Ernest Hemingway escreveu como quem já tinha sentido o cheiro da pólvora junto ao suor de gente que não veria no dia seguinte:
“Quem está contigo aí na trincheira?”
“E isso importa?”
“Mais que a própria guerra.”
E é aí que tudo apodrece.
Porque a guerra – qualquer guerra – sempre é uma desculpa bonita para canalhas bem vestidos e idiotas barulhentos brincarem de heroísmo, de serem líderes, sem nunca terem sangrado de verdade. A direita que eu vejo – essa que me fez largar o campo, os “Conservadores de Instagram” – não caiu lutando. Caiu rindo alto, apontando o dedo, repetindo slogans como um bêbado repete a mesma piada sem graça.
Ou sequer sabe que caiu, o que é pior.
Mudaram os rótulos, não a alma. É a mesma fome de aplauso, o mesmo vício em plateia, a mesma necessidade de parecer certo em vez de estar certo e os mesmos gritos, a mesma fúria que tanto condenamos na esquerda. Esquerda, direita… no fim das contas, dois espelhos rachados refletindo a mesma vaidade grotesca.
E percebi isso – tarde o bastante para doer, cedo o bastante para conseguir escapar com alguma dignidade.
Porque trincheira não é lugar de discurso. É lugar de homem confiável. De silêncio pesado. De olhar que não foge quando o mundo começa a cair aos pedaços. Quando olhei ao lado… não havia ninguém. Só caricaturas. Só gente performando coragem como quem posta foto de academia, exigindo obediência cega “democraticamente”, xingando e se enfurecendo contra quem prefere o verde-musgo ao verde-bandeira. Petistas de sinal trocado.
E aí a frase do Hemingway deixa de ser literatura. Vira sentença:
“Importa mais que a guerra.”
“Importa mais que a guerra.”
Importa tanto que, se não houver ninguém de valor ao nosso lado, a guerra perde o sentido. Vira teatro barato. Vira circo ideológico com ingresso grátis e dignidade cara demais para pagar.
Não abandonei a análise política, mas um bando de farsantes. E há uma diferença – e é algo que poucos têm coragem de admitir, porque exige engolir o orgulho, cuspir a própria história e aceitar que se lutou, por um tempo, ao lado de gente pequena.
Isso corrói.
Mas também limpa.
Melhor uma trincheira vazia do que uma cheia de covardes barulhentos. Melhor o silêncio honesto do que o grito ensaiado. Melhor a solidão de quem enxerga do que a companhia de quem apenas imita.
A verdade crua? Guerra nenhuma vale a pena se os homens ao nosso lado não prestam.
E quando não prestam, o único ato digno não é resistir – é sair.
Sem discurso. Sem despedida. Sem olhar para trás.
Só sair.
E deixar que eles gritem sozinhos, ecoando no vazio que merecem.
Eu fiz o movimento mais raro – não mudei de lado, eu saí do teatro. Isso custa caro, mas preserva o único capital que ainda importa: lucidez.
Se um dia eu voltar à trincheira, que seja por causa dos homens ao lado.
Nunca mais pela guerra.
Walter Biancardine

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