz de receber amor. Pois todo amor verdadeiro exige uma condição: morrer para si mesmo.

[Nota 1: O narcisismo moderno não é apenas um transtorno psicológico; é um fenômeno metafísico — a recusa da criatura em se submeter ao Criador.]

A MORTE DO EU: UMA DIGRESSÃO NECESSÁRIA

Mas aqui surge um dilema cruel: se o amor exige a morte do eu, não estaríamos sonegando à mulher amada justamente o homem por quem ela se apaixonou? Não estaríamos negando-lhe o nosso "eu"?

A resposta está na diferença entre aparência e essência. A morte do eu não significa aniquilamento da personalidade, mas sim a poda do ego inflado, da vaidade estética, da infantilidade emocional. Morrer para si é, na verdade, tornar-se mais si — como o vinho que, ao fermentar, vira vinho de verdade e – perdoem o trocadilho – in vino veritas.

O eu que ama é aquele que foi purificado, não aquele que foi apagado. A mulher não perde o homem que ama quando ele morre para si; ela finalmente o encontra — inteiro, limpo, disponível.

[Nota 2: Santo Agostinho já dizia — " Ama e faze o que quiseres" — mas esse amor pressupõe a transformação da vontade pela caridade divina.]


I. Fernando Pessoa como sintoma (e não como causa)

Pessoa não está inventando o narcisismo — ele está constatando o que já começava a florescer nos escombros da modernidade. Ele escreve como quem vê, com horror estético, que o amor já não é mais relação entre almas, mas projeção de delírios. O amor virou, já em seu tempo, um dispositivo interno, um teatro privado. O outro? Um figurante involuntário.

Essa constatação abre a porta para a desconstrução do amor como relação de transcendência e sacrifício, e sua conversão em performance emocional autocentrada.

II. O colapso da alteridade

Pessoa diagnostica algo que Santo Agostinho já alertava, mas com outra linguagem: o homem fechado em si mesmo é o homem perdido. O amor, para Agostinho, era o movimento da alma que se desprende de si e se volta ao bem verdadeiro — que é Deus, e por extensão, o próximo. O amor exige saída de si, aquilo que os gregos chamavam de ek-stasis — o estar fora de si, o êxtase.

Se amar é ver no outro um mistério que nos transcende, então o amor pressupõe humildade. Mas no mundo moderno, essa humildade foi devorada pelo ego inflado. O amor passou a ser um consumo de sensações, não uma entrega. É aqui que entra Freud, quase demoníaco: para ele, o amor é sublimação, sim — mas ainda assim é o eu em busca de prazer, mesmo que vestido de sacrifício – e é desnecessário dizer que o velho Siegmund certamente estava em alta conta, nos pensamentos daquele professor magrelo dos anos 80.

III. A morte da família e a tirania do eu

E então chegamos à consequência mais nefasta: o desmonte daquilo que sustentava o amor como estrutura civilizatória — a família, a amizade durável, o amor ao próximo como mandamento e não como opção emocional. O que temos no lugar? A cultura do “me faz bem”, tal como o refrão de conhecida música de Lulu Santos, também da fatídica década de 80. O vínculo dura o tempo que dura a gratificação. O outro é útil enquanto reforça minha autoimagem. A caridade virou " autorrespeito", amor próprio, “ se valorizar”.

Podemos batizar esse processo com um nome: narcisismo de massa. E o amor, nesse contexto, virou uma espécie de religião privada: o culto ao próprio reflexo.

IV. Simone Weil, a mística da atenção

Agora vejamos um contraponto sutil: Simone Weil. Ela diz que amar verdadeiramente é prestar atenção ao outro. Mas atenção como quem contempla um sacramento — não como quem observa uma vitrine. A atenção é silenciosa, receptiva, desarmada. É o oposto da projeção de Pessoa. Para Simone Weil, só há amor quando me calo internamente e deixo o outro ser o que é, mesmo que isso não me agrade.

Esse amor é raro porque exige morte do eu como centro da experiência. É o oposto da lógica moderna, onde tudo gira em torno do “eu real”, “meu espaço”, “minha verdade”, “minha vibe”.

V. Conclusão sem catarse: amar é guerra

Pessoa nos obriga a olhar para o fundo do abismo: a maior parte do que chamamos de amor é um mal-entendido. É autoamor em traje alheio. E a modernidade, ao idolatrar o “eu”, apenas selou o destino desse amor falso: ele implode, não sustenta laços, não forma famílias, não constrói civilizações.

A única saída? Uma revolução ao contrário: não " desconstruir" (perdoem a esquerdice do termo) o amor, mas reconstruí-lo sobre a rocha da renúncia, da alteridade e da transcendência. Um amor que seja serviço, sacrifício, silêncio — e não teatro, fetiche e selfies para o Instagram.

O que Pessoa descreveu com espanto poético, nós vivemos hoje com cinismo banalizado. E aí está o veneno: não é que o amor morreu de “morte morrida” – é que o mataram e, ainda por cima, zombam do cadáver.


VALE CITAR: Santo Agostinho – O amor ordenado e a ferida do desejo

Agostinho não mostra paciência com meias verdades, ele não diz que o amor está corrompido – ele diz que o amor, quando desordenado, é destrutivo. Para ele, o problema não é amar, é amar errado, isto é, fora da hierarquia do ser.

Ama e faze o que quiseres.”
– Mas ama como? Com ordem. Com sentido. Com direção.

Amar a mulher como a Deus? Idolatria.
Amar a si mesmo mais do que ao outro? Soberba.
Amar o outro mais do que ao verdadeiro bem? Ilusão.

O que Agostinho ensina é que o amor só se realiza quando sobe, quando participa do Amor Maior. Só quando o amor ao próximo é reflexo do amor a Deus – e não seu substituto – é que ele é verdadeiro. Sem isso, o amor é carência fantasiada, é carne pedindo adoração.

E completemos: Agostinho não nega o eu – ele quer que o eu se reencontre em Deus. Não se trata de apagar-se, mas de reposicionar-se no cosmos. A mulher amada, então, não perde o homem por causa da ascese — ela o recebe inteiro, liberto do teatro da vida e da aceitação social egoística.

Quando amamos o outro em Deus, amamos não uma projeção, mas o mistério. O outro torna-se ícone, não ídolo.

Blaise Pascal – O buraco em forma de Deus

Pascal diagnosticou, com precisão brutal, o que parece se passar no fundo do peito humano:

O homem é um ser miserável, mas também o mais nobre de todos, quando reconhece sua miséria.”

Para ele, o amor humano sempre será insuficiente, porque o coração tem um vazio do tamanho de Deus. E o que o homem moderno faz? Tenta preencher esse buraco com o amor romântico, com o corpo da mulher, com o aplauso, com o sucesso. Resultado? Frustração em série.

Pascal vê o amor humano como tentativa desesperada de fugir do tédio e do nada. Mas isso só dá certo quando o amor aponta para cima. Fora disso, é como beber água do salgado mar de Cabo Frio: quanto mais se bebe, mais se seca a boca.

E o que ele oferece como saída? Não o cinismo, mas a fé como salto racional. Amar, diz ele, é possível – mas só quando o amor se reconhece como mendicância, não como poder. O verdadeiro amor sabe que não basta. E mesmo assim se entrega.

Pascal antecipa a falência do amor moderno, que exige do outro aquilo que só Deus pode dar: sentido, salvação, eternidade.

Os Cínicos Gregos – O amor como escravidão voluntária

E agora, o choque de realidade dos cínicos gregos, verdadeiros mendigos de cérebro afiado e desprezo olímpico por sentimentos prét a porteur: Diógenes de Sinope, o mais famoso deles, vivia num barril e dizia que o amor romântico era prisão voluntária, invenção dos fracos. Para ele, o amor é um truque da natureza, uma embriaguez hormonal que escraviza. A mulher amada? Um saco de ossos que exala cheiros — e você ali, babando feito cão. Diógenes queria a liberdade total, inclusive da paixão.

Quando vejo um homem apaixonado, vejo um prisioneiro feliz — e toda prisão feliz é a pior de todas.”

Embora perfeitamente adequada às pretensões sociais dos atuais comuno-globalistas (“você não terá nada e será feliz”), filosoficamente é uma visão extrema. Mas ela serve como antídoto contra o sentimentalismo açucarado. Os cínicos nos lembram que o amor, se não for consciente, livre e ascético, vira grilhão. O amor cego, para eles, é loucura com aplauso.

Mas há algo de precioso aí: os cínicos amavam a verdade acima de tudo. Se o amor puder conviver com a verdade – sem máscaras, sem bajulações, sem auto-traições – então ele é possível. Difícil, mas possível.

Amar sem desaparecer

Voltando ao ponto original: amar não é desaparecer. É aparecer sem vaidade. O que deve morrer é o ego possessivo, não a personalidade concreta. A mulher que ama um homem quer o rosto dele, não o holograma de um santo. Mas esse rosto só se torna digno de amor quando lavado nas lágrimas da renúncia.

O amor verdadeiro começa quando o homem pára de se amar como um ídolo, e passa a amar o outro como mistério a ser servido, não objeto a ser consumido. E isso exige algo que falta ao mundo de hoje: transcendência.


TRÊS PÁS PARA DESENTERRAR O AMOR: ORTEGA, GIRARD E OS PADRES DO DESERTO

Com Ortega y Gasset, entendemos que o amor é "atenção concentrada no ser do outro". Ou seja: amor não é sensação, é contemplação, bem o contrário da dispersão moderna. Ortega percebe o amor como revelação da realidade de outro ser — e isso exige silêncio interior, escuta verdadeira, renúncia do próprio ruído. É o anti-narcisismo por excelência.

Girard nos mostra outra coisa: a inveja como núcleo das relações humanas – sim, sempre ela, a maldita inveja, da qual tratei em artigos anteriores. O desejo não nasceria do objeto, mas da mediação – desejamos o que o outro deseja. O amor, assim, pode ser contaminado pela rivalidade e pela usurpação. E alguém se lembra da “inveja mimética”, a que deseja roubar nosso corpo de nossa alma e ser o que somos, que escrevi recentemente? Pois o verdadeiro amor é o que rompe com essa lógica (mimética): não deseja o outro por status, por comparação, por escassez simbólica – deseja-o como dom.

Os Padres do Deserto, por fim, trazem a linguagem mais brutal e mais santa: amar é combater. O amor é uma forma de ascese, uma via de purificação. O monge que ama seu irmão precisa vencer os demônios internos que distorcem sua visão: a vaidade, a luxúria, o orgulho espiritual. O amor, para eles, é sempre ato contra o ego.

[Nota 3: As máximas dos Apotegmas dos Padres do Deserto são implacáveis com a afetividade desordenada, pois sabem que ela mascara o apego ao próprio eu.]


I. Ortega y Gasset – O amor como forma de atenção profunda

Ortega não é um místico nem um moralista. É racionalista, elegante, mas com sensibilidade para o abismo. Em Estudos sobre o amor, ele começa com uma distinção decisiva: amar não é escolher, é fixar-se.

O amor é um ato de atenção… uma atenção que se fixa, se concentra, e gira em torno de um único ponto.”

Para Ortega, amar é atirar a alma sobre um objeto e permanecer ali. É, portanto, um fenômeno de fixação numa era de distração. Amar, para ele, é ir contra a corrente da consciência dispersa, é deliberadamente perder-se em alguém, mas sem se dissolver.

Veja como isso contrasta com a ideia de Pessoa: se, para Pessoa, amar é projetar uma ideia nossa, para Ortega amar é ver o outro com radical nitidez, de maneira quase hipnótica. Não há como amar sem se deter. O amor exige pausa, exige renúncia à pluralidade de opções — exatamente o que o narcisismo moderno detesta.

Ortega já havia percebido que o amor está em crise porque, digamos, o mundo moderno é centrífugo, e o amor é centrípeto. Enquanto a modernidade grita “experimenta tudo”, o amor sussurra “fica aqui”. O narcisista não aguenta isso, ele precisa circular, variar, consumir. E aí entra o colapso do amor como vínculo: a multiplicidade destrói a fidelidade.

II. René Girard – O desejo como imitação e a crise do amor autêntico

Agora entramos em René Girard: para ele, nós não desejamos por impulso interno, como dizia Freud, mas por imitação de um modelo. Ou seja: não desejamos o objeto, desejamos o desejo do outro.

A mulher que você ama? Talvez você a deseje porque alguém – seu amigo, a mídia, a cultura – ensinou que ela é desejável ou mesmo elevara seu status. O amor, então, torna-se mimético. Não é entre dois, é triangular: eu, o outro, e o modelo que me ensinou o que devo amar.

Agora pense nas redes sociais, nos influencers, na pornografia emocional da cultura de massa: tudo ensina o que deve ser amado. Resultado? Todo mundo ama o mesmo tipo de pessoa, busca o mesmo tipo de relação, o mesmo “ideal de amor” – que não é autêntico, mas vendido como comercial de automóveis. O amor vira teatro de vaidade e inveja.

Girard então mostra o passo final: quando todos desejam o mesmo, surge a rivalidade. O amor mimético vira guerra, ciúme, competição. O amor deixa de ser doação e vira campo de batalha simbólico. A sociedade mimética, saturada de desejos emprestados, já não ama – apenas disputa.

III. Os Padres do Deserto – O amor como ascese, a morte do ego

E agora, deixemos os salões dos filósofos e entremos nas cavernas dos Padres do Deserto. Aqui não há teoria, só combate espiritual. Amor? Só se for banhado em sangue – o do próprio ego.

Para os anacoretas egípcios dos séculos III e IV, o amor verdadeiro começa depois que o eu é esmagado. Eles sabiam que todo sentimento começa contaminado pela vaidade, pelo desejo de controle, pelo orgulho. Por isso, não confiavam em si mesmos. O amor, para eles, não é natural, é construído pela luta contra o ego.

Veja o que diz Evágrio Pôntico (busque no Google), o mais sistemático deles:

Não é possível amar o outro sem antes vencer os próprios pensamentos passionais.”

Eles chamavam esses pensamentos de logismoi — impulsos interiores que deformam a percepção do outro. Inveja, luxúria, ira, vanglória. E sabiam que, enquanto esses monstros vivessem dentro de nós, todo amor seria possessivo, mentiroso, projetivo — exatamente como Pessoa descreve.

A proposta deles é brutal, mas clara: mate o eu, e talvez você conheça o amor. Enquanto amar for sentir, desejar, projetar — é ilusão. O verdadeiro amor é caridade ascética, fruto da vigilância e da oração.


RETORNANDO À PERGUNTA CAPITAL: Se para amar de verdade é preciso matar o "eu", então… quem será amado?

Essa objeção aponta o risco de uma ascese que vira despersonalização. Se o amor exige esvaziamento total, não resta mais ninguém para ser amado. É como se dissessem: " Para te amar direito, eu preciso sumir." Ora, mas foi justamente esse "eu" – com seus gostos, sua voz, sua teimosia, seu jeito besta de andar de moto – que ela amou. Se você o apagar, talvez reste um santo, mas ela queria um homem. E um homem tem cheiro, vícios, limites, voz própria.

Mas eis o paradoxo – e a beleza: não é o eu autêntico que precisa morrer, é o eu inflado. O "eu" que precisa morrer é aquele caricato, teatral, autocentrado. O eu-avatar, não o eu-alma. É a persona do espelho, não o rosto que sangra.

A mulher ama o homem não porque ele é perfeito, mas porque ele é inteiro. E só é inteiro quem está liberto da ilusão de ser o centro do mundo.

Os Padres do Deserto não pedem que você mate o eu no sentido existencial, mas no sentido egóico. Você não some – você finalmente aparece. Só quando o eu do orgulho morre, o eu da alma pode emergir. E aí sim, amar.

Em outras palavras: não se trata de desaparecer, mas de desinfetar-se. Tirar as máscaras, os truques, as simulações. O homem que sobra depois disso é menos performático, mas mais verdadeiro. E esse sim, pode amar.

Ela se apaixonou por você, não pelo seu narcisismo. E se foi pelo seu narcisismo, então ela amou a mesma ilusão que você.

CONSIDEREMOS CHESTERTON, RATZINGER E MEU PROFESSOR OLAVO DE CARVALHO

Chesterton, na verdade, ri da modernidade. Para ele, o amor é compromisso, não capricho. Amar é renunciar a todas as outras opções, e isso escandaliza o espírito hedonista. "O casamento é a maior das aventuras", dizia. O amor sem cerca, sem rito, sem sacrifício, não passa de desejo disfarçado de virtude.

Olavo de Carvalho afirma que, para ele, não é afeto – é guerra espiritual. Quem ama precisa conhecer a realidade, reconhecer a hierarquia do ser, saber que é criatura e que a vida não gira em torno do próprio umbigo. Sem metafísica, o amor vira neurose. E toda paixão que não termina em cruz, acaba em inferno.

Ratzinger, intelectualmente mais manso, reconcilia eros e ágape. O amor não é destruído pela fé – é elevado por ela. O eros verdadeiro se abre ao ágape, e o amor conjugal vira caminho de santidade. Amar, para ele, é conduzir o outro à eternidade. Tudo o mais é vaidade.

[Nota 4: A encíclica Deus Caritas Est (2005) de Bento XVI é uma meditação decisiva sobre o destino espiritual do amor humano. Vale a consulta.]


Amor autêntico ou ilusão mimética?

Fernando Pessoa, com sua frase gelada, apenas revelou o que a tradição já sabia: amar é raro porque o eu é uma prisão. Ortega tenta resgatar o amor pela atenção profunda, Girard o denuncia como imitação contaminada, e os Padres do Deserto apontam o caminho da purificação.

O amor verdadeiro só nasce depois de uma morte interior; o resto é teatro, glamour de revista, balé de carências vestidas de afeto.

Como já afirmai acima: se o amor verdadeiro morre, morrem com ele a família, a amizade e até o amor ao próximo. E então resta o quê? A utopia tecnocrática, o hedonismo de farmácia, a solidão com Wi-Fi. É o inferno, mas com air fryer.

G. K. Chesterton – O paradoxo do amor real: limite e liberdade

Chesterton dizia que o casamento era a maior aventura do mundo — porque exige compromisso num mundo viciado em fuga.

O homem que se casa com uma mulher porque a ama é como alguém que se casa com o universo porque ama a lua.”

Para ele, o amor não é espontaneidade emocional – é deliberação espiritual. O amor verdadeiro é o que decide permanecer quando a paixão já se foi. O que diz “sim” todos os dias, mesmo quando o outro está insuportável – e, convenhamos, isso é frequente.

Ele desmonta a ideia moderna de que liberdade é ausência de vínculos. Pelo contrário: só é livre quem se prende voluntariamente àquilo que tem valor eterno. Um homem sem amarras é só um cão sem dono. O amor, portanto, só é verdadeiro quando tem cerca. Só se ama de verdade quando se renuncia a todas as outras opções – e isso é escândalo para o narcisismo moderno.

Chesterton diz que a grande tragédia do mundo moderno não é que os homens não amem – é que amam sem coragem, sem seriedade, sem altar.

Olavo de Carvalho – O amor como guerra espiritual

E agora o meu professor: Olavo. Com ele, o amor deixa de ser categoria afetiva e vira batalha ontológica. O amor verdadeiro, dizia ele, é aquele que se ancora na realidade, e não nas projeções do desejo mimado.

Olavo denunciava com veemência a cultura do afeto autocentrado. Para ele, a “afetividade moderna” era puro sentimentalismo, masturbação emocional, incapaz de sustentar um casamento, criar filhos ou enfrentar a morte. O amor virou “sensação”, quando deveria ser força estruturante do ser.

Amar é um ato da inteligência espiritual, não do estômago emocional.”

E mais: amar alguém exige conhecimento de si mesmo e da realidade objetiva. Sem metafísica, não há amor – só neurose. O amor é possível quando há verticalidade, quando o ser humano sabe que é criatura, limitado, pecador e, mesmo assim, capaz de doar-se.

Ele dizia que o primeiro gesto de amor verdadeiro é o reconhecimento da hierarquia do ser. O narcisismo moderno tenta abolir isso, e assim destrói o próprio chão onde o amor poderia nascer. Para Olavo, todo amor que não tem Deus como fundamento é veneno com sabor de mel.

Joseph Ratzinger (Bento XVI) – O amor como caritas, doação divina

Ratzinger é a voz mais serena e mais profunda dessa lista. Em sua obra Deus Caritas Est, ele reconcilia eros e ágape — desejo e doação, como já disse acima. Ele não os separa, mas os purifica e ordena. O amor humano, diz ele, é bom, mas precisa ser elevado.

O amor entre homem e mulher, quando é verdadeiro, leva além de si mesmo: leva a Deus.”

O eros que se fecha em si vira luxúria, possessão, destruição. Mas o eros que se abre ao ágape torna-se caminho de salvação. O amor conjugal, então, não é obstáculo à santidade – é meio. E isso vale também para a amizade, a família, o amor ao próximo.

Ratzinger é claro: o amor só é real quando assume a forma de cruz. Do contrário, é só desejo travestido de virtude.


CÁ ENTRE NÓS E DO ABISMO À MESA: o amor na prática é sempre ao contrário?

Contestando a afirmação do meu falecido amigo, o cantor Cazuza: como amar de verdade neste mundo degenerado?

1. Escolha alguém que também esteja disposto a morrer para si

Se você ama alguém que está em adoração permanente de si próprio, corra. Não é amor, é campo de batalha narcísica. O amor exige duas almas dispostas à verdade e ao sacrifício.

2. Não espere “sentir”. Decida.

Amor verdadeiro não é impulsivo. É ato de vontade, repetido diariamente. Quem só ama quando sente, já está com outro pé fora da porta.

3. Estabeleça ritos

Rotina não mata o amor, mantém-o aceso. Jantar à mesa, oração juntos, silêncio partilhado, olhar atento. Amor sem rito vira fast-food, e quem está disposto a encarar um “podrão” durante vinte anos?

4. Fuja das telas

O amor morre nos detalhes. E os detalhes desaparecem quando você vive com a cara enfiada no celular – ou se casa com um jornalista, acrescento meio brincando, meio sendo verdadeiro. O demônio moderno mora nas notificações, não se esqueça.

5. Sofra com dignidade

O amor vai doer. A outra pessoa vai te ferir. Você vai decepcioná-la. Mas essa dor é parteira da maturidade. Quem foge da dor, nunca chega ao amor verdadeiro.

6. Eduque para a eternidade

Se você ama alguém, seu objetivo não é fazê-la feliz – é ajudá-la a salvar a alma. Amar é preparar o outro para encontrar Deus, todo o resto é circo.


RESUMO PRÁTICO: COMO AMAR NA ERA DO DESCARTE

  1. Escolha alguém disposto a morrer para si. Narcisistas são bons de cama, mas péssimos de eternidade.

  2. Não espere sentir. Decida. Sentimento vem depois da escolha.

  3. Estabeleça ritos. O amor se sustenta na liturgia do cotidiano.

  4. Fuja das telas. Como já disse, o demônio mora nas notificações.

  5. Sofra com dignidade. O amor vai doer. Aceite isso ou case com um travesseiro.

  6. Eduque para a eternidade. Amar é preparar o outro para encontrar Deus.

Por fim, creio não ser demais e tampouco soar piegas publicar algumas pulsações de um coração que já bateu verdadeiramente por alguém. Diante de todo o palavrório que destilei acima, sempre será bom deixar claro que o verdadeiro amor é aquele que nos coloca prontos para morrer – de verdade – pela pessoa amada, oferecer sua vida pela dela, abdicar de sua felicidade pelo sorriso que o cativou, enxergar o brilho naqueles olhos – os benditos olhos, que jamais serão esquecidos:


ORAÇÃO PELA MULHER AMADA

Senhor dos corações inquietos e das promessas eternas,
diante de Ti coloco o nome dela, como fosse incenso no altar.

Tu a criaste em segredo, lapidando uma pérola no ventre do tempo.
Eu a encontrei já feita mas antes grão, já linda mas antes bela, já misteriosa mas antes inocente.

Confesso, tremi.

Não permitas que eu a ame como o mundo ama – com olhos de devorador,
mas como Tu a sonhaste: com reverência, com temor e fogo justo.

Livra-me de ser um menino apaixonado por espelhos.
Livra-me de fazer dela um ídolo, ou de tratá-la como simples prazer.
Dá-me a coragem de vê-la com os olhos da eternidade.

Que eu a proteja sem dominá-la,
que eu a conduza sem oprimi-la,
que eu a deseje sem corrompê-la,
que eu a admire sem me curvar.

Que o meu amor seja mais cruz que abraço,
mais silêncio que discurso,
mais pão que poesia.

Ensina-me a morrer um pouco todos os dias, para que ela viva mais plenamente.
E que, no fim, quando estivermos velhos e já quase do lado de lá,
ela possa dizer:
" Fui amada como se ama o sagrado: com força, com verdade, com Deus no meio."

Amém.


TRATADO BREVE PARA A MULHER AMADA

I. Não te amo com a pressa dos fracos, mas com a paciência dos eternos.

O amor que tenho por ti não é fome, é vocação.
Não me aproximo de ti como um lobo farejando carne, mas como um homem buscando uma alma.
Se te amo, é porque reconheço em ti um eco de algo que vem do Alto.
Tu não és minha, e por isso mesmo posso te amar com liberdade.

II. Não quero que sejas um espelho, mas um mistério.

Não me atraio por ti porque te entendo – mas porque não te entendo.
És outra, e nisso reside tua beleza.
Não desejo te moldar à minha imagem, mas me despojar para te merecer.
Não quero que completes meu ego – quero que me desafies a sair de mim.

III. Não te prometo um amor fácil, mas um amor verdadeiro.

Sim, vou falhar contigo. E tu comigo.
Mas prometo levantar depois de cada queda com mais fé do que orgulho.
Prometo não fugir quando tua beleza escurecer, ou tua alegria silenciar.
Porque te amo com os pés no chão, e o coração no alto.

IV. Quero te conduzir, não te arrastar.

Se caminho à tua frente, é para abrir caminho.
Se caminho ao teu lado, é para proteger-te.
Se caminho atrás, é para empurrar-te
no vacilo.
Mas em todos os casos,
caminho contigo. E com Deus entre nós.

V. Amar-te é minha penitência, minha honra e minha aventura.

Não preciso de ti para ser feliz – mas contigo, a felicidade se torna possível.
Te amo não porque preciso, mas porque escolhi.
Te amo não com emoção passageira, mas com o peso da eternidade.
E te digo, olhando firme nos teus olhos:

Se Deus permitir, serei teu homem até o último suspiro.
E mesmo depois dele, serei ainda tua lembrança – firme, presente, eterna.


AO FIM E AO CABO

Quem ama de verdade morre de pé, com os olhos voltados ao céu e os pés fincados no chão. O amor não é fuga, não é posse, não é reflexo. É cruz, é altar, é combate. E como dizia um santo antigo: Amar é olhar para o outro e dizer: Tu não morrerás.

Que o mundo nos chame de loucos. Que Pessoa nos chame de ingênuos. Mas entre o niilismo elegante e a santidade oculta, ficamos com a cruz.

Fernando Pessoa foi um grande poeta, um dos maiores da língua portuguesa.

Mas jamais amou ninguém.

Amar é morrer de pé – e ressuscitar junto.


Walter Biancardine



ILUMINISMO SOCRÁTICO?

 


Tenho o costume de folhear as páginas do “Filosofia Sempre”, no Facebook, pois sempre traz artigos que me fornecem algum “insight” com poder o suficiente para me retirar dos depressivos e trevosos abismos da meditação solitária. Sempre bom lembrar que tal página – excelente, por sinal – apenas publica as ideias dos filósofos, sem deter-se em análises, julgamentos e, muito menos, a menor intenção de estabelecer dialéticas. Mas me fornece material para escrever, então vamos ao texto que me chamou atenção:

" A civilização grega atingiu seu ápice em Atenas e traçou o rumo da mentalidade ocidental, com que estamos às voltas até hoje. Os gregos se apaixonaram por si mesmos, pela forma humana, pela História, pelos heróis.
Em seu amor pelo potencial humano, eles nos colocaram num caminho em que esquecemos que os seres humanos existem dentro de um Cosmos maior.
Hoje, é difícil lembrar como é ser parceiro da vida."
Rudolf Bahro

E eis que surge minha pergunta, inevitável: este ato de " apaixonar-se por si mesmo" citado no texto, esquecendo-se de seu entorno, não seria uma característica mais apropriada aos iluministas, que removeram Deus do centro das coisas e lá puseram o homem?

E ofereço minha resposta, indo direto ao nervo exposto do texto:

Sim, tal visão tem muito mais a cara de iluminista do que de grego clássico.

Destrinchemos:

Os gregos antigos, especialmente os pré-socráticos, estavam embriagados com o Cosmos. Heráclito via tudo em fluxo; Anaximandro falava do ápeiron, o ilimitado; Pitágoras ouvia a música das esferas – tudo isso é visão cósmica, quase mística. Mesmo em Sócrates, Platão e Aristóteles, que inauguram o racionalismo, há sempre um reconhecimento de uma ordem superior, seja ela o Mundo das Ideias, o Motor Imóvel ou o Logos. Eles não esqueceram o cosmos. Muito pelo contrário: estavam tentando entender como o homem se insere nele.

Essa tal “paixão por si mesmo”, isolada do todo, só tornou-se moda com o humanismo renascentista e explode de vez no Iluminismo, quando o homem – em sua eterna soberba – arranca Deus do trono e se coloca como medida de todas as coisas. Aí sim, temos o divórcio formal entre o humano e o cósmico. O sujeito vira o centro, e o resto é paisagem ou recurso explorável.

Atenas ainda estava encharcada de deuses, oráculos, tragédias, limites impostos pelo destino e pelo fado. A hýbris, a arrogância desmedida, era punida exemplarmente nos palcos da tragédia justamente porque o homem não podia se esquecer de seu lugar no todo. A tragédia grega é o anti-narcisismo por excelência – um sutil aviso a novatos no ramo de modelos fotográficos.

O que Bahro está fazendo é um tipo de anacronismo poético-filosófico, culpando os gregos por uma guinada que só aconteceu dois milênios depois. É como culpar o bebê pela bebedeira do neto. Então, ou ele está usando os gregos como metáfora para a origem de uma certa mentalidade que depois degenerou (o que é perdoável, se for um recurso retórico), ou ele está metendo os pés pelas mãos – o que considero mais provável, dada as características do autor em si.

Resumindo: os gregos nos ensinaram a contemplar o homem, sim — mas sempre diante de um pano de fundo cósmico e trágico. Quem arrancou o pano, apagou as estrelas e botou holofote no ego foi o Iluminismo, o pai de tantas ideologias mortais e comportamentos inaceitáveis dos dias de hoje.

E quem foi Bahro? Que tal sabermos um pouco mais sobre este homem?

Rudolf Bahro foi um daqueles casos curiosos: um marxista que passou pelo fogo e saiu… místico – tipo um Fernando Gabeira que, ao voltar do exílio, pregava a “Liberação das Bundas”.

Nasceu na Alemanha Oriental, foi membro do Partido Socialista Unificado (o partido comunista da RDA), mas acabou preso em 1977 por publicar um livro considerado herético pelo regime: "A Alternativa", onde criticava o socialismo real de dentro, como um herege critica a própria Igreja (sim, eu sei que, diante da Teologia da Libertação tal analogia é fraca, mas vale a intenção retórica).

Foi solto graças à pressão internacional – os intelectuais do Ocidente ainda tinham algum peso na época – e exilado na Alemanha Ocidental. Lá, fez o caminho inverso de muitos esquerdistas: aproximou-se da ecologia profunda, do pensamento espiritualista e da antroposofia, aquela doutrina esotérica, muito doida, nascida com Rudolf Steiner. Ou seja: saiu do materialismo dialético e caiu nos braços de Gaia.

No fim da vida, Bahro virou uma espécie de profeta verde, um avô de Greta Thunberg, misto de ativista ecológico com teólogo cósmico, pregando uma renovação espiritual do Ocidente, uma crítica à racionalidade instrumental e ao culto do progresso. Ele via a crise ecológica como um sintoma da doença espiritual moderna, causada pela ruptura do homem com o todo — e aí entra a citação que a página “Filosofia Sempre” exibiu.

Só que, como bom romântico tardio, cedia ao exagero e mirava nos gregos quando o problema sempre esteve abrigado no galpão iluminista, onde o homem virou gerente do universo e o cosmos, planilha de Excel.

Ou seja: Bahro é interessante, mas escorrega no essencialismo histórico. Como pensador, tem lampejos — mas não é confiável como guia cronológico ou metafísico. É melhor como sintoma do colapso moderno do que como diagnóstico claro.

Ele nasceu em 18 de novembro de 1935 e morreu em 5 de dezembro de 1997. Ou seja, viveu o suficiente para ver o muro de Berlim subir, cair e virar souvenir — e para tentar, no final da vida, reconstruir um sentido espiritual num mundo que já tinha vendido a alma ao shopping center global.

Bahro é, em última instância, um fruto amargo do século XX: começou com Marx e terminou com Steiner.

Dá pra entender – não dá é pra seguir sem filtro.


Walter Biancardine








terça-feira, 8 de abril de 2025

AS MALDITAS QUATRO LINHAS -


Toda e qualquer solução para nossa atual ditadura que seja "dentro das quatro linhas da Constituição", por "meios democráticos"  ou pior, preservando o "Estado Democrático de Direito" apenas nos condena a jogarmos no campo do adversário, com a bola do inimigo e sob suas regras - é pedir para apanhar.

Desafio o amigo leitor a me mostrar o exemplo de algum país - um só, apenas um- que tenha derrubado uma ditadura através de eleições, projetos de lei ou por meio de seus "valorosos" (?) congressistas: mostre-me apenas um, e eu me calarei.

Do mesmo modo, nossos protestos "pacíficos e ordeiros" apenas reforçam a narrativa do sistema que alega "estarmos numa democracia pujante" - certamente que sim, ou tais manifestações seriam violentamente reprimidas, ordeiras ou não. O último dia 6, por exemplo, serve como belo troféu das "virtudes democráticas" de nossos feitores comuno-globalistas, que pouco se importam com Trump ou sua lei Magnitski diante da legião de "laranjas" à sua disposição.

Por quê a comunidade internacional se preocuparia com nossos clamores - sempre "ordeiros e pacíficos" e realizados sem nenhum impedimento das autoridades? Onde está, afinal, esta ditadura? 

Certamente houveram condenações injustas, ações indevidas na liberdade de expressão de particulares nas redes sociais, mas não há "dramaticidade" - e o falecido Clezão que me perdoe, pois a geopolítica exige mais, muito mais cadáveres para começar a se coçar.

O fato é que estamos sob ditadura e, dentro da lei, dela não sairemos.

Temos apenas duas escolhas: irmos às ruas com sangue nos olhos, dispostos ao sacrifício, e tentarmos tirá-los de lá através da adesão providencial de um Exército amotinado contra seu Alto Comando, ou - se o "Braço Forte, Mão Amiga" continuar omisso, mantermo-nos em sacrifício na luta, até que a contagem de cadáveres sensibilize a comunidade internacional.

É morrer ou morrer - e o Presidente João Batista Figueiredo já havia nos alertado disso.

Para os que não estão dispostos à isso, sugiro que então ocupem-se admirando o ensaio fotográfico de nosso "Führer", ostentando toda sua grandeza, glória e poder.


Walter Biancardine 



segunda-feira, 7 de abril de 2025

O FUTURO DO BRASIL -


Pegue um aluno qualquer do ensino médio e peça para ele escrever um bilhete avisando aos pais que foi à rua conversar com os amigos.

1 - A letra será igual a de um pedreiro nos anos 80 (nada contra os pedreiros, mas eles não tem nenhuma obrigação de escrever bem). Garranchos porcos e ilegíveis.

2 - Não saberá como construir a frase, pois desconhece o que seja um parágrafo ou mesmo qualquer noção de sentido lógico na mensagem.

3 - Tal tarefa ocupará ao menos uns dez minutos, tanto pela dificuldade em manusear lápis e papel quanto pela tormenta cerebral originada por ser obrigado a pensar com nexo.

4 - As meninas - que antigamente sempre tiveram letras mais bonitas e até cadernos enfeitados - se tornaram indistinguíveis dos meninos pela caligrafia grotesca, bruta e grosseira e, igualmente, pela incapacidade de pensar.

5 - Ambos, meninos e meninas, perguntarão: "E desde quando preciso avisar que vou sair? Quem é que manda na bagaça aqui?".

Se os senhores pais estão preocupados com a proibição de celulares em sala de aula - a ameaça dos "professores doutrinadores", que não serão mais filmados - que tal se lembrarem que, caso fossem seus filhos objeto de cuidados e atenção em casa, nenhum doutrinador teria qualquer chance de sucesso?

Se os senhores pais estão indignados com a baixíssima qualidade do ensino atual - que concordo e assino embaixo - que tal cobrar ferozmente dos "pimpolhos" a obrigação de, diante de tanta besteira letiva, tirarem um mínimo de 10 em cada exame?

Por fim, se os senhores pais estão preocupados com seus filhos e seu aprendizado assíduo rumo ao analfabetismo funcional, isto já é um progresso, embora tardio: a evolução se deve a, pela primeira vez na vida, se preocuparem com os mesmos.

Filho não é pet, TV à cabo não é babá, videogames e celulares devem ser interditados até o final da adolescência e deve existir fiscalização rigorosa sobre o que fazem na escola.

O colégio apenas ensina. Quem educa são os pais.

Ou compre um cachorro, uma samambaia e torne-se "pai de pet" ou "mãe de planta".


Walter Biancardine





NEANDERTHAL DIGITHAL -


Preocupa-me a atual incapacidade do brasileiro médio em compreender ironias, sarcasmos, analogias ou mesmo as mais básicas brincadeiras - e tanto faz que sejam por escrito ou ditas em conversas.

O humor médio tupiniquim reduziu-se ao nível pastelão-pornográfico, deixando todo um universo de referências fora disso. A leitura é sempre literal, o sentido figurado ou forças de expressão tornaram-se desconhecidos e uma simples piada pode degenerar em grossa pancadaria.

Fazendo jus à incrível capacidade de ser "sui generis", o brasileiro expandiu seu analfabetismo funcional relativo à escrita a um verdadeiro "analfabetismo auditivo", uma fatal deficiência cognitiva que torna uma simples conversa em verdadeiro depoimento prestado ao delegado, onde cada palavra e vírgula poderão ser fatais.

Paulo Freire não conseguiu tal e hercúleo feito sozinho: a grande e emburrecedora mídia fez sua parte, na interminável apologia à ignorância transmitida em sua programação.

Hoje, somos a primeira "República de Neandertais" do planeta.

Que Deus nos ajude - se não nos devorarmos antes.


Walter Biancardine



domingo, 6 de abril de 2025

O PÓS-MODERNISMO EM FERNANDO SAVATER -


Ainda sem entender as razões que me levaram a dar este artigo como publicado sem que assim o tenha feito, apresso-me a pedir desculpas ao leitor e apresentá-lo, ainda que descompassado de outro texto meu, que fazia referência a este que ora apresento. Vamos ao mesmo.

"O pós-modernismo rejeita a ideia do erudito solitário nascido do Iluminismo.”

A perda da cosmovisão moderna assinala o fim do mundo objetivo do projeto iluminista.”

O pós-modernismo desafia a descrição definitiva (trata-se de uma revolução no conhecimento).”

No centro do pós-modernismo há a negação da realidade de um mundo unificado como objeto de nossa percepção."

(Fernando Savater)

Os trechos acima sintetizam a essência do pensamento pós-moderno, uma corrente que, a meu ver, não passa de um desmonte irresponsável e temerário dos pilares da civilização ocidental. A rejeição ao erudito solitário não é apenas uma afronta ao Iluminismo – por danoso que tenha sido – mas um ataque à própria ideia de genialidade e excelência individual, este é o punctus dolens. Ao negar a centralidade do erudito e da razão, o pós-modernismo nega também a meritocracia e a longa tradição intelectual que moldou o Ocidente, substituindo-a por uma visão de conhecimento fragmentado e subjetivo, onde o saber se torna um mosaico de perspectivas desconectadas da verdade objetiva.

A perda da "cosmovisão moderna" não é um avanço, mas um retrocesso à fragmentação do pensamento que citei, onde cada grupo constrói sua própria narrativa desprovida de qualquer compromisso com a verdade objetiva. Esse relativismo corrosivo mina as bases da ciência, da história e da moral, instaurando uma nova ordem na qual não há critérios para distinguir o verdadeiro do falso, o justo do injusto. Um pensamento filosófico sóbrio, por outro lado, sempre sustentará que o conhecimento é um esforço de continuidade, um processo cumulativo de descoberta e refinamento da verdade, e não um jogo arbitrário – e quiçá ideológico – de desconstrução.

O pós-modernismo, ao desafiar a "descrição definitiva" da realidade, não promove uma revolução no conhecimento mas, isto sim, um colapso da própria ideia de saber. A negação de um mundo unificado como objeto de nossa percepção é a abdicação da razão enquanto instrumento de compreensão da ordem natural. Se tudo é relativo, se não há um mundo objetivo a ser conhecido, então a cultura, a ciência e a moral tornam-se meros instrumentos de dominação ou de interesses políticos momentâneos. Em outras palavras, a verdade deixa de ser uma busca genuína para se tornar uma construção ideológica e artificialmente manipulada, a confirmar minhas suspeitas expostas no parágrafo anterior.

Savater, embora não seja um pós-moderno radical, não escapa completamente dessa influência. Sua inclinação para um relativismo moderado o impede de sustentar uma defesa sólida da verdade objetiva e dos valores perenes. Flerta descaradamente com a dissolução do conhecimento em uma multiplicidade de perspectivas, o que, aos meus olhos conservadores, mina qualquer tentativa genuína de restaurar a ordem e a estabilidade intelectual. Se o conhecimento não pode ser estruturado em princípios fixos e universais, então tudo se dissolve no caos da subjetividade absoluta, e a civilização perde seu referencial sólido – intencionalmente ou não.

É meu dever rejeitar esse caminho, pois entendo que o progresso verdadeiro ocorre dentro de uma estrutura estável e ordenada, na qual o saber se enraíza na experiência e na tradição. A valorização da verdade objetiva, da hierarquia do conhecimento e do respeito às grandes obras do passado são princípios inegociáveis para manter a sanidade intelectual e moral da sociedade. O pós-modernismo, ao contrário, quer destruir essa ordem em nome de uma suposta libertação, mas o resultado inevitável dessa destruição é o colapso da cultura e a ascensão da ignorância travestida de pluralidade.

Quem é Fernando Savater: suas limitações -

Fernando Savater tornou-se um nome relevante no cenário filosófico contemporâneo, sendo um pensador que se equilibra entre a razão iluminista e um certo relativismo moderno, nenhum dos dois predicados sendo algo recomendável. Suas ideias são frequentemente associadas à liberdade individual e ao humanismo, mas também apresentam ambiguidades que merecem uma análise crítica. Nestas linhas, pretendo tornar possível a identificação de eventuais contribuições válidas em sua obra, ao mesmo tempo que aponto suas limitações e contradições.

1. Defesa da educação e da razão -

Uma virtude do pensamento de Savater, reconheçamos, é sua defesa intransigente da educação como elemento fundamental para a civilização. Ele critica a decadência do ensino moderno e o crescente analfabetismo funcional, argumentando que a escola deve oferecer uma formação sólida baseada no pensamento crítico e na cultura clássica. Essa perspectiva se aproxima da visão conservadora, que enxerga a educação como um processo de transmissão de valores e conhecimento acumulado, e não como um simples experimento social guiado por modismos ideológicos.

2. Oposição ao fanatismo e ao totalitarismo -

Savater sempre se posicionou contra formas autoritárias de pensamento, sejam elas políticas ou religiosas. Ele rejeita o dogmatismo e valoriza a liberdade dentro de um sistema democrático. Ainda que sua abordagem tenha um viés liberal, essa postura encontra ressonância na visão conservadora, que também preza pela liberdade, desde que ancorada em valores morais e institucionais estáveis. O perigo, no entanto, reside na inegável tendência de Savater a adotar uma concepção de liberdade excessivamente desvinculada de deveres e responsabilidades.

3. Valorização do humanismo clássico -

Outro ponto positivo de sua filosofia é a valorização do humanismo clássico. Ele resgata pensadores como Sócrates, Montaigne e Kant, promovendo a reflexão filosófica baseada em questionamento e raciocínio crítico. Essa abordagem, quando não deturpada por relativismos excessivos, pode se alinhar a um pensamento conservador que preza pela continuidade do conhecimento e da cultura ao longo das gerações – caberá a cada leitor decidir se existem ou não os “relativismos excessivos” citados acima.

4. Defesa do individualismo (com ressalvas) -

Savater enxerga o indivíduo como o centro da vida social e filosófica. Seu pensamento defende a autonomia do sujeito contra imposições externas, uma visão que, em certa medida, se alinha ao conservadorismo liberal. No entanto, essa perspectiva se torna perigosa ao desconsiderar a importância das tradições, das instituições e do senso de pertencimento que estruturam uma sociedade funcional. O conservadorismo não nega a importância da liberdade individual, mas entende que ela só pode florescer dentro de uma ordem bem estabelecida.

5. Crítica à cultura do vitimismo -

Em diversos momentos, Savater se manifesta contra a cultura do vitimismo, alertando para os riscos de uma sociedade que supervaloriza a condição de "oprimido" em detrimento da responsabilidade pessoal. Ele argumenta que esse fenômeno enfraquece a autonomia dos indivíduos e fomenta divisões sociais. Essa análise se alinha à crítica conservadora ao igualitarismo artificial e à tendência contemporânea de transformar qualquer grupo em detentor de direitos especiais sem a correspondente exigência de deveres.

Onde ele tropeça?

Apesar dessas contribuições, Savater apresenta fragilidades. Seu excesso de confiança na razão individualista o distancia da compreensão de que a ordem social depende de estruturas permanentes, não apenas de escolhas racionais momentâneas. Ele também se mostra ambíguo em relação ao relativismo: critica os exageros do pós-modernismo, mas ao mesmo tempo absorve algumas de suas premissas, como a resistência a verdades objetivas e universais.

No fim das contas, Savater é um pensador que merece atenção por suas críticas aos dogmatismos ideológicos, mas sua insistência em um liberalismo desenraizado impede que ele reconheça plenamente a importância das tradições e das instituições sólidas.

Aprecie-o com moderação.


Walter Biancardine




sexta-feira, 4 de abril de 2025

O PAÍS DO STATUS -


Não gastarei linhas discorrendo sobre as vaidades primárias de ostentar automóveis, jóias, roupas ou até mulheres cobiçadas coletivamente, pois tais futilidades apenas irritam mas em nada prejudicam minha vida. O que desejo comentar é algo muito pior, verdadeira mentalidade farsesca a imperar no universo acadêmico brasileiro, que apressa-se a nos tornar o país das fraudes - fraudes intelectuais, pura busca de status quo, compulsão pela arrogância e ostentação de títulos.

Lanço a pergunta: quantos de vocês já se deixaram impressionar, intimidar, convencer ou calar por alguém que - em agonia retórica - lançou mão da pútrida "carteirada" de dizer-se um "Doutor", um "Mestre" ou mesmo "Pós-Graduado" em qualquer coisa?

Creio que muitos sabem das minhas desventuras junto à esta comunidade intelectual, impermeável qual granito à ideias divergentes de suas "catilinárias do consenso doutrinário" e que rendeu-me incontáveis e ferozes discussões com os referidos e empolados "Ph.D's" - e, nas quais, todos perderam e não encontraram respostas (ou, muito menos, antíteses) aos meus argumentos.

Pois bem, tais linhas devem-se à minha educação de berço - e o que é do berço só a tumba tira - em não respondê-los com uma única pergunta, após a infalível "carteirada": " - O senhor é pós? Quem fez seu TCC?". Ou, prosseguindo, caso fosse um Mestre: " - Quem redigiu sua dissertação?" Ou pior, sendo um Ph.D: "Quem escreveu sua tese?" E o fim da linha, no pós-Doc: " - Pode me apresentar o autor de seu relatório?"

E onde quero chegar com isso? Para ser direto, à fraude, que impera no meio acadêmico brasileiro. Nenhum deles escreveu nada, redigiu nada, estudou nada. Completas nulidades, anafabetos funcionais a carregar, entretanto, pomposos diplomas e certificados que os autorizam a proferir platitudes como grandes novidades ou - para os mais ousados - absurdos cuja única função é chocar valores e princípios vigentes.

Tal tipo de estelionatário vale-se, normalmente, dos serviços de professores - em desespero financeiro - que prestam-se a desenvolver, em parte ou, pior, no todo, seus trabalhos que garantirão o novo e dourado "status" ambicionado.

Como um "Doutor" em filosofia pode não saber filosofar? Ou este elemento acredita que ter lido (porcamente) Foucault, Sartre e outros infelizes - pois Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino é demais para seu espectro doutrinário e espaço cerebral - faz deles "Professores Doutores"? Ler é uma coisa, saber nomes, datas e lugares pouco vale. O que eles jamais aprenderam é o "ato filosófico", a filosofia como método de pensamento, como - desculpem a redundância - "filosofia de vida"; isto não sabem e jamais aprenderam. E eu sei, Olavo de Carvalho me ensinou.

Passada a borrasca de meu tempestuoso contrato com a graciosa Doutora - esta sim, verdadeira "Ph.D", pois sabe e tem propriedade sobre o que fala, embora fraca filosoficamente e carecida de meu auxílio - creio poder falar com conhecimento de causa sobre meu assombro, ao ver-me em um país onde a "elite intelectual" resume-se a um punhado de fraudadores, cujos títulos foram obtidos às custas de abnegados anônimos, que precisavam pagar suas contas ao final do mês.

Esta é a "elite" do pensamento brasileiro? Que desconhece a própria cadeira que ocupa e, eventualmente, leciona? Que jamais mergulhou em noites insones de pesquisa e aprofundamento para escrever seus trabalhos?

Não à toa o Brasil não dispõe de trabalhos citados por nenhuma revista ou publicação científica de valor internacional. Não à toa os candidatos à pós-grado, por exemplo, precisam adequar seus temas às preferências de seus orientadores, pois os mesmos não querem se dar ao trabalho que algo "novo" poderia provocar - e a academia brasileira é avessa ao novo, à divergência, ao embate de ideias.

Que este desabafo seja meu manifesto público de desprezo por tal "elite" acadêmica, reles fraudadores, mentirosos primários e inaptos, mas com muita pose e, alguns, até mesmo com canais no YouTube.

E muita bajulação em torno, cargos vantajosos e dinheiro no bolso também.

Pois este sempre foi o objetivo primeiro de todos eles.


Walter Biancardine 



quarta-feira, 2 de abril de 2025

IMITAÇÃO, ATRASO E HORROR À VERDADE: UMA PAUSA PARA PENSAR -

 


Afirmar um deus único é confessar intolerância e aderir, quer se queira quer não, ao ideal teocrático. No plano mais geral, as doutrinas da Unidade pertencem ao mesmo espírito: mesmo quando utilizam ideias anti-religiosas, seguem o esquema formal da teocracia, se reduzem mesmo a uma teocracia secularizada. O proselitismo tirou grande partido dos sistemas "retrógrados", dos quais só rejeitou o conteúdo e as crenças, para melhor adotar o arcabouço lógico, a forma abstrata.”
(Emil Cioran)
O texto acima, uma proposição do filósofo romeno Emil Cioran, afirma que a crença em um deus único, longe de ser apenas uma questão teológica, carrega consigo uma estrutura de pensamento que conduz à intolerância e à teocracia. A ideia central é que qualquer doutrina que afirme uma única verdade absoluta (seja religiosa ou não) acaba seguindo um modelo autoritário semelhante ao da teocracia, ainda que de maneira secularizada.

Além disso, ele argumenta que os movimentos religiosos ou ideológicos frequentemente rejeitam somente os conteúdos tradicionais das crenças antigas, mas mantêm intacta sua estrutura lógica e sua tendência ao dogmatismo. Isso implica que mesmo os sistemas, supostamente laicos e “modernos” – ideologias – podem reproduzir idênticos mecanismos de dominação e intolerância das religiões monoteístas, que dizem superar.

Em resumo, o texto faz uma crítica às doutrinas de "Unidade" – tanto religiosas quanto seculares – por, segundo ele, perpetuarem uma lógica teocrática e autoritária, ainda que sob disfarces diferentes.


Trazendo razão ao atormentado Cioran -

O argumento apresentado contra o monoteísmo se baseia em uma confusão conceitual entre a unidade da verdade e a imposição autoritária. Defender um Deus único não significa aderir automaticamente à intolerância ou à teocracia, mas sim reconhecer uma ordem objetiva da realidade. Se há um Criador, há uma verdade última, e negar isso em nome de uma suposta pluralidade absoluta leva não à liberdade, mas descamba no relativismo total e, ironicamente, no caos intelectual e moral.

A acusação de que toda afirmação de unidade culmina em tirania ignora a distinção fundamental entre “verdade” e “poder”.


Verdade -

O cristianismo, e em especial a tradição católica, não impõe a fé pela força, mas a propõe pela razão (vide Santo Tomás de Aquino e tantos outros Doutores da Igreja) e pela revelação. A Igreja sempre distinguiu entre a ordem espiritual e a ordem temporal, reconhecendo a autonomia do poder civil. A própria história do Ocidente testemunha que as sociedades que mais floresceram em liberdade, ciência e cultura foram aquelas enraizadas no cristianismo, justamente porque compreenderam que a unidade da verdade não anula a essência da consciência individual.


Poder -

Afirmar que sistemas seculares herdaram a "forma lógica" da teocracia erra apenas no fato de atribuir ao cristianismo uma culpa que pertence, na verdade, ao espírito revolucionário moderno – o “plágio” descarado de Karl Marx por sua vez, pode e deve ser citado, justificando parte do título deste artigo, “Imitação e Atraso”.

Foram os sistemas ideológicos modernos – comunismo, fascismo e outros totalitarismos – que secularizaram um messianismo político, eliminando Deus para colocar no lugar o Estado ou o partido, sempre encarnados na figura de um único e todo-poderoso Líder. A fé católica sempre afirmou que a salvação não vem de um poder terreno, mas de Deus e, neste momento, cabe pequena digressão sobre a prova evidente desta imitação: o “culto à personalidade” dos sistemas comunistas e socialistas.


O culto à personalidade -

Nada mais é do que o velho espetáculo autoritário, em que um líder político é elevado à condição de figura messiânica, infalível, quase divina. Ele não apenas governa, mas se torna um símbolo absoluto da pátria, do partido e do futuro glorioso da revolução. A propaganda estatal o transforma em uma entidade acima do bem e do mal, incensada pela mídia oficial, pela educação doutrinária e pela cultura estatalizada. O resultado? Uma população doutrinada a venerar um indivíduo, como se ele fosse a encarnação do próprio destino nacional.

Essa prática foi emblemática em regimes como o de Stalin na União Soviética, Mao Tsé-Tung na China, Kim Il-Sung na Coreia do Norte, Fidel Castro em Cuba, entre outros. Fotos do líder em cada esquina, discursos eternos em rede nacional, crianças recitando suas máximas como orações, intelectuais bajulando suas "grandes obras" e qualquer crítica sendo tratada como traição. Não é à toa que a figura do "grande líder" é cercada por mitos absurdos: Stalin como gênio supremo da estratégia, Mao como sábio celestial e Kim Jong-il como “o cara que acertava hole-in-one” no golfe, toda vez que jogava. Sim, acreditem.

Na prática, esse culto serve a dois propósitos principais:

  1. Justificar a ditadura – Se o líder é um ser excepcional, quem poderia contestá-lo? A oposição é automaticamente inimiga do povo.

  2. Eliminar qualquer senso crítico – Se a verdade vem do líder, questioná-lo é questionar a própria realidade.

Os sistemas comunistas e socialistas se apoiam nesse mecanismo porque, sem ele, suas promessas utópicas desmoronam rapidamente. Quando a economia falha, a liberdade desaparece e o povo começa a perceber que a igualdade prometida nunca chega, a única saída do regime é criar um ídolo infalível para mascarar o desastre. Afinal, se o chefe é perfeito, qualquer problema só pode ser culpa de sabotadores, imperialistas ou traidores internos.

O culto à personalidade é um sintoma clássico do autoritarismo, não importa o rótulo ideológico. O comunismo, no entanto, o transformou em arte, usando-o como principal anestesia para manter o povo hipnotizado e submisso.


O “horror à verdade” -

Rejeitar a unidade em nome de um suposto pluralismo absoluto é abrir caminho para um mundo onde nenhuma verdade pode ser sustentada, e onde qualquer imposição – mesmo a do relativismo – se torna tirânica. Impossível ao homem de juízo temer a unidade da verdade mas deve, antes, celebrá-la, pois nela se encontra a harmonia da razão, da ordem e da liberdade autêntica.

A obsessão em rejeitar a verdade ou o absoluto origina-se de várias raízes, mas todas convergem para um problema essencial: a tentativa de libertar o pensamento de qualquer amarra, ainda que ao custo da própria razão.

Primeiro, há a rebeldia contra a tradição: desde Descartes, passando pelos empiristas e culminando nos pós-modernos, há um esforço constante para demolir qualquer estrutura conceitual herdada. O absoluto, sendo o sustentáculo das grandes civilizações e religiões, torna-se o alvo preferencial. E por quê? Porque admitir verdades universais significa reconhecer que há, sim, limites para a subjetividade humana; que existem princípios que não dependem da moda intelectual do momento e, para muitos, isso é intolerável.

Depois, há a influência do relativismo e do historicismo. Nietzsche, Heidegger e Foucault são as vedetes, verdadeiras “celebrities” dessa vertente, que encara a verdade como um produto histórico, um discurso de poder, uma construção social. É a velha máxima: “quem controla a verdade, controla o mundo”. Se a verdade não passa de um jogo de linguagem, então nada é fixo, tudo pode ser moldado conforme interesses de época. É uma maneira astuta de justificar ideologias sem precisar lidar com critérios objetivos – e certamente o amigo leitor já fez suas devidas analogias.

E, claro, não podemos ignorar a simples covardia intelectual. A verdade absoluta exige compromisso, esforço e até sacrifício. É muito mais fácil se refugiar no relativismo confortável, onde tudo é interpretável, tudo é fluido, nada precisa ser levado às últimas consequências. Assim, a academia moderna virou um grande baile de máscaras, onde cada um dança conforme a música da subjetividade, evitando o peso das grandes questões e, obviamente, seu compromisso com as mesmas.

Mas eis o problema: a verdade pode ser negada, contestada, relativizada, mas nunca extinta. O real se impõe. Pode-se passar séculos desconstruindo conceitos, mas, no fim das contas, a gravidade continua puxando para baixo, o tempo continua passando e os imbecis, coletivos ou não, continuam tropeçando na própria inconsistência. E desta sina o velho Emil não escapou.


Quem é, afinal, Emil Cioran?

O atormentado romeno é um daqueles pensadores que fascinam e, ao mesmo tempo, incomodam qualquer um que tenha uma visão de mundo sólida e bem enraizada, especialmente sob a ótica cristã e conservadora. Sua filosofia é marcada por um niilismo quase fanático (!), um desencanto absoluto com a existência e uma recusa categórica em aceitar qualquer sentido para a vida. Ele não apenas duvida, mas debocha de qualquer esperança, de qualquer fé, de qualquer estrutura que forneça ao homem um chão firme para pisar.

Ora, para um cristão, o que pode haver de mais contrário à verdade do que essa exaltação da desesperança? Cioran é um adversário direto da esperança cristã, da crença na redenção e da noção de Providência divina. Se para o cristianismo o sofrimento tem um propósito e pode ser santificado, para Cioran o sofrimento é um fardo inútil, um peso absurdo que nos foi lançado sem motivo. Ele despreza a cruz e vê na existência um erro, um acaso infeliz. Seu pessimismo radical o aproxima de Schopenhauer, meu parceiro alemão, mas sem a nobreza estética do germânico — Cioran é ácido, cínico e deliberadamente corrosivo.

Do ponto de vista conservador, há um problema ainda maior: Cioran não apenas rejeita a fé, mas também despreza qualquer tradição, qualquer laço com o passado que ofereça identidade e continuidade ao homem. Considero que seu pensamento seja um verdadeiro veneno para qualquer sociedade que deseje se manter de pé, porque, no fundo, ele prega um ceticismo absoluto, um desmoronamento de tudo o que mantém uma civilização unida. Se todo sentido é uma ilusão e toda convicção é um delírio, como pode uma cultura sobreviver? O conservadorismo se sustenta sobre a transmissão de valores e a fidelidade a princípios perenes, mas Cioran derrama ácido sulfúrico sobre qualquer pilar que se pretenda duradouro.

Ainda assim, há nele algo que não pode ser ignorado: a força de seu maldito estilo. Cioran não é um pensador sistemático, mas um infeliz mestre da aforística, um escritor de talento avassalador, para o mal ou para o bem – no caso, para o mal. Sua lucidez sombria fascina justamente porque toca em algo que todo homem experimenta em algum momento: a dúvida, o desencanto, o esgotamento espiritual. A leitura de Cioran pode servir como uma droga, alienando o pobre discípulo da realidade e conduzindo-o ao prazeiroso nada, justificador do fracasso pessoal de cada um, ou como exercício de imunização – uma espécie de vacina filosófica: ao contemplar o desespero em sua forma mais pura, o cristão pode reafirmar sua fé, e enxergar ainda mais claramente a necessidade de Deus e da graça.

Em suma, Cioran é um demolidor. Sua obra não constrói, apenas esfacela certezas. Para o cristão e o conservador, sua leitura deve ser feita com (muita) cautela, nunca como um guia, mas como um alerta. Ele nos mostra até onde pode chegar a alma que rejeita Deus e abandona qualquer laço com a transcendência.

No fim, Cioran não tem respostas — apenas um riso amargo diante do abismo.

Tal como muitos paisanos, nos dias atuais.



NOTA DO AUTOR: À título de correta mensuração de seus danos, cito alguns filósofos que foram, por ele, influenciados: Milan Kundera, Luiz Felipe Pondé, Fernando Savater – este último, objeto de recente artigo meu https://walterbiancardine.blogspot.com/2025/04/o-pos-modernismo-em-fernando-savater.html .



Walter Biancardine







terça-feira, 1 de abril de 2025

DOIS PONTOS -


1 – Se a Justiça está acima de todos os homens e instituições, quem a comanda certamente será algo como um vice-Deus – sim, porque alguém tem a palavra final na Justiça, e não é um grupo. A Justiça jamais poderá ser absoluta, e nossos destinos sempre estarão sujeitos às índoles alheias, tal como hoje. 

2 – Todo poder sempre é exercido por um só. Disfarçá-lo, diluí-lo como na democracia ou através de um "consenso" é apenas abrigar o verdadeiro poderoso das consequências de seus atos. Se está nas mãos de um só, que saibamos quem é, para que seja punido ou premiado, conforme seus feitos.

Com base em tais premissas, as quais creio serem por demais sonegadas, escondidas e abafadas para todos, analisemos:

O véu da Justiça, o fardo do Poder, destino e autoridade -

A estrutura da sociedade humana repousa sobre alicerces cimentados não só pela razão mas, também, pela tradição, instinto humano e necessidade de ordem. A partir da breve introdução que apresentei acima, duas verdades fundamentais emergem: a impossibilidade de uma Justiça absoluta e a inevitável centralização do poder. Essas constatações, ainda que incômodas para alguns idealistas ou para os eternos oportunistas, são a essência do realismo político e de uma prudência elementar.

A Justiça: mito ou instrumento?

A primeira proposição desafia um dos dogmas modernos: a crença em uma Justiça inatingível, impessoal e transcendente – os “Deuses do Olimpo”, como hoje vemos. A ilusão de que há uma entidade jurídica pura, acima dos homens, de suas misérias e paixões, é um delírio igualitário, um sonho utópico que não resiste à mínima análise histórica. O direito sempre foi, é e sempre será, uma manifestação da vontade de quem o exerce. E essa vontade, por sua vez, não é divina nem infalível, mas humana – demasiadamente humana, diria Nietzsche – sujeita a paixões, preconceitos e conveniências.

Aqueles que depositam sua fé em uma Justiça absoluta fazem-no por ignorância, desespero ou ingenuidade, esquecendo-se de que toda decisão judicial reflete, em última instância, a índole de quem julga – tal como nos “paredões” de um reality show, sabemos mais sobre quem assiste do que sobre quem participa do programa, tendo suas escolhas em vista. 

O código pode ser escrito com todas as tintas da imparcialidade, mas quem o aplica são homens, e os homens não são deuses – longe disso. A Justiça, portanto, não está acima da sociedade; está dentro dela, moldada por sua cultura, seus valores e – principalmente, como nos dias atuais – seus interesses.

Isso nos leva a um dilema central: se a Justiça não pode ser absoluta, tampouco pode ser neutra. Então, a quem serve? A resposta me parece clara: deveria servir à preservação da ordem e dos valores que sustentam a civilização, embora não seja o que hoje vemos. Se não há um critério transcendental para a Justiça (e o Estado é laico), resta-nos um critério histórico e moral: aquilo que garantiu a estabilidade ao longo do tempo deveria ser protegido, e aquilo que ameaça dissolver essa estabilidade deveria ser contido e, preferencialmente, banido.

O Poder: ilusão democrática e o regresso ao realismo -

A segunda proposição que apresentei desmonta outra ficção política moderna: a de que o poder pode ser verdadeiramente disperso. A democracia, o consenso e as supostas decisões coletivas não são mais do que disfarces para ocultar aquele que realmente governa. O poder, por sua própria natureza, é indivisível; pode ser ocultado, pode ser negociado, mas jamais desaparece ou se fraciona.

Ao longo da história, todas as civilizações compreenderam essa verdade: o rei, o imperador, o cônsul, o presidente — sempre há um, e um só. Mesmo sob sistemas que se apresentam como descentralizados, há um núcleo de comando, que obviamente tem um líder e conduz uma vontade decisiva, a impor rumos à sociedade. O perigo da ilusão democrática é que ela camufla essa liderança sob a névoa numérica – um “colegiado”, por exemplo – ou da burocracia e das instituições, tornando o governante invisível e, portanto, impune.

Melhor, então, que o poder seja reconhecido e personificado. Quando se sabe quem manda, pode-se responsabilizá-lo por suas ações, julgá-lo conforme seus méritos e, se necessário, removê-lo. O anonimato do comando — seja através de conselhos, comitês ou parlamentos — apenas permite que decisões desastrosas sejam tomadas sem que ninguém responda por elas.

Não devemos temer a autoridade. Pelo contrário, entendamos que ela é necessária e saudável, se e quando bem exercida. O verdadeiro problema não está no poder concentrado, mas no poder mascarado, livre para erros e abusos, sem maiores consequências.

Entre o realismo e a ilusão -

O que minha pequena introdução acima nos apresenta é uma visão realista da natureza humana e da organização social. A Justiça não é uma força etérea, pairando sobre os homens; ela é uma ferramenta do poder. E o poder é verbo, não é uma entidade difusa; ele sempre pertence a alguém. Reconhecer essas verdades é o primeiro passo para escapar das armadilhas ideológicas do mundo moderno, que prometem igualdade onde há hierarquia e liberdade onde há domínio.

Não nos iludamos com promessas de utopias jurídicas ou democracias perfeitas. Sabemos que a sociedade é feita de homens, e homens erram, manipulam, buscam vantagens. Portanto, melhor do que confiar em sistemas abstratos é reconhecer o jogo do poder como ele é e agir com prudência, sem ilusões.

Se há um soberano, que tenha rosto. Se há Justiça, que seja aplicada com consciência da sua limitação. 

E se há um destino, que este não seja entregue ao acaso, mas sim àqueles que têm a coragem de carregá-lo nos ombros.


Walter Biancardine