com tudo é possível se acostumar
o fracasso vira rotina e incorporamos na cabeça
a humilhação, a miséria e até mesmo a fome
e dor
a dor da fome e da vergonha
mas existem dias diferentes
sequer lembramos do cotidiano miserável
porque algo caiu lá do alto em cima de nós
nos quebrou
achatou e partiu em mil pedaços
e tudo aquilo que passamos uma vida achando grande
- tudo o que sempre escrevi sem descanso ao reclamar -
e que me desesperou e enlouqueceu e me fez até
pensar o pior
parece choro de criança diante
da morte
não a minha, que tantas vezes cogitei como chantagem
mas a de outros, que me deixaram ver o estrago e a dor
nos que ficaram aqui, a chorar e gritar e desatinados
eles eram diferentes
alguém os amava e a tormenta sempre é
de quem fica
coisas terríveis acontecem com boas pessoas e todos dizem:
“por quê aconteceu isso?” ou “ele não merecia ter esse fim”
e é sempre bom lembrar
que merecer
nada tem com isso
porque a vida não premia nem castiga
a vida fode todo mundo
sem distinção de raça, sexo, classe social ou credo
então maldito seja eu, que fiz da vida um palco pro meu drama
malditos sejam todos, que pensam em extremos apenas porque
nada sabem de si, de seus gostos, dos que os cercam
e até de seu sexo
e me dei conta de ser criança igual
porque isso é a vida
e eu brincava com ela
alguma alma neste mundo sentirá dor por mim se eu partir
(quero crer)
então mais essa vergonha e tormento não causarei
apenas me reservo o direito de ir ao bar, pedir cerveja e cachaça
- é o café da manhã
daqueles que o glaucoma da vida não impediu
de enxergar e rir
e escrever
e beber
e debochar,
sarcásticos,
dessa vida de merda
igual pra todos
minhas dores não são piores que as de ninguém
nem as suas, parceiro
cala a boca e bebe
e escreve
Walter Biancardine
o fracasso vira rotina e incorporamos na cabeça
a humilhação, a miséria e até mesmo a fome
e dor
a dor da fome e da vergonha
mas existem dias diferentes
sequer lembramos do cotidiano miserável
porque algo caiu lá do alto em cima de nós
nos quebrou
achatou e partiu em mil pedaços
e tudo aquilo que passamos uma vida achando grande
- tudo o que sempre escrevi sem descanso ao reclamar -
e que me desesperou e enlouqueceu e me fez até
pensar o pior
parece choro de criança diante
da morte
não a minha, que tantas vezes cogitei como chantagem
mas a de outros, que me deixaram ver o estrago e a dor
nos que ficaram aqui, a chorar e gritar e desatinados
eles eram diferentes
alguém os amava e a tormenta sempre é
de quem fica
coisas terríveis acontecem com boas pessoas e todos dizem:
“por quê aconteceu isso?” ou “ele não merecia ter esse fim”
e é sempre bom lembrar
que merecer
nada tem com isso
porque a vida não premia nem castiga
a vida fode todo mundo
sem distinção de raça, sexo, classe social ou credo
então maldito seja eu, que fiz da vida um palco pro meu drama
malditos sejam todos, que pensam em extremos apenas porque
nada sabem de si, de seus gostos, dos que os cercam
e até de seu sexo
e me dei conta de ser criança igual
porque isso é a vida
e eu brincava com ela
alguma alma neste mundo sentirá dor por mim se eu partir
(quero crer)
então mais essa vergonha e tormento não causarei
apenas me reservo o direito de ir ao bar, pedir cerveja e cachaça
- é o café da manhã
daqueles que o glaucoma da vida não impediu
de enxergar e rir
e escrever
e beber
e debochar,
sarcásticos,
dessa vida de merda
igual pra todos
minhas dores não são piores que as de ninguém
nem as suas, parceiro
cala a boca e bebe
e escreve
Walter Biancardine
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