sexta-feira, 10 de abril de 2026

MARIONETE


Eu era jovem, carioca, morava na zona sul do Rio de Janeiro. Não tinha um tostão no bolso e as garotas me desprezavam por minha feiura e personalidade estranha – sempre sozinho, calado, escrevendo, lendo ou desenhando. Mas era um privilegiado.

Nasci e me criei num grande apartamento a uns cem metros da praia. Podia me dar ao luxo de escolher entre ler Tácito ou pegar onda, dependia de quem estivesse na turma, na areia.

Normalmente escolhia ler, refletir, ruminar comigo mesmo trancado no quarto ou caminhando pelas ruas. Perambulava pela rua Barata Ribeiro, Galeria Menescal, Avenida Nossa Senhora de Copacabana e entrava na galeria do Cine Joia para ver os peixes no tanque. Depois voltava pela Santa Clara – onde eu morava – e dava uma rápida parada para comprar pasteizinhos na Massas Suprema, se tivesse alguns trocados.

Repleto de pensamentos acumulados nas andanças pelas ruas, eu ligava o rádio – “receiver”, como dizíamos. Na virada dos anos 70 para 80 a estação era sempre a Rádio Cidade FM, “102,9 no seu dial”, dizia o locutor. Era a melhor da cidade, nem precisávamos gravar fitas – e inevitavelmente comecei a fazer uma ligação entre o tipo de música que tocava e a meteorologia. 

Dias chuvosos, músicas românticas, melancólicas, muito rock inglês. Dias nublados, ainda músicas sombrias e até alguns flashbacks dos anos 60. Nos dias de sol era a pauleira de sempre: rock americano e grupos nacionais explodiam a torto e a direito com suas músicas anfetamínicas – o sol era a constante no Rio, assim a mídia o louvava como símbolo da juventude, alegria, descontração e muita pegação. Era a única maneira de tornar aquele maçarico abrasador algo simpático para o infeliz que trabalhava sob 40°, nos subúrbios.

E funcionava. Sorriam, suados e pingando, imaginando orgias na praia enquanto carregavam caixas do caminhão para o galpão.

Na TV a novela das sete da noite era dedicada a essa mesma juventude. Bandos de rapazes musculosos corriam para lá e para cá sem camisa, ostentando seus físicos e seguidos por belas mulheres, com bundas enormes, usando biquinis invisíveis à olho nu. Era o culto ao cio eterno, à euforia descontrolada batizada de “alegria de viver” e “jeito jovem”. Sim, a juventude era tudo. A infindável adolescência. Quem viu o filme “Menino do Rio” sabe. Servia como um balancete de nossas tardes juvenis, apagando a luz do sol e nos mandando entrar para tomar banho, jantar e se arrumar para a bela noite que prometia o sucesso.

E para nos arrumarmos e entrarmos nesse clima mais adulto havia a novela das 9. Sempre com personagens riquíssimos e sofisticados, muito bem vestidos e frequentando lugares que eram um “must” irmos algum dia. De lá saia nossa moda, a roupa que usávamos, os lugares que íamos, os carros que tínhamos ou sonhávamos – embora usando as gírias ensinadas pela novela das 7. E o clima musical da Rádio Cidade também mudava. Agora eram músicas densas – a maioria hoje clássicas, em eternos “revivals” – e embalavam a porta do Chevette sendo aberta para a “gatinha” com quem sairíamos.

O rádio modulava minha “vibe”. A TV me ensinava modas, modos e lugares além de como tratar as mulheres. E não há quem não tenha saído do cinema se achando um grande dançarino, após assistir “Os Embalos de Sábado a Noite”. Eu fumava Hollywood, e deixava o maço em cima da mesa do bar para dizer que eu era tudo aquilo que os comerciais do cigarro mostravam: surfista, piloto de asa delta, praticante de wind surf, tudo. Um fenômeno.

Na verdade, um marionete.

Eu e milhares de jovens da zona sul do Rio – ao menos – obedecíamos, ansiosos, os cordéis. Queríamos ser manipulados, adestrados, e quem representasse melhor o papel levaria a “gatinha”. O melhor ator seria o líder da turma – sim, haviam turmas de rua na época. O mais aplicado na farsa seria o destaque do bairro.

Fui um marionete e não me envergonho disso.

Não me envergonho de minha juventude imbecil – o papel do jovem é ser mesmo um imbecil.

Me envergonho é de ter desistido tão cedo, cedendo às evidências de minhas condições estéticas e financeiras, pois é nessa época que as networks mais sólidas se formam, apontando você para o mercado de trabalho em poucos anos. E meus tempos em alguma turma foram breves.

Tivesse sido eu um marionete mais aplicado; tivesse eu mais força de vontade e persistência na arte de ser ator; jogasse minha persona no lixo em prol do dinheiro e posição social e certamente eu não seria o escritor miserável de hoje.

Me agarro ao Jack Daniel’s e a frase “ao menos não me vendi”.

Consolo de merda.


Walter Biancardine



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