domingo, 9 de junho de 2024

A CAVERNA DE PLATÃO E O CAMINHÃO FENEMÊ -

Tão poderosa foi a impressão causada pelo extinto e saudoso caminhão FNM (Fenemê, para os íntimos) em tempos idos que, até hoje, decorridos quase setenta anos de seu lançamento, ainda provoca sorrisos evocativos e serve como referência de força, brutalidade e poder.

Na realidade, o mesmo contava com um resistente motor de seis cilindros, fabricado sob licença da Alfa Romeo italiana, mas que entregava apenas 150 HP – potência bastante razoável para a época, mas nenhum exemplo de força exacerbada, já que os modestos Mercedes chegavam aos 100 HP.

Nos dias atuais podemos ver com facilidade, nas estradas, cavalos-mecânicos da Scania, Volvo ou mesmo Mercedes, arrastando incontáveis reboques – os famosos nove-eixos – com trinta metros de comprimento, mais de 70 toneladas sobre o lombo e despejando gloriosos 600 a 700 HP em nosso pobre asfalto. Mas, nem de longe, emanam a mesma impressão de força bruta e poder dos inesquecíveis FNM, cuja humilde potência era anabolizada por miraculoso conjunto de caixa de marchas e diferencial. Ora, ponha-se um Scania e um FNM, lado a lado e com motor ligado, e adivinhe qual dos dois irá impressionar mais o aficcionado? Sem dúvidas, nosso vovô das estradas.

E por quê? Por causa de seu impressionante ronco – um baixo-profundo em compasso lento e majestoso, poderoso barítono que, em rotações mais altas, fazia estremecer vidraças e corações ao ouvi-lo. Seu verdadeiro poder era “sensorial”.

É neste exato momento que entram Platão e sua famosa (no bom sentido, é claro) caverna.

Sem complicar demais, podemos dizer que as “sombras” projetadas nas paredes das cavernas – projetadas pelo que acontece na vida real, que se passa no exterior da mesma – podem ser entendidas como tudo o que sabemos do mundo através da grande mídia, sem jamais vermos com os próprios olhos o que realmente se passa. Uso essa interpretação, que também é válida, para direcionar o foco deste artigo e ainda acrescentar que esta mesma percepção – as sombras – podem igualmente ser lidas como as nossas impressões “sensoriais”.

E onde entra o “sensorial”, na atual conjuntura?

Ora, temos um consórcio midiático a mostrar tudo o que se passa sob uma única ótica, tendenciosa e ideológica. Do mesmo modo, toda a indústria cultural – cinema, teatro, livros, artes em geral – igualmente ecoa tais tendências. Considerando a carência de fontes alternativas, que empreste à realidade outros pontos de vista, nada mais natural ao ser humano que entender o exibido pelo grupo acima citado como “a verdade” e, pior, um “consenso” já estabelecido por pessoas “respeitáveis” e que jamais endossariam atos ou intenções – e ações – deploráveis e criminosas.

Vamos ao âmago da questão: qual o número de pessoas que, de fato, escrevem reportagens, livros, peças de teatro, pintam quadros, atuam em novelas de TV, cantam músicas ou – em posição supostamente superior – atuam politicamente em cargos públicos, eletivos ou não? Contando todo o contingente, disperso pelos diversos países do planeta Terra, chegaria a dois milhões?

Pois bem, tomemos este número. Se tanto, dois milhões de pessoas controlam, manipulam e moldam as opiniões, gostos, preferências, religiões e até a sexualidade de oito bilhões de pessoas (segundo estatísticas da ONU) em nosso planeta, e o número de “controladores” certamente é bem menor, pois a grossa maioria deste contingente é formado por pessoas já devidamente “hipnotizadas” doutrinariamente, e não daqueles que realmente decidem e mandam – estes não chegarão a uns 600 mil em toda a Terra. Seiscentos mil mandando em oito bilhões.

E temos, diante de nossos olhos, um Fenemê social a exibir potência e força que realmente não dispõe – os tais e pobres 150 HP, turbinados pela caixa de marchas chamada “grande mídia” e “cultura de massa”. O ronco impressiona, o barulho intimida. Mas é só.

Para exemplificar de modo mais palpável, suponhamos que o leitor faça uma determinada postagem em suas redes sociais. Logo depois, uma chuva de trinta, quarenta ou mais comentários aparecem, execrando seu ponto de vista e condenando o pobre coitado de todas as maneiras e adjetivos possíveis. A mais humana das reações será a certeza de que seu pensamento ou opinião postada é um absurdo completo, perversão condenável, e ele jamais se atreverá a cometer outra sandice como aquela, resguardando prudente silêncio ou, pior, fingindo concordância com o que não acredita.

Devemos notar, entretanto, que tal intimidação partiu de um universo de trinta ou quarenta pessoas, de algum modo relacionadas ao autor ou a amigos do autor. Pois bem, e os outros? E os outros (para ficarmos só no Brasil) 230 milhões de brasileiros, o que achariam de suas opiniões? Ele não sabe e, considerando seu trauma, provavelmente jamais saberá. Assim, em pequena escala, tivemos o mesmo “efeito Fenemê” do parágrafo anterior, exibindo um poder numérico que não tem e um suposto – mas inexistente – consenso dos “homens de bem”.

O fato é que o povo – seja em qualquer país ou sob qualquer regime – sempre será um Scania a carregar, com seus 700 HP, toda uma nação e governo nas costas mas deixando-se impressionar – e intimidar – pelos parcos 150 HP de um Fenemê, pilotado por meia dúzia de degenerados mas que conhecem muito bem, e sabem usar, todo o poder “impressionista” de seu ronco de trovão.

Que, aliás, é seu único poder.



Walter Biancardine



sábado, 8 de junho de 2024

A FOME INSACIÁVEL DE DINHEIRO -


O advento do Rock in Rio marca, ao menos no Brasil, o fim das apresentações tradicionais de cantores ou bandas, em casas de show consideradas “normais” para a época. Este “normal” significava uma lotação entre 200 a 700 pessoas, sendo capacidades como a última citada um mote de venda e oferecidas como “mega-shows”.

Aliado ao acima citado, a legislação de então permitia que candidatos a cargos eletivos, bem como prefeituras e governos estaduais, contratassem artistas pagos pelos dinheiros públicos – uma prévia da Lei Rouanet e, igualmente, verdadeiro sorvedouro monetário.

E isso foi o suficiente para que – cobiça desperta – o desejo de levar sua arte ao povo e o reconhecimento pelo mesmo fossem prontamente substituídos por obscenas visões de cordilheiras de dinheiros, proporcionadas por tais espetáculos que comportavam, por vezes, centenas de milhares de pessoas. As tradicionais “temporadas” de três, quatro meses – ou mesmo mais, em caso de grande sucesso – em casas de shows desapareceram, bem como as mesmas (citaria, no RJ, Canecão e Scala), desprezadas que hoje são por tais artistas, cujo foco não é mais o público: são multidões.

Tempos idos, sucesso era uma longa temporada de seis, sete meses com casa lotada – 600 pessoas por noite, e artistas trabalhando dura e diariamente, tal como o comum dos mortais. A recompensa era o reconhecimento público, muitas vezes com fãs que iam uma dúzia de vezes assistir o mesmo show, bem como generosa e merecida cobertura nos cadernos culturais de jornais e revistas. E o dinheiro, obviamente, além de merecido era bastante compensador.

Atualmente, a meca artística são eventos públicos – micaretas, révéillons, datas politicamente significativas, etc. Caso não estejam disponíveis ou haja algum impedimento legal, a mesma estrutura de lobby político que assessora tais artistas (sim, empresários foram trocados por lobistas) trata de conchavar com a grande mídia uma única e colossal apresentação, sempre em locais que impressionem o comum dos mortais, tais como estádios de futebol, praias de grande extensão ou mesmo logradouros públicos, desde que comportem multidões dignas de saírem no Jornal Nacional. E está feita a mágica: trabalha-se uma única noite e ganha-se milhões, não apenas do público mas, também e principalmente, de direitos de imagem, transmissão ou de patrocinadores, que lá estacionam seus pontos de venda, dos mais variados artigos – mais “variados” mesmo, acredite.

E o quê esse público vê, ou ouve? Nada. A experiência em um “mega-show” resume-se a enxergar o artista (distante uns 300 metros) pelo telão e ouvir um som péssimo, defasado e sem sincronia com o que acontece no palco – qualidade precária, aliada ao desconforto de hordas ensandecidas massacrando-nos com seus pulos e urros tribais, causando até ferimentos. Vale a pena?

Porém, a tal nível de deslocamento da realidade chegamos que, ao vermos um artista tocar e cantar em tímidos bares ou quiosques, sem tal aparato megalomaníaco e midiático, e concentrando-se em dar o que tem de melhor a seu público – cem, duzentas pessoas, uma “miséria” para os padrões atuais – o primeiro e automático sentimento que nos desperta é quase de piedade com tal “pobre alma”.

Mas não, esta é a verdadeira arte; é ir – como um dia disse Milton Nascimento – aonde o povo está.

O resto, que a Globo anuncia e transmite, é investimento.

Ou, pior, ação política.


Walter Biancardine



sexta-feira, 7 de junho de 2024

O SONHO DE UM FILME, A REALIDADE DO LIVRO -

 


Pouco importam severa autocrítica ou um niilismo pessimista com os quais sempre disfarcei, pretensamente frio e superior, uma despropositada e teimosa esperança em finais felizes – verdadeiro vício dos que tem a escrita por ofício.

Tamanho deslocamento da realidade, ao menos no tocante àquilo que de mais íntimo tento proteger, igual e certamente tem a companhia de outro cacoete profissional, acostumado que sou à vida sendo impressa em minha alma por experiências de terceiros: a absorção de personagens da ficção, atores políticos ou participantes de acontecimentos grandes o suficiente para merecerem livros, análises ou reportagens. Um longo viver termina por obrigar-nos a perguntar se o que vimos e achamos assim o fizemos por nós mesmos, ou através de olhos alheios.

Situações particularmente difíceis, aliadas à solidão compulsória e longa demais para suportarmos com a devida dignidade podem, eventualmente, causar a corrupção de nossos princípios e sentimentos mais secretos e fazer com que nos entreguemos à prostituição, à vida fácil do amor por determinados livros, filmes e histórias. Uma psique em fuga da realidade não encontra conforto apenas em seu conteúdo mas também – e pervertidamente – em seus personagens, violentando suas essências, personalidades e, baseando-nos apenas em situações ficcionais vagamente similares, emprestamos às suas personas a figura inalcançável ou mesmo inesquecível, irrecuperável, de um amor perdido para sempre.

Ultimamente tenho revisto, com bastante assiduidade, o antigo filme “Breakfast at Tiffany’s” (Bonequinha de Luxo), baseado em pequena novela do controverso escritor norte-americano Truman Capote. Assisti o mesmo pela primeira vez ainda adolescente, treze ou quatorze anos, em uma daquelas intermináveis reprises da TV passadas ao final da noite e, na ocasião, uma Audrey Hepburn silfídica, luxuosamente embalada por vestidos e roupas de Givenchy coroadas por sua beleza, alternante entre angelical e tentadora, imediatamente remeteu meus sentimentos mais escondidos a um amor, por mim considerado impossível, que cultivava desde tenra infância.

Sim, um verdadeiro escritor traz estes traços de nascença, mesmo antes de exercer sua profissão e isso pode ser uma lástima, a confundir todos os seus anos de vida posteriores, ainda que jamais adote – por prudência ou incompatibilidade com a pobreza – tal ofício.

É preciso dizer que a personagem, no filme, foi severamente “atenuada” por seus produtores em relação à obra original de Capote. Tal fato, aliado ao charme e à beleza exuberante da atriz e mais toda a atmosfera que a envolvia – o desejo indisfarçável por glamour, luxo e beleza – adesivaram à protagonista o status de “inatingível”, “inalcançável”, tal e qual sempre havia enxergado meu citado “amor impossível”.

Sim, da mesma maneira que o comum dos mortais suspirava diante das telas ao admirar uma Audrey, léguas acima de nossas pobres realidades cotidianas, também eu sonhava secretamente – e me conformava – com aquela que jamais poderia ter; bela habitante de um mundo superior e merecedora do mesmo por suas próprias qualidades, infinitamente mais refinadas e nobres que meus toscos mundo e viver.

E este foi o filme, este foi meu sonho.

Anos mais tarde, já adulto, li a pequena novela e vi que a personagem Holly Golightly (Audrey Hepburn) era apresentada em incontáveis degraus abaixo da encantadora garota mostrada no filme, sendo o mesmo livrinho recheado de sutis sugestões a temas que, depois, seriam – são, para ser exato – martelados por políticos, grupos e organizações de esquerda. Isso à parte, a mulher em si tal como é descrita, não apenas tem um fim diverso ao mostrado por Hollywood como, igualmente, exibe um comportamento bastante vulgar – para a época – e impermeável ao verdadeiro amor. Ou seja, do sonho cinematográfico despencamos para a história de uma garota de programa, sequer tão bela quanto a atriz que a encarnou. Sem querer emprestar demasiada “intensidade” à historieta de Truman Capote, ver o filme e só depois ler o livro seria como despertar de um sonho para a horrível realidade das carências humanas, em seu mais amplo espectro.

Seria um desacato – verdadeira calúnia – pretender aludir quaisquer deficiências de caráter a um amor que fracassou, apenas descrevo en passant o teor literário por desejar, com tal queda, significar a escuridão pessoal atravessada por aqueles que perderam amores; a queda do paraíso ao inferno, sem escalas, e a expulsão de um sonho para o ingresso ao pesadelo, ao desamparo e solidão – não à toa empreguei, no parágrafo acima, a expressão “a horrível realidade das carências humanas”.

Em meus cacoetes de escritor vejo, hoje, que passei uma juventude a sonhar com um filme; maravilhado e feliz vivi o mesmo já adulto mas, na velhice, ele acabou e sobrou-me apenas um livro, por demais desagradável – e sem nenhum personagem feminino, apenas a feira de vaidades e interesses que cercavam o protagonista, um aspirante a escritor o qual sequer chamava-se Fred.

E este foi o livro, este é meu pesadelo.

Ao menos, para o bem da sanidade mental, meu nome é verdadeiro.

Depois de tudo visto, tudo lido e vivido, aceitaria um café…



Walter Biancardine






quinta-feira, 6 de junho de 2024

LAMENTO, A TIFFANY’S FECHOU -


Existem certos insights que muitos de nós temos, de maneira eventual e sem nenhuma prévia e aparente razão, que por vezes nos fazem vislumbrar e compreender, deslumbrados, todo o aspecto de determinada situação. Em outras ocasiões tal epifania não se afigura tão maravilhosa – pelo contrário, nos ensombrece diante do triste, ou mesmo terrível, daquilo contido em tal e súbita percepção.

E o mesmo se deu comigo hoje, em uma manhã perfeitamente normal, na qual estava eu a escrever com uma das mãos e tomar o café da manhã com a outra. 

TV ligada, a desfilar vídeos aleatórios do YouTube sem que eu desse atenção, até que a escutei tocar a indefectível música Moon River. Neste momento abateu-se sobre mim, sobre o que ainda me resta de puro e verdadeiro nos sentimentos, a sombria certeza de que, para sempre, tomarei café sozinho: não mais uma Tiffany’s ao meu redor, não mais uma Audrey Hepburn a dar-me, com esmeraldas ainda sonolentas, seu doce “bom dia”. Não mais; nunca mais.

No filme “Breakfast at Tiffany’s” o personagem do ator George Peppard descobre-se apaixonado pela bela Audrey Hepburn e seus olhos de gazela. Reluta contra tais sentimentos, chega a abordar os mesmos com cinismo, pois bem sabe quem é a mulher que o destino irônico o fez amar, e tal luta interna – a inseparável distância – se desenrola ao longo da história. Mas havia um futuro pela frente, a insubstituível perspectiva de ainda ter tempo e vida diante de si.

Em meus dias não há mais Tiffany’s. Em lugar do cinismo adotei o escapismo, pois bem enxergo a viuvez por um coração que ainda vive e palpita – a inseparável distância.

E não há um futuro pela frente; meu insight foi a terrível certeza que os dias, os anos, o tempo, tudo passou e nada mais resta. 

A loja fechou, as prateleiras estão vazias, não há mais Audreys, fim do expediente.

Restam-me músicas e lembranças.

Coisa de velho.


There are no Audrey Hepburns in my Moonriver. 
The Tiffany's in my life went bankrupt.


Walter Biancardine



quinta-feira, 30 de maio de 2024

DOMANDO ABISMOS -


É ponto pacífico que ninguém precisa suportar nossos dramas internos, do mesmo jeito que recomenda-se prudência ao compartilharmos eventuais sucessos.

O "Eu Social" deve ser, preferencialmente, como um vendedor de loja: simpático, agradável, prestativo e educado - nada interessando, a quem nos aborda, eventuais apocalipses que nos devastem internamente ou, igualmente, se ganhamos sozinhos na Mega-Sena.

Esta é a convenção social; oportuna, dona de lógica incontestável e que desempenha o papel de verdadeiro óleo lubrificante, permitindo às engrenagens da interação interpessoal seu funcionamento suave e sem atritos.

Se você foi o feliz ganhador de uma bolada lotérica, recomenda-se mudar de cidade e extinguir todas as suas páginas em redes sociais, pois bocas nervosas e ansiosas podem ser, eventualmente, incontroláveis e causadoras de verdadeiras desgraças.

Já na hipótese de um tsunami haver devastado sua vida, procure agir como um Lord inglês - "gentleman just walk, never run" - e mantenha a devida "fleugma": cabeça erguida, ligeiro e confiante sorriso no rosto, postura ereta e fala pausada.

Escrevo tais considerações por crer-me possuir pós grado, doutorado e mestrado em ambas situações, errando em todas elas e pagando preço extremamente caro por tais enganos. Em dias felizes, exibi despudoradamente minha alegria - pouco me importando com tristezas alheias - e mantive tal comportamento errôneo, por outro lado, nos últimos dois anos que foram, indisfarçavelmente, devastadores. Tal cachorro ferido, desandei a ganir aos quatro ventos os efeitos das bombas de Hiroshima e Nagasaki que me implodiram por dentro - e este comportamento apenas revela infantilidade, auto-piedade extrema e gera constrangimento à todos, afinal é justo crer que quem reclama, pede soluções. E quem pode solucionar as hecatombes individuais de nós todos?

Hoje, à duras penas, penso que aprendi o necessário. Tento manter-me o "gentleman" acima citado, escrevo meus artigos e, eventualmente, posto músicas e brincadeiras.

Para quem tem o hábito de ler o que escrevo, peço que não estranhe se um dia publico pesada análise filosófica e, logo depois, posto uma brincadeira ridícula ou, mesmo, um meme.

É a minha maneira de manter a cabeça erguida, ligeiro sorriso no rosto, postura ereta, fala pausada e confiante.

"Gentleman just walk, never run".


Walter Biancardine



quarta-feira, 22 de maio de 2024

CRIANÇAS PRECISAM DE TÉDIO!


Sim, elas precisam por mais absurdo que pareça.

Pais calouros vivem uma vida infernal de sobressaltos, onde o pobre "petit" não pode dar um soluço sequer sem que ambos corram exasperados pelas paredes de casa, entre telefonemas para as respectivas mães e até o pobre pediatra é incluído em tal carnaval. E que dirá do tédio?

Existe a concepção doentia - e atualmente em vigor - de que crianças precisam sorrir (sorrir não, gargalhar) enquanto permanecerem vivas e isso faz com que progenitores menos destituídos de bom senso - ou movidos por secreto desejo de impressionar os outros e a si mesmos - entupam o raio de visão dos guris com toda a espécie de traquitana, uma poluição visual geradora de verdadeira overdose de informações simultâneas as quais, inevitávelmente, resultarão ao menos em uma TDAH - para pasto e gáudio dos pais, pois agora é moda.

Nos anos mais recentes, um novo e fatal veneno foi adicionado ao arsenal dispersante dos filhos: os celulares, games ou mesmo computadores. E isso é o verdadeiro decreto da morte imaginativa, criativa dos pequenos.

Não há o que criar: tudo, nas telinhas, já vem pronto e de modo exuberante, avassalador e viciante, basta clicar.

Um conselho ao casal "nouveau": experimente deixar, por algumas tardes, seus filhos sem nada para fazer - sim, nada, nem TV; tédio mesmo.

Se seu garoto começar a destruir os carrinhos para ver como funcionam ou mesmo para montar outros; se sua menininha recortar as folhas de sua revista predileta para fazer vestidinhos para as bonecas, parabéns: você acaba de salvar o cérebro de seus filhos.

E tudo isso graças ao tédio.


Walter Biancardine



terça-feira, 21 de maio de 2024

EU BUSQUEI A PALAVRA MAIS CERTA -


Qualquer ser humano se aborrece quando escreve algo pensado, ponderado – grave e profundo, mesmo – e a seriedade do que expôs não é compreendida obtendo, em resposta, algumas palavras de consolo, estímulo ou mesmo críticas, sem que as houvesse pedido.

Tais contratempos, eventuais na vida dos indivíduos, tornam-se uma constante quando nascemos com o incômodo traço de personalidade que nos leva a sempre perguntar o porquê de tudo, a buscar a verdade primeira e a expressá-la com as palavras exatas, cuidadosamente escolhidas para que não existam interpretações dúbias – estas pessoas adotaram, conscientemente ou não, a filosofia como modo de vida.

Sim, a filosofia é um modo de vida e nunca uma profissão. Quem assim se intitula não passa de um arrogante pretensioso pois, já dizia meu professor Olavo de Carvalho, “o verdadeiro filósofo filosofa para sua própria salvação”.

Assim, tal traço de personalidade – que, nos dias de hoje, mais soa como um desvio irritante de caráter – nada mais é do que o resultado da liberdade que alguns adultos se deram ao manter uma das principais e melhores características humanas, manifestadas a princípio na juventude de seus cinco, seis anos de vida – sim, crianças nascem com o germe da filosofia, é a “idade dos porquês” e quem é pai ou mãe bem sabe disso.

Abro aqui um parêntese para recordar minha infância, repelido de quaisquer círculos de conversas adultas (que eu adorava imiscuir-me) pelo meu deseducado hábito de sempre perguntar – “Mas, por quê?

Tão exasperante era esta minha característica que, em boa hora, minha mãe lembrou-se da enorme enciclopédia “Tesouro da Juventude”, cujos fascículos colecionara dedicadamente de 1956 até 1960, a fim de saciar a mesma sede de porquês (embora infinitamente menor, ou seja, uma sede normal) de meus irmãos mais velhos. E tais volumes foram meus “amigos imaginários” da infância, cujos ensinamentos reli incontáveis vezes, principalmente seu conveniente tópico, o “Livro dos Porquês” – para alegria e sossego de meus pais e irmãos.

Tal enciclopédia abriu-me as portas para, ao fim e ao cabo, com menos de 13 anos de idade já haver lido toda a vasta biblioteca que dispúnhamos em casa, pouco me importando se os livros abordavam temas adultos (sic) como sociologia, política (e mesmo aí cabe um Shakespeare, os Anais de Tácito, etc.) ou ainda voltados à medicina, psicologia e direito – verdadeiro cupim de livros, a tudo devorei, quis mais e meu contágio pelo germe da alta cultura tornou-se irreversível. Cresci e a patologia permaneceu: praia de dia, Platão de noite – ou Platão de dia mesmo, a depender de quem estivesse lá no Posto 4, em Copacabana.

Pessoas com a mesma trajetória de vida pagam um preço e ele é cobrado de duas formas: primeiramente, seus dias serão escassos de amigos, companhias, gente em torno – na verdade os interesses deslocam-se, deslocando também os assuntos e conversas; as amizades, se não impossíveis, tornam-se raras e difíceis. E, em segundo lugar, quem muito quer saber precisa igualmente muito bem saber expressar o que aprendeu, e aí entra o inevitável mergulho de cabeça na língua portuguesa e seus luminares. Adicione-se a isso a precisão no expressar-se, exigida por qualquer tese ou mesmo pensamento, criado desde jovem em cultura filosófica (ou mesmo para os que se aventuram na área jurídica), e você certamente ficará bastante irritado quando seus interlocutores não derem o devido peso e significado a cada palavra que você escolheu, ainda que manifestando um sentimento aparentemente banal como, por exemplo, “- Estou no limite de minha solidão”.

Ora, fosse banal para mim e eu não o manifestaria!

A absoluta maioria das pessoas se valeria da expressão acima apenas para dizer que está sentindo falta de uma namorada/namorado, que os amigos estão longe há tempos e que uma mistura de vazio e tédio os irrita, ou ainda outras desventuras de nossas vidas sociais ou mesmo amorosas.

Mas não aqueles que trilharam o mesmo tortuoso caminho intelectual que eu: a palavra “limite” é literal, expressa horas, dias, meses ou anos sofrendo, cumulativamente, os efeitos psicológicos e emocionais que tal condição impõe e nossa inevitável incapacidade de continuar lidando com isso, racionalmente, dentro de pouco tempo. Um fusível psíquico queimado será algo certo de acontecer, não se trata de usual desabafo, tal como um “estou de saco cheio” que, à primeira vista e normalmente, todos interpretariam.

Do mesmo modo emprego a palavra “solidão” tendo o significante apontado, explicitamente, para o significado: um cotidiano sem seres humanos interagindo, sem um trivial “bom dia” ou – pior – sem tê-los em seu campo de visão, para assegurar que você ainda vive em um planeta habitado. As consequências em seu estado emocional e psíquico sempre serão quase impossíveis de avaliar, por terceiros, dado que pouquíssimos seres humanos neste planeta enfrentaram – compulsoriamente, não por livre desejo de isolar-se – tal deserto em suas vidas.

Até recentemente atrevia-me, ainda, a escrever sobre temas de minhas desventuras pessoais, mas os aboli tão logo dei-me conta do quanto de autopiedoso e narcisista tal comportamento se afigurava. Entretanto e por óbvio, não apenas em meus antigos queixumes tencionava eu empregar a palavra exata, o termo preciso e insubstituível – cheguei mesmo a escrever artigo no qual ressentia-me do desconhecimento em línguas estrangeiras, por impedir-me redigir com a mesma pontaria que possuo, na língua portuguesa – mas tais termos, precisos e exatos, igualmente uso ao compor (é a palavra certa: textos são compostos, não escritos. Precisam de métrica, ritmo, sonoridade e conteúdo) meus artigos sobre política, sociologia, filosofia ou teologia.

Creio que, para aqueles dotados de infinita paciência e que acompanham meus escritos há anos, seja algo de fácil identificação o momento em que escrevo algo sério ou – também sou humano – apenas divirto-me, publicando descalabros e bobagens diversas nas redes sociais. A diferença de “clima”, de ritmo ou, por vezes, até de linguagem são evidentes, quero crer que ninguém fará tal confusão – embora, quando da publicação de meu livro “Pretérito Perfeito”, algumas pessoas tenham me perguntado se tentei me suicidar ou, pasmem, se o governo militar havia me perseguido.

A intenção deste artigo é, em suma, pedir aos mesmos seres excepcionais, dotados de paciência infinita para lerem o que escrevo, que entendam os artigos que produzo sempre em seu sentido literal – raramente usarei expressões de “sentido figurado” e, se o fizer, as destacarei com as devidas aspas.

Ao lerem meus artigos, peço que assim façam lembrando-se de Maria Bethania e seu “Grito de Alerta”:


Veja bem, eu usei a palavra mais certa,

Vê se entende o meu grito de alerta.




Walter Biancardine




quinta-feira, 16 de maio de 2024

CHUTANDO CACHORRO MORTO -


Eu sou o cachorro morto.

Digno de estudos psiquiátricos e sociológicos é o impulso que algumas pessoas sentem em terminar de moer quem já está, publicamente, estraçalhado.

Uns desferem seus pontapés como tardia vingança pelo atrevimento que tive em expor, sem nenhumas reservas, a vida feliz que um dia desfrutei. Outros - não sei se mais ou menos doentes - acertam seus chutes somente pelo prazer sádico de soterrar quem não pode reagir. Em menor número, existem aqueles que agridem pelo simples fato de - mesmo sob tamanha decadência - termos o atrevimento de aparentar um mínimo de dignidade - o que, aos olhos dessa raça, soa como insuportável arrogância.

Nada posso fazer, não tenho meios de reagir sem que minha situação piore ainda mais. Aguento calado, pois, todos os inúmeros e quase cotidianos desaforos e ameaças, respirando fundo e fingindo que não doeu.

Entretanto, sempre bom é lembrar que dor de barriga não dá só nos outros. Os dias passam e tudo pode mudar.

Se e quando isso acontecer, o sangue calabrês falará mais alto. E haverá choro, ranger de dentes; muita gente aos prantos, dizendo-se injustiçada.

Mas somente se e quando o vento mudar.

Até lá, sofro em silêncio.


Walter Biancardine



segunda-feira, 13 de maio de 2024

TEMPOS MODERNOS -


Nos tempos do Império Romano os cidadãos que caíam em desgraça - fosse por atos vis de traição, por conspirarem contra o Imperador ou mesmo por insuflarem revoltas civis - eram banidos de Roma, suas casas demolidas e sal era jogado sobre os escombros para que nada mais nascesse ali. Igualmente, eram apagados da Acta Populi quaisquer registros que incluissem seu nome, eventuais estátuas suas eram derrubadas e sua memória, abolida do Senado.

Note-se que tais atitudes eram reservadas para personagens proeminentes e que cometessem atos além de qualquer perdão. 

Não há como acusar os antigos romanos de rancorosos ou cruéis, pois tais extremos - ao que parece - são inerentes à raça humana: nos dias atuais as relações desfeitas - sejam amizades ou mesmo namoros e casamentos - acabam por resultar no mesmíssimo processo de "abolição da memória", quando maridos ou mulheres, incapazes de admitir seu próprio passado, acabam por bloquear seu (sua) ex no WhatsApp, Twitter, Telegram, Facebook, Instagram e qualquer outra rede social com alguma popularidade.

Abolem o passado, apagam sua memória, jogam sal em seus próprios corações, matando todo o amor que juravam sentir e, por vezes, mudam o nome e endereço - passado morto, enterrado e vendido aos mais próximos como "página virada".

Darwin foi muito otimista em seu evolucionismo, pois atitudes assim mostram que somos os mesmos de 2000 anos atrás: negamos nossos conflitos e cremos, desesperadamente, que os resolvemos.

Para os que ambicionam a felicidade, agir como os antigos romanos é a receita certa para a estagnação bárbara e a morte do próprio coração. 

Fica o conselho: não tenha medo de seu passado. 

Ou jamais haverá um amanhã. 


Walter Biancardine



quinta-feira, 9 de maio de 2024

AOS 60, LEMBREI QUE NOS 80 EU TINHA 20 -

 


"Deixa as vinte?" - era a senha para a socialização dos cigarros e o que mais fizesse fumaça, "rodando na carioca", nos enlouquecidos anos oitenta.

Juventude e hormônios nos traziam a posse de verdades esculpidas em versos, contos, músicas, e mesmo parábolas, pelos mais atrevidos. 

E vomitavamos certezas e absolutos descontroladamente, todos os dias e em todos os lugares, para quem quisesse - ou não quisesse - ouvir. E o Baixo Leblon era o palco.

Pouco provável que sobreviventes destes anos lembrem o que fizeram naquele indefectível e lotado cruzamento de ruas, iluminado pelos neons da Pizzaria Guanabara e outros tantos. Lembrar como chegamos, com quem fomos, é fácil. O que fizemos, quem beijamos, abraçamos ou mesmo com quem fomos embora - ou se fomos embora - são outros quinhentos, para arrematar lembranças tão cheias de números.

Quem, nos dias de hoje, usaria uma sunga de crochê? Quem ainda acharia normal sair da praia já de noite - e o Arpoador era o local - e rumar, corpo salgado mas de carnes firmes, direto para o Baixo? Pior: não era programa de fim de semana, era a rotina de nossos dias (in)úteis.

Éramos eternos, imortais e lindos. Sabíamos de todas as verdades da vida - aliás, ela era nossa - e o futuro estava muito, muito distante. Tinhamos todo o tempo do mundo, e jamais pagaríamos o preço das nossas viagens.

Cazuza quase me atropelou com sua moto, em um ensaio que faziam no colégio Sacre Coeur de Marie, em Copacabana. O Barão Vermelho não existia, eram ilustres desconhecidos mas, sem graça, me presenteou com uns ingressos para suas primeiras e enlouquecidas apresentações. E me ensinou duas lições: que o futuro imprevisível sempre chega e, é claro, que o tempo não para.

O tempo não parou e o futuro chegou, trazendo com ele a overdose de aniversários por mim cumpridos.

Dei sorte. A maioria de meus amigos da época morreu ou enlouqueceu; alguns poucos conseguiram construir uma vida normal - "careta", diríamos na época - e outros, ainda, foram premiados com heranças ou influências paternas em suas colocações profissionais. Não tive nada disso, a minha boa ventura foi manter a sanidade psíquica, a forma física espantosamente em dia e jamais ter sido aprisionado pelos excessos de então, cigarros à parte. E não premeditei, foi pura sorte.

Este é o lado que me traz alegria, mas os dados seguiram rolando, o jogo prosseguiu e, mais de meio século nas costas, me dou conta que nada fiz de marcante: nenhum legado, nenhuma façanha, sem obras primas ou algo digno de se lembrarem de mim.

Não voltarei aos 80 como data, nem os alcançarei como idade; mas enquanto houver bambú haverá flechas - e quem sabe o que o restinho de meus dias poderá trazer?

Aprendí com Cazuza, no Baixo Leblon: o tempo não para. E morrer não dói.


Walter Biancardine


NOTA PÓS PUBLICAÇÃO (10/05/24):

Recebi WhatsApp de um amigo comentando sobre o texto que escrevi, a respeito de nossa desvairada juventude nos anos 80.
Em boa hora a mensagem chegou, pois lembrei do principal: toda essa vida enlouquecida tinha o amparo fundamental de um pai, uma mãe, contas pagas e confortável casa para morar.
Ser maluco com toda essa garantia é fácil.
Doido, sim. Revoltado? Nunca!



sábado, 30 de março de 2024

BEBEDEIRA


Existem homens que passam uma vida bêbados de si mesmos;

Bêbados de suas vontades, de suas birras, de seus mimos e caprichos.

Aparentam lucidez, ponderação e bom senso, mas é a moeda que usam para pagar o próximo engradado de um ego em garrafas.

E seguem os dias de festa, o eterno brinde solitário, até que a sobriedade da desgraça os faça cair - não "em", mas "de" si.

E terão o resto de seus miseráveis dias de velhice e solidão para curar a ressaca de sua existência;

Que se evaporou como álcool. 


Walter Biancardine

terça-feira, 26 de março de 2024

NÃO HÁ RELÓGIOS, NÃO HÁ LUGARES - APENAS RESPOSTAS

Manter-se raso talvez seja a melhor maneira de evitar o assombro diante do inefável, devidamente aquilatado por mente mais profunda, e que sequer seria reconhecido como tal por temerosos.

O que deve acontecer se dá sem hora marcada, sem local solene, conjunturas dramáticas ou teatrais músicas de fundo. Simplesmente se dá; apenas aceite, contemple e cresça.

Um local e situação prosaicos, em pé no ônibus, nada possuem de transcendental ou que induzam o pobre mortal à ascese. Talvez medicamentos poderosos tenham este condão, seus colaterais facilmente desviados rumo ao inexplicável mas o fato, em si, permanece o mesmo.

Um suor frio desce da testa, a escuridão invade o canto dos olhos, pernas enfraquecem e o primeiro pensamento é clínico: queda de pressão, desmaio, há que se buscar onde sentar - mas não há, ônibus cheio e implacável.

Seria desagradável manter-se apenas nisso e no exato momento em que um cérebro pragmático busca culpar medicamentos controladores da pressão arterial ou mesmo péssima alimentação duradoura, o mesmo é soterrado - de modo inopinado e sem razões prévias - por incrivelmente velozes lembranças de toda uma vida. E nossa infame existência passa, fast forward, diante de um perplexo ser pensante e que, até então, sequer recordava ou tinha consciência do tanto desfilado perante sua consciência.

Ver-se em terceira pessoa é desagradável e pior se torna quando assistimos, compungidos, os próprios pecados, felicidades ou banalidades sendo praticadas por aquela criatura que somos, mas não estamos. Ou, graças à Deus, fomos e não mais somos.

Se o melhor professor é o exemplo, estranha situação é nos enxergarmos diante de nossos olhos cometendo coisas boas e atos vis, o imbecil que fomos ensinando o convalescente que aspiramos ser.

Racionalizar o acontecido, organizar mentalmente a perplexidade, tentar dar um sentido e transformar o indizível em lição ou intervenção seria reduzir o transcendente ao concreto, o espírito à carne, o que flui ao que pesa. Não é a intenção.

Trata-se apenas de constatar que, aos que anseiam por respostas, as mesmas estão todas diante de nós.

Basta saber qual resposta cabe em cada pergunta.


Walter Biancardine 



quarta-feira, 6 de março de 2024

A MONTANHA PARIU UM RATO

 

Depois deste artigo, misto de análise e crônica pessoal, certamente pouco ou nada falarei sobre mim no que escreverei, futuramente. Entretanto, é necessário que seja – ainda desta vez – publicado tal depoimento pelo fato de jamais ter escondido fracassos ou sucessos, e aqueles que me acompanham certamente testemunharam um longo e doloroso abismo, vivido por mim, nos últimos tempos.

O mês de fevereiro foi-me particularmente terrível por coincidir duas rejeições simultâneas em minhas aspirações de trabalho e o fato, aleatório, de haver buscado o que era afinal o “narcisismo” o qual, um dia, fui “diagnosticado”. Assim, somou-se à uma auto estima nanica, desconsiderada profissionalmente, a terrível “descoberta” de ser um sociopata – verdadeira ameaça, escondida por trás de uma palavra que jamais julguei ir além da forma pejorativa de criticar o excesso de vaidade alheia.

Vamos direto ao ponto: decepções profissionais sempre são ruins, mas não o suficiente para abalar um profissional com décadas de experiência e – ainda que velado, raivoso – reconhecimento. Por outro lado, “descobrir” um sociopata habitando dentro de si, solerte e vitimando a mulher amada – causando mesmo o fim desta relação – equivale a saber, já na velhice, que todos os relacionamentos de sua vida foram baseados na tolerância dos outros para com sua doença – explícita, nociva, asquerosa, mas que apenas você não a enxergava. Ou seja, você foi alvo da piedade alheia; possuía amigos e relações apesar de ser quem você é. Uma farsa, enfim.

Todos sabem de tudo o que me aconteceu, de 2022 para cá: perdi mulher, casa, amigos, história de vida, raízes, família e fui morar de favor em uma ilha de nada, cercada de coisa nenhuma por todos os lados. Essa é a única desculpa que encontro para minha análise precipitada sobre esta “patologia”, a mim imputada, e por haver tomado como fontes válidas apenas vídeos de YouTube, ainda que apresentados por gente que se intitula “terapeuta”, “psicólogo” ou o que o valha.

Os nervos jamais foram bons conselheiros e ultimamente, mais calmo após assimilar a pancada recebida, busquei rever toda a longa série de avisos e advertências, anunciados por tais profissionais, nos vídeos que tanto mal me causaram.

A primeira coisa que chamou-me atenção foi o fato de 90% deles ser protagonizado por terapeutas mulheres, e a segunda foi o fato de tais vídeos – mais que técnicos – serem verdadeiros depoimentos: testemunhos que, em alguns deles, chegaram ao choro (!!!), vozes trêmulas e balbuciantes, demonstrando claramente que o fatal diagnóstico devia-se prioritariamente a mágoas pessoais, relacionamentos desfeitos, ódios e desejos claros de vingança destas profissionais contra seus antigos pares. E pouco se me dá a acusação de “machismo”, pois tal comportamento é, de fato, feminino. Homens vingam-se de modo diferente: arranjam outra mulher, compram carro novo e desfilam com ambos na frente da ex.

Como diabos não percebi isto antes? E por que raios uma profissional expõe-se deste modo, arriscando sua credibilidade e reputação? E concluí que a grande maioria de psicólogos e terapeutas abraça esta profissão muito mais pelo desejo de se compreender do que curar seus pacientes.

A afirmativa acima não deve ser refutada com ódio: a brilhante dra. Ana Beatriz Barbosa – reconhecida nacionalmente e que não possui canal no YouTube, apenas participa como convidada – é a prova e modelo de alguém que, realmente, está no ramo para ajudar e tem substância a oferecer.

Assistindo vídeos nos quais ela participa, percebi a evidente diferença de tom e ausência de frustrações pessoais em suas análises – explicou o que realmente é a patologia narcisista, os diferentes graus que pode alcançar e deixou bem claro que um doente deste mal, para chegar a tornar-se uma ameaça a terceiros, certamente apresentará comportamentos destoantes em todas as áreas de sua vida – indisfarçáveis, os quais certamente terminarão por fazê-lo ouvir, de mais de uma pessoa, a recomendação de tratar-se, buscar ajuda.

Incentivado pela serenidade da dra. Ana Beatriz, reconheci o ridículo de minhas buscas – instruir-me e diagnosticar-me em redes sociais é o fim da picada, tal como aceitar balizamentos leigos apenas pelo fato de amar esta pessoa profundamente.

Assim, era hora de usar um dos poucos dons que possuo – o autodidatismo – e buscar fontes literárias, sérias e de profissionais gabaritados, como parâmetro para análises.

Sei do perigo que isto representa, pois pouco ou nada enxergamos de nós mesmos. Entretanto, os que me acompanham sabem de minha longa jornada no deserto, no confessionário da solidão involuntária, enumerando para Deus os poucos pecados que em mim enxergo e escutando, Dele, os incontáveis que jamais vi. Deste modo, embora sabedor de minha miopia, percebi possuir uma auto consciência (ensinada e pregada por Olavo de Carvalho) infinitamente maior que a média das pessoas, e digo isso sem nenhuma modéstia.

E o que pude apurar? Ora, na respeitavelmente grande e densa bibliografia consultada (tudo em PDF, por falta de recursos), vi que as “terapeutas histéricas” das redes sociais não mentiram, ao revelar os extremos que um doente narcisista pode chegar.
Apenas esqueceram de dizer que são casos raros, exceções notáveis a olho nu – mas amores mal resolvidos realmente cegam as pessoas.

Um doente médio (chamemo-lo assim) narcisista é, de fato, uma pessoa que pode trazer inúmeros problemas a qualquer relacionamento. Entretanto, todos eles – sem exceção – possuem alguns traços em comum, dentre eles a certeza de serem criaturas acima da média. E foi a incapacidade alheia de distinguir entre comportamentos arrogantes eventuais e a hipótese de eu me considerar alguém “superior” que, certamente, decretou meu diagnóstico e o fim de meu casamento.

Nenhum narcisista reconhece sua postura “superior”. Já eu reconheço – e por vezes lamento tal auto defesa – minha arrogância pontual: Deus me deu poucos dons: dirigir ou pilotar qualquer coisa como aviões, motocicletas ou caminhões, aprender sozinho (suportar a solidão), uma inteligência funcional e o gosto em escrever. É só isso que tenho e sei fazer em minha vida, nada mais.

Quem comigo conviveu quando ainda voava, viu meu pior: definitivamente arrogante, competitivo, desafiador, agressivo no voo e nas discussões nas cantinas dos hangares, que sempre terminavam em pancadaria.

Mas resumia-se à isso. Jamais me gabei por suposta inteligência – e muitas vezes duvidei da mesma, quem me lê sabe – ou por escrever com alguma competência ou estilo. Mas sempre fui cabeça-dura: é difícil mudar minhas crenças, opiniões, valores; uma tarefa quase impossível e que pode conduzir o interlocutor à fatal suposição de “narcisismo”. Imagine conviver com alguém assim, em reuniões familiares?

Mas uma coisa é ser um sujeito desagradável e outra, bem diferente, é ser um sociopata.

O ponto central deste texto é, na verdade, pedir desculpas aos que me seguem por eu haver cedido ao pavor – descobrir-me incompetente na profissão e doente da psique – pavor infundado, agravado por todas as aflições já conhecidas de vocês, chegando ao ponto de considerar atitudes mais drásticas. Envergonho-me por tudo o que pensei e considerei, envergonho-me por desabar em uma fraqueza tamanha, ao ponto de provocar a solicitude de amigos como o dr. Vitor Travassos. E envergonho-me, principalmente, por esquecer a ponderação, serenidade e prudência na análise de uma situação – ainda que explicada (mas não justificada) por minhas misérias pessoais – que poderia ter me levado a atitudes estúpidas e, certamente, sem retorno ou perdão.

Havia prometido não mais escrever, não mais opinar, analisar. Pois neste momento revogo tal promessa.

Os livros, os estudos, a escrita; esta é minha vocação e nela continuarei. Neste momento, não tenho a segurança de realmente ter algo a oferecer além de análises, lastreadas não em sagacidade própria, mas em tudo que aprendi nos livros e com o professor Olavo de Carvalho – mas já é alguma coisa.

Minha situação pessoal continua a mesma mas, como dizem, “o que não pode ser solucionado, solucionado está” e, assim, continuarei tentando contribuir enquanto tiver um teto para me abrigar e condições mínimas de vida.

Decidi não mais deixar-me seduzir por sonhos – bom emprego, casa, carro – nem vencerem-me os pesadelos – sociopatias, incompetência, miséria e solidão.

Já é tempo de arregaçar as mangas e voltar ao trabalho. O país inteiro agoniza e, se posso contribuir com um só tijolo que seja, em nosso muro de combate, assim o farei.

Não mais falarei de mim, nunca mais. Ou serei, realmente, um narcisista.

É hora de curar o Brasil.

Agradeço a paciência e compreensão de todos. De volta ao trabalho.



Walter Biancardine



domingo, 3 de março de 2024

LUTA SEM FIM: RAZÃO X EMOÇÃO, INTELECTO X FÉ

 

Os adversários do título foram dispostos de maneira deliberada, pois não há como confrontar a razão com a fé, após Santo Tomás de Aquino e sua Suma Teológica: para quem leu – e entendeu – o santo Doutor da Igreja Católica, ambas coexistem interdependentes e pacificamente.

A razão e a emoção -

Um adversário melhor e constantemente utilizado contra a razão são as emoções – e mesmo sabendo o quão batido é este duelo, ouso oferecer uma análise em decorrência de um acontecimento o qual tive a inusitada oportunidade de estar presente, neste sábado, em meu trabalho: o amigo (e patrão) Alair Corrêa cedeu as instalações da pousada a qual gerencio para que pastores e membros da igreja Lagoinha lá realizassem uma cerimônia de batismo coletivo de quase cem fiéis.

Profissionais gabaritados – oriundos desta mesma igreja – exibiram como realmente se deve trabalhar, no preparo do evento. Ágeis, divididos em equipes autônomas mas sob comando central, eficientes e disciplinados, preencheram todas as minhas expectativas sobre como deve ser cumprida uma missão: com planejamento, disciplina, rapidez e eficiência. Em duas horas, tudo estava pronto. As cinco centenas de fiéis que compareceram e de tudo desfrutaram, somados ao apuro organizacional já citado, confesso, impressionaram minha razão.

Não estaria sendo justo, entretanto, se restringisse a boa impressão aos afagos feitos ao racional: observando os fiéis – em especial os casais, jovens ou nem tanto – pude perceber expressões de enlevo mútuo; ambos olhando-se com admiração e amor, carinhos e cuidados normalmente vistos apenas em raríssimos momentos de nossa brutal e cotidiana vida, tão raros que provocam o deboche de hordas invejosas que, igualmente, os percebam. E esta emoção me levou ao velho hábito de pensar, de buscar a razão primeira, a verdade – o feio cacoete filosófico, moribundo, que insiste em viver dentro de mim. E começou o jogo, provocado pela razão.

Ora, nisto tudo certamente haverá algo de muito poderoso, que harmoniza casais, que faz pessoas exibirem, involuntariamente, uma felicidade verdadeira, que equilibra e estabiliza mentes torturadas e sequeladas por traumas, vícios ou por nossa infeliz ausência completa de valores – gnósticos terminais que somos. São quase um bando à parte, tais fiéis: não digo sobre a maneira de falarem entre si, quase um dialeto o qual creio desnecessário, mas como se tratam. Fisionomias que exibem uma paz interior que, confesso, só posso recordar de enxergar quando da lembrança de pessoas muito antigas, tempos idos, modos de vida que hoje seriam tidos como inaceitáveis e retrógrados. Ponto para a emoção.

Então o pastor – cujo nome não lembro – começou a falar. Enquanto o mesmo fazia sua pregação, pude notar os rostos deslumbrados dos que o ouviam e a razão apressou-me a considerar uma espécie de catarse coletiva, somada ao tom motivacional dos melhores “coaches” de auto-ajuda, mas era na verdade uma histeria – e emprego a palavra em seu sentido original, hysteros (útero, em grego), para evitar um errado entendimento sobre o que vi: muito mais uma absorção completa da felicidade emanada, verdadeira ascese, do que mentes baratinadas sob treinamento pavloviano.

Teimoso, insisti na hipótese “auto-ajuda” e sentia-me pronto a dar a vitória à razão neste round, quando uma frase – uma só, única mas com a precisão de um sniper, dita pelo pastor – atingiu-me em cheio: “(…) porque Deus está aqui! Deus não está lá no céu, está aqui, entre nós!

Todos temos pontos fracos e quem me acompanha, conhece os meus: a solidão, o desamparo, a desesperança, causados pela (não tão) recente e brutal guinada em minha vida. E tal frase fez com que todo o enorme arranha-céu de concreto frio e impassível, erigido como um obelisco social às minhas misérias, implodisse. Não lembro se fiz algum gesto, se me portei de forma diferente, mas provavelmente algo de vexaminoso em mim chamou a atenção de meu amigo, Dr. Vitor Travassos – membro desta igreja e que também lá estava – fazendo com que ele se aproximasse e oferecesse sua boa vontade ao moribundo moral que encontrou.

O intelecto e a fé -

Habitué da solidão, aluguei-lhe a pobre orelha durante uns dez minutos, vomitando minhas mágoas, medos, frustrações – certamente o doutor, com seus anos de experiência, sabe muito bem dos riscos que representa à paciência de qualquer um, o oferecimento para ouvir solitários – mas, ainda assim, mostrei um comportamento que eu próprio jamais pude imaginar em mim: muito mais fácil escrever sobre meus tormentos para quem jamais verá meu rosto, que lastimá-los a alguém ao nosso lado.

Mesmo sabendo que sou católico, crismado e devoto de Santa Terezinha de Lisieux, o bom doutor perguntou se eu não desejava ser batizado. E nisto enxerguei um homem de profunda fé, pois foi ao encontro do que igualmente acredito: o verdadeiro crente respeita todos os crentes, mas nenhuma de suas religiões – pois só a sua é a verdade e salvação. Ponto para o intelecto, e para o doutor também.

Confesso que balancei, mas prioritariamente por mágoas pessoais já que minha madrinha – minha tia – igualmente acha-me hoje um psicopata narcisista, por conta de feridas sentimentais de sua filha – minha prima e ex mulher – e o verdadeiro papel de uma mãe é estar ao lado dos filhos, contra tudo e contra todos.

Somado a isso também há o fato que as igrejas evangélicas são muito mais acessíveis aos que sofrem: entre em uma delas e prontamente haverá alguém a perguntar em quê pode ajudar, qual sua dor – além das falas pastorais tocarem em pontos cotidianos que atormentam e desgraçam tantas vidas e famílias, apontando as direções para a cura. Você não se sente mais só, existem mãos e boa vontade para ajudá-lo, ânimo e perseverança são injetados em você – mas em boa hora percebi que tudo isso relaciona-se à nossa vida terrena, não à redenção de minha alma, que busco desesperadamente.

Em uma igreja católica você entra e está só, é você e Deus. Silêncio, meditação, confissão e penitência – tal como a existência de náufrago empurrou-me a viver, nos últimos tempos. O deserto, real, interior ou ambos; objeto de meus estudos a ponto de considerá-lo (uma tese filosófica minha) verdadeiro personagem bíblico, por sua presença necessária e decisiva em toda a Verdade Revelada.

Deus não veio a mim em uma epifania, milagres, portentos ou maravilhas. Jamais ouvi a voz do Pai, mas cada dia escuto mais forte – em seu silêncio grave – o que Ele me diz. E se minha porca fé claudica, há um Santo Tomás de Aquino, um Santo Agostinho, doutores, santos e santas (em especial Santa Terezinha, que levou-me pelas orelhas à Deus) ao longo de dois milênios de sabedoria, liturgia, ponderação, sempre confirmadas pelo tempo.

E este foi o ponto final, vitorioso, da fé.

Talvez falte aos padres o senso prático, a realidade da vida para ser aconselhada, tal como os pastores fazem. Talvez falte à igreja católica as mãos estendidas, oferecidas pelas evangélicas, aos desesperados.

Mas também faltam aos evangélicos o silêncio introspectivo, a meditação e – principalmente – sacramentos católicos, que nos fazem meditar e ter uma grande empatia com terceiros, ainda faltante no universo protestante.

Falta, aos que seguiram após Martinho Lutero, dois mil anos de uma teologia sólida, perene e eterna.

Mas não será a abissal ignorância de alguém como eu que conciliará a salvação evangélica da vida com a grandeza católica da salvação das almas, que são imortais.

Permaneço em minha fé, ela venceu.

Kyrie eleison.



Walter Biancardine



quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

COMUNICADO E DECISÃO IMPORTANTE


“Nosce te ipsum” – conhece a ti mesmo, era uma frase escrita na entrada do templo de Delfos, na Grécia. E esta pode ser a base da sabedoria, principalmente se conhecermos o tamanho de nossas deficiências, de nossa incultura, do quanto nos falta para sabermos alguma coisa ou tornarmo-nos hábeis no exercício de algum ofício.

Por longo tempo busquei conhecer a mim mesmo, perambulando nos desertos de minha solidão. Resvalei perigosamente na mais abjeta auto piedade e não me envergonho de admitir que, em diversas vezes, mergulhei descaradamente nela. Enxerguei minhas ações erradas, meus equívocos ao longo de uma vida inteira, meus defeitos, manias, mas em nenhum momento questionei meu intelecto: o fato de ter produzido três livros, em tais e desumanas condições, era-me um motivo de orgulho e atestava a mim mesmo não apenas sanidade mental, lucidez, quanto – principalmente – destreza e capacidade no ato de escrever.

Julgava-me surrado pela vida, mas ainda dono de um intelecto são e poderoso, pronto para ser empregado em quaisquer empreitadas que me fossem destinadas. Ledo engano.

Nas últimas semanas vivi dias de grande orgulho de mim mesmo, às voltas que estava entre uma proposta de trabalho em um tradicional jornal de São Paulo e a possibilidade de fazer parte da brilhante equipe da Revista Oeste. Em ambos os casos seria obrigado a mudar-me para a capital paulista e ainda, convenientemente, me afastaria de uma cidade que tomou-me a juventude, a alegria, a mulher que amava, minha família, sonhos e esperanças.

Em minha arrogância intelectual – autor de três livros, aluno de Olavo de Carvalho e com vídeos postados por ele, chamado de “professor” por seguidores do YouTube – acreditava-me em posição de poder escolher qual proposta seria a mais conveniente para mim, até que a realidade da vida – transmitida por meio do fato de não ser aceito em ambos os locais – despertou-me de tal sonho e, de quebra, mostrou o quão pequeno sou diante de monstros como Augusto Nunes, J.R. Guzzo, Jorge Serrão, Rodrigo Constantino, Ana Paula Henkel e tantos outros.

Sim, há muito o que aprender. Sim, enxerguei minha pequeneza intelectual, meu despreparo jornalístico – até pela longa ausência das redações – e o quanto enganei, ainda que involuntariamente, tantas pessoas que se deram ao trabalho de acompanhar meus artigos, vídeos ou mesmo compraram meus livros. Sim, uma lástima.

Compreendi que não possuo condições de voltar a fazer vídeos, escrever livros ou mesmo artigos, pois nada tenho a ensinar à ninguém. Enxerguei o tamanho – imenso – de minha ignorância e a necessidade urgente de somente estudar, de modo profundo e sério. Percebi que, novamente, tornei-me um “foca” (novato) no jornalismo, dado os anos que não piso em uma redação.

Assim, por uma questão de honestidade com os que me seguem, não mais usarei o YouTube. Certamente continuarei a escrever artigos em minha página pessoal e Facebook, mas peço encarecidamente que não os considerem e, preferencialmente, não os leiam. O fato de permanecer escrevendo é muito mais uma concessão que faço à minha compulsão em redigir do que a certeza de entregar ao leitor algo que ele realmente precise saber. Não, nada tenho a dizer a ninguém.

Não mais vídeos, não mais livros, não mais artigos.

E peço que não leiam o que por ventura caia em suas mãos, se de minha autoria.

Encerro com a esperança de ser perdoado por tamanha pretensão, e que não se sintam enganados: eu enganei até à mim mesmo.


Walter Biancardine



segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

EPICURO: O DELINQUENTE QUE ME SEDUZIU


Recentemente dei-me conta do estágio terminal de epicurismo contido em minha obsessão pelo passado. Era meu esconderijo, minha fuga, zona de conforto psíquico, um verdadeiro jardim de Epicuro.

Pus-me a pensar: curioso como, por vezes, nos abrigamos sob o pensamento de filósofos (?) que abominamos. Seriam minhas idiossincrasias um caso clássico de paralaxe cognitiva?

Vejamos:

Em seu livro "O Jardim das Aflições", Olavo de Carvalho discorre sobre a profunda e preocupante impressão que sofrera ter assistido uma conferência de José Américo Mota Peçanha, nos anos 80, versando - e elevando aos píncaros filosóficos - Epicuro e seu pensamento, diante de uma plateia universitária, indefesa e ignorante.

Louvando o escapismo, a fuga aos "jardins de Epicuro, poderia nos permitir encontrar conforto em nossas lembranças e sonhos, negando a realidade ostensivamente - para Epicuro, a realidade era insolúvel, incompreensível e insuportável, por isso deveríamos nos refugiar em um mundo próprio.

Tal pensamento é a antítese da filosofia, pois abstém-se da busca pela verdade primeira e aliena-se em delírios - verdadeira delinquência filosófica que, até nos dias de hoje rende frutos (quem não se lembra de Xuxa repetindo, incessantemente, na cabeça dos "baixinhos": "basta querer para poder!"?

O pensamento epicuriano foi devidamente absorvido pelas esquerdas, em seu desejo de construção de um mundo próprio, uma realidade paralela, e nela vivem até hoje. Esta é a razão da impossibilidade de debate com um esquerdista, pois vive em outra dimensão mental.

Para meu espanto, descobri-me criando um mundo próprio - meu jardim particular epicurista - ao esconder-me e proteger-me no passado obsessivo que me persegue, e que já foi até objeto de livro versando sobre o mesmo tema: "Pretérito Perfeito".

Quando acreditamos em uma coisa mas agimos de modo diverso em nossa vida pessoal, tal patologia é denominada "paralaxe cognitiva", termo criado por meu professor Olavo de Carvalho.

Por isso insisto nos benefícios da meditação em solidão: até nossas verdades mais pútridas acabam por vir à tona.


Walter Biancardine



sábado, 30 de dezembro de 2023

DÉCADENCE SANS ÉLÉGANCE


Neste sábado 30, avant première de Réveillón, a soberba incurável – fruto de berço, lamento – me invade e passo a derivar sobre o quão agradável seria aguardar a virada de ano na varanda do Copacabana Palace, embevecido pelo suave bouquet de um bordeaux Pauillac 2009 ou 2010 e beliscando arremedos de canapés, carregados de boa mousse de salmão.

A mesma deriva recomenda que nesta varanda sejam escutados os acordes de “In The Mood”, Glenn Miller, embalando nossa degeneração travestida de transcendência, e nos dando motivos para enlaçar nos braços a bela companhia que nos segue, deslizando ambos em suave dança.

Inegável o gozo mórbido que ostentamos, indisfarçavelmente, ao festejarmos a partida de menos um ano em nossas vidas – talvez seja o mesmo prazer auto destrutivo que impele muitos de nós à brutal piedade com supostos “oprimidos”, ao apedrejamento de princípios e valores à guiza de “sermos modernos e liberais” e que descobre, no fundo de um copo ou em bandejas de prata e cartões de crédito, a alegria prét-a-porteur sempre estampada nas redes sociais.

“Divina decadência!”, diria a personagem de Lisa Minelli no inesquecível filme “Cabaret”.

Sim, decadência à olho nu, décadence sans élégance como diz o título deste pretensioso artigo, exibidor de um extinto pedigree de seu autor, já vencido, fora do prazo de validade e das condições ideais de temperatura, pressão e saldo bancário para tanto.

A vergonhosa verdade é que, não fossem as condições em que vivo atualmente, somente meu saldo bancário denotaria a invalidade de meu pedigree: sim, pois é preciso sofrermos fome para entendermos a fome alheia; é preciso ilharmo-nos em solidão para entender o deserto do próximo; é preciso a mais profunda dor para darmos o devido valor ao mais simples amor.

Não tivesse eu vivido tais amarguras inacreditáveis e, certamente, ainda carregaria essa indiferença olímpica de uma jeunesse dorée, essa que se crê dona de toda a empatia apenas por colocar fotos nos perfis sociais, com mensagens de amor ao próximo e piedade pelos pobres.

Não terei Réveillón, terei virada de ano. Não terei sequer um Cabernet mas, com sorte, um Guaravita gelado e bolachas de água e sal. Não terei Glenn Miller – ele estará apenas em meu computador, veículo de meus sonhos e desvairios. Não terei uma doce companhia, mas meu fiel focinhudo estará a abanar rabos ao meu lado.

Não se apiedem ou manifestem empatia, entretanto: se nada aprendi com amor, descubro-me hoje um PhD na dor.

É o diploma mais valioso que um ser – que pretende-se humano – pode conquistar.

Feliz 2024 para todos!


Walter Biancardine




segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

A FAVELIZAÇÃO MENTAL E A CARNAVALIZAÇÃO DO ESPÍRITO -


Grata surpresa foi escutar a web rádio https://www.radio-ao-vivo.com/radio-as-velhinhas e desfrutar de músicas orquestradas, swings dos anos 40/50 e clássicos natalinos.

Para minha felicidade, vejo que ainda há quem respeite os significados das datas, pois a carnavalização do espírito, impingida aos brasileiros, faz com que não haja mais distinção entre o nascimento de Jesus e a putaria carnavalesca de Momo - tudo é motivo para rebolar, sentar, sentar, sentar e encher a cara de cerveja.

E isso nos mostra, claramente, o quanto o povo brasileiro está embrutecido, animalesco mesmo: faveliza-se tudo, de datas sacras às diversões usuais. Tira-se o coitado de uma favela, coloca-se o mesmo a morar em um Alpha Ville e, em uma semana, o lixo, roupas penduradas e um batidão ensurdecedor estarão tomando conta de sua nova casa.

Vivemos uma terra arrasada, civilizacionalmente falando.

Nada respeitamos - aqui, respeito é fraqueza - e nos tornamos obsessivos em ter como única meta na vida o acasalar.

Enquanto alguns poucos lembram-se do nascimento de Jesus, a imensa e esmagadora maioria quer apenas entupir-se de cerveja, esperma e gritos - à guiza de sorrisos.

É preciso civilizar esta horda, a qual chamamos de "brasileiros".


Walter Biancardine



quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

NOTA DE FALECIMENTO


Faleceu hoje, após longa e dolorosa agonia, a República Federativa do Brasil, vítima de falência múltipla dos órgãos públicos e instituições.

O corpo não será sepultado, devendo apodrecer aos nossos olhos durante os dias, meses e anos vindouros.

Recomenda-se, neste momento de luto, esquecer a política, evitar comentários em redes sociais, expor publicamente opiniões e posicionamentos contrários ao Soviete Supremo.

Também é conveniente beber até cair, entregar-se ao sexo desvairado, à bebida, lacração e às drogas - ou pelo menos fingir-se sob seus efeitos - para agradar Suas Excelências Ditatoriais Togadas, Ungidas por Satanás, e proteger-se de prisão sem processo ou crime. Em suma, copiar o "desbunde" esquerdista dos anos 60.

É isso ou sair empunhando um fuzil, nas ruas, a deflagrar uma guerra civil.

Pede-se não enviar flores.


Walter Biancardine


ANOS E ANOS DE PROFISSÃO

 


Algo estranho é não poder precisar quantos anos temos no exercício de nossa profissão.

No meu caso, mais que um trabalho, o jornalismo e a escrita - juntamente com a análise política, social e os estudos - ultrapassam tal definição, pois é minha vocação. E vocação é aquilo que você é compelido a fazer, mesmo existindo coisas que dariam muito mais prazer - no meu caso, a aviação.

Escrevo desde que me entendo por gente: de simples redações escolares, as quais juntavam colegas de classe para ouvi-las, passando por histórias em quadrinhos, cartas para revistas e jornais (na vã esperança de ver meu nome publicado, mas jamais foi) e até jornais escolares ou de bairro, colados nos tapumes de obras, estes foram meus primeiros passos.

Confesso que, por vinte longos anos, nada escrevi ou publiquei, pois via-me às voltas com namoros, casamentos, filho que nascia e meu trabalho na OEA e, depois, a aviação.

Impossibilitado de voar, o acaso e um amigo - Oswaldo Guimarães - me trouxeram de volta ao jornalismo: ele me convidou para trabalhar como repórter na Rádio Ondas FM, já em Cabo Frio, onde a insanidade de um chefe, conhecido como Habib (Hassalam), permitia-me escrever o que me passasse na cabeça e, por diversas vezes, ultrapassasse os 30 segundos regulamentares dos boletins radiofônicos.

E daí pra frente é tudo história conhecida: Lagos Jornal, Diário Cabofriense, Lagos TV, Opinião... coisas que me renderam apelidos carinhosos como "o câncer da mídia", "nazistinha de Alair" e um impressionante placar: 50% da intelectualidade de Cabo Frio me desconhece, e os outros 50%, me odeia.

Não os culpo: em 2007 eu já dizia - para escândalo de minha editora - que não existe jornalismo imparcial. E, somado ao meu posicionamento político, foi o suficiente para me excluírem do páreo e ser congelado no freezer dos "malditos".

Não importa, sempre fiz o que acreditei nestes meus - quantos? - anos e anos de trabalho.

E permanecerei batucando meus teclados até que a morte, sorrateira e pontual, encerre minhas atividades.

Seguimos em frente.


Walter Biancardine