e num momento como esse em que tô absolutamente puto
dentro das calças, nem minha auto-destruição
eu consigo levar a sério, porque nesse fim de mundo
nessa merda de lugar que moro
nesse buraco dos infernos de carolas hipócritas
nem um boteco existe por aqui
porque todo mundo é crente
porque a vontade que tenho é encostar num balcão
e pedir aquele querosene dos infernos
aquele aguarraz num copinho ensebado e cheio de marcas
de uns dedos podres que não são meus
matar tudo de um gole só
virar pro meu vizinho de balcão e
sem nenhum aviso
sem nenhum motivo
sem uma só palavra
acertar um socão no focinho do infeliz
um direto de direita que vai quebrar o pau do nariz e nunca
nunca mais vai voltar pro lugar
e ele vai desmaiar no chão
e uma horda de uns vinte animais suados e fedorentos
vão me agarrar e me surrar até que não reste um só osso
inteiro em mim
e serei varrido pelo dono do boteco até o meio fio
alguém vai chamar o SAMU
sim, sempre tem uma alma caridosa pra salvar
quem já não quer ser salvo
e todo o ódio e frustração dessa vida de merda misturado
com um resto de testosterona eu vou ter gasto nisso
porque nascer é ser jogado num coliseu cheio de leões e tentar
sair vivo daquela merda
você sabe que vai morrer
então, que leve alguns com você
que faça um estrago bem grande
que destrua tudo a sua volta
porque nada mais resta
além do último grito
Walter Biancardine
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