Conversava com a gerente de uma livraria e ela me disse:
- Tem gente que vem aqui e pergunta o preço de um livro. Ao saber, pega o celular e vai na Amazon comprar um e-book por uns trocados. Assim! Na minha cara!
E arrematou, no mesmo comprimento de onda que eu:
- Gosto quando aparecem clientes que folheiam os livros e até, disfarçadamente, os cheiram...
- Sim, eu faço isso, arremedei.
Eu cheiro livros. Para os malucos da quebrada, digo que seria capaz de bater uma carreira de uns 3 ou 4 livros em um só dia, a depender do tema.
Gosto do papel, do cheiro, do peso e - principalmente - quando já estão um pouco gastos, meio amarelados e pesados de ácaros. Carregam a história neles contada e também a de seu dono; de onde foram guardados, como foram tratados e manuseados.
É um curriculum vitae.
Livro não é só um objeto. Tem alma e personalidade, que reflete a do seu dono.
É algo físico, agradável ao tato, não depende de eletricidade nem de aparelhos e podemos deixar para os descendentes.
Como deixar um e-book para o neto? E se a nuvem onde ele estiver hospedado quebrar, falir, sumir?
Ok, sempre podemos baixá-lo. Para onde? Quanto tempo dura um computador?
Já vi livros com mais de 100 anos, computadores ainda não.
E como escrever uma dedicatória em um e-book?
A caligrafia Times New Roman é sempre igual. A minha, a sua, a dele.
Enviar o livro digital acompanhado de um e-mail carinhoso é o cúmulo da robotização.
Minha letra é minha alma.
E você saberá que minha mão tocou naquele papel.
Talvez as pessoas estejam sofrendo um misto de deslumbre e pânico com o mundo digital.
Deslumbre pelo fácil acesso, preços aviltantes, muita pirataria e, ainda, é um belo pedestal de suas vaidades. Mas o pânico está evidente: ninguém quer a responsabilidade de ser, de ter, manter, cuidar, tratar, se expor, viver a vida real. Aceitam um Epub corrompido mas não uma página rasgada ou manchada de café.
A vida real machuca. Ofende. Exige cuidados.
E somos todos criancinhas da Xuxa.
Walter Biancardine
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