segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

COVARDIA CULPOSA -


Embora não haja dolo, apenas culpa, ainda assim causa-me pasmo assistir renomados jornalistas da Oeste Sem Filtro defenderem fortemente a concessão de anistia aos presos políticos, encarcerados injustamente pelo fraudulento 8 de janeiro.

NÃO SE ANISTIA INOCENTES! E vou além: ressalvadas circunstâncias personalíssimas (saúde e etc.), aconselharia aos presos que, uma vez concedida a mesma – o que muito duvido – adotassem a firme recusa de tal benefício, pois seria a mais baixa humilhação, além de confissão implícita de uma culpa que não carregam.

Lembrou o jornalista Augusto Nunes a vergonhosa conjuntura política que provocou a promulgação do AI-5, no dia 13 de dezembro de 1968, e ressaltou ser a data idêntica ao nascimento do carrasco da pátria, Alexandre Imorais - e eis quando a data torna-se destino.

Ressaltou Nunes que a assinatura do ato, mercê de um Costa e Silva pré-derrame e apático, teria sido forçada pela assim chamada "linha dura" das Forças Armadas, e esbravejava pelo fato do STF - mais precisamente Imorais – ter cassado todas as liberdades do país e imposto uma ditadura apenas com a força de uma caneta, sem tropas, armas ou tanques, para melhor e mais convincente argumentação.

O que o nobre Augusto se esqueceu é que as Forças Armadas, hoje, são outras; seu Alto Comando está gostosamente sentado ao colo do ditador togado e nada deseja com assuntos tais como legalidade, honra e vergonha na cara. 

Não bastasse a frouxidão feminil da caserna, esqueceu-se o jornalista de outro e trágico fato: o artigo 142 – tantas vezes suplicado pelos brasileiros a Bolsonaro – pode ser invocado, constitucionalmente, pelos líderes de qualquer um dos Três Poderes da República. E o chefe do Judiciário chama-se Lewandowski, o homem que impichou Dilma Roussef mas rasgou seu julgamento – e a Constituição – ao meio, mantendo-a elegível, eleitoralmente.

O quê a Oeste Sem Filtro quer, afinal?

Que se conceda anistia a inocentes que, deste modo, estarão admitindo o cometimento de crimes jamais praticados?

Que Alexandre Imorais mande Lewandowski requerer o artigo 142, o qual será mansamente aprovado no Congresso, para assim reinar melhor?

Ou que as Forças Armadas se amotinem, prendam todos seus oficiais-Generais e se rebelem, invadam Brasília e ponham um fim neste sinistro cabaré da luz vermelha, que se transformou nossa República?

Das três opções acima, a única com alguma possibilidade é a do artigo 142, nas mãos do Judiciário.

E não se dá ideias ao inimigo. 

Melhor que Augusto Nunes mude de assunto ou cale a boca.


Walter Biancardine 



sábado, 14 de dezembro de 2024

GENERAL PRESO E ALTO COMANDO DIZ “AMÉM” -


Direto ao ponto: a farda nada mais manda neste país, prestando-se ao papel de meros jagunços serviçais da aristocracia togada – uns lixos verde-oliva que, uma vez cumprida suas obrigações, devem voltar para suas senzalas.

Longe de ser uma sucessão de desacatos, o parágrafo inicial apenas descreve a realidade humilhante das Forças Armadas brasileiras, jogadas neste esgoto por obra e graça da passividade carreirista de comandantes como Tomás Paiva e outros biltres de igual teor e forma, que ostentam o galardão de “Alto Comando”. Bela porcaria.

A prisão do General Braga Netto – fato inédito na história deste país – é a coroação da passividade afeminada e entreguista deste Alto Comando; a mesma foi determinada por razões pífias (como todas, em uma ditadura) tais como “obstrução de justiça” e por tentar “saber detalhes da delação do Tenente Coronel Mauro Cid”. 

O detalhe é que, segundo os noticiários, este mesmo Cid é que teria informado aos carrascos de toga que Braga Netto andava bisbilhotando sua delação – ou é mais um covarde fardado ou é mera intriga vil (não seria a primeira) da imprensa brasileira. Detalhes de delações apenas a Rede Globo possui a permissão de vazar.

Vamos repetir: Braga Netto é um General de quatro estrelas, o mais alto posto na carreira militar, e a Inquisição Togada pouco se lixou para isso, mandando prendê-lo e confiscando seus celulares, devassando suas conversas e entregando tal material para que a assessoria de imprensa da ditadura – a Rede Globo – faça o que sempre fez: invente calúnias, crie factóides e humilhe, a não mais poder, a grande e recente vítima do revanchismo esquerdista.

Houve tempos, recentes, em que tal abuso geraria grandes preocupações e abalos em toda a sociedade mas, diante de um Alto Comando tão afeminado, positivista a perder de vista e carreirista, resta ao brasileiro a infeliz certeza que a farda – rosa oliva – nada fará.

Está explicada nossa suprema humilhação de acendermos velas e dedicarmos orações, todos os dias, para que um estrangeiro – Donald Trump – nos tire de uma situação a qual não fomos homens suficientes para sairmos dela, por conta própria.

O Brasil encontrou um subsolo, no fundo de seu poço moral.

As vergonhas não param.


Walter Biancardine




segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

VIAGEM DECISIVA -


Em meu último artigo relatei recentíssima viagem que fiz ao Rio de Janeiro, usando-a como pano de fundo para diversas reflexões que me vieram à cabeça, estrada a fora – manias de ex-caminhoneiro, ex-motociclista e ex-andarilho, perdido na vida.

Sob o feitiço que as estradas sempre exerceram sobre mim, murmurei quanto à solidão, resmunguei privações e apertos, grunhi a respeito do isolamento de tudo e todos e, principalmente, rosnei contra um incerto, duvidoso e improvável futuro amoroso – romances, beijos e descobertas fascinantes são para jovens, e pouco se me dá o filme de Clint Eastwood (As Pontes de Madison) tentar resgatar, ao nível do viável, um romance entre criaturas com mais rugas que anos restantes de vida.

Contei, no artigo anterior, que a estrada acabou sem que meus pensamentos corrosivos cessassem, mas não disse tudo: a verdade é que, antes de rumar para casa, algum mórbido impulso levou-me ao bar do grande amigo, quase irmão e já falecido Rei do Rock, Luís Antônio, dono do The House of Rock and Roll, em Armação dos Búzios.

Adentrei o local – palco de tantas lembranças, alegrias inesquecíveis e companhias idem – e lá encontrei circunspecto rapaz, funcionário do bar, que consertava algumas cadeiras para a noite promissora. Narrei-lhe ínfima parte de minha história com a casa e com o Rei do Rock, o mesmo se espantou e prontamente se dispôs a tirar algumas fotografias minhas, o que muito agradeci.

Pensei nos anos passados, pensei em meu “brother” Luís Antônio, lembrei mesmo de minha vida errática sobre enorme motocicleta estradeira – escudo de motoclube nas costas – a perambular pelas estradas e desfrutar da viciante sensação de estar vivo sobre a terra. Mas lembrei também de pessoas que se foram, dos erros que cometi e tais “insights” foram suficientes para encerrar minha breve carreira como modelo do The House: chega de fotos, é hora de ir para casa.

O tempo não pára e, muito menos, anda para trás.

Tal viagem ao Rio – decisiva, como diz o título deste – teve o condão de ser um ponto final e definitivo em longo rastro de sangue que espalhei ao longo do caminho trilhado, pouco me importando com a repulsiva hemorragia de mágoas, solidões e tristezas que deixava pingar pelo chão. Ainda que anêmico, percebi-me curado: não mais passados, não mais assuntos irresolvíveis – se assim me parecem, assim serão.

E me dei conta que estas são as fundações para que se possa construir uma nova vida – solo sepulto, compactado e firme – com outros amores e novas alegrias.

Não sei quando nem como será, mas Deus não usa relógio: na hora certa, um amor baterá à minha porta e ela será explícita: “apenas quis te ver”.

Bendita seja esta viagem, que me abriu os olhos e ressuscitou meu coração.

Minha vida sempre foi, de fato, uma longa, longa estrada.


Walter Biancardine




domingo, 8 de dezembro de 2024

NADA É COMPLETO -


Os dias recentes tem sido corridos com a mudança de casa e toda uma rotina de vida para retomar, sempre sendo obrigado a lembrar de hábitos que perdi ou pequenos luxos há muito sepultados por longos anos de vida de náufrago – uma ilha de solidão, desesperança e miséria, cercado de pastos vazios por todos os lados.

Voltava eu de viagem ao Rio de Janeiro, onde fui cumprir obrigações profissionais e, ao atravessar a ponte Rio-Niterói, foi inevitável a lembrança que aquele Rio não mais era meu: excetuando meu filho Victor, nada mais tenho por lá. Os antigos amigos sumiram no mundo, muitos mesmo morreram e a velha turma de Copacabana se evanesceu, com os anos.

Igualmente desapareceu meu viço, o brilho e entusiasmo da juventude onde nada me parecia impossível e havia toda uma vida pela frente, para pôr em prática os mais loucos projetos ou sonhos, inclusive amorosos.

Não, esse tempo se foi. Ainda que tenha conseguido sobrepujar os desertos em torno, o agreste sempre habita a alma dos velhos, e doeu-me a falta de um amor.

Lembrei do conselho daquele que foi minha salvação, única mão estendida no momento mais miserável de minha existência, Alair Corrêa: “Esqueça tudo o que passou, rapaz. Esqueça as mágoas, esqueça as privações, a fome, o desamparo e agradeça tudo o que Deus tem te presenteado. Agora, vá e viva sua nova vida”, disse ele, na sabedoria de seus oitenta e vários anos de vida.

Dirigindo meu carro, vento fresco no rosto e a caminho de minha própria casa, orei em silêncio, agradecendo. E, confesso, algumas lágrimas indisfarçáveis vieram-me aos olhos em plena praça de pedágio da ponte, com todos olhando para mim.

Mas é da natureza vil do ser humano jamais dar-se por satisfeito ou contente com as bênçãos recebidas e em nada sou diferente do resto desta corja, a quem costumamos chamar de “humanidade”: eu também não estou satisfeito, sempre falta algo e a mim, agora, falta-me alguém.

Pela estrada vim pensando: onde um velho de minha idade poderá arranjar companhia? Uma mulher que dele goste e com ele se preocupe, que tenha não só atrativos físicos mas – em meu caso específico – possua e use igualmente cérebro e cultura para que, nestes anos cada vez mais platônicos da existência, possa eu sublimar a carne pelos debates filosóficos, teológicos ou mesmo quaisquer faits divers, desde que abordados com inteligência?

Não bastasse a inexistência de “locais de paquera” para velhos, ainda existe o agravante de que realmente ninguém conheço – jamais tive “amigas” (verdadeira abominação hipócrita, pois homens não tem amizade com mulheres) e, pior, trabalho em casa e sozinho, sequer existindo a possibilidade de surgir uma colega de trabalho interessante e em minha faixa etária.

Para ser justo e não afirmar a total ausência de “colegas de trabalho” (vá lá), existem as palestras que tenho comparecido no Rio de Janeiro, a convite da graciosa e pós-doutoranda Miss Jay. Creio, entretanto, que tal senhorita não apenas deva ter outros interesses que não sejam a escavação de fósseis paleolíticos como eu, bem como, certamente, desfrutará de verdadeira renca de solicitantes ao redor – notoriamente mais jovens que o brontossauro autor destas linhas.

A estrada acabou, cheguei em casa, guardei o carro na garagem e abri a porta – uma casa vazia.

Se lembranças de um passado decrépito ainda me perseguem, tal tormento é só um e chama-se “solidão”. Não tenho vergonha em reclamar nem de elocubrar meios de sair da mesma, afinal dizem que “sempre há um sapato velho para o pé cansado”.

Apenas espero que meu sapato velho – que Deus há de provir, perdoado o abuso – venha com um formoso intelecto e rechonchudo estofo cultural.

Cansei de arriscar dialéticas com bois e vacas.

Eles sempre vencem.


Walter Biancardine



quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

TURNING BACK THE OLD AND GOOD TIMES -


São terríveis as coisas que fazemos pela última vez e disso não nos damos conta.

Sim, houve uma última vez que fui ao The House of Rock and Roll ver e ouvir meu amigo, quase irmão e rei do rock nas horas vagas, Luís Antônio.

Um último "oh, yeah!" no momento em que cheguei e ele estava no palco. Um último Creedence Clearwater cantado para mim, pois ele sabia que eu gostava. Uma última vez em que ligou o motor de sua Harley Davidson no meio da música. Uma última vez em que sentou à minha mesa no intervalo, para saber das novas.

E houve um último abraço na hora de ir embora - certamente mal percebi, de bêbado que estava - e um último "vai pela sombra, bonitão", sabendo que eu estava em minha moto estradeira.

Jurei nunca mais voltar após sua partida deste mundo, mas voltei.

Jurei nunca mais respirar aquele ar, rescendendo a tantas memórias; dias e gentes que se foram, amores que se suicidaram por incúria, noites que amanheceram em terríveis dias de tempestades.

Mas de que servem as juras, se não podemos quebrá-las?

Luís Antônio, meu brôu, fui à sua casa hoje, bonitão.

E quase achei que você estava lá.







Walter Biancardine




domingo, 3 de novembro de 2024

POR QUEM OS SINOS DOBRAM?

 


Na famosa novela de Ernest Hemingway um homem chamado Roberto, dinamitador inglês, chega ao esconderijo de guerrilheiros a favor da república espanhola e conhece Maria, uma bela mulher que havia sido salva pelo grupo.

Não houve romance, a não ser em suas almas e na linguagem muda dos sentimentos. Eram tempos de uma sangrenta guerra civil, cotidiano de medo, caos e Guernica. A atração foi imediata, a morte os espreitava e, sem maiores conversas ou galanteios se uniram em amor, pois o amanhã era improvável.

O tema enfoca o quanto o sangue alheio nos importa, e a pressa do amor diante da morte - morte essa, por vezes, de quem sequer conhecemos: "Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado; todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; assim, a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti", escreveu John Donne.

A velhice leva o homem á guerra civil de sua existência; a luta cotidiana contra o fim de seus dias, a ceifadeira sempre à espreita – hoje, amanhã, depois. Quem sabe?

Sob o impiedoso ataque dos dias, meses ou anos, aqueles que ousaram resistir ao tempo aprenderam que já não mais restam tantos entardeceres para o romance e, tal qual Roberto e Maria, devem expressar seu amor urgente através de olhares, gestos e mesmo tons de voz.

Para mulheres mais jovens, impossível crer que tal secura tenha nascido sob manto tão pesado; para as mais velhas, o medo – de tudo, todos e da pouca vida que resta – as impede, em forma de recato.

Assim, os velhos percebem-se isolados e lamentam a falta de pedaços do coração, que oceanos tempestuosos da vida levaram. Muitos disso se dão conta, buscando a juventude no fundo de um copo ou em conversas desaforadas e mentirosas com amigos.

Mas pouquíssimos – homens ou mulheres – cresceram e resignaram-se ao ponto de considerar que nenhum sentimento é uma ilha.

Sim, pois todo amor é parte de um coração, de uma história, e se tal fervor for levado pelos dias negros da vida, o homem diminui-se: torna-se menor e apartado, como náufrago em ilha deserta, cercado apenas de lembranças por todos os lados. Assim é o fim de cada amor, somado ao tempo impiedoso, que insiste em passar; corações amputados de tais pedaços, esses, tanto nos diminuem por também sermos sentimentos, coração e história.

Solidão é o tamanho do espaço que sobra à nossa volta e corações sofridos são minúsculas ilhas, cercadas por um oceano de indiferença juvenil e bela.

Por isso não perguntes por quem os velhos choram. 

Eles choram por ti.


Walter Biancardine



segunda-feira, 28 de outubro de 2024

POR TODA ETERNIDADE

 


Um texto de uma moça que não conheço, chamada Rosemeri Martins, eventualmente visto em redes sociais mas que abriu-me o coração:

"Porto Alegre, 1983 -

O Hotel Majestic colocou Mário Quintana no olho da rua.

A miséria havia chegado absoluta ao universo do poeta.

Mário não se casou e não tinha filhos.

Estava só, falido, desesperançoso e sem ter para onde ir.

O porteiro do hotel, jogou na calçada um agasalho de Mário, que tinha ficado no quarto, e disse com frieza: - Toma, velho!

Derrotado, recitou ao porteiro: - A poesia não se entrega a quem a define.

Mário estava só.

Absolutamente só.

Onde estavam os passarinhos?

A sarjeta aguardava o ancião. Alguém como Mário Quintana jogado à própria sorte!

Paulo Roberto Falcão, que jogava na Roma, à época, estava de férias em sua cidade natal e soube do acontecido.

Imediatamente se dirigiu ao hotel e observou aquela cena absurda.

Triste, Mário chorava.

O craque estacionou seu carro, caminhou até o poeta e indagou: - Sr. Quintana, o que está acontecendo?

Mário ergueu os olhos e enxugou as lágrimas - daquelas que insistem em povoar os olhos dos poetas - e, reconhecendo o craque, lhe disse: - Quisera não fossem lágrimas, quisera eu não fosse um poeta, quisera ouvisse os conselhos de minha mãe e fosse engenheiro, médico, professor. Ninguém vive de comer poesia.

Mário explicou a Falcão que todo seu dinheiro acabara, que tudo o que possuía não era suficiente para pagar sequer uma diária do hotel.

Seus bens se resumiam apenas às malas depositadas na calçada.

De súbito, Falcão colocou a bagagem em seu carro, no mais completo silêncio.

E, em silencio, abriu a porta para Mario e o convidou a sentar-se no banco do carona.

Manobrou e estacionou na garagem de um outro hotel, o pomposo Royal.

Desceu as malas.

Chamou o gerente e lhe disse: - O Sr. Quintana agora é meu hóspede!

Por quanto tempo, Sr. Falcão? - indagou o funcionário.

O jogador observou o olhar tímido e surpreso do poeta e, enquanto o abraçava, comovido, respondeu: - POR TODA ETERNIDADE.

O Hotel Royal pertencia ao jogador!

O poeta faleceu em 1994.

Por isso sou fã desse ex jogador!

POR TODA ETERNIDADE"

__ O Hotel Majestic, abriga hoje em dia, a Casa de Cultura Mário Quintana, na Rua dos Andradas ( conhecida como Rua da Praia) no Centro Histórico de Porto Alegre -RS


Não me contive, e escrevi:

Não sou poeta, apenas teimoso prosador.

Não tenho o dom divino de um Quintana, não arrebato almas e sentimentos de ninguém, eis que somente escrevo nossas misérias cotidianas e derivo em sonhos filosóficos.

Não tenho amigos ricos ou poderosos, apenas um único - e sob seu teto vivo até hoje, abençoada mão estendida.

Jamais serei lembrado, muito menos louvado e aclamado.

Mas algo em comum tenho com o poeta: ambos conhecemos o gosto da rua, do desalento; saber-se em fim de linha à caminho da morte indigente.

Se em nada me posso comparar aos grandes, ao menos sobreviví ao oblivio - a carne, não o dom.

Mas já me basta ao meu orgulho combalido.

Não fale da fome, do desamparo e da solidão quem jamais os viveu em casos terminais - tudo isso pode rechear as páginas de um romance ou inspirar versos, mas não alimenta a barriga nem nos mantém de pé.

Bendito seja Deus, que me deu um único amigo e sua mão estendida.

Mesmo novamente de pé, jamais o esquecerei.


Walter Biancardine



sexta-feira, 25 de outubro de 2024

ESCREVO, LOGO EXISTO -


Meus agradecimentos à Doutora Miss Jay, pós-doutoranda em Análise do Discurso, por utilizar alguns ensaios filosóficos meus como "Estudo de Caso", em debates com seus colegas pós-Doutores esta semana, no Rio de Janeiro.

À parte a gentileza e simpatia da Doutora - que me permitiu atrevimentos tais como chamá-la por tal e carinhoso apelido - devo igualmente agradecer a ressurreição de minha autoestima profissional e, mesmo, pessoal. A escolha de meus textos empresta, certamente, algum valor tanto à carpintaria literária deste que vos escreve quanto, também e evidentemente, ao conteúdo dos mesmos.

Breve estarei de volta ao Rio para uma segunda fase de tais estudos, ligeiramente ansioso por saber-me tão bem vindo à rotina desta simpática Doutora.


Walter Biancardine



quinta-feira, 3 de outubro de 2024

ENEL: UM MONOPÓLIO PRIVADO -

 


Depois de três dias de trevas, sem energia elétrica e que me deixou sem internet - notícias e trabalho - sem geladeira (tudo estragou), sem tomar banho (acreditem, sem energia a bomba de água não funciona) e quase enlouquecendo, nas noites e madrugadas absolutamente escuras destes vastos pastos, eis-me aqui de volta.

O problema foi causado por uma "banana" - espécie de disjuntor - em um dos postes de transmissão, na estrada em frente onde moro. Houve alguma sobrecarga, ela desarmou (como todo disjuntor) e, para consertar, bastaria um funcionário com o bastão apropriado para religá-la, Sim, só isso, e que pode ser feito em cinco minutos sem, sequer, subir ao poste.

Pois bem: após três dias, nove reclamações à Enel, uma reclamação à ANEEL e mais uma queixa ao programa de meu amigo Eduander “Panorama”, aparentemente o problema foi solucionado.

Dois pontos nisso tudo merecem destaque: o primeiro é o absoluto descaso que a Enel ostenta aos seus clientes, principalmente aos que, como eu, moram em áreas rurais e são de baixa renda. Bem sabem eles que nenhum poder econômico ou - muito menos - político nós temos e, por isso, nos desprezam.

O segundo é a necessidade de aprendermos que fomos vítimas de um engodo esquerdista, promovido pelo sr. Fernando Henrique Cardoso em seus anos na presidência do Brasil, quando levou à cabo seu conhecido e extenso programa de privatizações.

Áreas como a telefonia, água e esgoto e energia elétrica foram privatizadas sob a alegação que "a concorrência entre as empresas favoreceria o consumidor, não só pela qualidade dos serviços como, também, pelos preços cobrados". Pois bem, à exceção da telefonia celular, todas as demais áreas simplesmente transformaram-se, de monopólios estatais, para monopólios privados!

Quais opções tenho, se estou insatisfeito com a Enel ou mesmo Prolagos? Há outra opção? Não, e para que uma companhia destas perca seu contrato com o Estado seria necessário um escândalo sem precedentes, amparado por extensos e vantajosos acordos políticos.

Reconheço que, em minha ignorância na engenharia civil e urbanismo (apesar de minha faculdade de arquitetura), pouco ou nada consigo imaginar em termos dois ou mais encanamentos de água e esgoto por baixo das ruas e calçadas ou fiações de várias companhias elétricas compartilhando o mesmo poste. A logística é, de fato, difícil.

Isto não nos exime, entretanto, da obrigação em cobrar tais companhias e mesmo exigir ações contundentes do Poder Público - concedente da licença - contra empresas relapsas ou incompetentes.

Somos nós, pagando nossas contas em dia, que concedemos a tais empresas suas condições de funcionamento, lucratividade e mesmo salários de funcionários, diretores e suas excelsas presidências.

Também somos nós, votando em pessoas certas, que "assinamos uma procuração" para que o eleito represente nossos interesses e conveniências - todos são nossos empregados.

Sim, o povo é quem manda.



Walter Biancardine




segunda-feira, 23 de setembro de 2024

ODE À ALEGRIA, NÃO À ESCRAVIDÃO – Ode An Die Freude




O Freunde, nicht diese Töne!

Sondern lasst uns angenehmere anstimmen

und freudenvollere!


Freude, schöner Götterfunken

Tochter aus Elysium

Wir betreten feuertrunken

Himmlische, dein Heiligtum!


Deine Zauber binden wieder

Was die Mode streng geteilt

Alle Menschen werden Brüder

Wo dein sanfter Flügel weilt…


Tradução:


Oh amigos, mudemos de tom!

Entoemos algo mais agradável

E cheio de alegria!


Alegria, mais belo fulgor divino

Filha dos Elíseos

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!


Tua magia volta a unir

O que o costume rigorosamente dividiu

Todos os homens se irmanam

Onde pairar teu voo suave...



Esta é a letra de uma das peças mais transcendentais da música clássica, da 9ª Sinfonia do genial Ludwig Van Beethoven, “Ode An Die Freude” – “Ode à Alegria”, algo próximo ao Divino e que aconselho ouvir, enquanto estiver lendo estas mal-traçadas linhas.

Confesso uma submissão quase infantil à tal melodia, que por um lado enche-me de felicidade inexplicável, por vezes injustificável mas sempre incontida e, por outro, sacode-me pelos ombros em um gesto de irmão que diz: “Anda! Esqueça a dor e levanta! O melhor ainda está por vir!”

E talvez seja o único momento em que ouso permitir que lágrimas cheguem-me aos olhos por pura e simples alegria, felicidade e pela triunfante sensação de respirar por sobre a terra. Sim, também sou humano; sim, também atrevo-me a chorar – sozinho – de felicidade. Pelo quê? Não o sei.

Menos ainda saberá o bom e velho Ludwig – aquele, o Beethoven – ao sofrer que sua obra prima, de inspiração quase deífica, seja aviltada em um gesto supremo de deboche cínico ao ser escolhida, como hino oficial, para uma das mais teratológicas excrescências da perversidade criativa humana: a União Europeia.

Não existe outra dupla de adjetivos – “deboche cínico” – que melhor nos faça compreender o requinte de sádica crueldade ao empregar tal peça, tendo em seu corpo versos como “Tua magia volta a unir/ O que o costume rigorosamente dividiu”, para dar corpo à tal alma penada escorada na união de povos para melhor escravizá-los, contrariando a máxima francesa “Diviser pour régner”.

A letra da mesma é um poema, escrito por Friedrich Schiller em 1785 e tocado no quarto movimento da 9.ª sinfonia de Ludwig van Beethoven. Nestes versos, Schiller expressava uma visão idealista da raça humana como irmandade, opinião que tanto este como Beethoven partilhavam mas que – certamente – jamais os incluiriam na monstruosidade globalista dos nossos tristes dias.

E a série de analogias não para por aí: logo de início aconselham Schiller e Ludwig que “mudemos de tom”, que falemos sobre algo mais agradável – e neste ponto o pérfido Antônio Gramsci veio, séculos depois, a calhar. Sim, haveremos de nos distrair e alegrar! Você não terá nada e será feliz! O mundo será vazio, despovoado, limpo e arejado de toda esta corja que se costuma chamar “humanidade”, graças às vacinas salvadoras – e nenhuma fábrica ou instalações custosas serão destruídas, bem como seu precioso lar, o que seria natural após catastrófica e despovoadora guerra!

Não haverão mais fronteiras, as ruas serão vazias nas “cidades de 15 minutos” e seu vizinho sequer falará sua língua, mas você terá seu celular, computador e games – todos eles do governo, alugados para você e devidamente “calibrados” para acessarem apenas conteúdos “sadios”. Seu trabalho será “home office”, suas noites de folga serão em casa, regadas a comidas e bebidas “delivery” e você jamais precisará andar novamente – mas o mundo não terá fronteiras, e os sábios sempre estarão zelando para que as justas leis globais sejam cumpridas em todo o planeta, ainda que não mais você deseje percorrê-lo.

Sim, cheios do “mais belo fulgor divino/ Filho dos Elíseos/ Ébrios de fogo entramos/ Em teu santuário celeste!” e, bêbados de consumo e futilidades, atenderemos apenas aos deuses globais e seus arcanjos midiáticos e corporativos!

E não haveremos de ligar para as antiquadas queixas de Beethoven e Schiller, que se remexem em seus túmulos, protestando contra a heresia cometida.

Alegria! An Die Freude! 2030 está próximo!






Walter Biancardine





quinta-feira, 19 de setembro de 2024

TECNOLOGIA (FINALMENTE) A SERVIÇO DO BEM -



O sonho de todo terrorista do Hamas é amarrar um cinturão de bombas ao corpo e explodir algum lugar bastante “ocidental e podre”, tal como fizeram com as Torres Gêmeas em Nova York, ou o massacre de jovens que comemoravam o Yom Kippur recentemente e até na infindável série de matanças de judeus, pouco ou nada noticiados por uma grande mídia – no mínimo – conivente. Deste modo, poderão chegar aos céus e desposar as infindáveis virgens, que estarão à sua espera para recompensar os esforços de tão devotado fiel.

Pois esqueçam: simples e obsoletos “pagers”, utilizados por grupos como o Hezbollah e Hamas e normalmente portados nos bolsos dianteiros das calças, estão explodindo como mágica e espalhando nuvens de genitálias voadoras ao redor de seus corpos. Ainda que cheguem aos céus, tais terroristas pouco ou nada terão a fazer com as incontáveis – e decepcionadas – virgens, à sua espera.

Para piorar, sequer o choque inicial foi absorvido e já rádios (walk-talkies) e mesmo celulares começaram hoje a, igualmente, explodir junto com seus portadores.

É a tecnologia a serviço do bem: enquanto a mídia mainstream norte americana, associada ao seu cinema, teatro e música, dedicaram-se durante quase um século a apenas destruir, difamar e envergonhar o cidadão pelo país que construiu e viveu; enquanto o próprio e demagogo governo valeu-se de tal onda cultural para emagrecer os dinheiros de seus exércitos, agências de inteligência (devidamente infiltrados, todos, de espiões internacionais) e órgãos como o FBI e a NASA, o Exército de Israel (IDF) e seu serviço de inteligência – Mossad – trabalharam com afinco para se atualizarem e desenvolverem métodos inusitados de prevenção, ataque, contra-ataque e defesa contra o inimigo (por enquanto) palestino.

A verdade é que, aparentemente, não existem nenhuns dispositivos pré-instalados em tais artefatos. A tecnologia israelense – auxiliada por alguns hackers, por suposto – encontrou meios de provocar tamanho superaquecimento nas baterias destes “gadgets” que, inevitavelmente, os levaria à explosão – e é somente isso que se sabe, ou se supõe, até o momento.

Para piorar a situação palestina, tal ataque provoca uma infinidade de camadas interpretativas, eis que o embaixador iraniano no Líbano, Mojtaba Amani, também ficou ferido em uma das explosões. Do mesmo modo, o ataque atingiu um “amigo” do repórter europeu, igualmente no Líbano, Elija J. Magnier. Este jornalista postou nas redes sociais suas lamentações pela “violência” praticada contra o amigo...terrorista.

O que um embaixador faz com contatos de terroristas? Seria ele avisado sobre cada ataque, para que se escondesse embaixo da mesa? E um repórter europeu? Estaria bebendo (perdão) diretamente na fonte? Mais que uma massiva ofensiva, que atingiu, matou e imobilizou milhares de terroristas, a ação do Mossad expôs o baile de máscaras hipócrita, dançado por agentes de governos e grande mídia, contra o Estado de Israel, o mundo e suas liberdades.

Poderá o leitor ponderar: “mas e os inocentes que eventualmente tenham sido atingidos pelas explosões?”

Respondo que, em primeiro lugar, as detonações não foram tão fortes a ponto de afetar nada que não fosse o próprio corpo do terrorista. Além do mais, onde estaria a humanidade de tal questionador, que não lembrou dos milhares de inocentes – crianças inclusive – mortos sem nenhum remorso por tais bestas-feras, em seus ataques assassinos? Eles podem matar, Israel não?

Insistente, tal questionador revidará: “Mas isso é sionismo!” E respondo: muito feio é confundir a legítima defesa de um povo, condenado à extinção pelo ódio anti-semita alheio, com um sionismo o qual ainda cabem discussões. O que não cabe discutir é a proteção e segurança dadas pelas IDF (Israel Defense Forces) e o Mossad ao povo judeu, que deseja apenas recuperar sua paz e a plena liberdade de existir.

E por falar na liberdade do ser humano, continuemos com a tecnologia a seu serviço: a censura determinada pela ditadura do Brasil à rede social X (antigo Twitter) de Elon Musk, que poderia gerar mais de 18 bilhões em prejuízos para os utilizadores da mesma, aparentemente foi contornada após a decisão de seu proprietário em utilizar os serviços da mundialmente conhecida Cloudfare, que atua como um “escudo” para proteger os servidores da rede social. 

Ao distribuir o tráfego do X por novas rotas, esses serviços criam obstáculos para o bloqueio do acesso à rede social, mesmo com a ordem judicial. O X passou então a empregar um novo software que não mais utiliza os IPs da rede social, mas sim os da Cloudflare, dificultando o bloqueio determinado pelo déspota Alexandre de Moraes, Ministro da Suprema Corte brasileira.

Segundo matéria de Rafael Fonseca no site brasileiro Carta de Notícias, especialistas na área de informática explicam que o uso de um proxy reverso, como o oferecido pela Cloudflare, permite mascarar o IP real do servidor, mostrando apenas o IP do proxy. Isso funciona como uma “barreira invisível” que protege a infraestrutura sem impactar a experiência dos usuários.

Ainda segundo a matéria, as provedoras de internet estão em contato com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para entender como fazer o bloqueio da rede, já que o IP registrado passou a ser o da Cloudflare. Porém isso tornou este novo capítulo, da saga entre Elon Musk e o ministro Alexandre de Moraes, um verdadeiro quebra-cabeças para o STF e para a Anatel solucionarem. O STF insiste em determinar o bloqueio do Cloudflare no Brasil, mas teme que uma enorme parte do conteúdo da internet brasileira – e de quase a totalidade dos serviços governamentais e de segurança – simplesmente se tornem indisponíveis.

Para completar o deboche, Elon – o Musk – postou ontem, no X, um claro trocadilho de deboche com a confusão provocada na cabeça dos déspotas brasileiros: “Any sufficiently advanced magic is indistinguishable from technology”. E eu acrescento: “Cloudflare is the name”.

A realidade que experimentamos até o momento é que as forças da ditadura brasileira, ao que parece, conseguiram um acordo com a Cloudflare, que “isolará” a rede X (Twitter) para que ela, e tão somente ela, seja bloqueada no Brasil conforme os desejos de Sua Majestade Alexandre, a Glande. Até o momento a situação é bastante confusa e, para muitos usuários a rede está inacessível enquanto, para outros, perfeitamente livres.

Mais que nunca, entretanto, devemos tomar consciência que a tecnologia, quando a serviço do bem, pode nos levar à vitória – tanto explodindo terroristas quanto expondo ditadores megalômanos a vexames mundiais.

Shalom, Alexandre.


Walter Biancardine





domingo, 8 de setembro de 2024

NOVOS HORIZONTES -

 


Estranhará o leitor minha longa ausência destas páginas, mas não se trata de relaxamento ou descuido com a atenção que sempre me deram: como sabem, nos últimos tempos uma misericordiosa sucessão de bons acontecimentos fez com que tivesse eu de desviar todo meu tempo e atenções para assuntos que podem decidir e impor novos rumos em minha vida.

Neste mês de agosto último tive a grata satisfação de ser convidado para escrever na prestigiada revista do Vale do Aço mineiro, Carta de Notícias. É uma demanda forte, artigos diários inclusive aos domingos, mas não reclamo – esta é minha vocação. Igualmente, neste mesmo mês, a prestigiada publicação portuguesa ContraCultura – um site que reúne refinados pensadores europeus e brasileiros – igualmente convocou-me para a honra de publicar meus desatinos tupiniquins em seu renomado espaço. Reconheço que a periodicidade é menor, apenas terças, quintas e domingos, mas o nível é outro e muito mais acima do corriqueiro.

Cabe ao leitor imaginar a exaustão cerebral de quem escreve, diariamente, durante oito ou mais horas para tais renomadas publicações e ainda, por puro atrevimento e porque sempre termino o que ousei começar, mete-se a continuar seu épico e inglório labor de escrever três – sim, três! - livros ao mesmo tempo.

Certamente quem me acompanha nestas mal-traçadas saberá de meus rabiscos a respeito do “Livre Arbítrio e o Determinismo Behaviorista”, bem como a introspectiva “Solidão e Transcendência” e o rebelde “Estilo e Ideologia”, todos eles teses filosóficas em maior ou menor profundidade, e que serão livros que publicarei.

Igualmente saberá o leitor, se me acompanha, dos artigos que cedi à bela Miss Jay – senhorita que está às voltas com teses em seu pós-doutorado em Letras, focando na “Análise do Discurso” e que solicitou os mesmos como “case history” para os debates com seus colegas, também pós-doutores (coisa que, confesso, sequer sabia da existência de tal graduação), infelizmente a milhares de quilômetros de mim  e que a mesma permita-me tal ousadia.

Fácil será concluir as razões de meu desaparecimento destas fedorentas páginas, ainda mais considerando a possibilidade – ainda um pouco distante, reconheço – de que tamanha atividade acabe por me levar a uma mudança de endereço, mais precisamente a uma mudança de cidade e que, devo admitir, muito me alegra. O quarto de século que vivi em Cabo Frio muito me ensinou, tirando-me tudo e aprisionando-me numa gaiola dourada de sonhos que, ao fim e ao cabo, revelaram-se pesadelos. Mas, tal como recentemente escrevi em meu perfil no Facebook, “A dor irá embora assim que eu aprender”, e ela está de malas prontas.

Que o leitor perdoe minha ausência e compreenda que o máximo que poderei fazer será – ao menos pelo próximo ano – republicar, nestas páginas, seleções de artigos já penosamente escritos para as outras publicações que participo.

A vida segue e conto com a companhia de vocês.

A dor irá embora assim que eu aprender



Walter Biancardine



quinta-feira, 29 de agosto de 2024

IMPERADOR NERO E O INCÊNDIO DAS LEIS -


Uma mente sequelada, pensamentos plenos de narcisismo doentio, paranoia persecutória e a fúria dos sociopatas: eis o homem.

Nero: assim tratarei aquele o qual “Não Se Pode Dizer o Nome” e deixando claro que, doravante, serei obrigado a abandonar quaisquer fundamentações legais ou mesmo morais (?) em seus atos, já que a única interpretação possível sobre o comportamento deste cidadão aponta diretamente para os aspectos psicológicos de uma mente sequelada, pensamentos plenos de um narcisismo doentio, paranoia persecutória e consequente fúria, incontida, dos sociopatas que creem-se deuses.

Nero derrubou Nosso Senhor Jesus Cristo de seu trono, instituiu-se “senhor do universo” em seu lugar e, por capricho e vaidade, retrocedeu ao Velho Testamento onde intentou lançar verdadeira “maldição bíblica” por sobre seus desafetos, estendendo-a não apenas às suas vítimas mas, também, a seus filhos e cônjuges – outra não pode ser a interpretação quando observamos seus avanços contra a filha adolescente do jornalista Oswaldo Eustáquio e, mais recentemente, à esposa do ex-deputado Daniel Silveira: ambas nada tem a ver ou participaram dos supostos atos daqueles perseguidos pelo doentio imperador, mas sofrem a extensão da “maldição até a sétima geração”, proferida pelo ensandecido “deus nouveau”.

Nero crê plenamente em sua onipotência: atritando-se contra Elon Musk, dono do X (Twitter) e renitente defensor da liberdade de expressão, igualmente decidiu amaldiçoar o mesmo e, não satisfeito em bloquear contas bancárias de uma empresa também de Musk – responsável por mais da metade das comunicações via satélite no Brasil – mas que nada tem a ver com a rede social, agora pretende decretar o fim deste mesmo X, utilizado inclusive por seu próprio palácio de marfim e por inúmeros órgãos públicos e estatais. Mas pouco importa, pois sua vontade é a lei.

Nero enxerga-se imparável, um deus vencedor e pouco ligou para “pequenos detalhes” legais que, por mera condescendência, fez a gentileza de cumprir. Deste modo, valeu-se do mesmo X, por ele sentenciado à morte, para enviar a fatal intimação ao seu dono – e os clamores e súplicas alheias, resmungando sobre a ilegalidade absurda de tal ato pouco mereceram sua atenção pois, como já dissemos, sua vontade é a lei, tudo usa e tudo pode.

Nero está em pleno banquete de poder, embriagado pelo mesmo e dana a ejacular seus caprichos em todas as direções, seja sentenciando à 17 anos de masmorras uma mulher que usou batom para ofendê-lo, ou prazeirosamente assistindo os ganidos de seus torturados em cárcere perpétuo, como Filipe G. Martins ou o próprio Daniel Silveira. Isso o ensandece, o poder é seu gozo e ostenta o mesmo em sua própria figura, fazendo de si um imenso símbolo fálico de toda sua indecente falta de limites.

Nero bem conhece a sedução que a onipotência exerce sobre almas fracas e covardes – sejam seus outros dez arcanjos do mal, coniventes apóstatas e terrivelmente covardes, ou mesmo por duas outras criaturas medíocres que poderiam expeli-lo de seus delírios, mas assim não o fazem pela fome de favores e benefícios, que os levam diretamente aos braços escamosos de tal Satanás tropical, que os agarra e os levarão para sua mesma danação.

Nero sabe, entretanto, que a imensa legião de escravos que mantém é a única real ameaça sobre seu reinado e, por isso, lança feitiços midiáticos para os intimidar e iludir – prazer e pavor reunidos em sua perversão, que não consegue evitar.

Nero sabe que incendiou as leis e se os escravos se revoltarem, seu fim será trágico.

Nero, porém, não receia o amanhã: ele tudo pode.

Nero teme, entretanto, sua própria cabeça.

Nero é bipolar.

Nero sabe-se louco, mas sua vontade é a lei.

Nero cairá.

Nero: eis o homem.



Walter Biancardine 




segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O VINHO QUE FICOU NA TAÇA - DESPEDIDA


Há um instante, sempre há, em que a memória engana o tempo e faz a realidade brincar de nostalgia.  

Hoje, ao andar pela cidade, vi um vinho na vitrine de uma loja e senti uma presença antiga e familiar. Era um daqueles momentos que têm cheiro, som, e até textura, como se eu estivesse novamente na velha cozinha, assistindo alguém que misturava risos e temperos com a mesma habilidade e silêncio com que pairava por sobre o comum dos mortais.

Recordo o ritual: com precisão quase cirúrgica, escolhia-se a taça certa, avaliava-se a cor do vinho com um olhar atento, sempre meio séria, mas com um brilho de satisfação impossível de não se notar. Eu, agarrado em textos e crônicas, imaginava que toda essa análise não fazia sentido – afinal, o que importava era o sabor, não?

Mas você sabia. E ensinou-me a ver a beleza no detalhe, a apreciar a vida em suas pequenas delicadezas como aquele vinho que, para mim, era apenas mais uma garrafa mas que, para você, era um universo a ser explorado – sim, “eu mereço!”

Sempre me pergunto quantos outros universos deixei de notar, preocupado demais com as banalidades do cotidiano e egoísmos. Quanto de nós ficou guardado como esse vinho, à espera de um “depois”, para ser aberto, degustado, compreendido?

Não, não se trata de voltar no tempo ou de reviver o que ficou para trás. Certamente somos diferentes agora, e isso é parte do que a vida exige de nós – mudança, aprendizado. Mas gostaria que soubesse que guardo, com carinho, tudo o que fomos e vivemos juntos.

Hoje, o tempo passou e não mais podemos brindar novamente. Pudesse, brindaria – não ao passado ou ao futuro, mas ao que somos hoje, à sabedoria que o tempo nos deu, e à gratidão por termos, em algum momento, compartilhado a mesma taça.

Se a memória é feita de instantes, que este seja mais um a nos lembrar que, mesmo separados, um brinde restou por fazer: um brinde à sua saúde, às suas conquistas, e ao que aprendemos – cada um de nós – sobre como ver a vida com olhos diferentes.

Afinal, você sempre soube que o vinho, assim como a vida, merece ser apreciado com calma, e não apenas bebido às pressas.

Al di la.


Walter Biancardine










sexta-feira, 23 de agosto de 2024

ME, MR. JACK AND MR. DAVIDSON: IS A LONG WAY HOME -


I have had much in my life, and I enjoyed love and pleasure.

These carefree days made me blind, a fool who lost everything through his own fault, and today only memories remain.

I had friends who surrounded me, gatherings and laughter; family would come together, and we would toast together, sheltered in my good and comfortable home. On weekends, the old and good rock and roll was inevitable at the bar of a great friend—almost a brother—who run it and sang there. The night would end in the welcoming arms of someone who is now gone, after the long ride home on my chopper.

Today, nothing remains; there are no friends, no family, no gatherings, no bars, no motorcycles, or beloved arms.

It’s not so bad if I don't want to be rich, but the little I want is so far beyond my misery.

But some day, I will have back my old and good motorcycle, my bottle of Jack Daniel’s, a fine cigar between my fingers, and the wind on my face from the roads—yeah, the same long roads, companions of a lifetime, which will take me back home. 

A new beloved one? Who knows...

It will be a long, long way home. 


Walter Biancardine



quinta-feira, 22 de agosto de 2024

SEM CÓPIAS -



Nestes dias de soberba, inflado que estou por escrever para duas prestigiadas publicações além de minha página pessoal, creio ser importante lembrar que o publicado no Carta de Notícias não é o mesmo artigo que o ContraCultura posta, bem como em minha página um terceiro artigo lá estará, para a apreciação de vocês.

São, portanto, três artigos diferentes postados em três sites diferentes - não basta escolher uma página e ler, ou perderá os outros dois, tratando de assuntos diversos.

Assim sendo e em decorrência de tais esforços intelectuais, descobri que o ser humano é capaz de sofrer "cãibras" cerebrais, se tal órgão porventura estiver habituado ao ócio e devaneio.

Somente as palavras elogiosas - bem como o ato de requisitar-me artigo - a mim dirigidas por "Miss Jay" tiveram o oportuno condão de amenizar tal contração involuntária de meus preguiçosos miolos - a vaidade em ser objeto de avaliação de pós-doutores sarou toda e qualquer ziquizira preguiçosa.

São três artigos, em três páginas.

Ajude este pobre escriba lendo, comentando e compartilhando os mesmos!


Walter Biancardine



quarta-feira, 21 de agosto de 2024

AGOSTO COM GOSTO -


Contrariando os sempre lembrados pressentimentos funestos associados ao mês de agosto, o deste ano da graça de 2024 está sendo, para mim, verdadeiro renascimento.

Começando com a solicitação da doutora "Miss Jay", requerendo permissão para uso de artigos meus em debates com seus colegas, igualmente doutores da língua portuguesa, tive também a grata satisfação de ser convidado pela editoria da revista Carta de Notícias a escrever artigos e análises políticas diárias, naquela publicação.

Completando tão auspicioso período, a direção do site português ContraCultura entendeu-me competente o suficiente para, igualmente, publicar em suas páginas. Este site notabiliza-se pela convergência de elevadas publicações, oriundas das melhores mentes europeias, o que infla ainda mais minha já quase extinta auto estima.

Ainda duvidando de meu merecimento em desempenhar um papel à altura das expectativas de pós-doutores, acadêmicos europeus e tarimbados jornalistas brasileiros, o mínimo que posso fazer em retribuição é postar o link das publicações citadas e convidar o leitor a prestigiá-las, seguro que estou em apresentar fontes confiáveis de informação.

Felicidade não costuma dar Ibope, mas espero que setembro seja ainda melhor!

https://cartadenoticias.com.br/

https://contra-cultura.com/


Walter Biancardine 



CONFISSÕES INDECENTES -

 


Haveremos de concordar que a palavra “acostumar” é um verbo perigoso, e mais traiçoeiro torna-se a depender da ocasião em que é dito e, pior, por quem é utilizado.

O brasileiro médio se “acostumou” à criminalidade onipresente nas ruas; fulano pode comer baiacu pois já está “acostumado”, beltrana “acostumou” às surras que leva do marido ou mesmo sicrano está “acostumado” a subir no telhado. Tudo isso, mais que um jeito coloquial de falar, reflete a aceitação passiva de fatos inusitados ou, até mesmo, ilegais – e, de fato, nos “acostumamos” a ter o STF montado em nossos cangotes, controlando, regulando e impondo o que bem entender, de acordo com as onze Constituições vigentes naquela casa, em Brasília.

Quando o Ministro Luís Roberto Barroso afirma que “houve uma mudança no papel do STF nos últimos tempos”, ele não está mentindo: de fato – e bem o sabemos, em nossa própria pele – houve, só que, tal como as sentenças acima, nos “acostumamos” a isso e sequer pouco ligamos.

Fossemos menos bovinos e perguntaríamos quem mudou esse papel? Quem autorizou? Qual lei assim prevê e o permite?

Ninguém, essa é a verdade. Assim, tal declaração significa verdadeira confissão de culpa e admissão do reconhecimento daquela casa como um “Soviete Supremo”, um desvio inconstitucional de suas atribuições, a impor o arbítrio togado por sobre todo o país.

Barroso diz que “o judiciário deixou de ser um departamento técnico especializado e passou a ser um poder político” e isso nos leva a outra pergunta: quantos votos ele teve? Quem os elegeu para tal finalidade? Em último caso, indaguemos quando ocorreram tais eleições porque, eu ao menos, sequer tomei conhecimento ou ouvi propagandas eleitorais.

E então percebemos que o feio defeito de “acostumar” não contamina somente a nós, raia miúda: o mesmo infecta, igualmente, figuras de alto escalão como este senhor togado que, “acostumado” que está com o poder nas mãos, sequer enrubesce ao dar declarações como essa. Foram absurdas? Sim, foram, mas Barroso está “acostumado”… Reagiremos? Não, pois também estamos “acostumados” ao arbítrio, às ilegalidades e desvios de função, nesta gloriosa República.

O brasileiro se acostumou a acostumar-se.

Triste fim.


Walter Biancardine






segunda-feira, 19 de agosto de 2024

RESSACA DE DOMINGO -

 


O sacrossanto domingo nosso de cada semana não deve ser acordado pelos disparates cotidianos, uma vez que a posição excludente e paradisíaca do mesmo deveria, em tese, isolá-lo dos dias úteis e aborrecimentos inúteis – este último, algo abundante ultimamente.

Contudo, saber de Sílvio Santos colocando seu baú nas costas e voando rumo ao céu produziu tamanho pasmo que, somado aos horrores alexandrinos, desvirtuou quaisquer pretensões de descanso, relaxamento e alegrias. Se, por desígnio de Deus, Sílvio foi mostrar a São Pedro seu carnê rigorosamente em dia – algo sobre o qual nenhum poder temos – por outro lado, a eventual abstenção de Ritalina por “Aquele Que Não Se Pode Dizer o Nome” ativou sua hiperatividade persecutória na direção de Elon Musk – Hélio Mosca, como é conhecido nas rodas da malandragem – e certamente provocará a saída da plataforma X-Twitter do Brasil, igualando-nos a países expoentes no elevado governar ditatorial, tais como Cuba, Coreia do Norte e tantos outros.

Não bastassem duas bombas no domingo, amanhecemos esta segunda feira assistindo a entrevista do jornalista Allan dos Santos – nominado no “Index Prohibitorum” da inquisição togada – na Rádio Auriverde, sob o comando do sempre excelente Alexandre Pittoli. Ora, se o mesmo objeto de busca através de “jagunços federais” estava a falar livremente em tal programa – retransmitido no YouTube e em TV aberta, o canal 581 da TVD por antenas parabólicas – isso significa que estamos na iminência de vermos mais um decreto alexandrino tirando tal canal do ar, ao menos na rede digital de vídeos.

De consolo por tal domingo amargo e subsequente ressaca de segunda feira, temos a conjuntura política atual que aponta, solene, o reluzente sapatão da vontade popular na direção das nádegas togadas deste cidadão, que receberá poderoso e inapelável pé na bunda institucional – e já irá tarde, muito tarde.

Aguardemos o decorrer da semana, neste país pródigo em excrescências jurídico-políticas.

Como diria o tarado, “Alea ejaculata est”.



Walter Biancardine





domingo, 18 de agosto de 2024

JAGUNÇOS FEDERAIS - ou "Receita Federal de Domingo"

 


No dia preguiçoso de hoje cairia bem arremedar o saudoso Paulo Mendes Campos e sua inesquecível crônica “Receita de Domingo”, mas a dura realidade não desfruta do descanso semanal remunerado: ela trabalha – feio, forte e sujo – todos os dias, todas as horas e nos violenta com a crueza que expõe patologias estatais.

Em sua tática de “estreitamento de uretra” Glenn Greenwald solta, gota à gota, a urina fétida dos combalidos rins de todo o sistema judiciário brasileiro, servindo-se da mesma e cúmplice grande mídia como diurético curativo das disputas palacianas de poder. E mesmo neste esplendoroso domingo onde poderíamos preguiçar, indolentes na dúvida entre boa praia ou whisky com amigos, somos obrigados – pelo bem do Brasil – a digerir tais e insalubres petiscos, vindos de Brasília.

O nobre e douto juiz Marco Antônio Vargas urinou sobre nós a seguinte frase referindo-se ao jornalista Allan dos Santos, exilado político nos EUA e, portanto, fora do alcance das garras do STF: “Por isso esse idiota se sente livre pra fazer o que faz. Dá vontade de mandar uns ‘jagunços’ (sic) pegar esse cara na marra e colocar num avião brasileiro”, disse o mesmo, em conversa com outro magistrado – Airton Vieira é o nome.

Admirável o voluntarismo de colocar-se na posição de “capanga” do Ministro Alexandre de Moraes – mais que capanga, um “capo regime”, tal qual as melhores e mais organizadas famílias mafiosas de Nova York dos anos 50. Igualmente batizou, de forma adesiva e eterna, os agentes da Polícia Federal com o subido adjetivo de “jagunços”, definindo de forma clara como julgam a subserviência de algumas alas desta instituição policial, desfrutada pela Suprema Corte.

Neste glorioso dia de descanso não devemos, entretanto, nos deixar ensombrecer por tal micção ardida. Sim, é fato que pingos ferventes como “perdeu, mané”, “missão dada é missão cumprida”, “derrotamos o bolsonarismo”, “use a criatividade” ou a inefável “vontade de chamar uns jagunços” podem causar queimação e dores, mas aprendemos – à duras penas – o quão perigoso pode ser a tentação de apelar para o Benzetacil fardado: seus efeitos colaterais podem ser terríveis.

Esqueçamos somente neste dia, por Deus decretado feriado, toda a mixórdia cotidiana e desfrutemos o sol, a praia, o clube, os amigos, a família e tudo o mais que nos agrada e afaga nossa alma – os esparsos mas valiosos carinhos da vida.

E permitamo-nos enlevar por, ao menos, algumas palavras de Paulo Mendes Campos em sua “Receita de Domingo”:

O livro deve dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo deveria ser composto de domingos. Então, nascer de nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.

Um bom whisky, cerveja Bohemia enregelada e petiscos: se neste momento o leitor serve-se dos mesmos, erga um brinde a nós.

Bom domingo a todos!

Amanhã começa tudo de novo!



Walter Biancardine