terça-feira, 14 de julho de 2026

SEM SINAL


a parte boa de minha vida
é o sábado que passou
muito legal e divertido
mas já foi e não volta

a parte ruim é depois
de amanhã com o exame
de sangue dolorido
eu sei que vai doer

meu hoje é aquela hora
que acordamos e sentamos
na beira da cama
de olhos arregalados

fazendo download
da alma
fora da área
de cobertura




Walter Biancardine



LEI DO SILÊNCIO


devia ser proibido
precisa uma lei 
contra fazer barulho
de manhã cedo

nada pior que acordar
e ter alguém gritando
discutindo ou rindo
e jogando coisas

isso não é natural
o sono é um abrigo
quieto e seguro e
silencioso e quente

e de repente alguém
aparece e grita
ou joga uma lata
de lixo no chão

pior as exclamações
o falatório contigo
como se todo o mundo
acordasse com eles

é uma gente sem mãe
não sabem ir aos poucos
é do cobertor ao freezer
de uma só vez




Walter Biancardine
 







SOLIDÃO


filme no quarto
à noite inteira
não é distração
é solidão

o mesmo de sempre
no Facebook
ninguém pra falar
é solidão

disfarça e ri
são só manias
não são
é solidão

mente brilhante
subiu alto demais
olhou em volta
é solidão

juventude foi embora
interesseiros ao lado
a graça acabou
é solidão

nada interessa
nada tem pressa
não faz mais sentido
é solidão

seguir o destino
cumprir a missão
é o que resta
é solidão




Walter Biancardine



É ISSO OU ISSO MESMO


ser um bom funcionário
é como ser feio 
e ter olho azul
de nada adianta

ser um bom patrão
é como se apaixonar
pela piranha do bairro
cedo ou tarde leva uma

mas é melhor ser patrão
ou bom funcionário
que viver na merda

rebeldia é como espinhas
passa com a idade

e se não passar
te apontam na rua




Walter Biancardine





segunda-feira, 13 de julho de 2026

CHÁ DE BEBÊ


vivo tanto no meu mundo
quase sem janelas
pra vida normal
dos outros

que me surpreende ao ler
o que outros escrevem
e lembro que são
todos adultos

algo não tá certo
mulheres confundem
feminino com
ser menina

e homens tentam ser
profundos e se
vestem como
malditos

redações da quinta série
pornografia à parte
devem ser mais
adultas

Shakespeare e Camões
Bukowski e Pessoa
na mesma turma
da creche

sem a Tia



Walter Biancardine





PASSA LOGO


tem hora que nada mais sai
a intenção é até boa
mas não adianta

você espreme a cabeça
tenta criar
escrever
e nada

mas quando acontece
o tempo passa
e não notamos

escrever e criar e fazer
compor e arrumar e rimar
qualquer coisa

qualquer coisa
desde que o tempo 
passe e eu
não veja

o hoje já cansou
quero o amanhã
me iludindo
que será
melhor

e todo dia
é assim



Walter Biancardine




PROIBIDA A ENTRADA

 


CICATRIZ


um dia tudo acaba
você sai de casa
desempregado
sem ter pra onde ir

mochila nas costas
anda e anda e anda
a cidade é pequena
não vale a vergonha

vai pra estrada
e anda e anda e anda
sem rumo e sem fé
a sandália se desfaz

segue descalço
pés imundos
furado por pedras
o respeito vai embora

continua andando
as roupas rasgam
sujas e manchadas
hora de dormir

procura um mato
acostamento salva
bichos pinicam
a fome começa

dia amanhece
barba cresce
roupa em farrapos
descalço e sujo

te oferecem um café
salvou a manhã
e a fome
a dignidade vai embora

e continua andando
acha uma bituca
fuma sem medo
higiene também foi
embora

ganha um resto
de uma quentinha
come com gosto
amor próprio se foi

senta no mato
pensa na vida
como desceu
tanto assim

não tem amigos
não tem parentes
não tem ninguém
que lembre
ou se importe

não tem resposta
um conhecido passa
você tenta fugir
ele te chama

te aconselha
a dar um jeito
nessa vida
procurar um trabalho

como não pensei
nisso antes?
com minha boa aparência
vai ser fácil

o sujeito
não merece
que eu estrague
meu “réu primário”

sigo em frente
me oferecem um teto
e vou

ainda querem
que eu seja normal
que seja otimista
agradeça a Deus

não posso culpar
são gente normal
nunca souberam
o que é essa vida

eles não sabem
algumas cicatrizes
nunca e nunca
nunca mais

saem da pele
e da alma



Walter Biancardine



AMANHÃ FICO RICO

 
mais um dia chega ao fim
e percebi que novamente
não fiquei rico

então escurece e tudo fecha
dá tristeza saber
só amanhã ficarei rico

a noite é uma agonia
ansioso que chegue
minha riqueza

ou que a farmácia entregue
o Gardenal




Walter Biancardine




BUROCRACIA

 
preencha o formulário
nome do pai e da mãe
identidade e CPF
entregue na sala 4

na sala 4 pedem
um carimbo da
sala 3 e você vai
mas o rapaz
deu uma saidinha

você espera 20 minutos
o rapaz volta e vê 
fica 10 minutos olhando
decidindo se seu papel
merece seu maravilhoso
carimbo

você volta na sala 4
mas falta comprovante
de renda e residência
volte amanhã

mas você é prevenido
já tinha tudo na pasta
a mulher não esconde
a raiva que ficou

ela junta tudo
leva pro chefe
leva meia hora
conversando

e volta vitoriosa
porque falta
o atestado 
de bons antecedentes

dia seguinte você leva
mas tem que preencher
tudo de novo
é norma

preencha o formulário
nome do pai e do filho
e até do Espírito Santo
quem sabe agora vai?

Amém



Walter Biancardine




FOME FASHION

 
sai mais barato
cigarros e café
que comprar comida
pra semana no mercado

cigarro mata a fome
café engana o estômago
e sobra dinheiro
pra um pãozinho

só um maluco
passaria fome
pra fazer gênero
poeta maldito

se a fome aperta
gosto ruim na boca
quero é comida
e não fazer pose

o meu cigarro
meu café
e até a bebida
que me pagam

custa bem menos
que um quilo
daquela picanha
que ouvi dizer



Walter Biancardine





SEM VERGONHA

 
sou rasteiro
materialista
quero coisas
e conforto
e dinheiro

o que há 
de errado nisso?
o dinheiro
é a caça
mas sempre fui
mau caçador

poesia rima
com economia
mas também
com sangria
do meu bolso

quero escrever
ser reconhecido
lido por todos
e ter dinheiro
e vida boa

só eu que quero?




Walter Biancardine




SAI DESSA VIDA


escrever pra quê?
não resolve nada
não dá emprego
coisa de vagabundo

só escreve 
quem nada tem a fazer
quem passa o dia sonhando
filhinho de papai rico
ou é maconheiro

aí fica velho
não tem onde cair morto
passou a vida à toa
não construiu nada
virou cachaceiro

cai na real vagabundo
escrever é pra quem pode
vá fazer um concurso
uma faculdade
um emprego

senão sua liberdade
e sua cabeça
vão nos irritar
cada vez mais

seja normal
compre uma coleira
como nós

e gaste sua vida
assim



Walter Biancardine





IMPREGNADO

 
tenho privilégios
escrevo de porta aberta
da minha mesa vejo o lago
cavalos pastando
carpas saltando
vento batendo as janelas
e não uso luz

tudo é silêncio
só bois mugindo
relinchos e latidos
e minha insistência
barulhenta
de escrever

insisto 
porque não esqueço
não esqueço 
porque não resolvo
não resolvo
porque nada muda

olho pastos
e lembro sarjetas
os lagos trazem
as poças sujas
das ruas
mugidos e relinchos
apontam gritos
buzinas e sirenes

e as carpas
me dão fome

não será só um banho
que vai me limpar
dessa imundície

preciso 
de muito sabão
muita água
usar perfume
roupa limpa
e ter
a cabeça areada

até que o cheiro
de toda a desgraça
de minha vida
saia de dentro
de mim



Walter Biancardine




RESSUSCITA-NOS



na clausura do quarto
a gravata é o cilício
que aperta e sangra
o pescoço penitente

e se vai a caminho
via crucis do pão
nosso de cada dia

calvário sem fim
com vale-transporte
cesta básica e um vale

Lázaro

o funcionário do mês





Walter Biancardine 





domingo, 12 de julho de 2026

NO CAMINHO DA ROÇA


Existem pessoas que aparecem do nada e estendem a mão.
E assim é minha amizade com seu Dail.
Do nada.
Ele me estendeu a mão e a mantém estendida até hoje.
E seus filhos fazem o mesmo.

Reclamo do desamparo. 
Dos dias difíceis.
Reclamo de tudo.
Mas seu Dail e sua família estão lá.
Me cuidando em minha solidão.

Mas a solidão não é um objeto, um bloco, um monolito.
Ela tem dimensões, modos, circunstâncias, condições, facetas.
Posso reclamar de solidão ao lado de um amigo, e me referir a ausência da mulher que amo.
Ou da família que não tenho mais.
Ou da antiga vida, que desapareceu.
Tudo isso é solidão também.

Mas tenho seu Dail.
E sua família.




Walter Biancardine




À DERIVA

 


Eu tinha uns vinte e poucos anos.
Era fácil brigar com os pais e sair de casa. 
Todo jovem afronta seus pais achando que sempre será perdoado e acolhido.
Não fui diferente.

Deixei o lar paterno em Copacabana e vim morar num pequeno apartamento que eu tinha, num charmoso condomínio em Cabo Frio, chamado Casa Grande – obra do genial Lian Pontes de Carvalho, que também construiu o Clube do Canal.

Nesse meio tempo conheci um navegador, dono de um veleiro, e ficamos amigos. Sim, a amizade brota fácil quando se é jovem.

Zarpávamos do canal Itajurú e fazíamos vela ao livrar a boca da barra. A partir daí, não havia destino, só o tempo.

Lembro de uma das muitas noites no mar.
Ele bêbado, dormindo em sua cabine, e eu no convés divagando entre as estrelas, ventos e ondas.
Bêbado também, mas era um bom conhaque.

Um frio de gelar os ossos.
Cheiro de maresia.
O barco apenas balançava ao sabor das vagas. 
Não adernava. 
Árvore seca.

Olhava o céu. As estrelas.
Tentava me imaginar com trinta, quarenta anos.
Dava uma boa ansiedade.

Imaginava também quem seria a mulher que me acompanharia pelo resto de meus dias. 
Relembrava minhas pequenas frustrações de jovem adolescente e achava que já tinha sofrido meu quinhão; que dali pra frente seriam apenas vitórias e alegrias.
Sim, eu não sabia de nada.

Às vezes um peixe-voador passava feito bala perdida por sobre o convés do veleiro. Outras, algum peixe grande – nunca conseguia ver qual espécie – saltava sobre as águas e eu só o percebia pelo barulho ao mergulhar de volta.
E o vento não parava.
Vento gelado, comia meu cigarro e deixava o conhaque melhor.

Meu isqueiro era um Zippo, o único que acende sob vendavais. Havia recebido de meu pai e, ao olhar pra ele, me lembrava que meu futuro estava garantido: havia uma empresa de transporte para tocar adiante, filiais em São Paulo, Espírito Santo, e clientes poderosos.
Pura associação de ideias: Zippo – meu pai – empresa – futuro garantido.

Como disse, eu não sabia de nada.

Tenho hoje saudades daquelas navegações. 
Uma semana embarcado.
Veleiro bom. 
Mares épicos.

E uma indecente inocência.



Walter Biancardine





DEPOIS


a dor passa
é estranha a sensação
uma certa alegria
quase entusiasmo

euforia discreta
vontade de conversar
de rir e fazer coisas

e também sentir
o corpo relaxar
ter forças
novamente

sempre e sempre
é o que sinto
depois das piores
dores

meu corpo
e espírito
compensam o mal
que minha cabeça

tentou fazer



Walter Biancardine 



SOU MINHA DOENÇA


dizem que 
ansiedade infarta
rancor dá câncer
e por aí vai

não sei se acredito
mas faz algum sentido
quando penso em mim

minha cabeça sempre quis
me matar e agora vejo
sentido nas enxaquecas
desde criança

cabeça sádica
não mata mas tortura
até meu dia chegar

minha cabeça deve ter
muita raiva de mim




Walter Biancardine




ZÉ MANÉ


Não conheço uma só alma que, ao falar sobre o passado, não diga que teve todas as experiências mais absurdas, provou de tudo, era vida louca e comeu todo mundo. Depois desse discurso, sempre se espreguiçam, sorriem e comentam, com ar de satisfeitos:
- Hoje tô sossegado, quero curtir minha casa e minha família…

Devo ser um fracassado.
Até no passado. Retrospecto medíocre.

Lembro quantas vezes deixei de ir à praia pra ler romances ou filosofia. É claro que quem estaria na praia tinha um peso decisivo nessa escolha, mas foi só nas primeiras vezes.
Eu nunca pegava ninguém, então logo aprendi: praia, só com onda.

Ganhei alguns “pegas” (rachas, pros de São Paulo) descendo o Alto da Boa Vista, mas meu Chevette logo desanimava as Marias-Gasolinas da platéia. Preferiam sair com o segundo lugar, afinal um Opala era bem melhor.

Fui um bom boxeador, me achava o máximo. Um dia, quis conquistar uma bonitinha que fazia natação no mesmo clube que eu. Seu namorado chegou e rachou meu maxilar.
A única coisa que posso dizer em minha defesa é que foi uma surpresa absoluta, sequer o vi.
Minto, eu o vi depois indo embora, comigo já no chão.

O grupo Barão Vermelho nem existia e Cazuza era um ilustre desconhecido. Um dia fui ver um ensaio da banda de um amigo, no auditório de um colégio, e quase fui atropelado por ele. Pediu desculpas, me deu uns ingressos pra um showzinho que fariam daí a alguns dias e passei a vê-lo de vez em quando no Baixo Leblon.
Melhor dizendo: muito de vez em quando. Eu não tinha dinheiro pra bancar aquelas contas e nenhuma de suas amigas, atrizes da Globo, sequer notava minha presença.

Pra completar, passava o dia escrevendo ou desenhando. Apenas estudando ou já trabalhando, sempre ia em Ipanema deixar minhas esperanças na portaria do jornal Pasquim.
Nem resposta jamais mereci.
E o mesmo se dava com Jornal do Brasil, O Dia e até O Fluminense, que mandei por carta.

Estranho.
Conheço dezenas de ex-reis da noite, ex-garanhões, ex-rebeldes, ex-foras-da-lei e até ex-telionatários – perdoem o trocadilho.
Mas nunca conheci um ex-Zé Mané.

Deve ser porque um deles resolveu assumir antes de todos.

Sim, eu fui um Zé Mané.



Walter Biancardine



RETO E SECO


Corcovado sem Cristo
Capela Sistina sem afrescos 
Paris sem Torre Eiffel

ouvir um rádio de notícias
sem música ou programas
ou mesmo vinhetas

em casa é tudo reto
móveis sem entalhe
paredes sem quadros

a tevê é como o rádio
só notícias e mais nada
sequer danças ou balé

na cidade não há cinemas
nem teatros nem galerias
nem museus nem grafites
nem estátuas nas praças

por que um piano
sem música?
por que estantes
sem livros?
por que tevê
sem programas?

por que viver
sem arte?




Walter Biancardine





sábado, 11 de julho de 2026

PORQUE HOJE É SÁBADO

 
Hoje é sábado.
Agora é noite.
E agora, sábado? O que tens pra mim?

Meio difícil.
Ou até a velha frase do saco cheio: “complicado, isso aí…”

Queria estar com minha Nana.
Um bar do bairro Passagem, aqui em Cabo Frio.
Casas antigas, construções históricas, um pólo gastronômico – e por que não dizer – etílico também?

Eu a levaria e ouviríamos meu amigo tocar e cantar uma bossa nova no barzinho; o barquinho vai, a cerveja vem. E depois de um dia de luz, festa do sol, a noite que acalma.
Ela me abraça.

Escutai, mortais: é um direito inalienável do homem poder sonhar. Desejar a mulher amada. Imaginar uma noite perfeita.
Escapar dessa vida estreita.

Pois hoje é sábado.
E agora é noite.
Tenho a cidade, tenho o bar, tenho minha Nana.

Só não tenho meios.

É a hora em que o filme acaba e entra o plantão do Jornal Nacional.

Hoje é sábado.

Mas outros virão.



Walter Biancardine






ME DÁ OUTRA CERVEJA


não temos data de validade
impressa em nós
nem um marcador de gasolina
pra acusar reserva

por isso todo mundo acha
e o pior é que vive
pensando que vai durar
até uns 120 anos

se começamos a calcular
nossa expectativa de vida
logo nos chamam de 
mórbidos

mas é melhor crer que vou morrer
aos 60 e passar direto
do que imaginar chegar aos 100
e não alcançar a metade

pra mim tanto faz
durar 200 anos 
encarquilhado
não faz sentido

melhor só os 50
mas em plena forma
mas se estou em forma
morri de quê?

só se foi acidente
e acidentes doem
e toda dor
é uma merda

então dá no mesmo

melhor voltar
à minha cerveja




Walter Biancardine





SEGUNDA LINHA

 


olho o papel em branco
e sempre acho que vou 
escrever alguma coisa
profunda e tocante
imortal

eu era jovem e percebia
só depois de tudo escrito
que estava uma merda

cresci e comecei a notar
a ruindade na metade
do caminho

agora velho já percebo
na segunda linha
que nada tinha
a dizer



Walter Biancardine