Estou
ciente de, neste artigo, mexer com um vespeiro de suscetibilidades e
até com os mais primários e furiosos fundamentalismos, mas é algo
que – se cremos verdadeiramente na alma imortal e que deve ser
salva – precisa ser evidenciado, alertando contra a tentação
contida na mesma.
O
alerta acima cabe especialmente a brasileiros, já que o cristianismo
evangélico predomina no país e se diferencia sobremaneira do
conceito “protestante” de Calvino e Lutero, que deu origem às
denominações Batista, Luterana, Calvinista, Metodista e outras.
Fácil
é perceber que, mesmo sob a denominação “evangélica” existem
ramificações – e não falo das inúmeras igrejas, cada uma com sua Razão Social (Bola de Neve, Lagoinha, Assembleia de Deus, etc.)
e que mais se parecem pequenas empresas, fruto da iniciativa de
“pastores” que desejam ter seu próprio negócio ou culto, como
chamam. As ramificações a que me refiro são muito mais relativas
às condições econômicas e sociais de seus adeptos do que
interpretações significativamente diferenciadas da Palavra de Deus,
resultando na existência de uma religião para cada faixa do Imposto
de Renda.
Explico:
no Brasil, devido ao sincretismo ocorrido entre as religiões
africanas trazidas pelos escravos e o cristianismo, a ala evangélica
que se dedica às classes mais baixas e com menor ou nenhum preparo
intelectual, se mistura e utiliza, de maneira evidente, conceitos
e práticas do Candomblé e outras, anunciando em cartazes a “Noite
de expulsão dos Exus (demônios)”, “Libertação dos encostos
(espíritos obsessores)” e outros, chegando ao ponto de benzer
peças de roupas femininas “para amarrar maridos” – tudo isso
sendo parte do universo das religiões africanas, fortemente
enraizadas nas classes mais baixas, como dito acima. É uma macumba
em trajes finos, “cristianizada” e socialmente aceitável nos
dias de hoje, por aqui.
Para
a classe média – englobando a “média-baixa” – o tratamento
é diferente. Aqui o foco é “recivilizar”
o fiel, libertando-o do alcoolismo e da infidelidade (no que obtém
grande e meritório sucesso) e focando na “mentalidade de
sinagoga”, onde “um irmão ajuda o outro” através de ofertas
de emprego, serviços e integração social – patrão evangélico
só contrata evangélicos, evangélicos só compram em lojas de
evangélicos, escolhem amigos evangélicos, ouvem apenas músicas de
louvores e fecham-se em seu mundo próprio, fortemente marcado por um
moralismo exacerbado, já que os sacramentos não existem para eles.
O
exemplo acima é a vertente dominante no Brasil, dada a maioria
populacional contida nesta faixa. Esta verdadeira e voluntária
segregação poderia ser dramática, não fossem os instintos de
sobrevivência dos comércios locais e a notória e conhecida
tolerância do brasileiro – tolerância essa evidenciada através
de políticos, que se dedicam a esta ala e criaram a “Bancada
Evangélica” no Congresso Nacional.
Já
para as classes mais altas, todo o exemplificado anteriormente é
cuidadosamente suavizado pois os pastores concentram-se no indivíduo
– sim, na pessoa, não em sua alma. Os cultos quase transformam-se
em palestras motivacionais, emitindo conceitos de superação de
deficiências, vitórias, foco e consecução de objetivos
profissionais e materiais, e este é o eixo central sobre o qual as
igrejas evangélicas, no Brasil, alcançaram seu esmagador sucesso,
sempre “decodificados” para cada faixa social (público-alvo)
objetivado.
Todo
este conceito de autoajuda (para os mais abastados) e recivilização
com integração social (para os mais humildes, e que desembocará
inevitavelmente na autoajuda, uma vez atingidos os objetivos) é a
tônica de um movimento que transformou a introspecção salvadora de
almas do catolicismo em verdadeiras seitas de obtenção de progresso
material e aceitação social.
Se,
por um lado, tal movimento conseguiu melhorias notáveis na conduta
moral, social e profissional do brasileiro médio, por outro
abandonou por completo o espiritualismo místico, deixando enorme
lacuna que poderá, um dia, ser preenchida por um fanatismo xiita –
já presente atualmente na proibição hipócrita da bebida
alcoólica, por exemplo. O próprio Cristo bebia vinho mas o ato, se
por nós praticado, é execrado por tais fiéis.
Os
feitos notáveis obtidos por tais igrejas evangélicas tornaram-se um
círculo vicioso/virtuoso, onde cada vez mais pessoas buscam os
cultos na esperança de progresso material (vicioso), reprimindo às
duras penas as tentações do adultério e esbórnia (virtuoso). A
abolição dos sacramentos os impelem ao moralismo absurdo,
resultando na inevitável segregação daqueles que não seguem seus
preceitos – acenda um cigarro ou beba um whisky na frente de um
fiel e a infalível e enorme catilinária de execrações contra
“seus vícios” se seguirá, e tudo isso por não crerem no
perdão, nos sacramentos e na largueza de vistas própria do
católico, embasado por dois milênios de doutrinas e doutores
santos. A moderação, como conceito e prática, inexiste para o
evangélico médio, levando-os quase a incorporarem os “estultos”,
de Horácio: para evitar um vício, mergulham no vício oposto - "Dum
vitant stulti vitia, in contraria currunt."
Um
vídeo tornou-se conhecido na internet, mostrando uma brasileira em
Portugal se queixando do fato das (pouquíssimas) igrejas evangélicas
do país serem “organizadas” (sic) apenas por brasileiros e
somente uns 5% dos fiéis serem portugueses. A mesma encerra seu
vídeo manifestando a esperança que ocorra um “avivamento” no
país e que tudo mude. E tais declarações comprovam, de modo claro,
todo o exposto acima.
Em
primeiro lugar, pouco importa para ela que o país o qual visita –
sim, ela é hóspede e não anfitriã – tenha milenar tradição
católica: o que a preocupa é ver que não há portugueses seguindo
as ramificações tipicamente brasileiras do protestantismo, que
desembocou nos cultos evangélicos.
Em
segundo lugar, a “segregação” mencionada parágrafos acima é
notória, pois até seu vocabulário é próprio dos evangélicos –
uma língua diferenciada, que chama homens de “varão”, mulheres
de “varoa” e clama, como visto, por um “avivamento” no país.
Quando um grupo atinge tal grau de coesão deliberada, resultando em
sua autoexclusão dos circundantes e a criação de um linguajar
próprio, isto se torna um fator social deveras preocupante.
Em
terceiro lugar – plenamente justificável, desta vez – vem o
desejo de que todos se convertam. Neste ponto não é possível
criticá-la, pois o ecumenismo é a mais rasteira falácia
destruidora da fé alheia. Quem verdadeiramente crê, não tolera outras crenças. Apenas perdoa e convive com o crente.
Em
último lugar vem a observação de que a mesma mulher, bem jovem,
provavelmente passeou em terras portuguesas sendo financiada por seus
pais, ouso deduzir, evangélicos. E minha ousadia vai além: tão
poderoso quanto o trabalho duro e sério que conduziu seus pais à
prosperidade, certamente será a rede de influências (a “mentalidade
de sinagoga” citada acima) da igreja frequentada, que providenciou
oportunidades comerciais ou empregatícias aos mesmos – e neste
ponto caímos na transformação de pastores em “coaches”, cultos
em palestras de autoajuda e toda a congregação em uma “ação
entre amigos”. Desnecessário lembrar que todo o "avivamento" ansiado pela jovem seria desnecessário, caso cressem nos sacramentos.
Mas…
e as almas?
Estarão
todas elas salvas por não beberem, não fumarem, não traírem seus
cônjuges, frequentarem os cultos e se esgoelarem em gritos de
“aleluia”? E todo o infindável resto de suas ações e práticas
cotidianas, inclusive em seus empregos e comércios? Isto não seria
um farisaísmo redivivo?
Onde
está a penitência? Onde o confessionário, os pecados confessos e a
contrição? Onde se dá a união com o Corpo de Cristo, se não há
hóstia?
“Não
confesso meus pecados, não sou perdoado mas não fumo, não bebo e
não traio meu cônjuge, portanto não peco”. Será esta a
mentalidade? Ou a tranquilidade advém da suposta “certeza” de
que todo o mal que eventualmente cometa foi por “obra do diabo”
(o qual será “expulso” pelo pastor) mesmo que, para tanto,
renuncie aos seus próprios méritos, quando diante do sucesso que
somente o Senhor Jesus o deu, de presente?
E
seus pastores? O que dizer quando um grupo deles se separa e cada um
funda sua própria denominação, maior parte das vezes por questões
financeiras? O que dizer de pastores que, literalmente, dão
palestras motivacionais a convite de empresas? Algum padre –
verdadeiramente padre – já fez isso, ou foi convidado e aceitou?
Alguém arriscaria uma rápida comparação entre o número de
pastores e padres que se candidatam a cargos políticos?
A
transformação da Palavra de Cristo em reuniões motivacionais ou
palestras de autoajuda é uma sórdida perversão – quase herética
– dos ensinamentos de Nosso Senhor. Aqueles que tenham tempo, que o
use para especular onde poderá terminar tal disfunção doutrinal da
Verdade Revelada; asseguro que a conclusão não será boa.
Pois
que tais descalabros sirvam para acordar a Igreja Católica da
bebedeira apóstata de Bergoglio – este que se diz Papa – e não
mais deixe seus templos sem ninguém a atender os fiéis. Sim, já
que o estado atual é uma faca de dois gumes: eu, particularmente,
quase não vou às missas e prefiro frequentar a Igreja em dias e
horários normais – algo como uma terça-feira, três horas da
tarde. Nestes momentos sei que estou só, eu e Deus, e isso me parece
bom e necessário para a introspecção exigida pela fé.
Por
outro lado, se alguém adentra um templo evangélico, logo é
abordado – ainda na porta – por duas ou mais pessoas que
perguntam como ele está, se precisa de algo e o convida para
conhecer sua igreja e a Palavra. Isto catequiza, atrai, acolhe e,
normalmente, convence. Como explicar a soberba católica em deixar
seus fiéis sem, sequer, um padre de plantão na Igreja?
Ao
fim e ao cabo temos, diante de nós, um problema em plena evolução.
As práticas evangélicas, que ainda não chegaram com real força ao
resto do mundo, podem conduzir a contradições filosóficas,
disparidades teológicas ainda piores e verdadeiro cisma social, e o
alerta vai enquanto ainda há tempo para a reação, tanto da Igreja
Católica quanto de intelectuais que estejam verdadeiramente
dispostos a contribuir com a humanidade, e não com seus próprios
egos.
A forte tendencia "motivacional" expressa por alguns pastores evangélicos tem se tornado preocupante, pois rebaixam perigosamente toda a transcendência contida na verdadeira fé, e isso pode causar uma ruptura teológico-filosófica.
Este
artigo, embora longo, é oferecido de boa vontade como um “insight”
para aqueles que tencionem desenvolver alguma tese filosófica a
respeito, esforço e boa vontade os quais serei eu sempre muito
grato.
Walter Biancardine