Eu poderia retroceder à gênese mais primária, revolvendo acontecimentos que se acumularam desde o governo Juscelino Kubitschek, mas para uma concisão que torne este artigo mais breve, potável e digerível, meu ponto de partida será o fatídico comício do então Presidente do Brasil, João Goulart, realizado na Central do Brasil em 13 de março de 1964, onde ele defendeu suas "Reformas de Base" (incluindo reforma agrária) e assinou um decreto impondo tais pontos, sendo visto como um desafio aos setores conservadores ainda existentes, bem como uma parte dos militares que – timidamente – tentavam organizar a derrubada do governo. E para nos situarmos bem, devemos recorrer a Olavo de Carvalho e seu testemunho sobre quem realmente era Jango:
“Goulart fez tudo o que podia para fechar o Congresso, mandou invadir com tropas militares o Estado da Guanabara, fortaleza da oposição, e prender o governador Carlos Lacerda, matando-o se resistisse (a operação falhou por um triz). Não hesitou mesmo em usar contra esse Estado o recurso stalinista da ‘arma da fome’, vetando, através do seu cunhado Leonel Brizola, o fornecimento do arroz gaúcho que era uma das bases da alimentação do povo carioca. Como se isso não bastasse, protegeu a intervenção armada de Cuba no território brasileiro, ocultando as provas e enviando-as, por baixo do pano, a Fidel Castro. É eufemismo dizer que Goulart tramava um golpe de Estado: seu mandato foi uma sucessão de golpes de Estado abortados.”
Para Mourão Filho, entretanto, tal comício não foi nenhuma novidade. Ele bem sabia das articulações internacionais da esquerda com o propósito de transformar o Brasil em uma enorme Cuba – cabeça-de-ponte ameaçadora contra os Estados Unidos da América – e apenas aguardava um motivo publicamente forte, que não tardou a acontecer com este evento na Central do Brasil.
A verdade é que a cúpula militar estava onde está até hoje: acomodada em conveniências, alugando suas armas ao melhor pagador, e poucos comandantes de tropa se solidarizaram com os intentos de Mourão. Ao contrário do que se divulga, não havia nenhuma interferência norte-americana a favor da derrubada de Goulart – de fato, não havia um único agente da CIA no Brasil, ao contrário das centenas de agentes soviéticos já identificados mas cuidadosamente escondidos pela história brasileira e, muito menos, a tão famosa fragata americana fundeada em nossas costas.
Sempre bom abrir um parêntese para falar de algumas das inúmeras lendas – tal como a citada acima – plantadas pela esquerda e que, até hoje são ensinadas como “história oficial”. Podemos começar pelo hoje famoso telefonema do Embaixador norte-americano ao Presidente dos EUA, Lyndon Johnson, informando a deposição de Goulart: sua resposta, acordado de surpresa, foi “ - Que merda é essa, rapaz?” Ou seja, ele não sabia de nada. Ainda assim, cumprindo sua obrigação de Chefe do Poder Executivo, determinou o envio de uma flotilha de navios militares – conforme determina a Constituição norte-americana – para salvaguardar os cidadãos daquele país, eventualmente em perigo. Tal comboio, entretanto, levaria uma semana para chegar ao Brasil e só chegaria por volta de 11 de abril mas, como os idos de março transcorreram em absoluta tranquilidade, Johnson ordenou que retornassem aos EUA – e a mesma sequer chegou a tocar em águas territoriais brasileiras. Esta, porém, foi a origem da mentira que até hoje a esquerda se agarra: navios americanos em nossas costas, para apoiar o “golpe” de 64.
Outro ponto, firmemente agarrado pelas esquerdas e jurado de pés juntos por “pesquisadores” e professores que se dizem sábios é a famosa “Operação Brother Sam”: alegam estes que desejam mudar o passado para justificar o presente um fato que jamais aconteceu, que seria um suposto apoio dos EUA ao “golpe” (segundo o Google) militar através de telegramas secretos, relatórios e até diários de bordo de navios, oriundos do que tais elementos alegam ser “arquivos desclassificados” da Biblioteca Lyndon Johnson e Arquivo Nacional dos EUA, detalhando o envio de apoio logístico – combustíveis, armamentos – e planos de contingência da Força-Tarefa Naval americana em apoio à derrubada de Goulart. O problema é que, além desta história ser uma farsa conforme demonstrado acima, nenhuma prova física os tais “historiadores” e professores possuem, se resumindo tudo às suas declarações e à suposta isenção ideológica dos mesmos.
Pois bem, voltemos ao assunto: e com quem Mourão contava? Poucos, na verdade. O Governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, era um deles juntamente com um entrevado Assis Chateaubriand (dono dos Diários Associados, vitimado por violenta trombose mas ainda detentor de grande poder sobre a opinião pública brasileira) e Ademar de Barros, Governador de São Paulo. Fora esses, apenas um punhado de generais sem comando de tropa e coronéis, nenhum deles contaminado pelo corrosivo positivismo que empesteou a farda, derrubou um Império consagrado e nos jogou na cleptocracia que vivemos hoje. E, munido apenas disso e quase infartando (segundo os relatos em seu diário, “A Verdade de um Revolucionário”, compilado por Hélio Silva, ed. L&PM, 1977), Mourão desceu de Minas Gerais com suas tropas rumando para o Rio de Janeiro.
Seguido por uma fileira de Jeeps, tanques de guerra, caminhões de suprimentos e transporte de tropas, Mourão já havia atingido as imediações da cidade de Petrópolis, RJ, no dia 1º de abril de 1964 quando, ao chegar ao Belvedere (ponto turístico bastante popular na época) teve notícias que o General Amaury Kruel, Comandante das tropas do poderoso II Exército sediado em São Paulo, estava vindo ao seu encontro, igualmente seguido por tropas e blindados, sem informar suas intenções – e este foi um ponto crucial que ninguém aborda, pois Kruel era amigo pessoal de Goulart e jamais se manifestara contra o governo. Estávamos à beira de uma guerra civil, esta era a verdade.
A mensagem de rádio enviada por Mourão a Amaury foi breve: “ - Estou descendo para o Rio, você vem comigo?” No que se seguiu a resposta de Kruel: “ - Tome a dianteira, sigo atrás”, disse ele, aliviando toda a tensão e aderindo à Mourão que, por via das dúvidas, cortou toda e qualquer comunicação rádio com ele, pois não queria “acordos”.
Neste meio tempo, João Goulart já havia embarcado em um avião particular rumo às suas fazendas no Uruguay – Goulart era um imenso latifundiário e, “curiosamente”, defendia a reforma agrária – enquanto seu cunhado, Leonel Brizola (um louco incendiário nos moldes de José Dirceu, conforme já vimos) escapava do país vestido de mulher. Eles conheciam Mourão, sabiam de suas origens como seminarista e que jamais fora um positivista “negociável”, portanto não estava para brincadeiras – Augusto Comte jamais venceria Santo Tomás de Aquino. Com a Presidência abandonada por Goulart, o senador Aldo Moura de Andrade a declarou vaga e assumiu o vice-Presidente, Ranieri Mazzilli.
Ao chegar à então sede do I Exército, na av. Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, Mourão logo adentrou o prédio mas teve a pior das surpresas, ao encontrar lá dentro – já prontos para anular aquele que entrou na cidade em operação de guerra – os generais Costa e Silva e mais alguns. Ele conhecia muito bem todos ali, mas sabia da hierarquia: Costa e Silva era de graduação superior e, portanto e muito à contragosto, Mourão passou o comando das operações para o mesmo.
Sim, isto foi um grande erro e o próprio Mourão admitiria isso em seu diário: bastaria meter a pistola no peito de Costa e Silva e prendê-lo, pois o chefe revolucionário (Mourão) estava em plena operação de guerra – mas ele não o fez, levado por um pesado senso de disciplina que sempre nos conduz, aleatoriamente, para o melhor ou pior. Em entrevista posterior, afirmou: “ - Em política, sou uma vaca fardada”.
O resto sabemos: o Presidente interino Ranieri Mazzilli convocou eleições e tornou-se público que o Exército “queria Castelo” (Castelo Branco, mais moderado que Costa e Silva mas, ainda assim, positivista), sendo o mesmo declarado vencedor e empossado logo depois – só para morrer estranhamente em um acidente de avião, abalroado por um caça da FAB no Ceará, ao visitar a escritora Rachel de Queiroz após o término de seu mandato.
E este foi o Exército que, curiosamente, expulsou os comunistas mas adotou todas as suas plataformas de governo: estatização brutal, censura, criação de ninhos esquerdistas como a Embrafilme, o MEC (segundo o general Golbery do Couto e Silva, tais ninhos seriam a “válvula da panela de pressão” da esquerda, para que não perturbassem mais o país) e, por fim, terminamos onde estamos hoje. Na verdade, o comunismo jamais desagradou o Exército, apenas as guerrilhas causavam preocupação.
Sabedor que o positivismo e o comunismo são primos consanguíneos, por diversas vezes tentou Olavo de Carvalho realizar palestras para o Alto Comando, obtendo apenas desdém e resultados pífios. Mesmo eu, o autor destas linhas, também escrevi um livro sobre isso sob o título de “Mais Olavo, Menos Oliva” https://clubedeautores.com.br/livro/mais-olavo-menos-oliva-2 , Editora Clube de Autores, ou na Amazon https://a.co/d/59inQbX , no qual discorro com profundidade sobre esta orfandade filosófica do Exército brasileiro e seus incontáveis exemplos de traição ao Brasil.
As Forças Armadas brasileiras – mais especificamente o Exército – tem longo e infeliz currículo de traições à Pátria, na maioria das vezes jamais vistas como tal pela total incompreensão dos fatos e razões das mesmas, por parte do povo. Neste livro enumero e explico todos estes atos, com base no que aprendi com o filósofo Olavo de Carvalho e mesmo por experiência própria, ao longo de tantos anos de jornalismo. As verdadeiras causas de tais traições, o retrato sem retoques da mentalidade militar expostos nesta obra mostrarão ao leitor as razões jamais discutidas sobre aqueles que portam as armas que defendem a nós e nossa família.
Cabe agora ao leitor saber que as informações existem, estão publicadas em livros e a verdade não é uma seita para iniciados. Basta saber onde procurar, ler, concluir e saber.
E nunca mais repetir o que já fizemos um dia.
Walter Biancardine
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