segunda-feira, 4 de maio de 2026

DOMINGO NO ASILO -


Fui visitar meu irmão.
O lugar cheira a desinfetante e tempo perdido.
Não tem outra palavra.
Tempo ali não passa. 
Ele fica. Gruda nas paredes. E na pele.

Assinei um papel na entrada. Sempre tem um papel. 
Nome, documento, horário. Como se alguém fosse fugir dali.
Uma moça de jaleco me deu um sorriso rápido. Cansado. Não era pra mim. Era automático.
- Quarto 7.

Fui andando pelo corredor. Portas abertas. Gente sentada olhando pro nada. Um velho ria sozinho. Uma mulher falava com alguém que não tava ali.
Ninguém parecia com pressa.
Cheguei.

Ele tava na cama. Magro. Mais baixo do que eu lembrava. Como se tivesse encolhido por dentro.
Olhou pra mim.
Demorou meio segundo.
- Ô… você.

Ainda lembrava.
- Sou eu.

Ele abriu um sorriso torto. Faltava um dente. Não lembro quando perdeu.
- Veio?
- Vim.

Sentei numa cadeira dura. Daquelas que não deixam ninguém confortável tempo demais.
- Trouxe cigarro?
- Aqui não pode fumar.
- Ah.

Ficou quieto. Mexeu no lençol. As mãos tremiam um pouco.
- Que dia é hoje?
- Domingo.
- Bom.

Não sei por que era bom.
Ficamos ali. O silêncio não incomodava ele. Em mim, raspava.
- E os meninos? Meus filhos? - ele perguntou.
- Tão por aí.
- Trabalhando?
- Você sabe… Um tá fora, morando em Londres. Outro casou agora, você deve lembrar.
- Casou… é mesmo… - ele repetiu, como se testasse a palavra.
- É.
- Não vieram?
- Não.

Ele pensou um pouco. Ou fingiu.
- Devem tá ocupados.
- Devem.

Ele assentiu. Aceitou rápido demais.
Isso doeu mais do que se tivesse reclamado.
- Aqui é bom - ele disse, olhando pro teto.
- É?
- Tem comida na hora. Ninguém enche o saco.
- Olha aí.
- Tem um cara aqui… o João… - ele riu - ele acha que ainda trabalha.
- E trabalha?
- Trabalha nada. Fica andando pra lá e pra cá. Igual doido.

Rimos. Meio sem graça.
Ele esqueceu do João logo depois.
- Você tá morando onde?
- Longe. São Jacinto.
- Com quem?
- Com ninguém. Só eu, as vacas e os cavalos.
- Melhor - e deu uma risada.

Ele fechou os olhos um pouco. Abriu de novo.
- Eu fiquei doente, né?
- Ficou.
- Foi do nada.
- Foi.
- Cabeça…

Apontou pra própria testa. Deu um tapinha leve.
- Deu ruim aqui. Mas vou melhorar.
- Claro que vai.

Ele riu. Aquela risada meio boba, leve demais pra situação.
- Ainda bem que você veio.
- É difícil, moro muito longe, mas quando dá eu venho.
- Não sempre.
- É como eu disse, não dá sempre.
- Eu sei.

Não parecia saber.
Uma enfermeira apareceu na porta.
- Hora do remédio.

Ele fez careta.
- Já?
- Já.

Ela veio, deu os comprimidos, água. Ele engoliu sem reclamar. Bom paciente.
Ela saiu.
- Você vai embora?
- Daqui a pouco.
- Fica mais.
- Sem problema.

Fiquei.
Sem falar muito. Ele também não.
Em algum momento, ele segurou meu braço.
Forte.
- Estou vendo um negócio, vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui.

Veio baixo. Quase certo.
Fiquei olhando pra mão dele.
- Primeiro você tem que se tratar, ficar bem de novo…
 
Ele não reagiu.
Talvez não tenha entendido.
Talvez tenha entendido demais.
- É mesmo - ele disse.

Soltou meu braço.
Olhou pro teto de novo.
Como se já tivesse ido embora dali.
Fiquei mais um pouco. Não sei quanto.
Levantei.
- Eu volto qualquer dia.
- Volta?
- Volto.

Ele assentiu. Confiante. Como criança.
Saí do quarto.
O corredor continuava igual. Ninguém indo a lugar nenhum.
Assinei outro papel na saída.
Sempre tem um papel.

Lá fora tinha sol. Mas a rua era vazia, isolada na cidade. 

Andei como um condenado, debaixo do sol, até o ponto de ônibus mais perto.
Entrei no ônibus.
Sentei perto da janela, lado contrário ao sol.

Fiquei pensando no “vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui”.
Não era sonho. Nem plano.
Era só… o que sobrou.

Olhei pra rua.
Eu também não tinha pra onde levar ele.
E isso é o tipo de coisa que ninguém gosta de dizer em voz alta.

Não havia inocentes.
Nunca houve.


Walter Biancardine



LIMITE ESTOURADO

Toda agência bancária é sempre gelada.Frio de máquina. Não de inverno.

Sentei. Esperei minha senha. Aquela porcaria de bip com a demora calculada pra te torturar.

Um cara do meu lado coçava o braço sem parar. Uma mulher falava sozinha olhando pro celular. Ninguém ali parecia estar resolvendo nada.
Chamou.
Mesa 12.
O sujeito nem levantou. Só apontou com o queixo.
- Boa tarde.
- Boa.

Sentei. Tirei o papel do bolso. Já amassado.
- Tô devendo no cartão de crédito. Foi cancelado.

Ele pegou, mas já tava digitando antes.
- CPF.

Falei.
Tec-tec-tec.
Fiquei olhando pra tela. Não dava pra ver direito. Um monte de número. Sempre número. Eles devem sonhar com números.
- O senhor tá com atraso já faz um tempo.
- Minha vida toda tá com atraso.

Ele não reagiu. Só continuou.
- Vamos ver o que dá pra fazer.
- Se der pra fazer.
- Dá sim.

Sempre dá. Pro banco, sempre dá.
Mais tec-tec.
- A gente pode parcelar isso aqui.
- Aham.
- Fica em tantas vezes…

Falou o número.
Balancei a cabeça.
- Não tenho isso por mês.
- Mas dilui a dívida.
- Dilui onde? Assim não dilui nada.

Ele respirou pelo nariz. Pequeno incômodo.
- Tem outra opção também.

Claro que tem.
- Qual?
- Título de capitalização.

Eu ri. Meio sem querer.
- Sério?
- O senhor cria uma reserva, participa de sorteios…
- Sorteio?
- Isso.
- Eu não tô conseguindo pagar o almoço direito e vou entrar num sorteio? Pagando por mês?
- É uma forma de organização.
- Organização do quê, cara? Mais dívida?

Ficou um silêncio meio ruim.
Ele ajeitou a cadeira.
- Senhor, são produtos que ajudam o cliente a se reestruturar.
- Eu preciso me reestruturar ou pagar o que eu devo?

Ele travou um segundo. Voltou.
- As duas coisas.
- Com dinheiro de onde?

Ele não respondeu. Foi pro teclado de novo.
- Se não fizer nada, a dívida continua.
- Firme e forte, inclusive.
- Pode ir pra cobrança.
- Já deve ter ido. Nunca atendi os chamados que vocês me fazem todos os dias.

Ele me olhou.
- O ideal é evitar negativação.
- Ideal era não ter chegado aqui.

Outro silêncio.
Passou uma senhora atrás da gente arrastando o pé nos chinelos. Um segurança olhava pro nada.
- O senhor precisa assumir um compromisso.
- Eu já assumi quando usei o cartão.
- E agora precisa honrar.
- Com o quê? Assumindo outra dívida que não posso pagar?

Nada.
Ele deu uma batidinha leve na mesa com a caneta. Impaciência controlada.
- Eu tô tentando te dar uma solução.
- Não, você tá tentando fechar um negócio aqui, bater sua meta.

Ele não gostou.
- Não é isso.
- Tá bom. Esquece. Deixa pra lá.

Puxei o papel de volta.
- Eu sei que o senhor me entende.
Ele não respondeu.
- Eu não tenho dinheiro. Você sabe disso. Eu sei disso. E você tá aí me oferecendo parcela maior e um negócio de sorteio. Se eu tivesse isso, já teria pago o cartão e não estaria aqui, negociando.

Fiquei olhando pra cara dele. Perguntei:
- Isso ajuda quem?

Demorou.
- Ajuda quem consegue seguir.
- Então não sou eu, amigo.

Ele ficou quieto.
Pronto. Chegamos em algum lugar.

Levantei.
- O senhor não vai fazer nada?
- Hoje não.
- A dívida vai aumentar.
- Eu sei.
- Pode complicar mais.
- Já complicou.

Fiquei um segundo ali. Sem pressa.
- Boa sorte aí com os sorteios.

Sai.
A porta demorou. Sempre demora quando você quer ir embora.

Lá fora tava quente. Barulho de ônibus, gente, vida.
Passei a mão no bolso. O papel ainda tava lá. Amassado.
A dívida também.

Pelo menos lá dentro ninguém fingiu muito tempo.

Fui na padaria tomar um café com pão na chapa.

Aquilo eu podia pagar.


Walter Biancardine



domingo, 3 de maio de 2026

INTERNAUTAS ANÔNIMOS – O vício em dopamina

 


Temos os Alcoólicos Anônimos, que por frescura deixou de usar o termo alcoólatra, e temos mesmo algo semelhante voltado aos viciados em drogas e jogatinas. Como hoje em dia um negócio em alta é inventar doenças, existem também grupos de apoio às mulheres que amam demais, aos viciados em sexo, em descabelar o palhaço no Xvídeos e até em comer cachorro-quente. 

O caso é que já passou da hora de fundarem um grupo de apoio aos viciados em internet – leia-se “viciados em um orgasmo de dopamina a cada quinze segundos”, pois os reels, vídeos do Tik Tok, tweeters ou o tempo que se leva para ler o primeiro parágrafo de uma postagem no Facebook e dar uma resposta furiosa é exatamente esse: quinze segundos.

Na era pré-internet sabíamos das coisas lendo jornais, ouvindo comentários nos botequins, salas de espera do dentista ou mesmo das vizinhas fofoqueiras. E isso tinha seu tempo próprio, um ritmo normal, humano, potável. Um boato por mês? Um escândalo a cada quinze dias? Uma nova fofoca toda semana? Sem problemas, tudo digerível, avaliável, julgável e – principalmente – sabidos de forma absolutamente passiva: sabíamos, nos escandalizávamos, comentávamos com o fofoqueiro e pronto, morria aí o assunto.

Hoje não. Hoje somos “celebrities das redes sociais”, não podemos decepcionar nosso público se não postarmos nossos comentários furibundos e dar a todos o merecido orgasmo de quinze segundos. Sim, somos ídolos. Temos públicos. Viramos, todos, artistas. Até nossa casa é mostrada em fotos, junto com as férias na praia ou o prato cheio na churrascaria.

A verdade é que somos todos doentes, e não nos demos conta.

O viciado nunca admite o vício. O paranóico jamais admite sua patologia. E a cura, infelizmente, será compulsória – tal como a dos citados.

Chegará o dia em que teremos uma guerra. Uma guerra não, uma hecatombe, uma catástrofe – é questão de apenas esperar. E neste dia as redes ficarão fora do ar. Bombardeios, explosões, tudo isso levará pelos ares nosso mundo de fantasias. Deixaremos de ser “celebrities” e passaremos a ser novamente pessoas comuns. Pior: refugiados. Sobreviventes. Nenhum glamour. E sem instagram.

Some as horas em que você passa na internet. Pese quantos quilos de fúria você engole ao ler postagens que te desagradem. E veja o que sobrou de sua vida, de sua cabeça, de sua paz.

Mas sei que perco meu tempo. Eu mesmo estou aqui, na internet.

Mas ao menos jamais escondi meus tombos.

Eu bebo. Eu fumo. E uso a internet.


Walter Biancardine



DONO DE ESCRAVOS -


Princesa Isabel assinou uma lei.
Libertou o povo das senzalas mas a República os prendeu na favela.

Então o brasileiro descobriu que podia ser empresário. E o governo escravizou os empresários, arrancando suas bolas através de impostos. E os empresários escravizaram os empregados pagando salários ridículos – senão o lucro acaba, dizem eles.

Cabeças de merda, nunca imaginaram que seus empregados poderiam ser também consumidores de seus próprios produtos. O lucro acaba, sempre repetem.

Aqui nunca existiu classe média. É a que consome, a que paga impostos.
Não. Aqui, pobre paga imposto também. Aqui se vive da pobreza, da miséria e dos funcionários das estatais e servidores públicos. Aqui se vive da Corte.

Sujeito trabalha o dia todo e seu salário, dividido pelos trinta dias do mês, não compra um frango assado. Escravidão tão boa que vieram as multinacionais – era preciso explorar também. Eles sim, sabem explorar, oferecem alguns mimos e deixam o cativo feliz e se sentindo superior.
E a Corte descobriu que miséria dá voto. Sempre deu. Sempre imploramos por heróis, as novelas da TV mostram isso.

E a Corte quase extinguiu o salário, trocando o contracheque por vale-transporte, vale-gás, bolsa família, bolsa escola, passe gratuito pra idosos, pra deficientes, farmácias que dão remédios gratuitos (comprados pelo Governo em licitações fraudadas), programa Minha Casa Minha Vida – no fim das contas, você descobre que trabalha a troco de casa e comida. Tudo dado pelo governo, comprado com seu dinheiro de impostos. E os empresários nada pagam, além de uma carga tributária trabalhista que esfola o pequeno comerciante. Mas ajuda as grandes empresas, elimina a concorrência.

Aqui, grandes empresas são feudos. Nelas trabalham os privilegiados. Somos servos da gleba e ainda não saímos da era feudal, embora jamais tenhamos atravessados uma Idade Média.
Mas as igrejas nos amansam. As músicas excitam e fazem esquecer a fome – e a vergonha na cara também. As novelas hipnotizam, condicionam e desviam a atenção. O futebol é nosso Coliseu, e o pão e circo come solto.

Se trabalha a troco de teto e comida, a ração é futebol, carnaval e novela e vivemos na senzala do tráfico. Tudo isso pra que, a cada eleição, surja um vigarista prometendo que tudo vai mudar.
E ele se elege. E nada muda, nunca.

Mas a gente acredita. Daqui a quatro anos, vem outro.

Vivemos na Idade Média e tiramos onda de modernos.

E fotos pro Instagram, também.


Walter Biancardine










sábado, 2 de maio de 2026

BRASILEIROS E BRASILEIRAS -


Ouçam o que digo
Tomem energéticos
Comprem um copo Stanley
Fiquem no vídeo game até amanhecer

Sejam pais de pets
Mães de plantas
Amorosos herbívoros
Soltem pombas pela paz

Abracem a lagoa
Deixem a barba crescer
Arranjem um coach
Façam cursos de tudo

Chorem no Zap
Tirem a foto do perfil
Se ofendam com o que digo
Comprem um Renegade

Abominem o cigarro
Não bebam álcool
Só energéticos, anfetaminas
E soja transgênica

Proíbam os homens machos
Banheiros pra quem quiser
Mulheres pagando
Anúncio de margarina

Matem os velhos
Abortem crianças
Prendam os brancos
E héteros

A vida é de vocês
E podem fazer o que quiserem
Só nunca mais se metam
Em política nas redes

Ou na vida.


Walter Biancardine



quarta-feira, 29 de abril de 2026

É ISSO QUE VOCÊS QUEREM? -


O circo pegou fogo – e ninguém quer apagar. 
O novo coliseu cabe na palma da mão e atende pelos nomes de Instagram, Facebook ou Twitter.

O picadeiro agora é uma arena de bolso, onde covarde vira gladiador de comentário e imbecil vira juiz de execução. 
Sem pudor, sem freio, sem vergonha. 
Só uma turba elétrica, histérica, mastigando nomes como se fossem ossos.

Querem sangue.
Não é metáfora. É fetiche.
Não há mais lado. Não há mais causa. Há só dentes rangendo, olhos vidrados e uma fome que não é de justiça – é de carne.
Querem sangue.

O de Luiz Inácio Lula da Silva, servido quente, de preferência em transmissão ao vivo.
O dos ministros do Supremo Tribunal Federal, em fatias, com comentários e emojis.
Mas isso já era esperado. O problema – o câncer mesmo – é outro.
A faca virou para dentro.

Seguidores de Allan dos Santos babam pela queda de Kim Paim.
Seguidores de Kim contam os minutos pra ver Allan afundar.
Não é divergência.
É linchamento recreativo.

Em Minas Gerais, querem Romeu Zema na guilhotina.
Na outra esquina, Flávio Bolsonaro na fogueira.
E os filhos de Jair Bolsonaro? Viraram menu degustação. 
Um por noite, com direito a avaliação nos comentários: “crocante por fora, sangrando por dentro”.

É isso que chamam de “direita”?
Um bando de gente que não consegue sustentar uma ideia por cinco minutos sem precisar arrancar o fígado de alguém?
Isso não é força. É fraqueza berrada.
É covardia com filtro.

Enquanto a turba se delicia, o sujeito que um dia concentrou tudo isso – Jair Bolsonaro – vai sendo mastigado vivo. 
Não por inimigos – por fãs. 
Não por oposição – por plateia. 
O fim mais baixo: virar esquecimento em câmera lenta.
E ninguém pisca.
Porque o show não pode parar.

Querem Nikolas Ferreira fazendo caminhada como se fosse Jesus entrando em Jerusalém.
Processo contra Gustavo Gayer vira episódio, com teoria conspiratória de quinta.

A cada notificação, uma execução simbólica. 
A cada like, um empurrão a mais na beira do abismo.
E ainda têm a pachorra de falar em liberdade.
Liberdade de quê?
De destruir o próprio campo?
De transformar aliado em inimigo com a mesma facilidade com que troca de camisa?
Chamam isso de conservadorismo?
Conservar o quê – a burrice? A vaidade? O vício em espetáculo?

E no meio disso – essa palavra que adoram usar quando convém – a “ditadura” – ela vai passando como um garçom invisível. 
Ninguém olha. Ninguém chama. Ninguém paga a conta.
Porque o importante não é a liberdade.
É o espetáculo.

Não querem vitória.
Querem vingança.
Não querem ordem.
Querem catarse.
Não querem verdade.
Querem um inimigo novo a cada manhã, como quem precisa de café pra acordar.

A verdade nua: não querem vencer. Não querem governar. Não querem sequer entender.
Querem sentir.
Aquela descarga curta, suja, barata – o prazer de ver alguém cair. 
Hoje o outro. Amanhã o próprio.
Porque esse tipo de fome não sacia. Só aumenta.

Enquanto isso, o cenário fecha, aperta, sufoca. 
Pode chamar do que quiser – o nome pouco importa quando a corda está no pescoço.
Mas a turba não vê a corda.
Está ocupada pedindo mais sangue.
Mais cortes.
Mais escândalos.
Mais degolas virtuais.

A velha Roma pelo menos sabia que aquilo era barbárie. Hoje se chama isso de “conteúdo”.
E seguem pedindo mais.
Sempre mais sangue.
Até não sobrar ninguém – nem cabeças para cortar.

E então vem o silêncio.
A ressaca.
O vazio.

Mas aí já será tarde. 
Sempre é.

Uma velha lei esquecida: quem vive de assistir execução acaba na fila da espada – e ainda acha que é entretenimento até o último segundo.

Então, sem teatro, sem lirismo, sem a desculpa confortável da ignorância:

É isso mesmo que vocês querem?

Sangue?



Walter Biancardine



SEM TEMPO -

 


O tempo melhora o uísque, 
melhora o vinho,
mas esquenta a cerveja,
e aquele resto no copo.

Amargo como a vida,
saideira intragável, 
nos mostrando coisas 
que seria melhor não saber.

Esfria o café,
esfria o convite,
esfria o encontro,
resto no copo.

Entope cinzeiros e artérias,
cigarros e corações frustrados,
deleta amores, exclui amigos,
o tempo é senhor da paixão.

O tempo pouco se importa,
segue sua marcha, e eu
pendurado nele,
como pingente no trem.

Porque nunca há vagas
para viajar confortável.

Tempo é dor
com pitadas felizes
num relógio de camelô.

E a bateria acaba.


Walter Biancardine




terça-feira, 28 de abril de 2026

CHUTAR CACHORRO MORTO: COISA DE CONSERVADOR? -

 


Não falha: digo que esquerda e direita são, em muitos casos, apenas a mesma porcaria com sinais trocados mas logo aparecem direitistas raivosos, negando o óbvio.

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso foi recentemente interditado por seus filhos em decorrência do avançado estágio do Mal de Alzheimer, que o abate. E muitos ditos "conservadores" logo se precipitaram sobre FHC proferindo toda a sorte de xingamentos e maldições.
Mas não perdem a chance de reclamarem, horrorizados (?) quando a esquerda faz o mesmo com alguém de direita.

Sim, FHC foi, politicamente, um câncer. Ele foi o principal responsável pela verdadeira praga gramscista que assola a TV brasileira desde a virada do século - ele sempre defendeu essa linha de atuação e, para Roberto Marinho (então dono das Organizações Globo e sem um pingo de caráter ideológico) foi fácil apontar seus veículos de comunicação nesse sentido. 
E as outras emissoras, rebanho em busca de audiência, simplesmente seguiram a líder.

Por outro lado, FHC foi o homem que estabilizou uma inflação crônica, lançando o Plano Real - é certo que com a pior das intenções, pois visava apenas criar uma calmaria financeira que permitisse a perfeita adesão do Brasil ao Mercosul, que era o então embrião da sonhada "Pátria Grande", "Unasul".

Sim, ele foi uma peste. Mas o verbo está no passado, hoje é um inválido, senil, e não se chuta cachorro morto - estarei sendo grosseiro aos olhos de quem amaldiçoa FHC, se uso esta expressão? Caso sim, teremos mais um exemplo flagrante da hipocrisia dos "Conservadores de Instagram", que tanto denuncio e me enoja.

Pois apontem suas botas para José Dirceu - este sim, vivo, lúcido e pleno em sua malignidade; cabeça pensante e atuante do Foro de São Paulo e ainda perfeitamente capaz de conduzir o Brasil e seu povo a um verdadeiro matadouro das liberdades e garantias individuais.

Por quê se esquecem de Dirceu?

Porque ele não é o capítulo de hoje da novela.
Hoje é dia de falarmos da briga entre Flávio Bolsonaro, Zema, Kim Paim, Rodrigo Constantino, Allan dos Santos - ou seja: é dia de nos preocuparmos com coisas absolutamente inócuas, que em nada nos ajudam de maneira concreta.

Mas é a novela de hoje, e o brasileiro adora novela.
E assim será, até que toda uma nação - covarde e passiva - descubra quem matou Odete Roitmann.


Walter Biancardine 



segunda-feira, 27 de abril de 2026

LUA CHEIA -

Rondando agora a noite pelo pasto, sozinho.
Olho o céu. Estrelas que não são vistas nas cidades, as vejo pela escuridão em torno.

Lua, estrelas, constelações, nebulosas. É a fantástica obra de Deus.
Incompreensível, inalcançável, bela e aterradora ao mesmo tempo, por sua grandeza.

É algo divino, acima do entendimento, portanto não me serve - apenas me admiro e curvo em sinal de respeito.
Senti isso quando pilotava aviões. Algo grandioso, sufocantemente belo. Mas também não me servia. Apenas admirava.

Abro uma cerveja e penso: nossa vida é um "quase". "Quase" entendemos, intuímos - mas nunca alcançamos.
Somos divinos o bastante para perceber, mas demasiadamente humanos para desfrutar.

E me lembro que amanhã tenho de pagar a conta de meu celular.
Grana curta, comprei um óculos para ler de perto. Difícil.

Me lembro do céu, da lua, de Deus.
E também dos boletos.

Humano.
Demasiadamente humano.


Walter Biancardine  



SISTEMA -

 


Sempre reclamo do sistema. Ele é mau, ruim, sanguessuga e limitador.
Mas de qual sistema reclamo? Do atual?

Sim. Mas ele é o mesmo, desde as pirâmides do Egito, impérios babilônicos, césares romanos ou barões feudais e capitães da indústria. Sempre o sistema. O mesmo sistema.

O que temos são requintes de crueldade nos dias de hoje, proporcionados pela tecnologia e pelas comunicações de massa, que nos tornaram escravos e felizes com isso. Séculos atrás, ao menos achávamos que era o destino, ou Deus. Nos confortava.

Hoje carregamos pedra e nos orgulhamos disso.
E o que há a fazer? Combater o sistema?

Não. Sozinho é perda de tempo e mesmo em massa, a história mostra que ele é imutável.
O que podemos fazer é sabotar.

Sabotar os abusos, a lavagem cerebral da mídia, a escravidão do trabalho remoto, os escravos digitais ideológicos - toda essa imundície surgida na virada do século anterior para o atual.
E só o cinismo, aliado ao ceticismo, pode fazer esse trabalho.
Não é o niilismo - isso é tudo o que o sistema quer, niilistas vazios.

Me refiro ao cinismo debochado, ao ceticismo duro de negociar, que dificulta o sorriso dos poderosos.
Mas toda a luta precisa ser interna. Sair por aí postando "olha como sou cínico e cético" de nada adianta. Seremos um arremêdo dos "conservadores de Instagram".

Seja cínico e cético com seu patrão. Com sua empresa. Com as leis. Com os impostos. Com as autoridades e tudo o que represente o sistema - empresários, governos, tudo.

Nada abala mais um poderoso que o deboche.

Cínico e cético.


Walter Biancardine 



TENHO ME IRRITADO COMIGO -

 


Sempre gostei de solidão, de ficar sozinho.
Minha vida atual não é novidade, recentemente atravessei alguns anos assim.
E eu falava comigo mesmo, caminhando nos pastos desertos. 
Tinha assunto, verdadeiros insights aconteciam; na verdade eu transcendia.
E me deslumbrava comigo mesmo.

Sozinho, debati filosofia, teologia, sociologia, antropologia – e escrevi muito, tudo saído dessas conversas. Dois livros, pelo menos, resultaram disso.
Depois caí no mundo, caí na conversa e passei um bom tempo de vida “normal”.

Casa, comida e a fatal mudança pro Rio de Janeiro.
A verdade é que me vendi.
Formigueiro de gente, rodoviária de vaidades, Maracanã de farsas derrotadas, fingindo sucesso.
Eu, inclusive. Burro, uma besta enganada, manipulada. 
Mas descobri.
E voltei pro mato.

Achei que seria tranquilo, já conhecia essa vida.
Sim, conhecia essa vida e também muita gente por aqui.
Só não sabia que eu tinha me tornado um chato pra mim mesmo.

Que novidades conto pra mim?
Que sacadas tenho hoje, ao longo de meus passeios solitários?
Brotam ideias? Intuições? Inspiração?
Nada. Nada vezes nada.
Acho que tudo o que eu tinha pra me dizer, já me disse.

Não sei se um fusível queimou, ou um neurônio.
Mas preciso de gente agora, pra conversar.
Pior: eu, exigente e fresco, preciso de gente pra ouvir, falar, observar – e só depois criar.
Pior ainda: cairia bem alguns que falem de arte – mas artistas nunca falam de arte, só reclamam do governo – qualquer governo – que nunca ajuda.
Gente que fale de poesia, pintura, música e arranjos; gente que tenha o sacrossanto – saco santo – de se perder comigo em teses filosóficas ou discussões teológicas – mas com proibição expressa de se falar em política.

Ou a cereja do Martíni: gente que fale de suas misérias, de seu emprego torturante ou de sua mulher medíocre.

Que fale de seu mecânico explorador querendo enganá-lo, ou do eletricista que tentou o mesmo, só pra trocar os disjuntores da casa. Ou da louca com quem casou, que já gastou dois meses de seu salário no cartão de crédito.

Pessoas que, depois da quinta ou sexta dose, confessem sua falta de perspectiva; suas frustrações nos planos de vida – sonharam com a estratosfera mas raspam a barriga no quebra-molas.

Que descobriram que o sucesso é ser o melhor serviçal – sem vida própria, saído de uma linha de montagem: mesmos gostos, hábitos, roupas, carros, opiniões e ambições. E se deram conta disso, e por isso bebem.
Ou choram escondidos, no banheiro.

Que o chefe é um vampiro e sugou sua alma.
Que o sistema só dá “quase” o que ele busca, nunca o “tudo” – pois, se der, ele pára.
Que o sistema não o quer parado. Que ele é uma peça, só uma peça, dessa máquina.
Que a vitória nada ensina, só as derrotas.

Gente que frequente bares e botequins. Que beba qualquer merda – até uma Glacial.
Copos de plástico. Churrasquinhos de gato. 
Que saibam jogar esse pingue-pongue da vida.

Mas não há bares por aqui, na roça.
Apenas portas, onde só se vende biscoitos e cachaça. 
E mandioca.
Como escrever sobre a vida sem ninguém vivo, ao redor?

Aqui não vejo vidas, só existências;
Não há queixas ou conclusões.
Só submissão.
Submissão ancestral, de um Brasil escravagista.

Não tenho com quem falar.
Vida urbana também é escravagista. Mas é meu território.

Só que não aguento mais meus próprios assuntos.

Aceito companhia pra beber.
De preferência, pagando a conta.


Walter Biancardine



CABEÇAS PRÉ-MOLDADAS -

 


“Eh, vida de gado… povo marcado, povo feliz”.
Zé Ramalho acertou em cheio, inclusive nomeando a obra como “Admirável Gado Novo”, parodiando o livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.
Se minha cabeça não é de gado, a vida que levo é.

Balançava meus tormentos e rugas em pé, no ônibus, pelas estradas rurais de Cabo Frio – nada de asfalto; chão puro, lama e poeira divididas com cavalos, bois, galinhas e vacas – enquanto ouvia um senhor tentar converter uma senhorinha, certamente ainda não doutrinada. 
Ou escolada demais pela vida:
- Mas o correto é dar o dízimo. Tem que dar pra Deus, pra Ele te abençoar.

A velhinha, incrédula:
- Então, se eu não pagar, Deus não me abençoa?

O estagiário de pastor gaguejou e saiu-se com essa:
- Deus abençoa tudo que a gente faz pelos outros, mas tem que dar o dízimo.

Não convenceu a velha. 
Muito menos a mim.
Sempre fui alérgico a instituições. Elas são feitas de homens, e homens são sempre animais quebrados, tentado aparentar normalidade, honestidade e alegria. 
Nunca funciona.
E não será um surto de Lutero que irá me convencer do contrário.

Fiquei o resto da esburacada viagem pensando o que Deus faria com os cinco reais que eu daria de dízimo.

Compraria um sacolé para algum querubim pidão?
Faria uma “inteira” pro vinho, com os anjos?
Ou daria de gorjeta para o anjinho que dá um trato, polimento, nas auréolas?

Saltei do ônibus no Jardim Esperança e fui no mercado comprar açúcar, café e outras coisas.

Gastei meus cinco reais tomando café na padaria.


Walter Biancardine




sábado, 25 de abril de 2026

TRINCHEIRA VAZIA -

 


Ernest Hemingway escreveu como quem já tinha sentido o cheiro da pólvora junto ao suor de gente que não veria no dia seguinte:

“Quem está contigo aí na trincheira?”
“E isso importa?”
“Mais que a própria guerra.”

E é aí que tudo apodrece.

Porque a guerra – qualquer guerra – sempre é uma desculpa bonita para canalhas bem vestidos e idiotas barulhentos brincarem de heroísmo, de serem líderes, sem nunca terem sangrado de verdade. A direita que eu vejo – essa que me fez largar o campo, os “Conservadores de Instagram” – não caiu lutando. Caiu rindo alto, apontando o dedo, repetindo slogans como um bêbado repete a mesma piada sem graça.
Ou sequer sabe que caiu, o que é pior.

Mudaram os rótulos, não a alma. É a mesma fome de aplauso, o mesmo vício em plateia, a mesma necessidade de parecer certo em vez de estar certo e os mesmos gritos, a mesma fúria que tanto condenamos na esquerda. Esquerda, direita… no fim das contas, dois espelhos rachados refletindo a mesma vaidade grotesca.

E percebi isso – tarde o bastante para doer, cedo o bastante para conseguir escapar com alguma dignidade.

Porque trincheira não é lugar de discurso. É lugar de homem confiável. De silêncio pesado. De olhar que não foge quando o mundo começa a cair aos pedaços. Quando olhei ao lado… não havia ninguém. Só caricaturas. Só gente performando coragem como quem posta foto de academia, exigindo obediência cega “democraticamente”, xingando e se enfurecendo contra quem prefere o verde-musgo ao verde-bandeira. Petistas de sinal trocado.

E aí a frase do Hemingway deixa de ser literatura. Vira sentença:
“Importa mais que a guerra.”

Importa tanto que, se não houver ninguém de valor ao nosso lado, a guerra perde o sentido. Vira teatro barato. Vira circo ideológico com ingresso grátis e dignidade cara demais para pagar.

Não abandonei a análise política, mas um bando de farsantes. E há uma diferença – e é algo que poucos têm coragem de admitir, porque exige engolir o orgulho, cuspir a própria história e aceitar que se lutou, por um tempo, ao lado de gente pequena.

Isso corrói.
Mas também limpa.

Melhor uma trincheira vazia do que uma cheia de covardes barulhentos. Melhor o silêncio honesto do que o grito ensaiado. Melhor a solidão de quem enxerga do que a companhia de quem apenas imita.

A verdade crua? Guerra nenhuma vale a pena se os homens ao nosso lado não prestam.
E quando não prestam, o único ato digno não é resistir – é sair.

Sem discurso. Sem despedida. Sem olhar para trás.
Só sair.
E deixar que eles gritem sozinhos, ecoando no vazio que merecem.

Eu fiz o movimento mais raro – não mudei de lado, eu saí do teatro. Isso custa caro, mas preserva o único capital que ainda importa: lucidez.

Se um dia eu voltar à trincheira, que seja por causa dos homens ao lado.

Nunca mais pela guerra.


Walter Biancardine



ENTRE DOIS FOGOS IGNORANTES - Conto

 


Finalmente um jornal corajoso publicou uma matéria minha, criticando a hipocrisia desse pessoal que se diz “conservador” apenas por moda. Sim, lá estava meu nome, bem grande, “Wilson Pagani”, a assinar a matéria que redigi, com a mesma contundência com que sempre critiquei a esquerda.

Não tardaram os comentários enfurecidos para o jornal. Nem os li. O que me deixou puto foi encontrar com dois amigos no shopping, um canhoto e outro de direita – ao mesmo tempo, pra cúmulo do azar. Digo azar porque são brasileiros médios e o QI dessa raça não costuma ultrapassar 83. Interpretar texto então, é desafio. Enfim, chegou o Oduvaldo, canhotaço e que, logo após os cumprimentos, já veio com seu bombardeio:

- Pagani, meu velho, por quê faz isso? Não percebe que está sendo um fascista? Dando corda pra esse bando de nazistas, que querem transformar o país num quartel?

Mal pronunciei a primeira frase e Tadeu, um amigo direitista, me cumprimentou já furioso, interrompendo o assunto sem cerimônia:

- Wilsinho, você é um bosta! Que merda é essa? Virou comunista? Vá pra Cuba que o pariu, cara! Como teve coragem de escrever aquilo?

E Oduvaldo, por sua vez:

- Nazista! Fascista! Você devia ter responsabilidade com o que escreve num meio de comunicação!

Tadeu não ficou atrás:

- Então você vai lá e escreve que a gente é hipócrita? Tu é petralha agora?

Tentei ponderar com meu amigo direitista, perguntando se ele havia lido realmente a matéria, se havia interpretado o texto – e Tadeu, furioso, sequer parou de me xingar enquanto isso.

- Tá me chamando de analfabeto? Ignorante é você, que critica a direita!

E Oduvaldo:

- Tu é fascista, nazista, homofóbico, racista…

Dei um pulo:

- Ei! Onde foi que falei de gays e negros na matéria?

Ambos:

- Não interessa!

E então me dei conta que aquilo não era uma discussão, mas somente uma sessão de catarse dos recalques e frustrações de cada um deles, vomitando na minha orelha tudo aquilo que jamais tiveram coragem de falar pros patrões, esposas, filhos… para a vida, enfim.

Deixei ambos me xingando, saí da portaria do shopping, atravessei a rua e fui pegar o ônibus.

Lá, duas jovens de cabelo azul, universitárias, me reconheceram e resmungaram:

- Olha o fascista aí, disseram, cochichando entre si.

E uma senhora, típica tia do zap sentada no banquinho, rosnou:

- Francamente… virou comunista…

Saí do ponto de ônibus e fui pro bar tomar umas Brahmas.


Wilson Pagani

(Meu alter ego)