sábado, 25 de abril de 2026

ENTRE DOIS FOGOS IGNORANTES - Conto

 


Finalmente um jornal corajoso publicou uma matéria minha, criticando a hipocrisia desse pessoal que se diz “conservador” apenas por moda. Sim, lá estava meu nome, bem grande, “Wilson Pagani”, a assinar a matéria que redigi, com a mesma contundência com que sempre critiquei a esquerda.


Não tardaram os comentários enfurecidos para o jornal. Nem os li. O que me deixou puto foi encontrar com dois amigos no shopping, um canhoto e outro de direita – ao mesmo tempo, pra cúmulo do azar. Digo azar porque são brasileiros médios e o QI dessa raça não costuma ultrapassar 83. Interpretar texto então, é desafio. Enfim, chegou o Oduvaldo, canhotaço e que, logo após os cumprimentos, já veio com seu bombardeio:


- Pagani, meu velho, por quê faz isso? Não percebe que está sendo um fascista? Dando corda pra esse bando de nazistas, que querem transformar o país num quartel?


Mal pronunciei a primeira frase e Tadeu, um amigo direitista, me cumprimentou já furioso, interrompendo o assunto sem cerimônia:


- Wilsinho, você é um bosta! Que merda é essa? Virou comunista? Vá pra Cuba que o pariu, cara! Como teve coragem de escrever aquilo?


E Oduvaldo, por sua vez:


- Nazista! Fascista! Você devia ter responsabilidade com o que escreve num meio de comunicação!


Tadeu não ficou atrás:


- Então você vai lá e escreve que a gente é hipócrita? Tu é petralha agora?


Tentei ponderar com meu amigo direitista, perguntando se ele havia lido realmente a matéria, se havia interpretado o texto – e Tadeu, furioso, sequer parou de me xingar enquanto isso.


- Tá me chamando de analfabeto? Ignorante é você, que critica a direita!


E Oduvaldo:


- Tu é fascista, nazista, homofóbico, racista…


Dei um pulo:


- Ei! Onde foi que falei de gays e negros na matéria?


Ambos:


- Não interessa!


E então me dei conta que aquilo não era uma discussão, mas somente uma sessão de catarse dos recalques e frustrações de cada um deles, vomitando na minha orelha tudo aquilo que jamais tiveram coragem de falar pros patrões, esposas, filhos… para a vida, enfim.


Deixei ambos me xingando, saí da portaria do shopping, atravessei a rua e fui pegar o ônibus.


Lá, duas jovens de cabelo azul, universitárias, me reconheceram e resmungaram:


- Olha o fascista aí, disseram, cochichando entre si.


E uma senhora, típica tia do zap sentada no banquinho, rosnou:


- Francamente… virou comunista…


Saí do ponto de ônibus e fui pro bar tomar umas Brahmas.



Wilson Pagani

(Meu alter ego)



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