sábado, 10 de janeiro de 2026

CONSERVADORISMO DE INSTAGRAM -


Há algo de profundamente falso - e, portanto, profundamente moderno - no modo como parte do pensamento conservador brasileiro resolveu se apresentar ao mundo nos últimos anos. Falso no tom, falso na postura, falso na memória. É o conservadorismo de vitrine, higienizado, plastificado, pensado não para a vida real, mas para o algoritmo. Um conservadorismo que não cheira a suor, a rua, a erro, a queda - só a incenso digital.

Olavo de Carvalho - convém repetir, porque há gente que cita sem ter lido - jamais defendeu o afastamento da vida concreta. Ao contrário: insistia nos clássicos porque sabia que só quem enraíza o espírito no alto consegue manter os pés firmes no chão. Livro bom não é fuga do mundo; é treino para encará-lo sem babar hipocrisia. A leitura séria era, para ele, instrumento de lucidez - não de esterilização moral.

O que colhemos, porém, foi outra coisa. Um tipo humano novo, curioso, meio risível, meio trágico: o Conservador de Instagram. Ele vive de frases lapidares, fotos com cara grave ou enrolado na bandeira do Brasil; citações bíblicas fora de contexto e uma moralidade que não resiste a um jantar em família, quanto mais a um botequim às dez da noite. Fala de virtude como quem fala de dieta: sempre para os outros.

Esse conservadorismo não vai às ruas a não ser que seja para motociatas fotografáveis. Não escuta o povo fedorento. Não conhece o padeiro, o taxista, o camelô, o sujeito que trabalha doze horas por dia e só quer chegar em casa em paz. Ele prefere a bolha dos convertidos, onde todos concordam, todos se elogiam e todos fingem que são melhores do que realmente são. É uma seita de bons costumes performáticos, não uma tradição viva. Um "Imbecil Coletivo" de sinal trocado.

E aqui começa a hipocrisia - aquela velha conhecida da história moral humana. Os mesmos senhores de meia-idade que hoje exigem uma postura de monge medieval para qualquer jovem que se diga conservador são, não raro, os mesmos que nos anos 80 subiam o Morro da Urca ouvindo Barão Vermelho, ficavam alegremente bêbados, pegavam onda no Arpoador, davam "doiszinho" num baseado e colecionavam histórias que hoje seriam consideradas “escândalo moral intolerável”. Eram jovens? Sim. Erraram? Claro. E daí? A vida acontece assim. Sempre aconteceu.

O problema não é o passado. O problema é fingir que ele não existiu. O problema é transformar a conversão - se e quando houve - em espetáculo de pureza retroativa. Como se a virtude fosse um figurino novo comprado depois dos quarenta, e não uma batalha longa, cheia de tropeços, recaídas e vergonha.

O conservadorismo verdadeiro nunca foi isso. Nunca foi moralismo histérico. Nunca foi pose de sacristia. Burke não era um adolescente assustado. Tácito não escrevia para agradar ninguém. Santo Agostinho - convém lembrar aos devotos seletivos - conheceu o abismo por dentro, pegou todas e se entregou aos excessos antes de falar de graça. A tradição conservadora sempre soube que o homem é torto. Por isso mesmo defendia limites, instituições, hábitos e freios. Não porque acreditasse em santos automáticos, mas porque conhecia bem os demônios.

O conservador de Instagram, ao contrário, parece acreditar numa humanidade dividida entre puros e impuros - sendo ele, claro, parte dos puros. Vive obcecado com vigilância moral alheia, enquanto ignora a própria biografia. Não constrói pontes com o povo; constrói tribunais. Não educa; fiscaliza. Não orienta; cancela, bloqueia e exclui.

Resultado? Fala sozinho. Grita para a bolha. Perde a rua, perde a linguagem comum, perde o senso de proporção. O povo olha, escuta cinco segundos e pensa: “Isso não é para mim”. E está certo. Não é. É para uma pequena elite ressentida que trocou a antiga boemia por uma nova vaidade - a vaidade da retidão exibida.

E aqui vai a frase dura, mas necessária: conservadorismo que não suporta a vida real não é conservadorismo - é medo travestido de moral. É incapacidade de lidar com o trágico da existência humana. É pânico diante da carne, do conflito, da ambiguidade. É uma fuga - só que com Bíblia na mão e filtro sépia na foto.

O Brasil real é barulhento, contraditório, imperfeito. Mistura fé com gambiarra, devoção com pecado, família com bagunça. Sempre foi assim. Quem não entende isso não vai liderar nada, não vai convencer ninguém, não vai salvar tradição alguma. Tradição não se preserva com pose; preserva-se com presença.

Se o pensamento conservador quiser voltar a ter algum futuro, terá primeiro de recuperar o passado de verdade - não o passado idealizado, mas o vivido. Terá de descer do púlpito digital, tirar o dedo acusador e reaprender a falar como gente grande, para gente comum. Terá de aceitar que a virtude nasce do combate interior, não da encenação pública.

Menos mosteiro imaginário. Mais rua. Menos pureza performática. Mais honestidade biográfica. Menos filtro. Mais carne e osso.

O resto é teatro moral - e teatro, cedo ou tarde, o público abandona.


Walter Biancardine



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