sábado, 30 de setembro de 2023
HERANÇAS -
domingo, 10 de setembro de 2023
COM QUEM VOCÊ SE CONFRONTA?
Somente a solidão pode nos proporcionar o confronto único e exclusivo com o que somos, a oportunidade de encontrarmos nossa essência. Se, por mais sozinhos que estejamos, conseguimos alguns poucos amigos - um pequeno círculo - nossa busca terminará por ser a adequação á esse grupo, ao consenso dominante.
Escrevi já algumas vezes que uso minha solidão como um silício, a penitência de alma que proporciona o postar-me diante do Único, o Onisciente do qual nenhuns pecados meus - e minha essência - poderei esconder. Quando adotamos tal parâmetro para a unidade de nosso próprio conhecimento (e, consequentemente, de nós mesmos), o universo de nossos pensamentos, valores e objetivos transcende o cotidiano que a busca do pão de cada dia nos limita e impinge. Ao fim e ao cabo, o perdão de Deus é a maior graça que podemos e devemos buscar.
Mas existem efeitos colaterais adversos, dentre eles - e muitos devem estar fartos de ver-me exibi-los - a depressão, auto crítica exacerbada e a adoção de um determinismo que beira o eclesiástico (do Eclesiastes) - fatalista, quase pessimista e cruel em conclusões.
Isto, entretanto, é um processo; sigo á meio caminho e somente Deus sabe se o concluirei.
As contingências de minha vida pessoal agravam tal quadro mas, paradoxalmente, são tais vicissitudes que me proporcionaram esta oportunidade - muito difícil recomendá-la a outros.
sábado, 9 de setembro de 2023
PEQUENAS ALEGRIAS
De volta aos escritos, após longo e negro túnel, motivado por tocante coincidência de pequenos detalhes. Para alguns, pouco ou nada podem significar mas, para mim, carregam em si o resumo de uma felicidade que há muito joguei fora.
terça-feira, 5 de setembro de 2023
A CORAGEM DE SER COVARDE
É um crepúsculo que não me abandona, trazendo sempre noites de culpa e remorso.
Busco permanecer em pé convencendo-me que, se não há mais razões para perambular pelos vazios que me cercam, devo eu, entretanto, o pagamento por tantos males que causei. Sim, preciso me redimir, penso, emprestando um nome mais bonito às tais pendências e tentando crer que, antes de ir, manda a vergonha que eu as pague.
Olho o passado e dou conta de ter vivido tal como um drogado, alguém cujo egoísmo o entorpeceu durante décadas e que, só agora, beirando a sobriedade da velhice e internado em solidão, percebe o desprezível que foi e o farrapo moral que tornou-se.
Sim, são muitas dívidas, há muito o que pagar – ou do que me redimir, como digo em franca auto piedade.
Mas sei somar 2 + 2, compreendi minhas limitações, fraquezas e incapacidades. E, em um raciocínio puramente contábil, concluo que a quitação de tais débitos é impossível – é hora de declarar falência e retirar-me do ramo.
Não tenho, entretanto, coragem – o paradoxo de faltar bravura para ser covarde.
Permanecerei tal qual pano de chão, esquecido em algum canto, até que um desespero impulsivo seja mais forte que a resiliência que traveste o medo.
Sigo cumprindo minha longa sentença de entardeceres.
Não preciso de um 6 de setembro para lembrar de comprar o pão.
trouxeram a aridez
em minha vida;
Não foram escolhidas,
ao gosto do freguês,
Nem o tempo, a miséria,
muito menos a solidão sofrida.
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
SOBRE GAYS E TRANS -
Andei ouvindo comentários a respeito do vídeo que postei em minha página no Facebook, de um rapaz norte americano que faz uma paródia de conhecida música onde, em sua versão, esfrega na cara dos deslumbrados a cruel verdade sobre a mudança de sexo, resultante da lavagem cerebral - verdadeira hipnose - promovida pela cultura de massas e grande mídia.
O meu ponto de vista é de uma obviedade incontestável: conheço gays, conheço trans mas, por acaso, não conheço ninguém que tenha se submetido a tal operação. Em minha ótica, gays são gays e ninguém tem nada a ver com o que fazem na cama - desde que não tragam esta mesma cama para a rotina do dia a dia: trabalho, estudos, vida social. Ninguém aceita um hétero que, por sua condição, saia por aí arrepanhando as partes para cada mulher que passe ou que embole-se em agarramentos quase explícitos com sua parceira, em público. É questão básica de educação e respeito e convido-os a pensar em que momento uma simples preferência sexual tornou-se um "estilo de vida".
É gosto ou auto afirmação?
Quanto aos trans, meu critério é singelo: se cruzo com ele na rua e nada vejo além de uma mulher que passou por mim, eu usarei indubitavelmente o pronome feminino e como tal o tratarei. E o inverso também é válido, pois nada no mundo me obrigará a chamar Pablo Vittar de "ela". Vou acreditar no que Pablito diz ou no que meus olhos veem? Vou me violentar, mentir para mim mesmo apenas para satisfazer as idiossincrasias do rapaz?
Eu era um adolescente quando Rogéria reinava e a famosa Roberta Close surgiu e sempre as chamei de "ela" - este é meu parâmetro.
Quanto a última categoria - a dos operados, que parece incluir o moço do vídeo - inevitavelmente sinto dó por serem verdadeiramente enfeitiçados por uma cultura de massas doentia, que impingiu-lhes dolorosa, cruel e irreversível mutilação, as quais sempre terminam por acarretar sérios transtornos psicológicos e - em número grande demais para nos omitirmos - chegam mesmo ao suicídio.
Uma grande mídia, uma cultura de massas que exibe tamanha força ao ponto de convencer alguém a mutilar-se, a extrair glândulas produtoras de hormônios imprescindíveis ao seu equilíbrio biológico, e tudo isso em nome de uma fantasia psicótica transmitida por filmes, vídeos, músicas, teatro e as pequenas mensagens subliminares, contidas em todos os meios de comunicação, esta grande mídia e cultura de massas deve merecer apenas nosso repúdio.
Trata-se de um veneno, de um sinistro agente de desestabilização que trazemos para o conforto de nossos lares em forma de aparelhos de TV, rádios, revistas e jornais impressos, computadores e seus youtubers.
Um ser humano é livre para agir como quiser, vestir-se como quiser, amar quem quiser.
Mas não para mutilar-se, vitimado por verdadeiro feitiço que poderá levá-lo ao suicídio e dor dos entes queridos.
segunda-feira, 28 de agosto de 2023
SEM QUERER
Acordei hoje pela manhã e me dei conta que não queria escrever.
Lá fora um clima londrino – garoa, vento e um frio anormal – justificavam que eu igualmente não quisesse caminhar pelos pastos, como faço rotineiramente em minhas desesperadas tentativas diárias de manter a lucidez, através de uma auto análise medíocre e a sempre presente, feroz e porca auto crítica – a qual ainda preciso decidir se não é um complexo de inferioridade, caridosamente travestido.
A verdade é que hoje acordei sem querer – em todos os sentidos possíveis.
Não queria acordar, não queria trabalhar, não queria ter de buscar comida, não queria nada.
Sem querer, forcei-me a caminhar pelo pasto e concluí que, sequer, queria existir. Não uma tendência suicida mas apenas a percepção que seria melhor nem haver nascido – um aborto que não teria trazido falsas perspectivas de felicidade á ninguém, que igualmente não teria decepcionado, frustrado, magoado, irritado, indignado ou atrasado a vida e a felicidade de ninguém – a inocência indiscutível da não existência. Sim, pois da vida só legarei meus erros, e só por eles se lembrarão de mim.
Morbidamente, imaginei o quê aconteceria se eu morresse repentinamente e a conclusão não foi memorável: nada. Certamente algum povo local daria por minha falta, mas pelo respeito e cerimônia com que me tratam e desejosos de não parecerem incômodos, inevitavelmente uma ou duas semanas passariam até que – a natureza é sábia – o cheiro de podre de minha carcaça noticiasse a todos o meu paradeiro. E então? Ora, se um estorvo fui em minha existência, na morte não seria diferente pois algum parente teria o sórdido trabalho de remover meus restos e enterrá-los alhures – inclusive financiando tais despesas, que nunca são baratas.
Minhas tralhas – pequenas lembranças, obsessivamente colecionadas e guardadas, de um passado em que ousei ser feliz – por sua insignificância em número e valores, acabariam no lixo com exceção deste computador, que ainda bem pode ser usado mais alguns anos. E só, the end, fim.
Mas persisto em minhas auto análises, na sôfrega busca de não ceder á tentação da loucura, e finquei meus pés na lama gelada, no chão, na realidade. Sim, tudo isso é devaneio, a maldita solidão que convida fantasmas para nos assombrarem.
Mas o único “querer” que me veio á cabeça depois disso foi:
- Quero ir pra casa.
E eu a joguei fora.
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
VOLTAR PARA CASA
- Bom...é isso. Vamos voltar pra casa!
Minha mãe seguiu ao lado dele e me chamou. Fui caminhando atrás e olhando em volta, já cansado e entediado por termos ficado ali tempo demais.
De fato, é um lugar muito bonito. Árvores, pastos imensos, pitorescos caminhos de chão batido e algumas cercas de arame farpado. Sim, lindo, mas solitário demais. Andamos horas sem ver nada além do capim colonião e troncos de árvores secas. Sem ver ninguém que não fosse o gado e cavalos, pastando sempre ao longe. Sem ouvirmos nada que não fosse os mugidos e relinchos, abafados pela distância, e o uivo do vento em nossos ouvidos.
Lindo sim, mas de uma solidão sepulcral. Gastamos tempo demais ali e o que era bonito virou angústia.
- Vamos voltar pra casa!
E aquela frase, dita por meu pai, nunca mais saiu de minha cabeça.
Ele abriu a porta do carro, puxou o encosto do banco para que eu fosse para o assento traseiro. Lá acomodado, o cheiro do produto de lustrar o couro do estofamento igualmente ficaria em minha memória, mesmo provocando enjoos terríveis em minha mãe. Meu pai deu a partida, um barulho que mais parecia de imenso navio, e seguimos estrada à fora comigo já antecipando a alegria de voltar para o que era meu – minha casa, meu quarto, meus brinquedos – e ver novamente todos os que, em minha implicância infantil, achava chatos: meus irmãos, minhas irmãs e até mesmo, eventualmente, tios, tias, primos e primas que por lá apareciam. Sim, tudo estaria de volta! O que era meu e sempre fora; minhas referências, minhas raízes, toda a história de minha – até então – curta vida!
Nada importava, eu estava indo de volta á minha casa, meu lar!
Miúdo demais para, sentado no banco, poder apreciar a paisagem pela janela do carro, adormeci e só dei conta de mim novamente quando meu celular tocou o despertador diário, às 8:30 da manhã.
Abri os olhos e vi que estou aqui. Nada de quarto, nada de irmãos ou irmãs, nada de pai ou mãe, nada de nada – não há um lar.
Saí de casa, olhei os campos – o mesmo pasto enorme e solitário de meu sonho – e, por morbidez ou masoquismo a frase do meu pai voltou-me à memória:
- Vamos voltar pra casa!
Nada aconteceu, apenas o silêncio. Respondi a mim mesmo, tal qual criança ainda fosse:
- Mas eu quero ir embora!
Mas não há casa para voltar.
terça-feira, 22 de agosto de 2023
HOSPÍCIO GLOBAL
Jogando gasolina na fogueira de tal histerismo, ainda temos ratos militantes dedicados a propagar boatarias cataclísmicas sobre mudanças climáticas (aquecimento não colou), aumento do nível dos oceanos, vulcões maiores que os EUA e as indefectíveis e rentáveis pragas epidêmicas - Bill Gates, George Soros, Fauci e sua turma já estão prontos e ansiosos para lançarem a nova pandemia da temporada e sua lucrativa e mortal vacina.
Se há nisso tudo um fato inegável é que o genocídio covídico (ou melhor, de sua "cura") destruiu a psique média do ser humano sobre o planeta e hoje a humanidade é presa fácil do sensacionalismo terrorista e cúmplice da grande mídia e cultura de massa.
Pode-se tratar a patologia mental de um indivíduo. Pode-se mesmo, no caso de clínicas, tratar grupos deles e com relativo sucesso.
Como, porém, tratar tal sequela sintomatizada a um nível de bilhões de pacientes, piorados em sua doença pela mais poderosa e alienante droga - a grande mídia - já inventada?
Que os ainda lúcidos se unam, se não pela salvação do juízo humano, que seja por sua própria integridade física e mental.
segunda-feira, 21 de agosto de 2023
MUGINDO PARA NINGUÉM - OU "O DETERMINISMO BOVINO BEHAVIORISTA"
| O PT é como Átila, o Huno: por onde passa, nem a grama nasce. Por isso hoje as vacas comem árvores. |
A vida é um constante aprendizado e eu, nestes dias de John Wayne compulsório, percebi que o gado segue - tal qual nós, humanos - uma rotina própria, instintiva, em busca de segurança e conforto.
No momento em que escrevo estas linhas, não se completou meia hora em que eu estava ainda no pasto vazio, à esmo, falando sozinho como de hábito, a resmungar sobre meus erros e minha remissão improvável, diante de um melancólico sol poente e meu baio, entediado e farto de minhas lamúrias.
O gado já havia sido recolhido e muito me estranhou ver uma solitária vaquinha pastando longe, muito longe mesmo, destacada e esquecida pela boiada amiga. Pastava ao lado de uma cacimba no vale, farejava os ares e mugia, como em um chamado aos que já haviam se recolhido.
Naturalmente galopei até ela e a toquei em direção ao curral, mas "tocar" é força de expressão: apenas apontei seu focinho na direção certa e a vaca, diante da visão familiar, seguiu o resto do caminho sozinha e feliz.
Estava eu já abrindo a porteira para a “colega” entrar quando um mugido aflito, vindo de longe, me chamou atenção: ora essa, então ainda havia uma outra vaca solitária, esquecida, e que se apressava para chegar ao curral antes que eu o fechasse?
Recolhidas e em segurança, tratei de dar uma última ronda no pasto em busca de mais alguma “esquecida” que eventualmente pastasse ainda por lá. Enquanto meu pobre baio seguia em marcha andadeira, pensava eu no paralelo existente entre a situação da “Mococa” – assim batizei a vaquinha – e a minha própria.
Não me fixei no fato de a Mococa ter ficado para trás por interesse próprio – pastar em algum local preferido – ou simplesmente não ter se dado conta do horário pontual em que o instinto bovino as recolhe, inexoravelmente, ao curral. O fato é que ela estava sozinha e não gostara disso.
Sim, também eu estou sozinho e não gosto disso – agravado pelo fato incontornável de tal solidão ser resultante de minhas próprias ações, omissões e escolhas.
Neste momento o conceito do determinismo behaviorista não me pareceu tão mal como sempre o julgara: tivesse eu um mínimo de prudência e humildade e não teria, talvez, perdido a mulher que amo, o lar hoje inexistente, a família longínqua, minhas raízes, referências e origens. Teria sido mais paciente, compassivo e jamais emprestaria a tal comportamento a pecha de “bovino”, que ironicamente sempre dei.
Não aceitei que, em determinados momentos, a vida é o que é. Orgulhoso e arrogante, armei-me de meu poderoso livre arbítrio e proclamei-me senhor de meu destino – o mesmo, hoje, vergonhosamente conhecido pelos que me seguem nestas mal-traçadas.
São cinco e meia da tarde, a hora em que minha mãe fazia pontualmente o café – na pesada e mortífera cafeteira Bender – e me mandava na padaria, chamada “Casa Dois Marujos”, comprar três bisnagas, dois cigarros Chanceller e dois sacos de leite. Anos depois, neste mesmo horário, estava eu de volta da padaria do condomínio onde morava, sobraçando um saco de pãezinhos, cigarros e duas paçoquinhas para minha amada mulher, que me esperava em casa.
Me dei conta disso tudo e apontei Baião – meu cavalo – de volta para casa, numa busca instintiva do que não mais tenho.
Sim, eu tenho casa. Mas não tenho lar.
Conheço gente, mas não tenho família. Faço meu lanche, mas sem companhia. Conto como foi meu dia às paredes, sempre indiferentes. E não tenho a cumplicidade amiga de referências, raízes, história, quinze anos de casamento e, sequer, meu filho reclamando de qualquer coisa.
Percebi que não há o mal completo nem o bem absoluto – e, pior para meu orgulho – mesmo todo meu portentoso livre arbítrio não passa de opções já determinadas por Deus Pai, Todo Poderoso.
Certamente terei de rever o que andei garatujando sobre o tema, assunto do novo livro que ora escrevo. Ao fim e ao cabo, nada é relativo, pois tudo provém do Pai.
Humildade é prudência.
domingo, 2 de julho de 2023
POR QUEM OS SINOS DOBRAM
Na famosa novela de Ernest Hemingway um homem chamado Roberto, dinamitador inglês, chega ao esconderijo de guerrilheiros a favor da república espanhola e conhece Maria, uma bela mulher que havia sido salva pelo grupo.
Não houve romance, a não ser em suas almas e na linguagem muda dos sentimentos. Eram tempos de uma sangrenta guerra civil, cotidiano de medo, caos e Guernica. A atração foi imediata, a morte os espreitava e, sem maiores conversas ou galanteios, se uniram em amor pois o amanhã era improvável.
O tema enfoca o quanto o sangue alheio nos importa, e a pressa do amor diante da morte - morte essa, por vezes, de quem sequer conhecemos: "Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; assim, a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti", disse John Donne.
A velhice leva o homem á guerra civil de sua existência; a luta cotidiana contra o fim de seus dias, a ceifadeira sempre à espreita – hoje, amanhã, depois. Quem sabe? E sob o impiedoso ataque dos dias, meses ou anos, os que ousaram resistir ao tempo aprenderam que já não mais restam tantos entardeceres para o romance e, tal qual Roberto e Maria, devem expressar seu amor urgente através de olhares, gestos e mesmo tons de voz.
Para mulheres mais jovens, impossível crer que tal secura tenha nascido sob manto tão pesado; para as mais velhas, o medo – de tudo, todos e da pouca vida que resta – as impede, em forma de recato.
Assim, os velhos percebem-se isolados e dão falta de pedaços do coração que oceanos tempestuosos da vida levaram. Muitos percebem, buscam juventude no fundo de um copo ou conversas desaforadas e mentirosas com amigos.
Mas pouquíssimos – homens ou mulheres – consideram que nenhum sentimento é uma ilha. Todo amor é parte de um coração, de uma história, e se tal fervor for levado pelos dias negros da vida, o homem diminui-se: menor e apartado como náufrago em ilha deserta, cercado apenas de lembranças por todos os lados. Assim, o fim de cada amor mais o tempo impiedoso, que insiste em passar, esses, tanto nos diminuem por também termos sentimentos, coração e história.
Por isso não perguntes por quem os velhos choram. Eles choram por ti.
Walter Biancardine
sexta-feira, 30 de junho de 2023
THE GREAT PRETENDER
Oh yes, I’m the great pretender!
Tal como na musica lançada pelo grupo The Platters e imortalizada na voz de Freddie Mercury, sou um grande mentiroso.
Tenho vivido os últimos e dolorosos anos tentando acordar as pessoas que me seguem no YouTube, aqueles que leem meus artigos ou mesmo meus livros, transmitindo a necessidade de reagirmos e não esperarmos por novos heróis – terceirizando nossas responsabilidades de verdadeiros protagonistas na defesa de nossos valores, princípios e ideais.
O povo é fonte e origem de todas as leis e única justificativa para a existência das instituições e todo o pesado aparato estatal, que absurdamente agora nos oprime. Assim, não apenas podemos como devemos agir, ir às ruas, protestar, fazer valer nossa voz de patrões tão relegada a posições indigentes na conjuntura política que vivemos.
Para isso tento passar a imagem de uma pessoa confiante, indignada, segura de que só nós – e apenas nós – temos a chance de provocar um constrangimento internacional que ponha contra a parede a ditadura que está em vias de fechar o cerco sobre todos os brasileiros.
Grito, demonstro a lógica em meus argumentos, xingo, mostro o feio futuro de escravidão sobre o povo e a triste herança da vergonha absolutista que deixaremos para nossos filhos e netos. Tento permanecer impávido ante comentários, nas lives, de que “de nada adianta”, “seremos espancados e reprimidos”, “não tem mais jeito”. Condeno tal frouxidão covarde, sem me importar se perderei seguidores, pois meu objetivo não é a fama e sim um Brasil melhor.
Tamanha é a covardia que impera que sequer postar suas indignações em redes sociais as pessoas se atrevem, limitam-se à queixumes infantis, birras de crianças, ou esbanjam sua ira apenas no grupo do Telegram, uns com os outros – mas totalmente inertes em todos os outros sentidos. Mas permaneço confiante, indignado, demonstro minha raiva e tento impelir todos à ação. E o quê consigo? Nada, apenas mais queixas de nenéns que choram pelo brinquedo quebrado.
Neste meio tempo perdi um casamento de 15 anos, perdi minha casa – fui obrigado a viver de favor em uma casa na roça, emprestada de um amigo. Perdi emprego, meu canal no YouTube foi, definitivamente, desmonetizado; escrevi livros e os mesmos não vendem por falta de interesse daqueles aos quais anuncio, tive contas extintas em todas – todas – as redes sociais, estou desempregado, não vejo meu filho e vivo de Auxílio Brasil, agora chamado novamente de Bolsa Família.
Sim, eu também tenho meus problemas assim como certamente os terão todos os que me assistem ou leem. Mas, ao menos, eu ainda luto. Ao menos tento indignar e provocar quem me assiste. Gasto minhas madrugadas escrevendo coisas como esta na esperança de extrair ao menos algumas gotas de testosterona na quase defunta virilidade do povo brasileiro – agora passivo ao paroxismo, estimulado pelo medo conveniente.
Meu mundo, minhas raízes, minhas referências de vida, minha dignidade, minha história – tudo isso desabou, tudo isso implodiu – mas amanhã estarei de volta, ostentando a mesma indignação, a mesma disposição de dar a vida pelo único país que tenho, custe o que custar.
Sim, sou um grande mentiroso.
Yes, I’m a great pretender.
quarta-feira, 14 de junho de 2023
MR. SANDMAN, EU SONHO OU FUJO?
Uma antiga canção, de um grupo musical feminino norte-americano chamado The Chordettes apelava, nos idos de 1954, a uma criatura folclórica – Mr. Sandman – que trouxesse um sonho para elas.
É preciso discernimento nessa altura da vida, esbarrando perigosamente nos 60 anos, para distinguir se ainda mantemos vivos alguns sonhos ou se os mesmos, que nos acompanharam por toda uma existência, não seriam fuga em traje esporte fino.
Não há motivos para corar quando me dou conta de meus dias serem tomados pelos mesmos ideais da juventude – cevados pelo tanto de enriquecimento intelectual que a vida, generosamente, me proporcionou – e persistir na luta cotidiana por um Brasil decente, um povo de olhos afiados e ouvidos perspicazes, imunes à cantilena canhota, e que imponham o devido respeito aos inúmeros empregados que contratamos: burocratas, técnicos, políticos, magistrados e militares.
Mr. Sandman, traga-me o sonho de um povo consciente de que ele é a fonte, a origem e única justificativa para a existência das leis e instituições, que tão caras nos custam e tantos males nos impõem, pela soberba de acharem-se verdadeira casta.
Mas sou humano, Mr. Sandman, e reconheço que aspirar a uma vida digna – em boa casa, família reunida, filho ao lado e a tão almejada Audrey Hepburn como esposa – despencou, nesta altura de tantos anos vividos, da categoria de sonho para a simples e covarde fuga, praticada todas as noites, agarrado a meu travesseiro e em desesperada tentativa de pegar no sono – outra fuga mas que, ao menos, me refaz para mais um dia. E deste último parágrafo, egoísta e troféu de uma vida derrotada, me envergonho.
Meus dias caminham apressadamente para o fim mas se, ao chegar o último deles, eu houver conseguido a primeira parte de minhas pretensões, fecharei os olhos tranquilo na certeza que meu filho não herdará nossa desfaçatez, hipocrisia vermelha e passividade cotidianas.
Isto sim, será verdadeiro troféu.
Would be so peachy before we're too old
So please turn on your magic beam
Mr. Sandman, bring us, please, please, please
Mr. Sandman, bring us a dream
segunda-feira, 29 de maio de 2023
BEAU GESTE
Chega o carnaval e o brasileiro, sem nenhum pudor ou vergonha, recruta três, quatro, cinco amigos – no máximo – para saírem às ruas travestidos de mulher com batons borrando metade da cara, vestidos rotos da irmã mais nova e a peruca da avó em verdadeiro bloco de sujo, alegre e confiante que mais gente se unirá a eles pelo caminho, afinal é o reinado de Momo!
Infelizmente toda essa audácia some quando o assunto é defender o país onde vive: este mesmo descarado folião cobre-se de pudores insuspeitos, vergonhas inauditas e uma timidez virginal que o impede de juntar os mesmos três, quatro ou cinco gatos pingados para irem às ruas protestar contra um governo ditatorial e instituições putrefatas.
- O que pensarão de mim? - alega o agora acanhado menininho, que nenhuma preocupação teve sobre isso ao sair pelas ruas, tal e qual orangotango fêmea, entoando hinos e marchinhas batucadas em uma lata de Nescau.
Está na hora de nos tornarmos adultos, está na hora de nos atrevermos a um “beau geste”, um belo gesto em favor da pátria e de nossos próprios traseiros, bem como os de nossa família. Tal como no filme homônimo “Beau Geste”, de 1939, é o momento de nos oferecermos à luta mesmo sem esperanças de medalhas e glórias – tal qual aqueles que se alistavam na temerária Legião Estrangeira e que antecederam as palavras de Sir Winston Churchil, ao conduzir uma desgraçada Inglaterra contra a fúria alemã: “Nada ofereço além de sangue, suor e lágrimas”.
Não esperemos líderes e, muito menos, que congressistas nos conduzam pois a política atual é a covardia travestida de ponderação. Igualmente não esperem que um simplório youtuber – por mais culto, preparado e bem intencionado que seja – tenha o mesmo tônus moral de um Olavo de Carvalho para fazer estalar o chicote da vergonha em nossas costas.
Igualmente esqueçam Bolsonaro, e não se trata de renegá-lo pois ele é um alvo vivo e, por enquanto, ainda desfruta do benefício da dúvida quando o vemos “negociar um armistício com o STF”, mesmo sabendo que seu destino é, no mínimo, a inelegibilidade por oito longos anos.
É hora de irmos às ruas – que seja em blocos de sujo – e protestarmos. Faixas e cartazes em inglês, visando criar o constrangimento internacional e, com sorte e milhares de brasileiros nas ruas, dar a um Congresso inerte e apavorado a gasolina que precisa para tomar alguma atitude “baseado nas exigências do povo”. Só assim conseguiremos quebrar a maldita inércia e hipnose do medo que se abate sobre nós, desde o pérfido 8 de janeiro.
O Brasil caminha a passos largos para sermos a “Pátria Grande”, a “Ursal” tal como planejada pelo Foro de São Paulo – e a chave do cofre mais gordo está nas mãos de um de seus idealizadores. Mas não duvidem: não só tal coisa acontecerá – se nada fizermos – como também, em sequência, medonha guerra civil se abaterá sobre nós, pois legumes globalistas – chuchus, por exemplo – não aceitarão serem escanteados.
É hora de crescer, é hora de agir, é hora de um “beau geste”.
Bonne chance.
domingo, 9 de abril de 2023
CRUX VACUA EST… SURREXIT!
Em nossa egolatria cotidiana, por vezes aspiramos a sabedoria e exibimos pretensões de adesivar toda a transcendência da Paixão de Cristo e da Páscoa às nossas misérias particulares, traçando similaridades entre o sofrimento do Verbo Encarnado e o nosso próprio.
Tal ato, embora vil e pretensioso, é compreensível e justificável pois não fosse esta possibilidade e a Palavra de Deus mofaria em alturas inacessíveis, a ninguém alcançando; é a forma primária de empatia, de sentir algo “semelhante” e identificar-se com o relato.
Não escapei de tal tentação e defini o atual momento de minha vida como uma longa sexta feira de trevas, vendo-me despojado de tudo, escarnecido e cumprindo uma espécie de condenação, ao viver no mais baixo degrau da condição humana. Minha soberba vai além e move tal identificação para o fato de, semelhante ao Cristo, ver-me nu mas conservando a integridade interior – no meu caso, a do intelecto – e direciona toda essa conjuntura, quase herética, à fé que me trará a Páscoa, a ressurreição, o reerguimento pessoal quando obtiver novamente uma vida normal.
A Páscoa é a passagem, o Pessach judeu, e consolo-me entendendo as privações atuais como apenas uma parte do caminho a percorrer, meus quarenta anos no deserto.
Condenem-me o quanto quiserem, pois é merecido. Apenas creio que não sou diferente de ninguém e, igual, busco desesperadamente lenitivos para as feridas abertas que tanto incomodam: no que erro, outros já erraram; em minha soberba, outros igualmente o foram; em meu egoísmo, outros também com nada mais preocuparam-se, além de si mesmos.
Hoje é domingo de Páscoa e a cruz foi vencida, junto com a morte. Jesus ressuscitou e nos salvou mas, ao descer os olhos sobre mim mesmo, nenhuma semelhança permanece. Eu, tal como milhões de outros humanos miseráveis, ainda não venci meu opróbrio. Permaneço em duradoura sexta feira de trevas e esta compreensão é o castigo por minha soberba.
Em minha cegueira, desconsidero o sacrifício de Jesus para salvar minha alma e preocupo-me, inconformado, com a salvação de meu bolso.
E esse texto, repleto de palavras como "eu", "meu", "mim" ou "minha" como tantos outros, é o atestado público de minha pequenez.
Walter Biancardine
Quer ler bons livros?
O que aconteceria se um jornalista viajasse aos anos 60 e cobrisse
o governo militar e a esquerda com os olhos de hoje?
As histórias dos livros seriam diferentes se vistas por nossos próprios olhos?
E os amores do passado? Eles duram para sempre?
O que escolher: o amor de sua vida ou a redenção?
Pegue o seu no Clube de Autores
https://clubedeautores.com.br/livro/preterito-perfeito-4
Ou na Estante Virtual!
https://www.estantevirtual.com.br/clube-de-autores/walter-biancardine-preterito-perfeito-3773722833?show_suggestion=0
EM E-BOOK:
https://a.co/d/i5bHzkA
UM E-BOOK DELICIOSO: GISLAINE DOS 3 VERÕES
Esta é uma coletânea de contos, escritos entre 2007 e 2010, que reproduzem as histórias e causos que, invariavelmente, escutamos ao ambientarmo-nos em alguma cidade pequena e fazermos amigos.
Tais causos – a versão roceira das lendas urbanas – foram por mim escutados desde muito jovem, na então pequena e desconhecida cidade de Cabo Frio, Região dos Lagos, Rio de Janeiro.
Não ouso dizer que nenhuma delas seja verdadeira, contudo tantas e tão repetidas vezes as ouvi que resolvi publicá-las em livro, para que ganhem a notoriedade – ou infâmia – merecida.
Divirtam-se com elas.
Mas se me perguntarem se é tudo verdade, jurarei que só ouvi dizer.
#Amazon
terça-feira, 4 de abril de 2023
QUERO UMA AUDREY HEPBURN PARA MIM. ONDE ENCONTRO?
Vejo-me hoje em idêntica situação a de um amigo, recém defenestrado por mulher que amava, ao queixar-se de suas desventuras amorosas em meus ouvidos prestimosos:
- Fiz tudo por ela, abri mão de minha vida, de meus amigos, de minha liberdade e tudo isso foi em vão! As mulheres sempre querem tudo! Querem você como um joguete em suas mãos, um fantoche bonitinho que possam exibir às amigas e se valer dele para cortar grama, carregar sacolas no supermercado, botar o lixo pra fora,,,chega! Não quero mais saber de mulher! Estou cansado disso tudo, nada que fazemos é reconhecido!
Solidário, resmunguei concordando:
- É verdade, tem certas horas que enche mesmo, parece que nada vale à pena…
- E não vale! Nunca vale! Estou cansado disso, chega!
- E o que vai fazer agora?
- Sei lá...queria, na verdade, largar tudo...largar emprego, sair da cidade...queria estar numa ilha deserta…
E completou, esperançoso:
- Numa ilha deserta...só eu e uma mulher bem gostosa ao meu lado…
Entretanto, movido pela necessidade de virar uma página traumática e irresolvível de minha vida, apelo para os postulados da física – dois corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo, no espaço – e decidi apostar esperanças em alguma criatura com a qual eu possa desalojar incômoda lembrança de fugaz paixão, nutrida desde meus 8 anos de idade – sim, coisa passageira.
A fé nos impele a crer no impossível, e é neste átimo de probabilidade que aposto: darei um jeito em minha vida, terei como pagar um aluguel e, quem sabe, até comprar um Gol bolinha 1996 para passear com a nova escolhida.
E quanto à nova eleita, nada mais de olhos verdes. Olhos de gazela, tais como os da inatingível miss Hepburn.
E que venham acompanhados de toda sua classe, feminilidade, etiqueta, doçura, fragilidade e que nenhuma vergonha tenha tal moça em depositar em mim toda a pesada responsabilidade de cuidá-la, protegê-la, alimentá-la, guardá-la – que jamais esconda sua completa dependência de mim pois o homem é, e sempre será, dependente da dependência da mulher.
Para que um homem não termine por esquecer que é homem, a mulher deve dizer, diariamente e sussurrante, que precisa dele, que confia nele e nele abriga todo o seu mundo, o sagrado e secreto universo feminino que as "emancipadas" de hoje soterraram, ao tornaram-se “resolvidas”.
Sim, nada mais de mulheres fortes, bem sucedidas e donas de seu próprio – e emproado – nariz.
Que venham as frágeis, as que tem medos tímidos, as que poderíamos dobrar e guardar no bolso, em um gesto de amor.
Mas a lucidez é maior que qualquer fé, e um velho que ambicione tal ninfa acabará preso, em jaula imunda, acompanhado por 46 negões solícitos.
A lucidez é maior que a fé e se não resolvi minha vida até agora, não será nos poucos dias que me restam sobre a terra que o farei.
A lucidez é invencível e se assassinei todos os relacionamentos anteriores é porque sou incompatível com a vida à dois – e já cumpro a pena de solidão perpétua, devidamente julgado e condenado, sem direito à progressão de regime.
A lucidez prevalece, mas posso sonhar: quero uma Audrey Hepburn para mim.
Alguém sabe onde encontro?
Walter Biancardine
Quer ler bons livros?
Pretérito Perfeito:
Heróis e histórias antigas perdem o brilho quando vistos por nossos próprios olhos?
Amores do passado duram para sempre?
O que escolher: o amor de sua vida ou sua redenção?
https://clubedeautores.com.br/livro/preterito-perfeito-4
EM E-BOOK:
https://a.co/d/i5bHzkA
UM E-BOOK DELICIOSO: GISLAINE DOS 3 VERÕES
Tais causos – a versão roceira das lendas urbanas – foram por mim escutados desde muito jovem, na então pequena e desconhecida cidade de Cabo Frio, Região dos Lagos, Rio de Janeiro.
Não ouso dizer que nenhuma delas seja verdadeira, contudo tantas e tão repetidas vezes as ouvi que resolvi publicá-las em livro, para que ganhem a notoriedade – ou infâmia – merecida.
Divirtam-se com elas.
Mas se me perguntarem se é tudo verdade, jurarei que só ouvi dizer.
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sexta-feira, 31 de março de 2023
SEXTA, SÓ. SÓ SEXTA.
E chega a noite de sexta feira, as horas vão passando e a noite avança.
A primeira estrela, minha companheira desde a juventude, apareceu e fiz o pedido diário. Não mais alguém que me livre da solidão, como pedia desde meus 15 anos, mas meu sustento.
Sim, pois voltando à dignidade, poderei morar onde mora gente e encontrar, por mim mesmo, alguém que me queira.
Mas o relógio nunca pára e a noite seguiu.
Há muito qualquer chance de avistar alguém – um boiadeiro ou peão qualquer – já se foi. Normalmente não são vistos e em uma noite de sexta, desaparecem por direito e merecimento.
Saio de minha casinha e olho em torno: só escuridão, grilos cantando em coro com os sapos da lagoa e nem mesmo as amigas vacas ou os compadres cavalos estão por aí. Um deserto.
Um alucinante, silencioso e pesado deserto que pior fica ao lembrar-me que, em um raio de quilômetros, sou eu a única alma viva a contemplar a imensidão de nada a minha volta.
Me afasto de casa, caminhando lentamente e falando sozinho, como faço todas as noites. Aproveito a brisa fresca, entro pelo pasto onde só a lua o ilumina e procuro um cupinzeiro para sentar.
Continuo falando sozinho, resmungando confiante em minha decisão de virar a página, mas a lua não perdoa e enxergo claramente os quilômetros de vazio, que fazem as saudades da vida que tive crescerem em igual proporção à sua grandeza.
Sexta feira e não mais uma viagem com quem amo. Sexta feira e não mais um chope com amigos. Sexta feira e não mais receber alguém na casa que um dia tive. Sexta feira e não mais a conversa fiada no sofá da sala, ambos exaustos após um dia de trabalho – só eu e quem um dia me amou.
Sexta feira e não mais nada, solitário entre quilômetros de angústia, uma sentença perpétua medida em hectares. Em algum momento da madrugada o sono vencerá a solidão e adormecerei, eu e eu, dando boa noite a mim mesmo.
Mas amanhã é sábado e o sol nascerá novamente – só para mim, sozinho, andando pela estrada deserta e muda.
Eu fiz um pedido á minha estrela, ela não costuma falhar.
Quero resultados dos meus trabalhos, dos livros que escrevi, dos artigos que publiquei, dos vídeos tão perseguidos. Quero um emprego. Quero pagar aluguel.
Não peço mais ninguém em minha vida, pois bem sei o que sou.
Só quero dignidade.
Walter Biancardine
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Tais causos – a versão roceira das lendas urbanas – foram por mim escutados desde muito jovem, na então pequena e desconhecida cidade de Cabo Frio, Região dos Lagos, Rio de Janeiro.
Não ouso dizer que nenhuma delas seja verdadeira, contudo tantas e tão repetidas vezes as ouvi que resolvi publicá-las em livro, para que ganhem a notoriedade – ou infâmia – merecida.
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Mas se me perguntarem se é tudo verdade, jurarei que só ouvi dizer.
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sábado, 25 de março de 2023
É PRECISO FORÇA PARA CONTINUAR MORTO
O fato é raro mas, por vezes, acontece: o telefone toca, é alguém querendo falar comigo.
Em dias de comunicação verbal quase extinta e isolado como um náufrago, em ilha de solidão cercada de pastos por todos os lados, a campainha surpreende e gratifica.
Como é bom saber que alguém quer nos falar algo! Principalmente: falar, e não digitar abreviações engraçadinhas e incompreensíveis, em redes sociais ou aplicativos eternamente vigilantes de suas opiniões.
Difícil é, para quem jamais enfrentou a solidão compulsória – pois que a opcional é privilégio – compreender a sensação de ser um cadáver que respira: você sente fome, toma banho, arruma sua cama, escreve, fuma, descansa ou pensa – sozinho, sempre – no que fazer. Lê uma notícia, quer comentar e não tem com quem. Termina um texto, precisa de opiniões, mas não há ninguém para dar. Está com fome, pensa em algo para comer, mas não há companhia e muito menos quem sugira um prato diferente. Chega o fim do dia, você deita na cama, acende um cigarro e quer conversar. E o monolito gigantesco da solidão rola por sobre sua cabeça, esmagando sua energia de vida.
E no dia seguinte você acorda e não há com quem partilhar o café. Sim, tudo se repetirá, ao logo de semanas, meses, enterrando o solitário cada vez mais fundo em sua lápide até que – seja por sorte ou piedade – o telefone toque.
Mas tal fato, como disse, é raro. O mais das vezes, as maravilhas da tecnologia fazem companhia ao pobre náufrago, o defunto que ainda perambula: escolhe-se uma web rádio – particularmente, com músicas antigas, aquelas que continham coisas estranhas como melodias e poesias metrificadas em letra de música – para ter-se algum som, algum ruído que não o mugir de vacas, relinchar de cavalos ou o uivo fantasmagórico do vento, sempre a lembrar de nossa morte – se não de fato, ao menos de direito. Mas a emenda sai-nos pior que o soneto, pois antigas canções sempre evocam lembranças, dias felizes, épocas em que éramos vivos e amados, onde nossa presença era não apenas notada como esperada.
Então, um dia, sentenciado por juiz que só deseja o bem de todos, resta-nos cumprir a sentença de solidão perpétua e morte virtual – para o bem de todos, é bom repetir.
Ou somos passionais ou somos justos, não há meio termo. Justiça sem temperança é vingança, e ouso perguntar o quão escuras serão as trevas que conceberam tal sentença. E tal vingança se dá em revanche desigual, numericamente: juntam-se dezenas de mágoas para abater, surrar um só e indefeso amor.
Mas é para o bem de todos, importante lembrar. E não há apelação.
É preciso equilíbrio emocional, uma fé sem tamanho, para um ser humano sobreviver a tal regime de vida – e a ajuda de Deus também, pois que ontem foi dia do telefonema! E a tal ponto lembrou-me do bom que é estar vivo que, após o mesmo, saí de minha ilha de mato e solidão rumo à estrada para – sim, é verdade – ver os carros passarem! Ver gente! Ver movimento!
Ontem pude respirar, foi um bom dia. A tampa da lápide foi levantada por breves instantes, conversei ao telefone, vi carros passando na estrada, caminhões buzinaram me cumprimentando – sim, eles me viram!
Ontem foi um bom dia. Pude respirar, ganhar forças para continuar morto.
A vida é assim.
Walter Biancardine
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Tais causos – a versão roceira das lendas urbanas – foram por mim escutados desde muito jovem, na então pequena e desconhecida cidade de Cabo Frio, Região dos Lagos, Rio de Janeiro.
Não ouso dizer que nenhuma delas seja verdadeira, contudo tantas e tão repetidas vezes as ouvi que resolvi publicá-las em livro, para que ganhem a notoriedade – ou infâmia – merecida.
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Mas se me perguntarem se é tudo verdade, jurarei que só ouvi dizer.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023
O QUE ESCREVEMOS EM VIDA, IMPRIME-SE NA ETERNIDADE
Relendo comentários meus que o Facebook – para o melhor ou pior – não nos deixa esquecer, acusando-nos de termos escrito aquilo naquela data, encontrei alguns que podem ser interessantes se lidos já sob a ótica dos dias atuais. Senão, vejamos:
Em 28 de fevereiro de 2019
* Não vejo a esquerda como nenhum sinal de inteligência intrínseca. Apenas contam com um livro, uma ideologia que os une muito mais em sentimentos, em enfermidades da psique do que em crenças. A direita, por ser apenas o resultado natural da vida em sociedade, jamais teve esta síntese. Falta-nos um livro.
* Por vezes penso que a direita só sabe impor seus conceitos via mando pessoal, ditadura. Na falta de uma ideologia clara, sintetizada em livro, catalisa-se os anseios na figura de um homem. Esta é a obra que Olavo de Carvalho poderia fazer mas, sábio, recusa-se.
* Perambulando pelo YouTube, acessei o canal muito bom de Leda Nagle e lá estava ela, entrevistando Mario Sérgio Cortella.
É o Lair Ribeiro das faculdades, embrulhado em papel de seda tucano.
* Temo as possíveis semelhanças entre boa parte de nosso generalato e o de Maduro.
* Chegará o momento em que o deslumbre da direita com o poder, associado á sua "generosidade democrática" com arreganhos da mídia e acolhimento de infiltrados em suas fileiras, acabará por alijá-la desse breve e inglório instante de mando.
* Intervenção militar seria uma solução? Só se a mesma fosse levada a frente por oficiais com graduação máxima de Coronéis. Os generais, para serem assim designados, dependem da aprovação da Presidência da República. Quais Bolsonaro promoveu?
* Passada a euforia, percebemos que o clamor dos brasileiros nada adiantou, tudo permanece igual e os mesmos se arranjam em seus lugares. Antes de condenar Bolsonaro, bom lembrar de condenar o sistema, muito mais forte e auto-protetor. E contra o sistema, apenas balas resolvem.
* "Analistas políticos" que criticam a exacerbação dos partidários de Bolsonaro sofrem de miopia incurável: não enxergam tais demonstrações de raiva como a legítima expressão do clamor que elegeu o novo presidente, o desejo de que tudo mude já, radicalmente, sem concessões, diálogos ou outros subterfúgios infiltradores de comunistas. Condenar esta "fúria" nas redes sociais é burrice. Preferem, estes analistas, o povo nas ruas quebrando tudo?
* A direita precisa aprender a mandar.
Impor pontos de vista não se traduz em socos na cara nem tanques na rua.
Ser democrático não significa ser um arregão, bunda mole traidor.
* Nem a extrema-imprensa e muito menos o povo vê qualquer problema em um governo de esquerda indicar apenas simpatizantes ou militantes seus para compor os quadros.
Quando a direita assim igualmente procede, é acusada de polarização, partidarismo e - pasmem - "ideologizar" a administração!
* De apoiadores que confundem a justa crítica com um "romper em definitivo" até o próprio governo, que supõe ser "democrático" o ato de trair seus pontos de vista, temo que a direita logo perderá o (pouco) poder, e Bolsonaro apenas cumprirá tabela até o fim do jogo.
Não sabemos ganhar, muito menos exercer o poder.
28 de fevereiro de 2013
* Da institucionalização da ignorância, cafajestice, absolutismo ditatorial e cleptomania implantados por Lulla, passando pela insistência com que este patético déspota de oficina insiste em permanecer nas manchetes - com a conivência da grande mídia - tudo isso nos remete á constatação abismada de que não temos um só homem que aglutine forças políticas em contrário. O quadro sombrio se complementa com o verdadeiro golpe federativo sofrido pelos estados do RJ e ES, os quais apenas esboçam reações canhestras - obviamente sob o beneplácito do personagem Dilma. Da encruzilhada de roubos ao erário, ditaduras ensaiadas, censura e controle de mídia e assalto aos direitos dos Estados da Federação, restam-nos aparentemente apenas dois caminhos sombrios: o separatismo ou a força das armas. Falta apenas um líder.
Walter Biancardine
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Pretérito Perfeito:
Uma incrível viagem aos anos 60 pode levar alguém a rever seus
valores?
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UM E-BOOK DELICIOSO: GISLAINE DOS 3 VERÕES
Esta é uma coletânea de contos, escritos entre 2007 e 2010, que reproduzem as histórias e causos que, invariavelmente, escutamos ao ambientarmo-nos em alguma cidade pequena e fazermos amigos.
Tais causos – a versão roceira das lendas urbanas – foram por mim escutados desde muito jovem, na então pequena e desconhecida cidade de Cabo Frio, Região dos Lagos, Rio de Janeiro.
Não ouso dizer que nenhuma delas seja verdadeira, contudo tantas e tão repetidas vezes as ouvi que resolvi publicá-las em livro, para que ganhem a notoriedade – ou infâmia – merecida.
Divirtam-se com elas.
Mas se me perguntarem se é tudo verdade, jurarei que só ouvi dizer.
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