“Eh, vida de gado… povo marcado, povo feliz”.
Zé Ramalho acertou em cheio, inclusive nomeando a obra como “Admirável Gado Novo”, parodiando o livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.
Se minha cabeça não é de gado, a vida que levo é.
Balançava meus tormentos e rugas em pé, no ônibus, pelas estradas rurais de Cabo Frio – nada de asfalto; chão puro, lama e poeira divididas com cavalos, bois, galinhas e vacas – enquanto ouvia um senhor tentar converter uma senhorinha, certamente ainda não doutrinada.
Ou escolada demais pela vida:
- Mas o correto é dar o dízimo. Tem que dar pra Deus, pra Ele te abençoar.
A velhinha, incrédula:
- Então, se eu não pagar, Deus não me abençoa?
O estagiário de pastor gaguejou e saiu-se com essa:
- Deus abençoa tudo que a gente faz pelos outros, mas tem que dar o dízimo.
Não convenceu a velha.
Muito menos a mim.
Sempre fui alérgico a instituições. Elas são feitas de homens, e homens são sempre animais quebrados, tentado aparentar normalidade, honestidade e alegria.
Nunca funciona.
E não será um surto de Lutero que irá me convencer do contrário.
Fiquei o resto da esburacada viagem pensando o que Deus faria com os cinco reais que eu daria de dízimo.
Compraria um sacolé para algum querubim pidão?
Faria uma “inteira” pro vinho, com os anjos?
Ou daria de gorjeta para o anjinho que dá um trato, polimento, nas auréolas?
Saltei do ônibus no Jardim Esperança e fui no mercado comprar açúcar, café e outras coisas.
Gastei meus cinco reais tomando café na padaria.
Walter Biancardine

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