sexta-feira, 24 de abril de 2026

SEXTOU! UM JAZZ QUE OUVI NUM ENCONTRO DE MOTOS -

 


Sexta-feira, a semana termina. A noite de hoje é para música, drinks e uma boa companhia.
Que tal “Take Five”?

Boa escolha; não é de elevador.
É coisa de gente que já percebeu que o elevador nunca chega.
Para meu espanto, escutei a mesma quando fui no Ostras Cycle, o encontro de motos recentemente realizado em Rio das Ostras, Rio de Janeiro.

Se você vai sair com sua eleita esta noite e pretende escutá-la, não deixe de conferir o que segue abaixo – sim, já tive bons dias e parabenizo o amigo pela diversão de hoje.

A canção nasce dentro de um disco que, por si, já é um tapa na cara do ouvinte acomodado: “Time Out”, do Dave Brubeck. Mas a peça em questão, poucos sabem, é do Paul Desmond – um sujeito que tocava como quem pedisse desculpa por existir… e ainda assim hipnotizava a sala inteira.

Para os amantes da música, antes de me perder em filosofias de botequim – sim, tenha paciência e chegarei lá – começarei falando do compasso: a vida manca.

“Take Five” está em 5/4, e isso já diz tudo.
A maioria da música popular é quadrada, obediente, marchando como empregado de fábrica em segunda-feira: 4/4. Você conta, você prevê, você se entorpece. Aqui não. Aqui falta um pedaço. Ou sobra. Depende do humor e do uísque.
Cinco tempos é o sujeito que tenta andar reto depois da terceira dose. Um passo a mais, um tropeço elegante. A música balança, mas não cai. É o retrato de uma dignidade precária.
É quase filosófico: me perdoe Roger Scruton, mas a beleza nasce da assimetria. A perfeição é coisa de catálogo – a vida real é manca.

E o sax? Nada mais que um homem que não levanta a voz.

Desmond entra com aquele sax alto (“alto” é o tipo do instrumento, não o volume usado) suave, limpo, indecentemente pudico de tão contido.
Nada de virtuosismo espalhafatoso. Nada de “olhem pra mim”. Ele toca como quem sabe que ninguém está realmente ouvindo – e, ainda assim, insiste.
Sim, essa é a vida de quem toca em bares.
É o tipo de som que Chet Baker aprovaria: melancolia sem maquiagem, uma tristeza educada, de terno passado. Se fosse gente, seria o sujeito no bar que fala baixo mas, quando fala, você cala.

Agora é a vez do piano: a ordem no caos.

Brubeck – que todo mundo credita a música – entra como um arquiteto tentando organizar um prédio que já nasceu torto.
Os acordes são blocos. Firmes. Quase teimosos. Ele segura a estrutura enquanto o sax vagueia. É o velho conflito: razão tentando domesticar a emoção, sem nunca conseguir totalmente.
E isso é bonito.
Porque a graça não está em resolver. Está em sustentar esse conflito sem desmoronar.
E não há algo de perigosamente excitante nisso?

Chegou a hora da loucura, a bateria: o coração que tropeça.

E então vem Joe Morello.
A bateria não marca tempo – ela negocia com ele. O famoso solo não é exibição: é um diálogo interno. Um homem discutindo com o próprio pulso.
Não acelera. Não força. Ele persuade o ritmo. Num mundo que vive correndo atrás de relógio, Morello faz o Rolex pedir licença.

E agora o principal, a filosofia de botequim (a única que presta).

“Take Five” é, no fundo, uma pequena rebelião.
Não grita. Não quebra nada. Não levanta bandeira. Só se recusa a ser previsível.
E isso, amigo leitor, é mais subversivo do que qualquer discurso inflamado.
Porque o mundo moderno adora padrão: horário, produtividade, opinião pronta, emoção de vitrine. Tudo em 4/4.
“Take Five” entra, acende um cigarro imaginário e diz:
“Hoje não.”

Se eu tivesse capacidade e talento para compor um jazz, seria algo assim.
Sem heroísmo. Sem redenção. Só um fluxo honesto de tempo mal resolvido. Um copo meio cheio – não de esperança, mas de resignação lúcida.

“Take Five” não te leva a lugar nenhum.
E é exatamente por isso que ela presta.
Porque, no fim das contas, ninguém está indo a lugar nenhum mesmo – só estamos tentando manter o ritmo sem cair da própria vida.
E, convenhamos, em 5/4 isso fica até mais sincero.

Para ser mais claro:

“Take Five” não começa. Ela se infiltra.
Você não aperta o play – ela já está lá, como um cheiro antigo de cigarro impregnado na madeira. Um resto de noite que não foi embora. E quando percebe, já está sentado, olhando um copo qualquer, desses que sempre têm uma marca de dedo que não é sua.

O mundo lá fora segue em 4/4 — ônibus, relógios, gente fingindo que sabe para onde vai. Aqui dentro, não. Aqui o tempo manca. Cinco passos. Um a mais. Ou um a menos. O suficiente para te lembrar que a vida nunca fecha a conta.

E isso incomoda.
Porque você percebe que passou a vida inteira tentando explicar sua própria existência como se fosse uma tese. Como se alguém estivesse avaliando. Como se houvesse banca. Não há. Nunca houve. Só o ruído – e, de vez em quando, uma linha de sax atravessando o nada com uma elegância que beira o insulto.

A música não lamenta. Insiste. Bate, organiza, empilha acordes como um sujeito que ainda acredita que dá para pôr ordem no caos – mesmo depois de já ter perdido essa aposta umas cinquenta vezes.
É o homem que ainda arruma a cama sabendo que vai dormir mal.

Não é questão de ritmo – é pura negociação. Um sujeito conversando com o próprio coração: “calma, velho, não pare ainda”.
E o coração responde: “não prometo nada”.

Há algo de profundamente humano nisso. Nada de heroísmo. Nada de catarse. Só continuidade. Só o esforço meio ridículo de manter o pulso enquanto tudo em volta sugere desistência.

“Take Five” não te salva. Não te consola. Não te dá respostas.
Ela faz companhia.
E isso, num mundo que vive vendendo soluções, é quase obsceno.

Essa música soa como uma mulher que você nunca teve competência para amar direito. Não porque ela fosse complicada – mas porque você era.
E aí está o truque.

A música não é sobre o compasso. Nem sobre técnica. Nem sobre inovação.
É sobre deslocamento.
Você está sempre meio fora do lugar. Meio fora do tempo. Meio fora de si. Cinco tempos quando o mundo exige quatro.
E passa a vida tentando corrigir isso.

“Take Five” faz o oposto: ela te dá permissão para continuar torto.
Sem redenção. Sem discurso. Sem aplauso.
Só aquele sax atravessando a noite como uma faca talhando sem pressa –
e você ali, finalmente sem precisar fingir que está inteiro.

No fim, quando a música acaba, nada muda.
Mas alguma coisa em você pára de resistir.
E isso já é uma pequena vitória. Ou uma derrota bem aceita – que, convenhamos, às vezes é a única forma honesta de vitória que existe.

Escute a música e vá com calma – o mundo vai continuar em 4/4, batendo ponto e fingindo sentido. Você sabe: às vezes o sujeito sobrevive melhor quando aceita o próprio descompasso… e segue andando mesmo assim.

Ela não tem letra, nada diz.

Mas fala o bastante.

Quer escutar essa obra de arte? Clique neste link: https://youtu.be/ryA6eHZNnXY?si=gVJ6hNog_1V8UMG8


Walter Biancardine

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