Faço um bico no restaurante "Caminho da Roça", de seu Dail, aos domingos. É em frente onde moro e garante um trocado para artigos de primeira necessidade durante a semana - cigarros, café e bebida. E também pão, desodorante e paga passagens de ônibus. Providencial; sou grato por isso.
Ontem, domingo de Páscoa, fui cumprir minha obrigação. Fiquei feliz, ganhei até gorjetas. E ao fim do expediente, meu chefe me chamou para beber - a melhor parte do dia.
Na mesa ao lado da nossa, um casal. Ele com uns 55 anos, ela por aí também. Flácidos, inchados, entediados. A senhora não tirava os olhos do celular. Digitava, dedilhava, rolava a tela e parecia ignorar que havia um marido ali, sentado à mesa com ela.
O pobre olhava em volta, aflito, em busca de salvação. Seu corpo não estava virado para ela - a linguagem corporal diz tudo - mas sim em nossa direção. Ele ansiava por uma mão amiga, um olhar, um comentário para ele, que o permitisse deixar a mulher monolítica e se juntar a um outro grupo para conversar. Com a mulher, óbvio, não haveria conversa jamais. O celular matou a conversa olho no olho.
Eu o vi. Ele viu que o vi. Mas não o chamei, a mesa não era minha e seu Dail sentava-se de costas para ele.
Não sou bote salva-vidas. Completei nossos copos com a cerveja, geladissima, pensando que já havia visto - vezes demais para meu gosto - muitas cenas como aquela. Virou rotina. Normal.
Se eu saio com alguém e essa pessoa olha o celular ao invés de meus olhos, me levanto e vou embora.
Walter Biancardine

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