domingo, 21 de junho de 2026
ARTISTA BOM É ARTISTA MORTO -
Se você tem um poeta
escritor ou ator ou pintor
ou qualquer artista por perto
escritor ou ator ou pintor
ou qualquer artista por perto
primeiro o xingue
invente mentiras e o difame
depois o esqueça em vida
então chega a hora
mate ou deixe morrer
não mais te ameaça
morto agora
é hora de elogiar e citar
e louvar e dar como exemplo
porque mortos não contrariam
nem mudam de ideia
viram fotografias
um morto não decepciona
mate seu artista
Walter Biancardine
sábado, 20 de junho de 2026
VIDA QUE SEGUE -
Não choro mais um amor perdido
nem vou gastar minha cerveja com isso
não serão lágrimas ou porres
que consertarão
nem vou gastar minha cerveja com isso
não serão lágrimas ou porres
que consertarão
ela sabe todos os meus erros
um por um e de cor e salteado
eu também sei os dela
de olhos fechados
até aí morreu o Neves
apontar erros é fácil
quero ver é domesticar egoísmos
e aceitar ajudas
isso vale pros dois
não há inocentes numa separação
por isso não choro mais
nem bebo menos
a vida segue por ser maior que isso
tenho a mim mesmo a restaurar
ser quem já fui um dia
ou de preferência
melhor
Walter Biancardine
A BOMBA DA PAZ -
Tenta-se de tudo para evitar o pior.
Nos esforçamos, suportamos, entendemos, engolimos – e isso foi de ambas as partes.
Mas chega um ponto de não-retorno. A bomba explode e tudo destrói.
Ambos sobrevivem, mas nada sobrou no coração de ninguém.
Nos esforçamos, suportamos, entendemos, engolimos – e isso foi de ambas as partes.
Mas chega um ponto de não-retorno. A bomba explode e tudo destrói.
Ambos sobrevivem, mas nada sobrou no coração de ninguém.
Só posso falar por mim, entretanto.
E de minha parte, estranhamente, a paz chegou.
Não anseio retornos. Não guardo esperanças. Não conto as horas.
Não há mais dor.
A paz dos mortos.
Talvez eu tenha precisado morrer para finalmente renascer.
Que a tranquilidade feliz venha, enfim, para ambos.
As manhãs continuam chegando.
As luas também.
Bendito seja o silêncio.
Walter Biancardine
O VAGALUME APAGOU -
me sentia um vaga-lume
bem sentimental
acendendo e apagando
por brigas e pazes
bem sentimental
acendendo e apagando
por brigas e pazes
mas virei uma lâmpada
de tanto acender e apagar
acho que queimei
o disjuntor desarmou
saiu fumaça e quase torrei
e após um curto circuito
veio a longa dor
que seja
que a fumaça dissipe
a lâmpada permanece
talvez um dia acenda
de novo
vaga-lumes não somem
Walter Biancardine
sexta-feira, 19 de junho de 2026
A FESTA ACABOU -
Depois de tudo que passei
eu poderia me achar
imbrochável, imorrível e incomível
eu poderia me achar
imbrochável, imorrível e incomível
mas tudo isso é horrível
como gente que se diz
à prova de balas e indestrutível
há sabedoria no morrer
nem sempre ver o depois
o que sobrou pra viver
vale a insistência
neste exato momento
nenhuma vantagem vejo
só pagando um tormento
não se explica
feito um ator ruim
que não se toca e sai de cena
querendo palco até o fim
e a vida puxa pra fora
pela gola
sem bis
e pronto
Walter Biancardine
CARAMELO -
Dormir no mato do acostamento
embaixo da árvore
mais na frente uma moita
boa pra mijar
embaixo da árvore
mais na frente uma moita
boa pra mijar
vagando sem rumo
passo em frente ao posto
tem gasolina e bar
ganho um salgado
hora de almoço
resto de quentinha
sigo o caminho
no mato ou na estrada
fosse um cachorro
e ganharia sorrisos
afagariam e brincariam
talvez até adotassem
mas não tenho rabo
que eu possa abanar
nem língua comprida
pra lamber mãos
sou só um homem
não desperto simpatia
no máximo piedade
o cachorro ao menos
não tem maldade
dizem
Walter Biancardine
EU TINHA UNS VINTE ANOS -
Os tambores rufam no calendário
hoje é sexta-feira
tudo promete e pede e cede
gosto de boca no ar
hoje é sexta-feira
tudo promete e pede e cede
gosto de boca no ar
percussão de Prestobarba no chuveiro
você ouve e se arrepia inteiro
o perfume chega na sala
só depois ela vem
abre a porta e o Chevette reluzindo
tanque cheio e música certa
a boa moça é esperta
dá uma pala e vamos indo
bar e cerveja e Martini pra ela
dançando juntinho na boate os dois
cochicho no ouvido
ela diz “meu querido”
não vamos deixar pra depois
suíte com hidro e ela nua
outra cerveja e outro Martini
fosse hoje eu diria “vai que é sua!”
o dia amanhece
você quase se esquece
já é outro dia
amanhã te vejo na praia
bunda linda e sem saia
limão e mate e chorinho
o fim de semana
mal começou
era mil novecentos
e oitenta e pouco
tudo era louco
Walter Biancardine
COPACABANA -
Rio de Janeiro com chuva
se ando nas calçadas
da avenida Nossa Senhora de Copacabana
sempre me atrasa uma velhinha sacana
guarda-chuva aberto
andando embaixo da marquise
se ando nas calçadas
da avenida Nossa Senhora de Copacabana
sempre me atrasa uma velhinha sacana
guarda-chuva aberto
andando embaixo da marquise
em outra calçada estreita
apinhada de gente
no meio dela e fazendo um funil
o camelô monta sua banca – puta que pariu!
Mas ele é esperto
eu olho pra ele sem que precise
o Rio é formigueiro
calor que racha ou chuva que encharca
nada muda nem melhora
é bem ao contrário e só piora
E as formigas do camelô
correm pra praia
Walter Biancardine
PORTA ENTREABERTA
Já tem uns dias
em que eu não abria a porta do quarto
não saía de casa e o tempo fechado
frio e névoa e chuva e vontade
de tomar café com alguém
mas ninguém…
em que eu não abria a porta do quarto
não saía de casa e o tempo fechado
frio e névoa e chuva e vontade
de tomar café com alguém
mas ninguém…
precisava de coisas
comprar café e cigarros e pão
e tem a estrada pra andar
quilômetros de lixo
quilômetros de histórias
jogadas no acostamento
não sei por quê tanto olho
pra sarjeta ou acostamento
pros becos e botequins
banheiros de ajoelhar
e exorcizar no vaso
os demônios da vida
mas hoje tá sol
eu preciso sair e quero sair
mas não quero e preciso
companhia e conversa e risos
o dia tá lindo e eu não indo
viver o que posso viver
Walter Biancardine
JÁ MORRI ALGUMAS VEZES
Bravos kamikazes
que voavam para a morte
bravos soldados no Dia D
sabiam que iam morrer
bravos heróis que deram suas vidas
todos respeitam e honram
mas onde está a glória
em deixar que o peito morra
que o coração exploda
que o mundo desabe
nada mais tenha sentido
e insistir em amar de novo?
Não é por respirar que vivemos
nem por comer ou às vezes dormir
o corpo existe e ocupa lugar
responde perguntas e parece andar
mas a alma se foi
morreu
ela levou
mas o herói se levanta
do horizonte aparece
um beijo que apetece
e insiste em amar
de novo
tudo de novo
morrer de novo
sempre vale a pena
Walter Biancardine
É MUITO BOM -
A leitura não purifica. Alivia.
Que tire as maldades ou ponha novas em sua cabeça.
Pouco importa.
O que importa é a cabeça.
Ocupada.
Aprendendo ou explorando.
E lembrando pra sempre.
Que tire as maldades ou ponha novas em sua cabeça.
Pouco importa.
O que importa é a cabeça.
Ocupada.
Aprendendo ou explorando.
E lembrando pra sempre.
NADA NAS MÃOS -
Não me faça sentir dor
meu amor por favor tô afásico
isso é o básico do básico
meu amor por favor tô afásico
isso é o básico do básico
não sou mágico
nem herói nem trágico
é só um resto que detesto
em mim
ando na estrada
subo na escada
me defendo com espada
não escolho a missão
tudo o que resta não presta
na minha mão
um grande não
um nada
Walter Biancardine
SÓ TEM ESSE MODELO -
Nunca tive versão “traje esporte fino”
Um dia sou o bom sujeito, certinho
No outro um apaixonado sonhador
E de repente solto um palavreado
que envergonha até estivador
Um dia sou o bom sujeito, certinho
No outro um apaixonado sonhador
E de repente solto um palavreado
que envergonha até estivador
As coisas mudam, os dias mudam
Eu também mudo e dou meu jeito
Por mais que espante, não é o que você pensa
Eu reajo, sobrevivo, me defendo na sequência
Se eu nunca mudasse, aí sim seria doença
Escrevo por amor a alguém
Choro os pés na bunda que levei
Todo mundo suspira e acha romântico
Não me querem gente, mas bibelô de enfeite
Mau humor só do outro lado do Atlântico
Nome disso é hipocrisia
Bonitinho todo dia
Sirvo só pra dar brilho
Sou móvel e utensílio
Sou gentil ou educado
Mas também sou um safado
Sou normal, sem nenhum plano
Eu sou só um ser humano
Walter Biancardine
FAMÍLIA -
Ligo o computador e entro no Facebook.
Do nada aparece um vídeo.
- E aê, família… ?
Desligo.
Nem quero saber.
Do nada aparece um vídeo.
- E aê, família… ?
Desligo.
Nem quero saber.
Chamou gente que nunca viu de família, é golpe.
Se não é golpe, é demagogia.
Ganhar views.
Forçar intimidade.
Já que gosta tanto de família, que force intimidade com a mãe.
Virou mania.
Todo mundo é família.
Todo mundo é irmão.
Todo mundo é parceiro.
As palavras saem puídas, feito meias velhas.
O significado pouco importa, o que interessa é o som.
Às vezes nem irmão é irmão.
Nem tio é família.
Mas um sujeito com boné virado acha que vai me conquistar com uma palavra mágica.
Cansei.
O jornal fala de um país que não existe.
A internet virou feira de milagres:
o que vendem não existe,
o que cobram existe, muito.
E o brasileiro é esperto.
Esperto demais.
Tô de saco cheio de esperteza.
Saco cheio de vigarice.
Alérgico a conversa mole.
Porque, pra pedir,
todos são uns doces
Sim.
Uns doces.
Daqueles que, quando você abre a geladeira,
sumiram.
Coisas de família.
Walter Biancardine
quinta-feira, 18 de junho de 2026
HOJE NÃO, TÔ COM DOR DE CABEÇA
escrever é sexo
dá prazer e faz falta
a alegria de ver
o que pude fazer
dá prazer e faz falta
a alegria de ver
o que pude fazer
quero repetir
mais uma vez
duas, três, dez vezes
sem tirar de dentro
mas não é mole
e se é, não é físico
o corpo absolve
mas a alma se esgota
e bobagens pingam
balanço mas não vai
perda de tempo cruel
essa sim, abre um buraco
e me sinto vazio
não consigo dizer
não dá pra ser brilhante
do despertar até a insônia
foi bom pra você, meu bem?
Walter Biancardine
PLAY IT AGAIN, SAM -
“Play it again, Sam”.
Mas Sam não toca.
Não há Sam ao piano e estou em casa, sozinho.
Aliás, Bogart jamais disse isso.
Nem eu.
Mas Sam não toca.
Não há Sam ao piano e estou em casa, sozinho.
Aliás, Bogart jamais disse isso.
Nem eu.
E a primeira estrofe me dói:
“You must remember this”.
E piora:
“A kiss is just a kiss”
Olho seu retrato e escuto:
“A sight is just a sight”.
Diria adeus com um beijo.
E um abraço inventado.
Te ouvindo dizer:
“We’ll always have Paris”.
Mas nunca tivemos.
Sequer nos vimos.
Você se foi.
“As time goes by”.
Walter Biancardine
CLICHÊS -
Muita gente busca um clichê pra se encaixar.
Compra uma prancha de surf e no dia seguinte o cabelo fica loiro e cheirando à maconha.
É contratada como doméstica e automaticamente lava os pratos com um pé apoiado no joelho da outra perna, o famoso “4”.
Ou o pior deles: se diz escritor e no dia seguinte se faz bêbado, caído no chão do bar, reclamando que é um incompreendido e se vitimizando em tempo integral.
Compra uma prancha de surf e no dia seguinte o cabelo fica loiro e cheirando à maconha.
É contratada como doméstica e automaticamente lava os pratos com um pé apoiado no joelho da outra perna, o famoso “4”.
Ou o pior deles: se diz escritor e no dia seguinte se faz bêbado, caído no chão do bar, reclamando que é um incompreendido e se vitimizando em tempo integral.
Mas desse último tipo eu entendo e posso falar.
Ele ouviu falar dos existencialistas. De um Quartier Latin, Montparnasse ou Montmartre em Paris. Só que os existencialistas viraram os depressivos das redes sociais. Aliás, nem Paris existe mais. Agora é uma feira de lembrancinhas, café caro e apartamentos impossíveis.
Mas eles insistem.
Sim, insistem. Escrevem (via ChatGPT) um textão pro Facebook e depois vão num barzinho – mas não pode ser muito “barra pesada” não, senão eles não sabem se virar – pedir um energético e beber até se fazerem de bêbados. E mandam seus originais cibertrônicos pras editoras. E as editoras cobram – é claro – para satisfazer as vaidades desses tipos.
Conversei recentemente com um poderoso de uma editora. Editora alternativa mas era editora, porra. E das grandes. E ele me dizia que o que escrevo o agrada, que tenho voz própria, estilo, domínio literário e sou muito bom quando trato do que é concreto – traduzir solidão numa sala vazia ou angústia em alguém num bar com um vira latas ao lado. Até aí, tudo bem. Mas ele disse que preciso parar de chamar o leitor de burro e ficar explicando. Não sou mais analista político, não tenho de convencer ninguém de nada – e tive de baixar a cabeça, ele está certo.
Mas o pior de tudo: ele me vasculhou. Leu coisas que escrevi há mais de vinte anos, e sabe que ir ao bar, beber e chorar pés na bunda ou a vida bandida são coisas e ambientes de sempre, em minha porca vida – não é um clichê que adotei. Mas me deu uma recomendação “marqueteira” para quando eu buscar outras editoras para publicação: que eu as sonegasse meus textos de pés na bunda, fossa, coisas assim.
Pois hoje em dia não é mais obrigação profissional saber diferenciar um verso sangrado de outro do Grok. Ou distinguir um infeliz, que pagou sua primeira cerveja em Cruzeiros, de algum novato que se queixa no Facebook, pede um energético em seu copo Stanley e ganha 100 curtidas.
É o fim da picada passar uma vida sendo um fracassado legítimo e agora correr o risco de ser confundido com um imitador.
Minha dor verdadeira terá o mesmo peso de uma dor fabricada por algoritmos.
Uma humilhação metafísica, e eu preciso comer.
Ao fim e ao cabo, tenho certeza que a próxima cerveja que eu beber num bar terá como companhia – além do desalento habitual – o fantasma de um “Enzo” se fazendo do tipo “noir”, decadente, “dark” quase gótico, existencialista do Túnel do Tempo e pensador de Facebook.
Mas ele pedirá um energético sabor frutas vermelhas.
Tristeza é decorativa.
E eu continuarei com minha cerveja.
Sozinho.
Walter Biancardine
SENTANDO DE LADO
Nenhuma bunda morre virgem
todas cedo ou tarde
levam um pé
todas cedo ou tarde
levam um pé
João amava Maria
Maria amava José
José amava Tião
cada um com seu gosto
mas sempre o pé
e sempre dói
o primeiro enlouquece
o segundo sangra
o terceiro ri
e depois disso
freguês de botequim
nenhuma bunda morre virgem
nem a minha
nem a sua
Walter Biancardine
quarta-feira, 17 de junho de 2026
CONDENADO GOURMET
O que fica na memória é seu erro.
Comentado, avaliado, julgado.
Pesado, medido e contado.
Não esquecem.
Apontam sempre alguém que sofreu muito.
Por sua culpa.
Alguém que perdeu muito dinheiro.
Por sua culpa.
Alguém que se decepcionou muito.
Com você.
Comentado, avaliado, julgado.
Pesado, medido e contado.
Não esquecem.
Apontam sempre alguém que sofreu muito.
Por sua culpa.
Alguém que perdeu muito dinheiro.
Por sua culpa.
Alguém que se decepcionou muito.
Com você.
Tem gente que assiste TV enquanto come.
Outros desfiam e destrincham o errado como um frango assado.
Servem com molho de comentários e temperam com o sal da desforra.
O cardápio é você.
Te comem.
E seu destino é o vaso sanitário. Digerido e reduzido ao devido tamanho.
E forma.
O que seria dessa gente sem um errado no menu?
Como cresceriam? Como seriam melhores?
Mais honestos? Mais responsáveis?
Mais trabalhadores?
A sobremesa é sua ausência. Ninguém fala na cara.
E servem seu choro com duas pedrinhas de gelo.
A indigestão, azia, mal estar só aparecem às vezes.
Se o prato do dia os ignora. Se caga e anda.
Se sorri e vive.
Eles correm pro banheiro.
Te vomitam.
Você foi mais indigesto que pensavam.
Walter Biancardine
SEMPRE COM FOME
Não são poucos os pequenos
miseráveis e mesquinhos
urubus secando a carcaça
apontando você
miseráveis e mesquinhos
urubus secando a carcaça
apontando você
já te julgaram inteiro
sua vida inteira não escapa
biografia é folha corrida
você não vale nada
se você não reclama
então é feliz
ou faria um drama
de ator ou atriz
a costura mal feita
remédios e rezas
a insônia escondida
isso ninguém quer ver
ou verão que sua vida
é muito pior e você
é muito melhor
que eles
que se danem os miseráveis
apontam dedos podres
que logo cairão
que se danem os miseráveis
pois vivem de nossos incômodos
mas se nada nos importa
morrem secos e com fome
que se danem os miseráveis
invejosos e mesquinhos
morram secos
e sempre com fome
Walter Biancardine
CONSERTOS EM GERAL -
Ler muito cansa os olhos
precisamos de óculos
precisamos de óculos
a idade cansa as pernas
andamos de bengala
amores destroem corações
bebemos e mentimos
Walter Biancardine
QUANDO MAIS PRECISO
Meio da estrada
horas dirigindo sem nada à volta
deserto
horas dirigindo sem nada à volta
deserto
preciso de café
de gasolina
de banheiro e um pão na chapa
quero lavar a cara
refazer as forças
respirar fundo e prosseguir
e aquele posto de gasolina está lá
sempre está
sempre esteve e estará
dia ou noite
é o mais perto que consegui
pra definir o que é o amor
Walter Biancardine
terça-feira, 16 de junho de 2026
CICATRIZES NAS COISAS
Nunca vi sua poltrona predileta
nem a marca que deixou na almofada
ainda assim me afundaria nela
a cara enterrada no vazio que a moldou
nunca vi seu colchão
mas nesse vale há um lago
onde você dorme sozinha
nem a marca que deixou na almofada
ainda assim me afundaria nela
a cara enterrada no vazio que a moldou
nunca vi seu colchão
mas nesse vale há um lago
onde você dorme sozinha
iria empurrar esses montes
abrir espaço no escuro
onde a gente pudesse ficar
não conheço seu cheiro
nem o peso do seu corpo
meu tato e minha boca
continuam famintos
só me resta
sua voz
e um retrato
aqui acaba o que tenho
Walter Biancardine
PRA FALAR A VERDADE -
Hoje o dia inteiro disfarcei
falei do tempo, desse frio
ofereci minha rabugice
como prova de vida
falei do tempo, desse frio
ofereci minha rabugice
como prova de vida
fui na rua e comprei
voltei pra casa e deixei
olhei pro teto e pensei
“não sei”
todo o dia sendo forte
cara de mau e olhos franzidos
e firmeza e queixo erguido
mas agora desmontei
porque tenho sofrido
e quero chorar mas não posso
gastei internet
gastei meu fígado
gastei cigarros
gastei toda a minha esperança
só quero chorar
mas não posso
que ela venha em meus sonhos
lamber minhas lágrimas
curar minhas mágoas
dos dias medonhos
queria chorar
que ela venha em meus sonhos
pois queria chorar
lamber minhas lágrimas
porque eu não posso
curar minhas mágoas
sozinho não dá
eu só quero chorar
pelos dias medonhos
Walter Biancardine
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