sábado, 20 de julho de 2024

NADA ALÉM DE UM “PARABÉNS” -

 


Outros países, outras culturas, outros costumes.

Nos Estados Unidos e em países da Europa ocidental, o apoio das pessoas a causas que representem seus interesses, gostos ou mesmo pretensões diversas se traduz em contribuições financeiras para os promotores ou instituições que as promovam.

A tal ponto esta mentalidade é arraigada em seus hábitos e costumes que nos Estados Unidos, por exemplo, uma pequena parte dos rendimentos da maioria das pessoas já é previamente separada e destinada a tais finalidades. O raciocínio é simples e civilizado: se alguém tomou a iniciativa – e assumiu os encargos e consequências – de divulgar, alertar, promover ou mesmo advertir, ensinar ou, em última análise, entreter o público, tais pessoas ou organizações devem ser remuneradas e receber o apoio financeiro daqueles que se beneficiam com isto.

Existem, entretanto, povos que são notórias exceções e cito todos os países da antiga “Cortina de Ferro” – Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Ucrânia e tantos outros – que, em decorrência da vida miserável imposta por governos comunistas, não só jamais dispuseram de tais pequenos valores para doações como, de modo pior, estas contribuições eram vigiadas pelas autoridades e poderiam representar, no mínimo, um “Gulag”. Para piorar, a mentalidade que “o Estado tudo provê, de tudo cuida e tudo resolve” terminou por levar seus cidadãos a um imobilismo atávico, fronteiriço ao comodismo puro e simples.

Já nosso Brasil, a nação de taipa, é uma cruza entre este mesmo Estado provedor – originado desde uma escravidão tardiamente extinta como, também, das sequelas civilizacionais impostas pela ditadura Vargas, a qual inaugurou o torpe assistencialismo que nos contamina até os dias de hoje: sim, não há necessidade de doar aos que tomam quaisquer iniciativas pois o Estado “tem a obrigação de resolver” e, ao fim e ao cabo, “esses caras só querem mesmo é aparecer e, depois, se candidatarem a vereador”.

O fundamento psíquico do brasileiro médio é indígena, extrativista: não há por que remunerar uma goiaba que pegamos no pé, e dele nos serviremos até que acabem. Quando acabarem, encontraremos outro. E isso descambou em uma desavergonhada preguiça de agir, vergonha em tomar iniciativas, omissão perpétua e, para piorar, uma suja desconfiança – e inveja – daqueles que ousam subir em um caixote para gritar por algo que creem. Não à toa, o Brasil é uma terra que abomina heróis e, quando os temos, tratamos logo de descobrir algum podre de seu passado, para desmerecê-lo; lamentar que “nada tem jeito e tudo é impossível” é a melhor maneira de justificar a própria preguiça, travestida de impossibilidades opressoras.

Nossa mente torpe de tudo desconfia: não se contribui para uma Santa Casa da Misericórdia, para uma APAE, ABBR, campanhas arrecadatórias para desabrigados e, muito menos, para campanhas políticas de candidatos em que votaremos – “eles que se virem, o Fundo Partidário está aí para isso”, alegamos. E tudo insistimos em medir pela nossa própria régua, que evidencia apenas a absoluta falta de valores e princípios morais, que vem sendo varridos impiedosamente pela cultura de massa e grande mídia.

Sempre haverão os que alegam “doar o dízimo” para a igreja de sua predileção mas, infelizmente, em maioria absoluta dos casos não se trata de um ato de fé e, sim, de um pitecantropus “fazendo negócios” com Deus: pagamos o milagre ou graça que, em breve, esperamos receber.

Tal niilismo moral se reflete diretamente naqueles que, ainda e sob todos os riscos, insistem em expor suas opiniões ou denunciarem arbitrariedades e falcatruas de nossa ditadura, nas redes sociais. Descontados os vigaristas – sempre existentes em quaisquer ramos da atividade humana – tais abnegados gastam seus dias, suas horas, suas inteligências e esforços analisando e estudando todo o panorama de nossa conjuntura para levar um grito de alerta aos seus ouvintes ansiosos – que tudo querem saber, mas nada darão em troca.

Em culturas ainda não sequeladas pelas mazelas acima expostas, os ganhos advindos das próprias redes pouco representam – ou mesmo “nada” representam, pois em sua maioria são desmonetizados – mas uma assistência consciente e sabedora do valor de tais informações (bem como dos esforços de seus autores) jamais se recusa a contribuir com tais corajosos e os garante, ao menos, uma justa remuneração por seu trabalho e asseguram um mínimo de dignidade em suas vidas e, óbvio, seus ideais.

Ney Matogrosso cantava, orgulhoso, que “não existe pecado no lado debaixo do equador”. Sim, nem pecado nem empatia, comiseração, solidariedade, nada. Por aqui assistimos o YouTube como quem vê uma TV – grátis – lemos livros somente se pudermos baixar um PDF gratuito e jamais, em hipótese alguma, doaremos mais que dois ou três minutos de nossa atenção à páginas de artigos escritos. Remunerar o autor de algo que li? Nunca!

Para o brasileiro médio, um analista político do YouTube ou mesmo de páginas pessoais é um diletante, um milionário com a vida resolvida e que, por passatempo, resolveu exibir-se escrevendo ou aparecendo nas telas.

Em um país que ostenta tamanho e notório desprezo pela cultura, o pesado fardo de estudar, aprender, desenvolver ao máximo todo seu horizonte intelectual não passa de lenda – tudo mentira, estudar é só sentar, ler e decorar!, dirão os “realistas” – e assim temos em nossos olhos, a cada vez que assistimos canais favoritos nas redes, os eternos “pedidos de pix”, rifas e toda a sorte de atrativos, para que alguém se digne a coçar o bolso e – ainda que em troca de algo material, pois informação “não se guarda na gaveta” – contribua para o sustento do abnegado.

Certamente alguém dirá – cheio das mais ferinas razões – que escrevo tal artigo em causa própria, pois a desmonetização me afastou do YouTube e ninguém contribui com um só centavo em minha página pessoal de artigos, mas não sou apenas um miserável egoísta: escrevo, também, em prol de pessoas sérias em canais que acredito, tais como Brasil Paralelo, PH Vox, Sr. Sepúlveda, Didi Red Pill, Olavo de Carvalho, Padre Paulo Ricardo e tantos outros, que gastam suas aparições a mendigar trocados de uma assistência que apenas recebe, mas em nada retribui.

Sei que estou “chovendo no molhado” e que a mentalidade de um povo não se muda com meia dúzia de linhas escritas ou vídeos postados, mas que este artigo produza, ao menos, uma reflexão por parte do leitor e que ele passe a incluir – na ordenação de suas despesas mensais – as necessárias, patrióticas e humanas doações para homens e entidades que acredite.

Ninguém nos entregará um Brasil melhor batendo à porta de nossa casa.

Não há felicidade “delivery”.



Walter Biancardine



quinta-feira, 18 de julho de 2024

MEMES E CULTURA -

 


Em momentos de soberba, sempre ostentei a facilidade que disponho em transitar dos livros de Sertillanges, Jacques Maritain ou Olavo de Carvalho até o volante de um FNM e suas duas alavancas de câmbio. Ainda embalado por tal soberba, igualmente passeio com gosto entre análises políticas, hipóteses filosóficas ou questionamentos teológicos para depois, sem cerimônias, descambar para o mais descarado pastelão e posts de humor em nível 5ª série.

Impossível ser unidimensional, um homem monolítico, um só e monótono bloco sólido, cujas facetas diversificantes são escondidas ou, como muitos desejam secretamente, inexistentes. Se tal tipo humano realmente existe, certamente será por conta de transtornos obsessivos e nunca devido a supostas e ostentadas “superioridades” a assuntos ditos “mundanos”, pois não há quem não goste de uma boa e eventual bagunça.

Se há um dom que não possuo mas gostaria de ter é desenvoltura no humor, não somente pelo bem evidente que faz à saúde mas, inclusive, por ser uma poderosa e letal arma contra pseudo-poderosos e opressores de plantão – e tal verdade vem se tornando cada vez mais evidente com o notório desconforto de nossa ditadura, sem saber como lidar com a enxurrada de memes apontados contra o Ministro Haddad.

A infantilidade primária, inerente a toda patologia megalomaníaca pelo poder, é demonstrada claramente se recordarmos alguns dos mais brilhantes humoristas brasileiros – cito Jô Soares, Agildo Ribeiro, entre outros – que eram todos esquerdistas e foram responsáveis por alguns dos momentos memoráveis no "show business" tupiniquim. Em outras palavras, a esquerda sabe muito bem como fazer humor, apenas é incapaz – pela patologia ditatorial citada – de sofrê-lo, sendo o alvo.

Tal incapacidade se espalha não apenas entre os destinatários mas, inclusive, em seus áulicos e aduladores de plantão – grande mídia e afins – que “rosnam ameaças” inócuas e vãs contra os milhões de brasileiros que, graças à internet, divulgam tais piadas. Sim, se os ditadores podem agir contra um grupo específico de humoristas – e cito o canal Hipócritas – nada podem fazer, por outro lado, para deter a enorme massa humana que viraliza o deboche contra tais sinistros personagens.

Não à toa as propostas de regulamentação das redes sociais vieram novamente à tona, exatamente no auge de esmagadora propagação de memes, citando o Ministro Haddad: ditaduras não suportam, não sabem lidar e podem mesmo implodir, se vitimadas pelo humor ácido, inteligente e, principalmente, unânime nas mais variadas redes sociais do país.

Volte aos tempos de criança e lembre-se o que sentia quando os colegas se reuniam e, rindo, apontavam o dedo para você: sim, extremamente incomodado e, desde então, sem saber o que fazer e como reagir.

Ora, provavelmente o leitor não é um ditador em potencial, tem uma vida normal e, mesmo assim, jamais aprendeu como reagir a tal situação. Imagine, por outro lado, uma pessoa que está plenamente convencida em ser alguém “superior”, cujos desejos não apenas devem, mas serão prontamente atendidos e que todos se curvam publicamente perante ele. E, em meio a toda essa pompa e circunstância, um gaiato te chama de “cabeça de ovo”.

E assim se dá o apocalipse pessoal da autoestima doentia de um ditador, e suas reações sempre serão figadais, irrazoáveis e desconexas.

O humor mata o mal, use-o sem moderação.

Não se restrinja, por comedimento ou vergonha, em repassar tais memes, temeroso do que tal atitude fará com sua imagem diante de seus amigos e colegas, pois aprendemos – o regime militar brasileiro nos ensinou – como a piada, o desdém e o deboche podem, verdadeiramente, desnortear aqueles que se atribuem o título de “proprietários” de um país e de um povo.

Quem é das antigas, lembrará: “Faça humor, não faça a guerra”.


Walter Biancardine





quarta-feira, 17 de julho de 2024

GASTANDO NEURÔNIOS -

 


O tédio é a raiz de todo o mal, a recusa desesperada em ser você mesmo.

Gênio é quem distingue o difícil do impossível.

Um problema insolúvel nada mais é que uma verdade a ser aceita.

A água fervente que amolece as batatas, também endurece o ovo.
A questão é do que você é feito, e não as circunstâncias.

Ninguém se cura no mesmo lugar onde ficou doente.

Amadurecemos com os danos, não com os anos.

A dúvida mata mais sonhos do que o fracasso jamais fará.

Não existe momento certo.
Somente o tempo, e o que decidimos fazer com ele.

Todos, em algum momento, sentam-se a um banquete de consequências.

Há mil lições nas derrotas, mas apenas uma nas vitórias.

Um navio está seguro no porto, mas não é para isso que ele foi feito.

É melhor acender um fósforo que amaldiçoar a escuridão.


Walter Biancardine



sábado, 13 de julho de 2024

PENSAMENTOS DE QUEM ACORDOU NO MEIO DA NOITE - INSÔNIA


"Para mim, ela era o livro.
Para ela, eu fui um capítulo. 
Não se dá sentimentos permanentes a pessoas temporárias."

"Se posso sobreviver aos meus próprios pensamentos, 
posso sobreviver a qualquer coisa."

"Tudo o que tenho é o hoje.
O resto são apenas lembranças ou planos."

"Minha dor vai passar, assim que acabar de me ensinar."

Walter Biancardine

sexta-feira, 12 de julho de 2024

INOCÊNCIA, MEDO OU COVARDIA? -

 


Reação natural no ser humano é buscar assuntos mais amenos quando o ambiente torna-se pesado demais, os sentimentos mais íntimos acendem o sinal de alerta e prenunciam nuvens negras na conjuntura ou, como diriam os mais jovens, a “vibe” fica “carregada” e desagradável.

Não à toa gastei os últimos dias escrevendo futilidades, divagando sobre whisky e jazz ou mesmo comentando histórias familiares mal contadas; tudo isso objetivando fugir de prenúncios e constatações sinistras que, por mais que eu finja não ver, pesam-me os ombros e a consciência.

Este peso não diz respeito à minha situação particular precária ou mesmo ao estado pós-operatório que me encontro mas, sim, à clara percepção do que brevemente virá, ao observar o posicionamento dos jogadores em campo e nossa inocência e inação diante disso.

Conversava recentemente com um velho amigo, via WhatsApp, e o mesmo advertia-me sobre meus escritos, alertando que poderiam causar-me problemas e, até mesmo, processos e prisão. Ora, este amigo está longe de ser um ignorante, possui o terceiro grau completo e atua na profissão que escolheu mas, ainda assim, não consegue diferenciar uma reportagem, denunciando crimes, de um simples artigo opinatório. Mais: assume como “normal” alguém ser preso por algo que, no máximo, renderia processos de calúnia, injúria e difamação – caso provada a culpa. Pior: crê piamente na lisura do sistema, não admite como possível instituições como o TSE sofrerem influências externas e põe a mão no fogo sobre a impossibilidade de adulteração no registro e contagem eletrônica de votos, jogando todas as hipóteses na caixa cômoda e fácil da “teoria da conspiração” – posto que são hipóteses terríveis demais para sua humana capacidade de suportar.

Uma das pesadas constatações com que tenho de lidar é o fato que uma pessoa ostensivamente inteligente e de nível superior não sabe interpretar um texto e, de modo pior, claramente “deleta” partes essenciais do mesmo, as quais contrariam frontalmente suas alegações – um misto de mecanismo psicológico de fuga com simples desejo de “ganhar a discussão”, e não de compreender o que se passa, independente de suas convicções ideológicas.

Tal fato causa-me profundo abalo, pois trata-se de alguém que conheço há anos, amigo leal mas, mesmo assim, ainda orientado pelos noticiários de TV e pleno de ideias pré concebidas e preconceituosas contra quaisquer informações que não sejam oriundas dos “meios oficiais de comunicação”: TV Globo, Record, Band, SBT, etc. Se ele, do alto de sua inteligência e cultura pensa assim, o que se passará na cabeça de pessoas não tão privilegiadas quanto ele? O que pensarão milhões de eleitores, Brasil à fora?

Infelizmente meus temores não cessam por aí: toda a conjuntura geopolítica – planetária – leva-me quase ao pânico, ao perceber que as peças do jogo de xadrez estão sendo ostensivamente movimentadas e nada podemos fazer, independente de termos governantes gêmeos em pensamentos políticos ou oriundos de outras preferências.

Os países mais importantes da Europa, como Inglaterra, Alemanha e França estão sob governos de esquerda – e evitarei discorrer sobre as estranhas contabilidades de votos que levaram estas ideologias ao poder. Nos Estados Unidos não há como ser otimista com relação a Donald Trump, pois claro está que os Democratas – independentemente de seu candidato – “ganharão” as eleições; a mídia norte americana já aponta abertamente nesta direção e, como sempre, o ativismo judiciário (copiado de nós), somado à força do terror disseminado pela TV e jornais, provavelmente enterrarão Trump – e ele que se dê por satisfeito, se não terminar atrás das grades.

Já na Rússia, Vladmir Putin age como bem entende contra a Ucrânia (nem de longe defendo Zelenski, mas sim os ucranianos) e, pior, propõe uma “governança única” para os países que compõem o BRICS – leia-se uma só gestão política, um só judiciário e, obviamente, uma só força militar, policial, de inteligência e repressão. E nós outros, botocudos, estamos alinhados a tais canalhas pelas mãos imundas de Lula.

Por falar em América Latina, toda ela – com exceção provisória da Argentina e do Paraguai – está já nas mãos da esquerda globalista, bem como o principal país, híbrido entre as Américas do Norte e Central, México, igualmente assim se encontra.

O domínio mundial do discurso esquerdo-globalista (woke) é claro e jamais agiram de modo tão ostensivo e com tamanha fúria, em suas intervenções. A grande mídia – sempre aliada do mal – comporta-se de maneira quase inacreditável, apostando em uma “realidade paralela” baseada nas teorias nazistas de “repetir uma mentira até que ela se torne uma verdade”, e noticia fatos completamente distorcidos, rotula pretensões oposicionistas sob as pechas mais odiosas e embasa a indústria cultural em suas produções hipnotizantes, formadoras de uma juventude completamente dopada, em termos de realidade das coisas.

Todos os absurdos que assistimos aterrorizados no Brasil repetem-se, com ligeiras variações locais, por toda a Europa, pelas Américas, Ásia, Oriente Médio e até mesmo o impávido Japão não está imune a tal veneno.

A alienação – inocente ou covarde – observada no amigo citado ao início deste artigo, não se diferencia do comportamento médio do homem europeu ou norte americano de modo geral, e assim se fecha um círculo autofágico, incentivado e patrocinado por metacapitalistas como Soros, Schwab, Bill Gates, Rockfeller e Ford Foundation, bem como amparados pela inteligência russa e dinheiro chinês.

Confesso que, por vezes, a carga desta consciência que possuo – brutalmente resumida e amputada nas linhas acima – torna-se pesada demais para mim e, covardemente, fujo.

Tal como a orquestra do transatlântico Titanic, ponho-me a valsar em divagações familiares, musicais ou mesmo em anedotas particulares enquanto finjo não ver, desesperadamente, o naufrágio da civilização ocidental que ocorre sob as bênçãos e omissões de um Papa militante, o qual recusa-se, sequer, a amparar nossas almas.

Tremo ao pensar que, em breve, o conceito de “civilização” será apenas uma vaga e distante lembrança, parte de doces memórias de tempos que não mais voltarão.

E viveremos em um mundo de escravidão e escombros, cenário de vídeo game, cercados de zumbis drogados e ameaças depravadas, amparadas por alguma poderosa e planetária Gestapo.

O que será de meu filho?

O que fará meu amigo, quando isso acontecer?

O que farão as pessoas que pensam como ele? Se lamentarão? 

Será tarde demais.

De fato, é mais agradável especular se a vovó Condessa de Barral tinha ou não um chamego com o Imperador Dom Pedro.

Aproveite a vida civilizada, antes que acabe.

Boa sexta feira a todos.



Walter Biancardine





quinta-feira, 11 de julho de 2024

SURPRESAS AGRADÁVEIS -


Desfruto já há dois anos da gentileza e compaixão de meu amigo Alair Corrêa, que caridosamente cedeu-me um teto onde sarar os hematomas da existência.

Coisas da vida, dei-me conta hoje que jamais havia recebido ninguém nesta casa até que - para minha honra e alegria - visitou-me o Dr. Vitor Travassos Filho, que esteve no Riala para ultimar os preparativos de um evento de sua igreja, Lagoinha.

Pela primeira vez, desde que aqui estou, pude tomar um café com alguém - e devo acrescentar a excelência da companhia - e conversar aquilo que chamam "trivialidades", muito corriqueiras nas vidas de pessoas normais, não no cotidiano de exceções como eu.

Um privilégio, um conforto, um alento que fez crer-me quase alguém como todos, um sujeito comum, ocupando um lugar no espaço e na vida - e tenho certeza de que Dr. Vitor nem de longe imagina o bem que me causou.

Dentre os "causos" contados, comentamos sobre as lendas familiares em torno de uns e outros antepassados dele e, citando os meus, o Visconde de São Sebastião do Alto, que inventou um moedor de cana à vapor e ganhou o título de D. Pedro II, e a sugestivamente comentada Condessa de Barral, tutora dos filhos de Sua Alteza  - incluindo, é claro, a Princesa Isabel - cuja estreitíssima amizade com o Imperador originou inúmeros fuxicos e fofocas ao pé do ouvido.

Concluirá o leitor, com a lógica dos puros, que Dr. Vitor prestou-me grande favor, ao deixar fluir meus "causos" e lendas familiares que certamente usei, desesperadamente, para tentar diminuir os inúmeros e incontáveis rombos presentes em minha auto-estima - talvez até a empregada do Freud concluísse tal obviedade.

Pouco importa. O que vale é minha gratidão ao mesmo, pela paciência em acompanhar a aridez de um velho, na peregrinação por suas lembranças estéreis.

Muito obrigado Dr. Vitor, pela paciência.

Muito obrigado Alair Corrêa, pela generosa mão estendida.

Muito obrigado meu Deus, por saber o quão pequeno sou e perdoar-me acessos de soberba.

"Noblesse ruinée... dommage!"


Walter Biancardine



SOBRE A AGONIA EM RELAXAR -


Por algumas vezes brinquei a respeito da impossibilidade de conciliar sólidos hábitos com meus rendimentos líquidos e ontem tive uma dessas noites, chiques demais para o chiqueiro econômico-financeiro em que vivo.

O acúmulo de semanas tensas acenderam o sinal de alerta, com direito a pálpebras tremelicando, lapsos de memória e uma digitação plena de erros disléxicos - era hora de por um freio nisso e relaxar.

Um bom e suave jazz instrumental em meu som, o velho amigo Jack Daniel's no copo (descontada a pobreza de não ter copos adequados) e cachimbo aceso; a poderosa e calmante frente fria da tranquilidade invernal tomou conta de mim e comecei, finalmente, a sentir-me um pouco mais tranquilo.

Uma amiga do Facebook cumprimentou-me por isso e - sabe-se lá por qual relação - de pronto lembrei-me do estado pós-operatório em que me encontro, tomando toneladas de medicamentos (que sangraram ainda mais meu esnobismo vão) e me dei conta que, sim, estava fazendo uma grande merda - este é o preciso e grosseiro termo.

Mais de 40 anos de direção ensinaram-me que, se a colisão é inevitável, procuremos o melhor jeito de bater, e foi o que fiz: terminei de fumar meu cachimbo, o copo do velho amigo Jack já vazio, não o renovei. Deitei-me e, literalmente, apaguei.

Acordei quase meio dia, leve, relaxado, de bom humor (!!!!) e renovado para prosseguir em minhas atividades de "sparring" da vida.

Casualmente funcionou, mas não recomendo tal prática aos recém-chegados: há que se possuir um couro grosso o suficiente para contrariar as fatais bulas dos remédios.

E não é sempre que conseguimos.

De volta às atividades!


Walter Biancardine



quarta-feira, 10 de julho de 2024

RELAX AND ENJOY...

Não sou exatamente um fã do jazz mas, neste exato momento, dou-me ao desplante de ouvir um bom e calmo instrumental, acompanhado de meu velho amigo Jack, o Daniel's.

Sem ter onde cair morto, ainda assim insisto em hábitos que, ao menos, tem o miraculoso poder de relaxar-me e trazerem a sempre bem vinda paz de espírito para meditar.

Pobre e besta.

Como dizia alguém, entretanto:

"Eu mereço...!"


Walter Biancardine



domingo, 7 de julho de 2024

FIM DO MUNDO: JÁ ACONTECEU E VOCÊ PERDEU -

A sociedade ocidental europeia é baseada na fé no Deus de Israel, na razão filosófica grega e no saber jurídico romano; estas são as três colunas de nossa sociedade e que vivem, hoje, em estado terminal pela força da insanidade hegeliana – tudo destruir, para que, do nada restante, resulte uma nova sociedade paradisíaca.

À isso soma-se as aspirações secretas de Karl Marx – divinizar-se, tornar-se o novo Deus em lugar do Jesus Cristo por ele, teoricamente, derrubado – e podemos entender os porquês de, em suas obras, aparecer de forma evidente a mesma estrutura de toda a narrativa bíblica, com o proletariado sendo o povo crente e Marx (suas ideias) o novo Messias, que abriria as portas – através da revolução – ao paraíso na terra.

Colocando à parte as vicissitudes dos últimos 150 anos, o fato é que o tripé básico da sociedade ocidental está ruindo fragorosamente. O Deus de Israel foi contaminado pelo vírus da Teologia da Libertação; a filosofia grega sofre diuturna contestação – sejamos claros: negação – pela absoluta maioria dos filósofos atuais, auxiliados pela mídia e cultura de massas; e mesmo os princípios basilares do Direito Romano sucumbem ao ativismo judicial, um fenômeno preocupante que já se espalha pelo mundo.

A grande mídia ocupou, garantida pela preguiça e omissão de pais e mães, o lugar de formadora de valores e conceitos nas crianças e jovens. Igualmente, o comodismo e fobia em pensar transformou jornalistas em sábios e profetas; oráculos reveladores das verdades sobre todos os temas – se um famoso tem ou não um bom caráter ou mesmo se Deus existe e qual é o sentido da vida, tudo o que se diga sobre isso – desde que publicados em jornais, revistas e programas de TV –  assim tomamos como a Verdade Revelada.

A resultante disso é chegarmos ao ponto de, ao menos no Brasil, sequer termos a capacidade de falar. A ignorância deliberada transformou homens pensantes em pitecantropus, incapazes sequer de expressarem suas necessidades básicas.

Nenhuma de nossas instituições funciona, estamos sempre aquém de uma justa remuneração, vivemos em aglomerados sujos e feios e tudo o que nos retrata foca apenas na luxúria, diversão ou na exaltação do crime que compensa.

O Brasil já alcançou o preconizado pela Escola de Frankfurt: tudo foi devidamente destruído. O apocalipse – o fim de nosso mundo – aconteceu em 1979 e ninguém, até hoje, percebeu.

Somos zumbis em um mundo de escombros.


Walter Biancardine



quinta-feira, 4 de julho de 2024

A TÍSICA MORAL DA LITERATURA BRASILEIRA -


Digno de nota é o fato de não dispormos de um só herói, no sentido específico do termo, em toda a gama de publicações ficcionais no Brasil.

Quando digo "herói" refiro-me á coragem física, moral, intelectual ou mesmo espiritual - não há, pois em nome de um tacanho "realismo", a falta de caráter é a tônica dominante em tais personagens; uma trilha quiçá aberta pelo indecente "Macunaíma", cuja aclamação reflete, à perfeição, todo o valor dado por nossa "elite" cultural à falta de vergonha na cara.

Sabemos que nada se dá na vida real sem que, antes, tenha sido publicado em algum livro - fato por demais evidente e de acontecimentos sobejamente coincidentes com a literatura. Cabe, então, a pergunta: onde a nata literária nacional pretende levar o Brasil? Que espécie de exemplos creem os mesmos serem capazes de oferecer ao público, através de seus personagens ditos "heróicos"?

Por inúmeras vezes afirmei ser o "brasileiro típico" uma cruza perfeita entre Jeca Tatú e Macunaíma, e infelizmente ainda não tive a oportunidade de perceber que estava errado.

Que Shakespeare ocupe as mãos - e as cabeças - de nossos filhos.


Walter Biancardine



TAMBÉM EXISTEM BOAS SURPRESAS -

 


Recém operado e ainda me abstendo de artigos mais longos, não posso evitar de – fugindo de meus temas habituais – comentar sobre uma surpresa que tive ontem, a qual produziu um efeito tão profundo que, sequer, tenho o mesmo já devidamente digerido e analisado; estas linhas são uma espécie de “primeiras impressões”.

Buscava eu uma moça nas redes sociais, a qual deveria fazer um contato profissional. Coincidentemente, ela é homônima de uma antiga colega de meus tempos de escola ginasial e, quando me deparei com seu perfil, não resisti e enviei uma mensagem.

Para minha felicidade ela respondeu e tivemos uma boa e agradável conversa, relembramos de pessoas e fatos há muito empoeirados em minhas memórias e isso rendeu-me uma enorme alegria – alegria desproporcionalmente grande a de um bom reencontro. E foi justamente sobre esta desproporção que pus-me a pensar, ao fim da noite.

Aqueles 12 ou 13 heroicos seguidores, que acompanham meus artigos, sabem de tudo o que sucedeu comigo nos últimos anos. Sabem do isolamento involuntário no qual vivo, sabem da perda de minhas raízes, referências e até mesmo das pessoas que não mais vejo ou tenho contato, familiares inclusive. 

Neste cotidiano de náufrago em que vivo, essa perda total de tudo se faz poderosamente presente em cada passo que dou, chegando ao ponto de render-me um livro – Pretérito Perfeito – onde, através de uma ficção semi-autobiográfica, busquei exorcizar e virar de vez a página desta vida passada. Igualmente, esta perda é objeto de uma atual investigação filosófica que faço, na qual entendo a solidão como personagem bíblico (os desertos dos profetas) de profundo significado e, igualmente, necessária ferramenta para nosso despertar transcendente e auto consciente, tese que pretendo publicar até o final do ano.

Neste estado de coisas, chega-me a feliz descoberta de uma pessoa pertencente a uma época passada e que trouxe de volta tudo o que, um dia, eu fui – quase uma lembrança material de mim mesmo, de minhas origens, de tudo aquilo que eu próprio já duvidava ter realmente sido um dia minha vida, enquadrando este passado quase como uma neurose, uma mentira na qual eu teimava acreditar.

Como descrever a exclamação de surpresa “mas então tudo aquilo que eu fui era verdade”? Ou mesmo “as histórias que lembro aconteceram, de fato”?

É preciso uma desconexão muito grande para chegar a esse ponto. Não vou aqui aprofundar o mérito desta desconexão, involuntária, mas certamente nem eu mesmo fazia ideia da extensão, da gravidade de tal estado mental em que me encontrava.

Devo gratidão a esta pessoa pelo reencontro proporcionado – com ela e comigo mesmo – e, igualmente, pela gentileza do trato, fazendo-me sentir novamente como um igual, um ser humano como todos os demais, ocupando um lugar no espaço, tendo um passado real e existindo de fato.

Não há como retribuir tal benesse.



Walter Biancardine




quarta-feira, 3 de julho de 2024

O BÁSICO -

A conhecidíssima - ao menos para os de minha geração - socialite Carmem Mayrink Veiga, célebre por sua elegância reconhecida internacionalmente (e particularmente acrescento, por seu "ar" de Audrey Hepburn, que sempre me seduziu), adotava o estranho hábito de marcar seus jantares em horários inusitados: 20:35h, 19:55h, 20:17h e por aí vai.

Esclarecia ela que tal método devia-se à notória - e deseducada - "tradição" brasileira da mais descarada falta de pontualidade: 

" - quando as pessoas veem um horário tão estranho, tendem a cumpri-lo, ao menos por aguardarem alguma surpresa", alegava. 

E funcionava!

Ora, somos incapazes de respeitar o tempo alheio sendo pontuais, mas exigimos toda correção e seriedade de nossos políticos.

Reclamamos da demora no atendimento dos serviços públicos, mas lá comparecemos de bermudas, chinelos de dedo e na hora em que bem entendemos.

Ficamos furiosos com um Alexandre de Moraes exibindo, do alto de sua vaidade, os prisioneiros políticos de nossa ditadura - tal qual fosse (para usar uma expressão mayrinkiana) um "tableau de chasse" - mas sequer somos capazes de respeitar o básico das regras de um convívio social civilizado.

Como condenar políticos ladrões, se procuramos nos livrar da multa de estacionamento oferecendo "um café" para o guarda?

Como temos o atrevimento de exigir respeito, se nada respeitamos?


Walter Biancardine



terça-feira, 2 de julho de 2024

DEMOCRACIA, LIBERDADE E FELICIDADE NÃO SÃO OBJETIVOS -

 


É recorrente a estranheza de quem ouve ou lê tal sentença, a qual reflete meu pensamento e que, inclusive, expressei em meu romance “Pretérito Perfeito”. Assim, por questões de brevidade começarei comentando a liberdade, reproduzindo o que recentemente escrevi em outro artigo.

A liberdade não é um direito: ela é uma condição natural, inerente à existência do ser humano, que não pode ser negociada, condicionada ou concedida a ninguém, seja através da adesão a ideologias, crenças ou filosofias de vida. O homem é um animal gregário, seu DNA o impele à vida em sociedade tal qual formigas, elefantes ou macacos; enquanto ajustado ao meio social circundante, tal liberdade será desfrutada de forma natural e inquestionável.”

Desde modo, a liberdade é uma condição que nos foi dada por Deus e cuja única possibilidade de privação será o comportamento prejudicial de um indivíduo ao grupo social. Esta pena, presente na Palavra Revelada, reflete-se na criação humana das leis que, igualmente, preveem o afastamento do delinquente do convívio em sociedade.

Declarar que “queremos liberdade” é apenas um slogan pueril, palavra de ordem política ou reflete a absoluta falta de consciência de si mesmo, de sua real presença ontológica e da ciência que esta mesma liberdade é inversamente proporcional aos nossos afetos, necessidades de sobrevivência e, até mesmo, bens. Tudo se resume a uma questão de ter a coragem de escolher.

Já a democracia deve ser analisada sob ótica bastante semelhante à felicidade, pois ambas – de maneira alguma – podem ser encaradas como “objetivo”, sendo as mesmas a evidente consequência de nosso viver, dos atos ou escolhas por nós praticados ao longo da vida.

Quem encara qualquer um dos dois conceitos acima como objetivo está, simplesmente, rebaixando de forma materialista e condicional algo que, teoricamente, só seria alcançado SE tal coisa for comprada, feita ou concedida: “Só serei feliz se comprar aquela casa” ou “conseguir a promoção no trabalho é a única maneira de ser feliz”, ou ainda “preciso me casar com ela, só assim serei feliz”.

Para piorar, terceiriza a estranhos – no caso da democracia, especificamente – a possibilidade de vivê-la, pois crê ser responsabilidade de outrem (parlamentares, juízes, etc.) algo que está, evidentemente, em suas mãos; o esquecimento de suas escolhas ao votar, eleger ou rejeitar alguém em cujas mãos a pessoa entrega esta possibilidade – viver uma democracia – reflete a fuga completa de suas responsabilidades sociais.

Ambos – democracia e felicidade – são consequências diretas do que fazemos ao longo da vida. Se escolhemos representantes e governantes com prudência e sabedoria, o resultado ao longo do tempo nos trará, inevitavelmente, a democracia.

Igualmente, se tomamos decisões igualmente sábias para nossas vidas – um bom e honesto trabalho, onde possamos expressar aquilo ao qual somos vocacionados; a escolha de uma boa esposa ou marido, cientes de que naturalmente cederemos (com amor) boa parte de nossa liberdade – definirão uma trajetória a qual, um belo dia e sentado à sua varanda com um café nas mãos, você refletirá e certamente concluirá: - “Sim, eu sou feliz”.

A preguiça em pensar, preconceitos ou mesmo opiniões de terceiros, travestidas de “experiência de vida” nos trazem mais fracassos que a simples má sorte – e de nada adiantará culpar-se; você errou o alvo.


Walter Biancardine





segunda-feira, 1 de julho de 2024

REFORMA DE FACHADA -

 


Hoje, finalmente, fui submetido à tão adiada cirurgia para retirada de um “sei-lá-o-quê” que inopinadamente havia feito moradia em minha cara.

Tudo correu bem – óbvio, pois defuntos não escrevem – e, cercado de remédios, ataduras, esparadrapos e demais apetrechos para contenção da encosta (evitando a ruptura dos pontos e consequente “desabamento” da coisa toda), cá estou de volta aos teclados.

Entretanto, até que possa retirar o curativo ou eu mesmo fazer outro menor, serei obrigado a resumir meus artigos, pois o mesmo deixa-me um tanto “caolho” e impossibilitado de usar os óculos de leitura.

Que meus escassos leitores comemorem, pois estarão livres de meus “textões” por algum tempo.


Walter Biancardine



domingo, 30 de junho de 2024

O SENTIDO DA VIDA -


Use o que Deus nos deu, único e exclusivo dom humano.

Aproveite seu intelecto, use-o, desenvolva-o, busque as verdades primeiras e conheça o incognoscível.

Não se resuma, entretanto, apenas à razão: mais que um simples raciocínio, desfrute o transcendente. Ouça Mozart, Beethoven, Tchaikovski; leia Shakespeare, os clássicos gregos, poesias.

Veja um por do sol, sinta o vento no rosto, conte as estrelas do céu.
Só a alma humana pode enredar-se no sublime.
Permita-se elevar, sair da brutalidade carnal do cotidiano, pois o espírito é nossa única diferença dos animais.

Ouvir um batidão e acasalar, até as baratas fazem.


Walter Biancardine




FALE SOZINHO EM VOZ ALTA -


O conhecido Siegmund Freud dedicava-se a analisar uma paciente que havia adquirido fobia ao ato de beber água.

Em uma das sessões, sua paciente resolveu narrar tudo o que acontecera e citou que, estando a cozinhar, viu casualmente seu cachorro bebendo água em uma vasilha e, como todo cão, babando e pingando ao redor. Aquilo, segundo ela, havia causado profundo nojo nela. Ato contínuo, pegou um copo de água em cima da mesa e bebeu. Estava curada.

Freud morreu alegando que havia descoberto as virtudes terapêuticas da fala, da discussão consigo mesmo, de dizer em voz alta aquilo que jamais diríamos a ninguém.

O fato é que Siegmund nada descobriu: por diversas vezes relatei o surpreendente poder da solidão, chegando ao ponto de entender o deserto - tão citado na Bíblia - como um verdadeiro personagem das Escrituras. E esta solidão, a possibilidade de confessar - em voz alta - tudo aquilo que jamais diríamos, é um fato espantosamente desconhecido, até mesmo por muitos clérigos e outros que se dizem "espiritualistas".

Meditar não é falar. O que pensamos, normalmente não dizemos, e o silêncio em nada nos eleva.

A peregrinação solitária e compulsória, a vivência desta solidão acompanhada de suas vicissitudes, carências e sofrimentos podem e devem ser canalizadas como impulsionadores desta nossa tão necessária confissão em voz alta.

Só através dela perdi o nojo da vida, o nojo de mim mesmo, o nojo da água.

Freud apenas apropriou-se da sabedoria bíblica.


Walter Biancardine



NINGUÉM PODE ME DAR O QUE TENHO DE NASCENÇA -

A liberdade não é, ao contrário do que artistas, políticos e demagogos pregam, um direito: ela é uma condição natural, inerente à existência do ser humano, que não pode ser negociada, condicionada ou concedida à ninguém, seja através da adesão à ideologias, crenças ou filosofias de vida.

O homem é um animal gregário, seu DNA o impele à vida em sociedade tal qual formigas, elefantes ou macacos; enquanto ajustado ao meio social circundante, tal liberdade será desfrutada de forma natural e inquestionável.

Apenas um comportamento danoso ao bando, à matilha, ao grupo, pode justificar e promover sanções ao infrator, seja através de sua expulsão do meio (animais) ou - em nossas normas jurídicas - sua retirada compulsória do convívio em sociedade.

Abomino e repudio todo e qualquer um que pense ter o poder de me conceder algo que já possuo desde meu nascimento, como seja, minha liberdade.

Igualmente vejo como opressor todo aquele que exclui o meu pensar, meu intelecto, minhas opiniões, conclusões e crenças do conceito de "liberdade", acima descrito.

Quando uma realidade conflitante e prejudicial torna-se um consenso em uma sociedade, expressar nossos julgamentos é parte igual e preponderante de nossa liberdade inerente - mesmo justificada por algo tão frágil quanto o "consenso" - e, por isso, tanto quanto o encarceramento injusto, a censura é uma brutalidade arbitrária contra a condição natural do homem, dada por Deus, de criatura livre e pensante.

Não há nenhum pensamento filosófico que justifique ou embase a censura. A mesma é fruto direto de criações humanas como ideologias e suas leis resultantes, o que - no mais das vezes - sempre são diametralmente opostas aos absolutos divinos.

"É necessário que hajam dores, mas ai daqueles por quem as dores vem", diz a Bíblia.

E que Deus tenha piedade de tais pessoas, as quais são sobejamente conhecidas por nós.


Walter Biancardine





sábado, 29 de junho de 2024

PENA CAPITAL PARA BEBÊS E 40 GRAMAS LIBERADOS -

Em intervalo de tempo espantosamente curto, os integrantes da junta governativa da ditadura brasileira – leia-se STF – demoliram dois dos mais significativos e conhecidos valores de nossa sociedade, ao liberarem o aborto e as drogas.

A rapidez com que assim agiram demonstra a certeza de nenhumas satisfações terem a nos dar – afinal, somos uma ditadura – bem como revelam o cinismo e desfaçatez ao alegarem ser tudo “em consequência da imobilidade do Congresso”.

Pois bem, analisemos tal e esfarrapada desculpa: em primeiro lugar o poder Judiciário não é um “jogador no banco de reservas” do parlamento, entrando em campo quando este não apresenta “os resultados esperados”. Se deputados federais e senadores não se mexeram sobre tais temas, assim foi sua vontade e reflete a postura cautelosa diante de pautas tão delicadas, controversas (por conta exclusivamente da esquerda, que não aceita o consenso) e caras ao povo brasileiro que, em sua maioria absoluta, repudia drogas e aborto.

Em segundo lugar, não bastasse tal repulsa ser pública e notória, a decisão do STF é exatamente o oposto da vontade popular e esfrega em nossa cara que tais Ministros são cúmplices, partícipes dos grandes traficantes internacionais de drogas, conhecidos financiadores das esquerdas latino-americanas há décadas, bem como evidencia a subserviente vassalagem togada aos ditames da Escola de Frankfurt – “destruição total de tudo para que, do caos econômico e social resultante, algo novo e melhor emerja” – proposta essa seguida à risca por esquerdistas e globalistas, estes últimos de grande destaque como “Big Techs” e “Meta Capitalistas”.

A ânsia deste caos frankfurtiano pelos Ministros do STF pode ser sentida, de imediato, pelos absurdos resultantes: uma gestante – criminosa – que autorize o assassinato de seu bebê, com sete meses e meio de gravidez, é tão assassina quanto os que ordenaram essa morte, os Ministros supremos, ambos portadores de sociopatia terminal que – em condições normais de temperatura e pressão – os condenaria à reclusão perpétua em um sanatório para doentes mentais perigosos.

Não podemos esquecer dos médicos, os agentes do assassinato e sempre mais zelosos com suas carreiras que com o Juramento de Hipócrates que, igualmente, se acumpliciam como autores materiais da sentença de morte expedida pela Corte Suprema.

Assim, com o concurso de três cúmplices – a grávida (porque mãe não é), STF e suas excelências, os doutores médicos – uma injeção letal provocou a morte do bebê de sete meses, repito à exaustão, por assistolia, prática tão dolorosa e cruel que foi abolida mesmo em procedimentos veterinários de emergência, pelo tanto de sofrimento e dor absurdas que provocam nas vítimas.

Mas esta foi a vontade da grávida, do STF e dos médicos, todos aplaudidos de pé pela satânica e vitoriosa esquerda brasileira e mundial.

Vamos agora à questão das drogas. As mesmas são consideradas ilícitas em nosso Código Penal, sendo penalizados seu comércio, uso e posse – até ontem, agora não mais.

O tráfico de drogas é considerado crime hediondo no Brasil mas a proibição de seu porte, uso e comércio parece pouco ou nada ter pesado, na decisão do Supremo. Assim, o cidadão poderá carregar consigo até quarenta gramas de maconha – muito embora o Ministro Dias Toffoli tenha lamentado e julgado, para quem quisesse ouvir, que tal decisão deveria liberar igualmente todas as outras drogas.

Tal quantidade de maconha é suficiente para ser embalada em “tijolos” e rende até, aproximadamente, cem “baseados”. Se cada “baseado” é vendido à R$10,00 o “inocente” e “inimputável” portador do “tijolo” de maconha transportará por aí, livremente, uma carga no valor de uns R$1.000,00, para pasto e gáudio do gerente de sua “boca”.

Ora, a definição deste peso de 40 gramas é uma evidente liberação do tráfico de drogas – mas “só um pouquinho”, como diria a Ministra Carmem Lúcia, ao aprovar a censura – e seu livre transporte por todo o país. Em resumo, os Ministros do STF liberaram o tráfico de drogas, bem como seu consumo – a venda não vale à pena, pois traficante não gosta de pagar imposto, tirar alvará e correr o risco de seu “vapor” o processar na Justiça do Trabalho.

Mas onde entra a alegada “inação” do Congresso nessa história?

Não houve. A proposta foi apresentada por um pequeno e minoritário partido de esquerda, e foi fragorosamente derrotada em plenário – o Congresso, a voz do povo, o rejeitou.

Bastou, entretanto, que tal partido – minoritário por vontade do povo, que não elegeu seus candidatos – recorresse ao STF para que sua PROPOSTA rejeitada fosse transformada em LEI embora, teoricamente, a Corte Suprema “não legisle”. Deste modo temos a prova, esfregada em nossas caras, que o Supremo FECHOU o Parlamento e vivemos, de fato, em uma ditadura juristocrática.

Aliás, tantas e tão repetidas vezes propostas absurdas de partidos inexpressivos – ou de outros maiores, mas que foram derrotadas no Congresso – de esquerda foram “transformadas em lei” pelo STF que nos é lícito suspeitar que, na realidade, tais propostas seriam encomendadas pelo próprio Supremo aos venais parlamentares, a fim de emprestar mínima e tênue aparência de legalidade aos seus arbítrios autocráticos, bem como sua obediência à pautas obscuras, esquerdistas e globalistas, vindas do exterior ou de poderosos chefões internacionais das drogas.

Que o leitor tenha em conta, entretanto, que não é intenção deste artigo “vitimizar” o Congresso, pois toda essa inação deve-se à pencas de processos que os parlamentares respondem – ou responderão, caso se rebelem – ao STF, bem como ao tsunami de dinheiro do pagador de impostos, liberados pelo nosso Presidente comunista aos seus apoiadores do conhecido e majoritário “Centrão”, justamente para garantir um rebanho bovino e dócil.

Vivemos em uma situação extrema e paradoxal, cuja única solução talvez seja a “profetizada” pelo General Olímpio Mourão Filho, em 1964, ao dizer que “a continuar este sistema de governo o gangsterismo e a máfia se unirão, uma longa noite descerá sobre o Brasil até que uma guerra, acionando forças exógenas, venha a libertá-lo”.

É um paradoxo a covardia do Congresso, mas muitos foram comprados.

É um paradoxo a inação das Forças Armadas, mas sua cúpula foi cooptada – e, de todas as soluções esta seria a pior pelo positivismo de seus integrantes, que já experimentamos antes e resultou no que hoje vivemos.

Mas igualmente é um paradoxo nossa apatia, alegando temer prisões e mortes – as quais, sem agirmos, já acontecem.

Uma coisa é certa: sem dor, sofrimento e sacrifício – heroísmo, enfim – não sairemos dessa jamais.

Mas o brasileiro médio morre de vergonha – e medo – de ser herói.



Walter Biancardine



quarta-feira, 26 de junho de 2024

O GOLPE NA BOLÍVIA -


Não percam seu tempo se acham que comentarei sobre os acontecimentos de hoje na bela e andina Bolívia.


Golpe? Que golpe?

Que eu saiba - e todos nós somos experimentados golpistas - um verdadeiro golpe de estado se dá com velhinhas de Bíblia na mão e segurando o terço, bem como escrevendo frases com batom em estátuas.

Aqueles amadores bolivianos teriam tentado dar um golpe de estado usando blindados, armas e soldados?

Sua principal presa política, Jeanine Añez Chávez, ainda mantém sua conta no X-Twitter e diz que é contra?

Que aprendam conosco, os verdadeiros golpistas, que temos canais fechados, contas bloqueadas, prisões sentenciadas a 17 anos, mortes na cadeia, exilados políticos e tudo isso graças à nossa heróica ação de fazer passeatas e acampar em frente aos quartéis!

Os militares bolivianos, igualmente, são uns primários: bons são os nossos, que utilizam as mais modernas estratégias de perfídia - sem falar nas corajosas pinturas de meio-fio - para deter os insanos que "atentam violentamente contra o estado democrático de direito"!

Ainda falta muito para que os pobres bolivianos se comparem ao nosso brilho!


Walter Biancardine



O MUNDO ACABA E CABO FRIO NEM AÍ -


A ditadura judicial não mais disfarça e abate, com sua mão pesada, os poucos corajosos que dela discordam.

De ontem para hoje, tivemos 24 horas de terror ao vermos nossas publicações excluídas e mesmo a Rádio Auri Verde Bauru noticiou, nesta manhã, a perseguição e exclusão que tem sido vítima.

Mas o quadro não se resume a isso: temos presos políticos como Filipe G. Martins - encarcerado sem nenhuma razão plausível - bem como idosos e mães de filhos pequenos igualmente presos, junto com doentes e que precisam de cuidados especiais.

Já tivemos um morto - o "Clezão" - e ficou por isso mesmo. Ninguém lembra ou menciona ter sido o pobre homem vítima desta ditadura.

Nosso Congresso foi fechado por aquele órgão de três letras, cujo nome sequer pode ser mencionado, e que descaradamente distorce as leis existentes, dando às mesmas o sentido ideológico que lhes convém.

Não temos liberdade de falar, de opinar, de discordar, de protestar e, alguns, sequer de ir e vir ou voltar ao Brasil - exilados políticos que são.

O Brasil esfacela-se sob este pesado bombardeio do sistema, naufraga economica e democraticamente, o povo empobrece, não pode reclamar e o quê os jornais, TV's e rádios de Cabo Frio fazem?

NADA.

Tenho amigos no meio radiofônico, televisivo e jornalistico mas a compulsão em falar a verdade já me fez perder muitos deles - apenas não será agora, em um momento tão grave, que agirei diferente: a mídia cabofriense está muda, finge que não vê porque É COVARDE! E tal adjetivo igualmente se aplica a muitos políticos locais, que prudentemente disfarçam seu horror em "estarem ocupados com outras importantes funções".

O Brasil naufraga, e nossa mídia fala que tal praia "ganhou a bandeira azul" dos tarados ambientais ou mesmo que sediaremos "evento com foco no turismo e tecnologia" - NEM UMA LINHA SEQUER SOBRE NOSSO PAÍS MERGULHANDO NO CAOS DITATORIAL!

É certo que mídias locais devem, preferencialmente, tratar dos assuntos pertinentes à comunidade mas a hipocrisia é evidente, a covardia é explícita e - sou capaz de apostar - caso um dia a liberdade venha a renascer sobre nosso país, tais medrosos prontamente vestirão a capa de "heróis da resistência"!

HIPÓCRITAS! COVARDES!

Que o leitor destas linhas saiba: de nada adianta assistir a TV Alto Litoral, ler Folha dos Lagos ou ouvir rádios - pouco importa o programa ou apresentador: VOCÊ ESTÁ SENDO ENGANADO por gente que, sequer, tem coragem para assinar o que pensa!

Um dia, quem sabe, teremos gente com testosterona novamente em Cabo Frio.

Até lá, que Deus tenha piedade de nós, e do Brasil.


Walter Biancardine 



domingo, 9 de junho de 2024

A CAVERNA DE PLATÃO E O CAMINHÃO FENEMÊ -

Tão poderosa foi a impressão causada pelo extinto e saudoso caminhão FNM (Fenemê, para os íntimos) em tempos idos que, até hoje, decorridos quase setenta anos de seu lançamento, ainda provoca sorrisos evocativos e serve como referência de força, brutalidade e poder.

Na realidade, o mesmo contava com um resistente motor de seis cilindros, fabricado sob licença da Alfa Romeo italiana, mas que entregava apenas 150 HP – potência bastante razoável para a época, mas nenhum exemplo de força exacerbada, já que os modestos Mercedes chegavam aos 100 HP.

Nos dias atuais podemos ver com facilidade, nas estradas, cavalos-mecânicos da Scania, Volvo ou mesmo Mercedes, arrastando incontáveis reboques – os famosos nove-eixos – com trinta metros de comprimento, mais de 70 toneladas sobre o lombo e despejando gloriosos 600 a 700 HP em nosso pobre asfalto. Mas, nem de longe, emanam a mesma impressão de força bruta e poder dos inesquecíveis FNM, cuja humilde potência era anabolizada por miraculoso conjunto de caixa de marchas e diferencial. Ora, ponha-se um Scania e um FNM, lado a lado e com motor ligado, e adivinhe qual dos dois irá impressionar mais o aficcionado? Sem dúvidas, nosso vovô das estradas.

E por quê? Por causa de seu impressionante ronco – um baixo-profundo em compasso lento e majestoso, poderoso barítono que, em rotações mais altas, fazia estremecer vidraças e corações ao ouvi-lo. Seu verdadeiro poder era “sensorial”.

É neste exato momento que entram Platão e sua famosa (no bom sentido, é claro) caverna.

Sem complicar demais, podemos dizer que as “sombras” projetadas nas paredes das cavernas – projetadas pelo que acontece na vida real, que se passa no exterior da mesma – podem ser entendidas como tudo o que sabemos do mundo através da grande mídia, sem jamais vermos com os próprios olhos o que realmente se passa. Uso essa interpretação, que também é válida, para direcionar o foco deste artigo e ainda acrescentar que esta mesma percepção – as sombras – podem igualmente ser lidas como as nossas impressões “sensoriais”.

E onde entra o “sensorial”, na atual conjuntura?

Ora, temos um consórcio midiático a mostrar tudo o que se passa sob uma única ótica, tendenciosa e ideológica. Do mesmo modo, toda a indústria cultural – cinema, teatro, livros, artes em geral – igualmente ecoa tais tendências. Considerando a carência de fontes alternativas, que empreste à realidade outros pontos de vista, nada mais natural ao ser humano que entender o exibido pelo grupo acima citado como “a verdade” e, pior, um “consenso” já estabelecido por pessoas “respeitáveis” e que jamais endossariam atos ou intenções – e ações – deploráveis e criminosas.

Vamos ao âmago da questão: qual o número de pessoas que, de fato, escrevem reportagens, livros, peças de teatro, pintam quadros, atuam em novelas de TV, cantam músicas ou – em posição supostamente superior – atuam politicamente em cargos públicos, eletivos ou não? Contando todo o contingente, disperso pelos diversos países do planeta Terra, chegaria a dois milhões?

Pois bem, tomemos este número. Se tanto, dois milhões de pessoas controlam, manipulam e moldam as opiniões, gostos, preferências, religiões e até a sexualidade de oito bilhões de pessoas (segundo estatísticas da ONU) em nosso planeta, e o número de “controladores” certamente é bem menor, pois a grossa maioria deste contingente é formado por pessoas já devidamente “hipnotizadas” doutrinariamente, e não daqueles que realmente decidem e mandam – estes não chegarão a uns 600 mil em toda a Terra. Seiscentos mil mandando em oito bilhões.

E temos, diante de nossos olhos, um Fenemê social a exibir potência e força que realmente não dispõe – os tais e pobres 150 HP, turbinados pela caixa de marchas chamada “grande mídia” e “cultura de massa”. O ronco impressiona, o barulho intimida. Mas é só.

Para exemplificar de modo mais palpável, suponhamos que o leitor faça uma determinada postagem em suas redes sociais. Logo depois, uma chuva de trinta, quarenta ou mais comentários aparecem, execrando seu ponto de vista e condenando o pobre coitado de todas as maneiras e adjetivos possíveis. A mais humana das reações será a certeza de que seu pensamento ou opinião postada é um absurdo completo, perversão condenável, e ele jamais se atreverá a cometer outra sandice como aquela, resguardando prudente silêncio ou, pior, fingindo concordância com o que não acredita.

Devemos notar, entretanto, que tal intimidação partiu de um universo de trinta ou quarenta pessoas, de algum modo relacionadas ao autor ou a amigos do autor. Pois bem, e os outros? E os outros (para ficarmos só no Brasil) 230 milhões de brasileiros, o que achariam de suas opiniões? Ele não sabe e, considerando seu trauma, provavelmente jamais saberá. Assim, em pequena escala, tivemos o mesmo “efeito Fenemê” do parágrafo anterior, exibindo um poder numérico que não tem e um suposto – mas inexistente – consenso dos “homens de bem”.

O fato é que o povo – seja em qualquer país ou sob qualquer regime – sempre será um Scania a carregar, com seus 700 HP, toda uma nação e governo nas costas mas deixando-se impressionar – e intimidar – pelos parcos 150 HP de um Fenemê, pilotado por meia dúzia de degenerados mas que conhecem muito bem, e sabem usar, todo o poder “impressionista” de seu ronco de trovão.

Que, aliás, é seu único poder.



Walter Biancardine



sábado, 8 de junho de 2024

A FOME INSACIÁVEL DE DINHEIRO -


O advento do Rock in Rio marca, ao menos no Brasil, o fim das apresentações tradicionais de cantores ou bandas, em casas de show consideradas “normais” para a época. Este “normal” significava uma lotação entre 200 a 700 pessoas, sendo capacidades como a última citada um mote de venda e oferecidas como “mega-shows”.

Aliado ao acima citado, a legislação de então permitia que candidatos a cargos eletivos, bem como prefeituras e governos estaduais, contratassem artistas pagos pelos dinheiros públicos – uma prévia da Lei Rouanet e, igualmente, verdadeiro sorvedouro monetário.

E isso foi o suficiente para que – cobiça desperta – o desejo de levar sua arte ao povo e o reconhecimento pelo mesmo fossem prontamente substituídos por obscenas visões de cordilheiras de dinheiros, proporcionadas por tais espetáculos que comportavam, por vezes, centenas de milhares de pessoas. As tradicionais “temporadas” de três, quatro meses – ou mesmo mais, em caso de grande sucesso – em casas de shows desapareceram, bem como as mesmas (citaria, no RJ, Canecão e Scala), desprezadas que hoje são por tais artistas, cujo foco não é mais o público: são multidões.

Tempos idos, sucesso era uma longa temporada de seis, sete meses com casa lotada – 600 pessoas por noite, e artistas trabalhando dura e diariamente, tal como o comum dos mortais. A recompensa era o reconhecimento público, muitas vezes com fãs que iam uma dúzia de vezes assistir o mesmo show, bem como generosa e merecida cobertura nos cadernos culturais de jornais e revistas. E o dinheiro, obviamente, além de merecido era bastante compensador.

Atualmente, a meca artística são eventos públicos – micaretas, révéillons, datas politicamente significativas, etc. Caso não estejam disponíveis ou haja algum impedimento legal, a mesma estrutura de lobby político que assessora tais artistas (sim, empresários foram trocados por lobistas) trata de conchavar com a grande mídia uma única e colossal apresentação, sempre em locais que impressionem o comum dos mortais, tais como estádios de futebol, praias de grande extensão ou mesmo logradouros públicos, desde que comportem multidões dignas de saírem no Jornal Nacional. E está feita a mágica: trabalha-se uma única noite e ganha-se milhões, não apenas do público mas, também e principalmente, de direitos de imagem, transmissão ou de patrocinadores, que lá estacionam seus pontos de venda, dos mais variados artigos – mais “variados” mesmo, acredite.

E o quê esse público vê, ou ouve? Nada. A experiência em um “mega-show” resume-se a enxergar o artista (distante uns 300 metros) pelo telão e ouvir um som péssimo, defasado e sem sincronia com o que acontece no palco – qualidade precária, aliada ao desconforto de hordas ensandecidas massacrando-nos com seus pulos e urros tribais, causando até ferimentos. Vale a pena?

Porém, a tal nível de deslocamento da realidade chegamos que, ao vermos um artista tocar e cantar em tímidos bares ou quiosques, sem tal aparato megalomaníaco e midiático, e concentrando-se em dar o que tem de melhor a seu público – cem, duzentas pessoas, uma “miséria” para os padrões atuais – o primeiro e automático sentimento que nos desperta é quase de piedade com tal “pobre alma”.

Mas não, esta é a verdadeira arte; é ir – como um dia disse Milton Nascimento – aonde o povo está.

O resto, que a Globo anuncia e transmite, é investimento.

Ou, pior, ação política.


Walter Biancardine