sexta-feira, 10 de julho de 2026

SALDO

 


não é coragem, é ser temerário
não é temeridade, é ausência de medo
não é não ter medo, mas
não ter mais porra nenhuma
a perder



Walter Biancardine



CEMITÉRIO DE FRASES

 


platitudes
isso é tudo o que vejo
na literatura e poesia

mais parece
que nunca houve
uma civilização na terra

deve existir
uma papelaria com xerox
copiando tantas frases

o banal é descoberta
o fútil é sabedoria
e costuram tudo isso

no ChatGPT




Walter Biancardine






HOMENS TRABALHANDO

 
olhar uma tela
ou papel em branco

dá medo

é bom ter
tudo na cabeça
antes de escrever
ou pintar

criar enquanto faz
é acaso

feito dono de terras 
olhando a vastidão 
e decidindo

farei minha casa

se fizerem bem feito
irão embora
e suas obras

ficarão



Walter Biancardine


TBT

 

Creio passar por um claro momento de retorno.
As redes sociais têm me enojado ao ponto de engulhos, e nelas só permaneço pela divulgação de meu trabalho.
A tal ponto cheguei que comprei uma máquina de escrever.
Não é boçalidade, mas uma conclusão lógica.

Se escrevo no computador, tenho a compulsão de olhar as redes (“só uma espiadinha”) a cada meia hora, e isso empata meu trabalho e atrofia a criação – a dispersão não fecunda.
Por outro lado, batendo à máquina estou isolado do mundo virtual.
O computador está fora de alcance e a tentação não me atinge.

Olho as teclas.
Eu e a máquina, olhos nos olhos.
Intimidade.
Nada me distrai, a cabeça trabalha.
Aspiro o cheiro de óleo Singer.
Boto o papel no carro da máquina.
E meu ato de escrever pode ser ouvido do lado de fora da casa.

Datilografar não é digitar.
Digitar pode ser descuidado e aleatório, pois sempre existe o “backspace” e somente um “salvar” definirá se nossos erros e acertos serão exibidos.
Datilografar exige disciplina.
Cada palavra precisa ser pensada, antes que estrague a lauda inteira e você tenha de bater tudo de novo – e gastar mais papel.

Há um silêncio. Não de barulhos, mas de ruídos visuais; informação desnecessária e dispersiva seduzindo você nas telas. Só atrapalha.
E isso devolve à composição escrita sua verdadeira dimensão: imersiva, reflexiva, profunda – e se escrevemos bobagens, sempre serão lastreadas por tudo isso. Não há como subverter regras sem conhecê-las à exaustão.
E por isso volto a escrever tal qual fiz metade da vida: à máquina.

Não se trata de abominar computadores.
Continuarei precisando deles para enviar o que escrevo para as editoras e até para postagens de divulgação, nas redes.

Mas não mais os usarei no ato de criar.

Toda concepção nasce de algo íntimo.
Não de algoritmos.





Walter Biancardine





LATTES


cerveja quente
café frio
sopa aguada
pipoca sem sal
primeira fatia
do pão de forma

seis décadas
resumidas em
seis linhas



Walter Biancardine


ATÉ QUANDO?


até quando vale a pena
acordar de madrugada
tomar café ruim
água fria pra lavar a cara
sair no escuro
medo no ponto de ônibus?

até quando vale a pena
levar mais tempo
de casa ao trabalho
que numa viagem de férias?

até quando vale a pena
chegar no trabalho e ver
os mesmos sorrisos falsos
as mesmas facadas nas costas
gente serrando o pé
da sua cadeira
e te dando bom dia?

até quando vale a pena
trabalhar até mais tarde
não ganhar hora extra
ouvir esporros à toa
ordens burras
e tudo isso
pra não ser demitido?

até quando vale a pena
descer pra tomar um café
se dar conta que uma pizza
é mais cara que seu dia
de trabalho
e voltar ao escritório
e ver a cara de bunda
do chefe?

até quando vale a pena
se orgulhar disso
e chamar escravidão
de “responsabilidade”
varrendo pro canto
sua vida e
sua alma?

até quando vale a pena
fingir que nada nos obriga
a vender a alma ao capeta
pra sobreviver
e sermos aceitos?

até quando vale a pena
essa pena?



Walter Biancardine




DESCOMPASSO


no Substack os jovens
maravilham-se consigo mesmos

se deslumbram entre
“como consegui fazer isso?”
ou o velho
“como consegui sentir isso?”

feito colegiais excitadas
comentando os melhores
momentos do filme
que acabaram de assistir

não condeno nem acho errado
não faço piada e aprecio
todo entusiasmo é bom
descobrir é uma conquista

apenas que sou um velho
muitos quilômetros nas costas
e me sinto só
já cansado da vida
junto a outros
descobrindo viver

eu queria companhia
mas são jovens



Walter Biancardine





FAZ-SE FRETE


Eu tinha uma Kombi furgão.
Eram cinco horas da manhã e eu já entrava na Dutra.
Noite fechada. Inverno.
Frio.

Levava 800 kg de papel de impressão para computadores.
Naquele tempo as folhas eram enormes, perfuradas nas laterais.
Eram pesadas também.
E o destino era São Paulo, Marginal Pinheiros.

Chuva e vento.
Ao menos o peso da carga mantinha o furgão na trajetória.
Ainda escuro. As faixas no asfalto serviam de guia.
Mas também hipnotizavam.
Asfalto molhado chupa o farol e você fica cego.

Ouvidos atentos ao motor.
De vez em quando, uma leve pisada no freio – só por via das dúvidas.
Rádio ligado baixinho.
E o apresentador, do nada, gritava: “acoooordaaa!”
O povo todo do trecho o respeitava por isso.

Velocímetro cravado em 80 Km/h.
A viagem ia demorar.
Na época não havia radares. Era instinto de sobrevivência mesmo.

Descia a Serra das Araras mais devagar que a subia. Segunda marcha engrenada servindo de freio motor. Gambiarra pura, mas ajudava.
E as faixas do asfalto continuavam passando.

Com elas passavam também as placas.
São Paulo 320 Km
Depois 280
Mais à frente 200
Dia já claro, mas a chuva não cedia.

Hora do café.
Escolhia um posto de gasolina com bastante caminhões encostados.
Prudência elementar.
E pedia meu café – copo grande – com um pão na chapa.
Depois banheiro, lavar o rosto, acendia um cigarro ao sair.

Costas já doendo. Bunda também.
Então chego na empresa. Quase meio-dia, hora de almoço.
Entregar a nota e esperar descarga.

Duas da tarde, tudo resolvido.
“Frete pago destino”, saía com dinheiro no bolso.
Agora, mais 400 Km de volta ao Rio.
Sem chuva, carro vazio, arriscava entre 90 e 100 Km/h.
Numa Kombi é aventura.

Seis da tarde descendo pela avenida Francisco Bicalho, no Mangue.
Tudo parado, engarrafado.
Hora do rush.

Subia o viaduto Paulo de Frontin, túnel Rebouças, Humaitá, Botafogo, túnel Velho e pronto: rua Santa Clara. Minha casa.
O dinheiro dava pra reabastecer, completar o óleo e sobrava pra cerveja – era já sexta-feira e eu era jovem, irresponsável e despreocupado.
Davam nove da noite, o Caneco 70 me esperava.

O tempo passou como as faixas do asfalto. 
A Kombi se foi, bem como minha juventude. Acho que as faixas me hipnotizaram.
Não notei a distância que andei.
Não reparei o tempo passar.
Nunca soube ganhar dinheiro.

Mas me diverti.



Walter Biancardine 




MANUSCRITOS

 
primeiro foi uma Remington
daquelas com o carro grande
eu batia conhecimentos de carga
e depois o manifesto de carga
que os discriminava

teclas pesadas e barulhentas
mesmo com caminhões acelerando
no galpão eu a ouvia
socar o papel e tocar seu sino

cheiro de óleo
dela e dos brutos lá fora

fim do expediente
dedos exaustos
ia pra casa

no meu quarto era uma Olivetti
portátil com maleta
resma de papel A4 ao lado
café e cigarros
batia o que via nas viagens
de minha cabeça

madrugada adentro
teclas barulhentas
sinos avisando o fim
da linha
e o mesmo cheiro
de óleo

caminhoneiros botavam 
os conhecimentos e os
manifestos nas bolsas
partiam pra ganhar a vida
nas estradas

eu botava minhas páginas
na minha pasta fichário
tentando uma chance
jornais ou revistas
sempre porta na cara

esses papéis devem
existir até hoje
em algum lugar

tem cheiro e toque
poeira e histórias
manchas que testemunham

impossível deletar



Walter Biancardine



TENTO, LOGO EXISTO


cantar e não ser ouvido
pintar e não ser visto
escrever e não ser lido

variações do mesmo tema

viver e não ser notado



Walter Biancardine




quinta-feira, 9 de julho de 2026

NADA PRA LER


Tive de me desfazer – desfazer não, largar pra trás – todos os meus livros. Sobraram os PDF’s, formato que não suporto.
Então criei um perfil no Substack.

Teoricamente é uma plataforma voltada pra escritores, leitores, aspirantes a escritor ou poetas.
Lá eu poderia ler o que essa garotada – e até alguns velhos – escreve e, quem sabe, descobrir gente interessante e talentosa pra ler.

Francamente, me arrependi.
A quase totalidade de tudo o que li não passa de um misto entre redações da sexta série com cartas de amor pras namoradas e ghost-writer gratuito de ChatGPT. Uma decepção.

Descobri sim, uns dois caras muito talentosos mas que cederam ao sucesso fácil, o riso.
E aí a coisa fica forçada. Imagino que até a lista de compras deles deve ter uma piada ou trocadilho.

O mais triste disso tudo é que só agora fui entender o sr. Nélson – o escritor que jamais leu um livro.


Walter Biancardine


NA BEIRADA

 


existem pensamentos perigosos
todo mundo sabe disso
o instinto avisa

mas às vezes o cansaço
a revolta e desesperança
insinuam um atalho

um vil atalho

todos um dia explodem
por questões acumuladas
destruindo tudo à volta

o problema é a repetição
tantas vezes explodi
que nada mais há

para destruir

só a mim mesmo
mas não quero
dor à toa não quero

apenas farto de ser
um vegetal
não posso querer
nem planejar
nem sonhar
nem fazer
ou tentar

como houvesse uma mãe
castigando e mandando
“vá pro quarto e fique lá
quietinho”

estou quietinho
nesse quarto 
desde sempre

por conta disso tudo
já explodi mil vezes
e também estou farto

farto de frustrações
farto de explodir
e também desse grilo falante
em minha cabeça
avisando

“pensamentos perigosos”

não acordei bem hoje
amanhã passa

ainda bem que sou
covarde



Walter Biancardine




NÃO REPARE A BAGUNÇA


minha cabeça tem gavetas
armários e cômodas
também tem prateleiras
e lá no fundo um baú

em cada cômodo 
pensamentos empilhados

até pelo chão
existem coisas largadas
esquecidas de lado
que eu mesmo pisei

sem falar no banheiro
onde me livro de absurdos
me ajoelho diante do vaso
e peço

ou cuspo o que não disse

hoje revirei tudo
catei e busquei
e procurei

não sei onde deixei

deve estar em algum canto
a ideia que guardei
pra escrever

gratifica-se
quem encontrar



Walter Biancardine




À MODA CACETE

 


tem dias que me irrito
bando de zumbis que
só olha o celular 
e segue o ditado

“se complicando vai
pra quê simplificar?”

um simples pedido
comprando algo
on line
é um risco

o idiota 
não se constrange
ele nem te vê
se sente livre
pra ser uma besta

manda errado
cor errada
tamanho errado
fora do prazo
não te informa
e cancela a venda

é um desespero
quando me dou conta
que vivo num lugar
onde tudo é
nas coxas

no balcão
ao menos
posso xingar



Walter Biancardine



AH, É?


me disseram que
quando lemos um livro
estamos sendo chamados
de burros
por alguém que viveu
dois séculos atrás

já escrevi alguns livros
mal posso esperar
o ano de 2226
pra xingar os idiotas
que estarão por lá
se ainda souberem ler



Walter Biancardine



NÃO PEDI NADA DISSO


comecei a fumar
pra imitar os artistas
de cinema

e também beber
saiu por conta
duma vida no 
liquidificador

não é que eu goste
de botequins
gosto da liberdade
que eles têm

e a vaidade se foi
desde o dia
em que me entendi
como feio

não tenho culpa
a vida me moldou

nada disso 
teria problema
tivesse eu
outra profissão

mas nasci escritor
e me apontam o dedo

não tenho culpa





Walter Biancardine




CLEPSIDRA


fechado em casa
em mim mesmo
há dias
e noites também

sem tevê ou relógio
nem calendário
ou jornais
ou internet

sei que é dia
porque tá claro
e noite
pela escuridão

não sei se é
segunda ou sábado
primeiro ou último
dia do mês

muito menos sei
que horas são

meu relógio
é o maço de cigarros
clepsidra que pinga
em meus cinzeiros

quanto mais vazio
mais tarde deve ser

se o cigarro acaba
danou-se




Walter Biancardine




ALICE NO PAÍS DAS CARREIRAS

 
eu era criança
acreditava em tudo
Papai Noel
monstros
pato Donald

cresci e aprendi
que não era tanta
a mentira que diziam

mais grave era
a mentira que
escapava e escondiam

olha pro olho
do coelho da Alice
e me diz

ele tá cheirado?




Walter Biancardine






ÓLEO DE AMÊNDOAS SOBRE TELA


já tive mulheres impressionistas
eram sempre vagas e sutis
tive outras expressionistas
tormenta em fúria

realistas eram perigosas
nunca soube o que era
retrato ou gente de verdade

jovem eu gostava muito
das surrealistas
mas ressaca e larica
tem sua hora

tal como as abstratas
sempre incompreensíveis
citando terapeutas

as pop-art eram vaidosas
consumistas e até 
interesseiras

mas duro mesmo eram as cubistas
exigindo um Picasso
que eu não podia dar

ainda assim melhor é a feiúra
que a triste companhia
de uma natureza-morta



Walter Biancardine



SINTOMAS

 


Ir no botequim tomar um café com pão na chapa sempre foi rotina pra mim. Desde os tempos de escola sou um ávido frequentador de botequins.

Comecei com refrigerantes na infância. Depois, a média com  pão e manteiga me seguiu até a idade adulta.
Mas aí veio o Guaravita. 
E isso mudou tudo.

Quando meu mundo de sonhos desabou e me peguei contando moedas pra inteirar o cigarro, meu universo de possibilidades também encolheu e passei a matar a fome comendo uma coxinha de um real e um Guaravita, que custa dois. Com três reais dava pra segurar a onda até ver o que aparecia  pro almoço.

Já fui Jack Daniel’s.
Depois cerveja. 
Também tenho experiência como água tônica.
Prática em refrigerante e caldo de cana.
Doutorado em café.
Hoje atuo como Guaravita.
É minha biografia líquida.

Me acho um Jack Daniel’s mas não passo de um Guaravita.

O pior é achar esta porcaria saborosa.

Eu, hoje, gosto.



Walter Biancardine



quarta-feira, 8 de julho de 2026

ELES USAM BLACK-TIE


já conheci gente
que por dentro é uma casa abandonada
escuro e vazio e sujo e dá medo

outras ainda tem
um porão mais escuro e mais úmido
e mais sujo que a sala

e ali moram os monstros

todos temos monstros
mas os normais os criam na sala
são os pets da hora do aperto

mas essa gente do porão
não tem monstros de defesa
os seus são canibais
destruidores
chupa-sangue

e são incontroláveis

o engraçado é que
essa gente costuma ser
muito simpática

o carisma é o black-tie
do carrasco da inocência



Walter Biancardine


HOMEM NÃO TRABALHA


Quem acorda de manhã cedo pra ir trabalhar sabe: o ponto de ônibus mais parece um banheiro de mulheres.
Só tem mulher.
Novas, velhas, garotas colegiais, magras, gordas ou feias.
Mas, no fim, só mulheres.

E você entra num escritório qualquer ou mesmo uma loja – só mulheres trabalhando. Muito raramente, um ou outro homem é avistado à distância, fazendo um serviço subalterno qualquer, perdido dos olhares alheios. 

Quando me dei conta disso, cocei a cabeça e pensei: onde diabos estão os homens do Brasil?

Os achei voltando pra minha casa, caminhando pelas calçadas.
Um grupo sentado no meio-fio, uma garrafa de cerveja no chão, e conversando fiado. Rindo muito, todos eles.

Mais à frente um outro grupo. Talvez mais deprimidos.
Sentados no chão, encostados no muro, cabisbaixos e calados, apenas olhavam as pessoas passarem. 

Na esquina, um botequim com mesas de plástico na calçada.
E mais homens, barrigudos, rindo muito e falando alto. Futebol, bundas e outros assuntos dos quais juram ser especialistas.
Em cada mesa, uma pequena coleção de garrafas de cerveja.
E riam. Riam muito.

Os poucos homens trabalhando que encontrei dirigiam caminhão, eram camelôs ou subiam em postes pra consertar a rede elétrica.
Ou trabalhavam em obras.

Todos pobres. 
Mas riem. 
Riem muito.

Quando um homem tem vergonha de estudar e acha que isso é coisa de mulherzinha, acabou de decretar sua miséria.
Acham o máximo serem ignorantes. 
Barrigudos de bermudas e sandálias havaianas.
Ogros.

E se passam na porta de uma faculdade e veem as moças saindo de lá, eles riem.
Riem muito.

É só o que fazem.



Walter Biancardine


TALANAFILA

 


em minha imaginação meu livro
venderia e seriam milhões
de espermatozóides
a fecundar cabeças

mas desses milhões na verdade
apenas um entra no óvulo
e o fecunda
ou não

um exemplar
apenas um único
e mísero exemplar
e não entrou no óvulo

e pensar que eu ria
de candidatos a vereador
que conseguiam apenas
um único voto

sequer pai e mãe
ou irmãos
votaram nele

sou um vereador 
das letras
mereço uma placa
na parede da editora

“apenas um e único”
longe de ser elogio
mas vergonha

ao menos o editor
não me processou

aliás
nem ligou




Walter Biancardine