Um dos esconderijos que tenho é conversar com gente de outros mundos.
Não de outros espaços, mas de outros tempos.
Neste sábado fui em viagem a planetas que há muito não visitava, em companhia de Nélson – meu amigo escritor, que jamais leu um só livro em toda sua vida.
Desembarcamos em um lugar que estava em noite de gala.
Um enorme Cadillac rabo de peixe nos buscou na Estação Espacial.
Motorista de quepe, luvas, e que teve o cuidado de estacionar entre outros enormes Buicks, Oldsmobiles, Studebakers e – é claro – belas senhoritas vestindo finas sedas e Mink Coats por sobre seus delicados ombros.
Trajados com elegantes Tuxedos, eu e Nélson subimos as escadas e adentramos o salão de baile.
“Quizás, quizás, quizas” – especulava o bolero na voz de Bienvenido Granda, nos levando a crer que breve estaríamos acompanhados e imersos em uma nuvem suave de Chanel Nº5.
Whisky com duas pedras, canapés de salmão e seguia a procissão de boleros com Trio Los Panchos enquanto o sonho me embebedava e sussurrava em meu ouvido:
- Aproveite… até que a vida pisque os olhos e te devolva…
E ela me enlaçou em seus braços, sorriu e a inclinação de sua cabeça era o consentimento para que a distância entre os corpos diminuísse e a dança se tornasse uma conversa íntima, onde a gentil senhorita me perguntaria, sempre tímida, e eu responderia em ímpetos atrevidos, rechaçados por seu pudor sorridente.
E eu via Nélson igualmente viajando em sorrisos e lembranças, abraçado à sua doce ninfa, e nos tornamos dois casais a girar e girar, ensandecidos de recuerdos naquela pista, bêbados da mágica do tempo e com Carlos Gardel a reclamar que, fumando, esperava sua vez.
Muitos giros, muitas voltas, muitas histórias e antigos amigos a nos entontecer e fazer as pernas bambearem e as gargalhadas perdiam o sentido e razão; os lustres de cristal brilhavam em volta e o parquet encerado nos fazia deslizar até a porta de saída – sim, já estava na hora do sonho terminar.
As doces damas nos sopraram beijos pelas janelas do enorme Cadillac enquanto o motorista arrancava em nossa viagem de retorno.
E desembarcamos súbito, um baque na alma e nos ossos, quando o garçom nos trouxe a conta e a certeza de termos retornado ao século XXI.
O palacete do baile desapareceu, junto com a noite enluarada em sua varanda. Os boleros se calaram e levaram as danças e as doces ninfas vestidas de seda.
O whisky acabou.
O amargo na boca e na consciência surgiu.
Nos demos um abraço e nos despedimos, companheiros de uma viagem que só gente que já muito viveu poderia embarcar.
Pero no queria volver…
Walter Biancardine

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