sábado, 24 de janeiro de 2026

UM SÁBADO À NOITE -


Chovendo lá fora.
Aliás, já chove há três dias. Nenhuma diferença faz.
Nenhuma companhia, ninguém para sair, cama vazia igual meus dias.
Sem conversas ou confidências, sem sorrisos ou lágrimas.
Sem colo ou sexo.

Corro aos braços da minha analista, a escrita. Ela é feia, antipática mas me acolhe, ouve minhas queixas, me deixa falar.
Me vitimizo, me apiedo de mim mesmo e botar a culpa no mundo parece diminuir meus erros.
Sim, funciona. Por isso todo mundo faz igual.
E ela aceita. Esse é o papel dela.

Escrevo, escrevo e escrevo. A garrafa de Jack na minha frente, vida demais às minhas costas.
Dentro de casa a solidão, na rua é pagar ou morrer.
Igual ao amor que mata a alma.
Mas chove lá fora.

As horas passam, os olhos se enevoam na medida em que a garrafa esvazia.
Mas a cabeça se torna clara, ao ponto de me fazer condescendente.
Sim, nesse ponto me entendo, me aceito, me suporto.
E até quase me perdoo.

Mas o perdão tem prazo.
Termina amanhã, com a penitência da ressaca.
E se você nunca teve ressaca, você não é humano.
Nunca viveu.

Tenho ressacas e vergonhas.
Tenho uma longa estrada de erros.
Litros de justificativas.
Laudas de explicações e livros de bravatas.
Mas não muito tempo a mais.

Que este sábado suma logo de uma vez.
E venha a abençoada ressaca, a me redimir de mim mesmo.


Walter Biancardine



Nenhum comentário: