quarta-feira, 29 de abril de 2026

É ISSO QUE VOCÊS QUEREM? -


O circo pegou fogo – e ninguém quer apagar. 
O novo coliseu cabe na palma da mão e atende pelos nomes de Instagram, Facebook ou Twitter.

O picadeiro agora é uma arena de bolso, onde covarde vira gladiador de comentário e imbecil vira juiz de execução. 
Sem pudor, sem freio, sem vergonha. 
Só uma turba elétrica, histérica, mastigando nomes como se fossem ossos.

Querem sangue.
Não é metáfora. É fetiche.
Não há mais lado. Não há mais causa. Há só dentes rangendo, olhos vidrados e uma fome que não é de justiça – é de carne.
Querem sangue.

O de Luiz Inácio Lula da Silva, servido quente, de preferência em transmissão ao vivo.
O dos ministros do Supremo Tribunal Federal, em fatias, com comentários e emojis.
Mas isso já era esperado. O problema – o câncer mesmo – é outro.
A faca virou para dentro.

Seguidores de Allan dos Santos babam pela queda de Kim Paim.
Seguidores de Kim contam os minutos pra ver Allan afundar.
Não é divergência.
É linchamento recreativo.

Em Minas Gerais, querem Romeu Zema na guilhotina.
Na outra esquina, Flávio Bolsonaro na fogueira.
E os filhos de Jair Bolsonaro? Viraram menu degustação. 
Um por noite, com direito a avaliação nos comentários: “crocante por fora, sangrando por dentro”.

É isso que chamam de “direita”?
Um bando de gente que não consegue sustentar uma ideia por cinco minutos sem precisar arrancar o fígado de alguém?
Isso não é força. É fraqueza berrada.
É covardia com filtro.

Enquanto a turba se delicia, o sujeito que um dia concentrou tudo isso – Jair Bolsonaro – vai sendo mastigado vivo. 
Não por inimigos – por fãs. 
Não por oposição – por plateia. 
O fim mais baixo: virar esquecimento em câmera lenta.
E ninguém pisca.
Porque o show não pode parar.

Querem Nikolas Ferreira fazendo caminhada como se fosse Jesus entrando em Jerusalém.
Processo contra Gustavo Gayer vira episódio, com teoria conspiratória de quinta.

A cada notificação, uma execução simbólica. 
A cada like, um empurrão a mais na beira do abismo.
E ainda têm a pachorra de falar em liberdade.
Liberdade de quê?
De destruir o próprio campo?
De transformar aliado em inimigo com a mesma facilidade com que troca de camisa?
Chamam isso de conservadorismo?
Conservar o quê – a burrice? A vaidade? O vício em espetáculo?

E no meio disso – essa palavra que adoram usar quando convém – a “ditadura” – ela vai passando como um garçom invisível. 
Ninguém olha. Ninguém chama. Ninguém paga a conta.
Porque o importante não é a liberdade.
É o espetáculo.

Não querem vitória.
Querem vingança.
Não querem ordem.
Querem catarse.
Não querem verdade.
Querem um inimigo novo a cada manhã, como quem precisa de café pra acordar.

A verdade nua: não querem vencer. Não querem governar. Não querem sequer entender.
Querem sentir.
Aquela descarga curta, suja, barata – o prazer de ver alguém cair. 
Hoje o outro. Amanhã o próprio.
Porque esse tipo de fome não sacia. Só aumenta.

Enquanto isso, o cenário fecha, aperta, sufoca. 
Pode chamar do que quiser – o nome pouco importa quando a corda está no pescoço.
Mas a turba não vê a corda.
Está ocupada pedindo mais sangue.
Mais cortes.
Mais escândalos.
Mais degolas virtuais.

A velha Roma pelo menos sabia que aquilo era barbárie. Hoje se chama isso de “conteúdo”.
E seguem pedindo mais.
Sempre mais sangue.
Até não sobrar ninguém – nem cabeças para cortar.

E então vem o silêncio.
A ressaca.
O vazio.

Mas aí já será tarde. 
Sempre é.

Uma velha lei esquecida: quem vive de assistir execução acaba na fila da espada – e ainda acha que é entretenimento até o último segundo.

Então, sem teatro, sem lirismo, sem a desculpa confortável da ignorância:

É isso mesmo que vocês querem?

Sangue?



Walter Biancardine



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