segunda-feira, 27 de abril de 2026

TENHO ME IRRITADO COMIGO -

 


Sempre gostei de solidão, de ficar sozinho.
Minha vida atual não é novidade, recentemente atravessei alguns anos assim.
E eu falava comigo mesmo, caminhando nos pastos desertos. 
Tinha assunto, verdadeiros insights aconteciam; na verdade eu transcendia.
E me deslumbrava comigo mesmo.

Sozinho, debati filosofia, teologia, sociologia, antropologia – e escrevi muito, tudo saído dessas conversas. Dois livros, pelo menos, resultaram disso.
Depois caí no mundo, caí na conversa e passei um bom tempo de vida “normal”.

Casa, comida e a fatal mudança pro Rio de Janeiro.
A verdade é que me vendi.
Formigueiro de gente, rodoviária de vaidades, Maracanã de farsas derrotadas, fingindo sucesso.
Eu, inclusive. Burro, uma besta enganada, manipulada. 
Mas descobri.
E voltei pro mato.

Achei que seria tranquilo, já conhecia essa vida.
Sim, conhecia essa vida e também muita gente por aqui.
Só não sabia que eu tinha me tornado um chato pra mim mesmo.

Que novidades conto pra mim?
Que sacadas tenho hoje, ao longo de meus passeios solitários?
Brotam ideias? Intuições? Inspiração?
Nada. Nada vezes nada.
Acho que tudo o que eu tinha pra me dizer, já me disse.

Não sei se um fusível queimou, ou um neurônio.
Mas preciso de gente agora, pra conversar.
Pior: eu, exigente e fresco, preciso de gente pra ouvir, falar, observar – e só depois criar.
Pior ainda: cairia bem alguns que falem de arte – mas artistas nunca falam de arte, só reclamam do governo – qualquer governo – que nunca ajuda.
Gente que fale de poesia, pintura, música e arranjos; gente que tenha o sacrossanto – saco santo – de se perder comigo em teses filosóficas ou discussões teológicas – mas com proibição expressa de se falar em política.

Ou a cereja do Martíni: gente que fale de suas misérias, de seu emprego torturante ou de sua mulher medíocre.

Que fale de seu mecânico explorador querendo enganá-lo, ou do eletricista que tentou o mesmo, só pra trocar os disjuntores da casa. Ou da louca com quem casou, que já gastou dois meses de seu salário no cartão de crédito.

Pessoas que, depois da quinta ou sexta dose, confessem sua falta de perspectiva; suas frustrações nos planos de vida – sonharam com a estratosfera mas raspam a barriga no quebra-molas.

Que descobriram que o sucesso é ser o melhor serviçal – sem vida própria, saído de uma linha de montagem: mesmos gostos, hábitos, roupas, carros, opiniões e ambições. E se deram conta disso, e por isso bebem.
Ou choram escondidos, no banheiro.

Que o chefe é um vampiro e sugou sua alma.
Que o sistema só dá “quase” o que ele busca, nunca o “tudo” – pois, se der, ele pára.
Que o sistema não o quer parado. Que ele é uma peça, só uma peça, dessa máquina.
Que a vitória nada ensina, só as derrotas.

Gente que frequente bares e botequins. Que beba qualquer merda – até uma Glacial.
Copos de plástico. Churrasquinhos de gato. 
Que saibam jogar esse pingue-pongue da vida.

Mas não há bares por aqui, na roça.
Apenas portas, onde só se vende biscoitos e cachaça. 
E mandioca.
Como escrever sobre a vida sem ninguém vivo, ao redor?

Aqui não vejo vidas, só existências;
Não há queixas ou conclusões.
Só submissão.
Submissão ancestral, de um Brasil escravagista.

Não tenho com quem falar.
Vida urbana também é escravagista. Mas é meu território.

Só que não aguento mais meus próprios assuntos.

Aceito companhia pra beber.
De preferência, pagando a conta.


Walter Biancardine



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