quarta-feira, 9 de setembro de 2026

DOR DE BARRIGA NÃO DÁ SÓ NOS OUTROS

não tive vergonha de uma vez
chorar e mostrar lágrimas
e fala embargada no desafino
do desespero sem rumo

não escondi os cortes profundos
os lanhos que mostram os ossos
as carnes expostas e o sangue
muito sangue a empestar o chão

queria paredes acolchoadas
que não me fizessem depois
me arrepender de me destroçar
mãos e cabeça e corpo nelas

nunca fiz isso à toa
sempre foi no pior dos tormentos
mas os tormentos foram muitos
se repetiam e repetiam

mas ninguém que viu jamais ligou
sempre acharam que era cena
melodrama de um fresco mimado
um birrento que só queria tudo

pois achem o que quiserem
maldita hora em que me viram
assim

apenas não me cobrem
se hoje vejo choros e dor
e penso a mesma coisa




Walter Biancardine



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