segunda-feira, 13 de abril de 2026

MAIS TEM, MENOS DÁ -

Chego no trabalho de manhã e meu chefe me chama pra tomar cervejas, antes das portas abrirem. Café da manhã de umas três ou quatro garrafas. Prenúncio de um bom dia - ou de um dia louco. Arrematamos com um "shot" da cachaça "Cana Caiana", mais suave e gostosa do que muito uísque que já tomei, e o trabalho começa. 

Em pouco tempo de comércio - principalmente quando o local lida com as vaidades e exibicionismos humanos - dá pra perceber que existem datas em que (no meu caso) o restaurante enche mais que o normal. Dia primeiro, pagamento em conta, lota. Dia dez também é dia de muita gente receber ou é dia dos mais prudentes, aquela raça seríssima, gastarem. Mas só após terem pago todas as contas do mês. E depois, lá pelo dia vinte ou vinte e cinco, é a vez da turma do cartão de crédito: a fatura já virou, só vai pagar no outro mês. 

Ontem foi dia dos seríssimos. Dos prudentes. Quase via conservadores do Instagram ao meu redor, chegando em seus reluzentes BMW, Mercedes, SUV's e picapes das mais variadas e caras marcas, bem como motocicletas indecentemente caras. Mesmas roupas, mesmos sorrisos, mesma expressão - ou falta delas - no rosto, quase as mesmas famílias. E as mesmas barrigas e bermudas. 

Pensei: hoje sairei de bolsos cheios, as gorjetas serão boas. Total do dia: sete reais.

É certo que as mãos mais generosas são as que menos teriam pra dar. Na Páscoa, restaurante repleto de fregueses comuns, saí recheado de gorjetas. Na verdade, nem sei por que isso ainda me surpreende. 

Tive canal no YouTube durante anos. Aquilo foi meu sustento. Mas o que segurava minhas contas era a monetização, nunca os raros pix enviados pelos que me assistiam. O brasileiro médio considera isso uma espécie de "gorjeta" - e para o tupiniquim padrão, gorjeta é algo que só os ricos dão. Ostentação. Símbolo de poder. E quem recebe deve agradecer de joelhos, como fosse esmola. Quando a plataforma me desmonetizou e roubou vinte e oito vídeos meus, fali.

Se enviar dinheiro para canais de vídeo é raridade - a não ser aos "influencers" famosos, para verem seus nomes lá - contribuir com páginas que oferecem apenas a monotonia da escrita é algo impensável. Tenho uma página pessoal desde 2007 e lá tem meu pix. Uma única vez um louco me enviou quinhentos reais - sim - mas descontando esse surto, nada mais. Nunca. Ninguém agradece o que leu ou incentiva escritores. Para o mediano, escrevemos por vaidade e prazer, portanto precisa ser de graça; sermos lidos é quase um favor que nos fazem.

Aprendi a lição. Semana que vem rezarei pra que o estacionamento esteja lotado de Uno 87, Marea, Del Rey, Monza e até alguns Chevette - não, me perdoem. Aí é exagero.

A verdade é que os que mais tem, menos dão. A menos que saia no Instagram. 

Terminei o dia tomando muito mais cervejas e convidando um fiel e antigo cliente, o sr. Nelson - ele é  o escritor que jamais leu um livro - para ser alvo da dedicatória de minha próxima obra.

Nesse momento, a ressaca é medonha.

Tudo normal, vida que segue. 


Walter Biancardine 




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