a criança na aula de artes
faz o desenho que a tia pede
seus colegas admiram
e pedem também
ela faz e entrega
feliz
o resultado
todos aplaudem
o jovem cheio de espinhas
olha os mais populares
de sua turma e percebe
tem olheiras e cabelos tortos
cigarro no canto da boca
um ar sempre descontente
e falas melancólicas
e no dia seguinte ele aparece
cheio de olheiras e desgrenhado
cigarro babado e deprimido
com resmungos
desde criança
tudo o que aprendeu
é imitar quem admira
nas vestes e gestos
e amores e ódios
e prazeres e tédios
depois envelhece
bate no peito
e se gaba
“sempre fui eu mesmo”
a ciência diz que
não existem dois
seres humanos iguais
a vida me mostra
que não existem dois
diferentes
Walter Biancardine

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