Hoje existem muitas assim. O surto de vaidade das pessoas galopa feito estouro de boiada e, com o ChatGPT escrevendo pelo vaidoso, todos querem “ser escritores”.
Ficou fácil, é só pagar.
É um novo filão editorial: explorar a vaidade alheia.
Oferecem o tradicional – revisão, diagramação, paginação, fazem a capa para você e, a depender do plano escolhido (e pago) te colocam até num estande na FLIP (feira Literária de Paraty).
Mas fazem também algo que eu mesmo gostaria de poder pagar: a propaganda do livro.
Não posso, não tenho um tostão e, por isso, achei grande sorte haver encontrado esta empresa. Você nada paga, mas faz tudo. Revisa, diagrama, faz capa e, inclusive, a propaganda.
E é aí que me lasco.
Minhas capas não são ruins, erros de português são poucos, mas a paginação e a propaganda sempre foram péssimas. Mancadas como começar um capítulo na página da esquerda ou contar com meia dúzia de amigos em redes sociais para divulgar ou comprar, é a receita do fracasso. Afinal, quem conhece Wilson Pagani, o cara que detesta multidões? Que, segundo alguns, até ofende seus leitores? Ou que teve a arrogância de abandonar o jornalismo pra se dedicar somente a contos, romances e até – vá lá que sejam – poesias?
Na verdade, a escrita é o caminho certo pra indigência. Todo escritor é um miserável, um fracassado que – das duas, uma – vomita seus recalques no papel ou estampa seu pedantismo de superioridade encadernado em capa dura. Se jornalistas, que podem arranjar emprego se jogarem sua dignidade no lixo, vivem na merda então é fácil imaginar o saldo bancário de um escritor. Faz lembrar os boletins escolares de minha juventude: sempre no vermelho.
Orgulho e necessidade não vivem sob o mesmo teto e o meu foi embora quando sequer um pacote de Miojo eu podia comprar. Pedi o Bolsa-Família, o mesmo que tanto escrevi criticando, quando ainda era um arrogante analista político.
Passei a ser frequentador assíduo do SUS com meu câncer de pele e mesmo arrisquei se o CAPS – Serviço de Assistência Psico-Social – poderia amenizar minha auto-diagnosticada depressão. Mas saí de lá correndo, certamente ficaria pior do que quando entrei.
Acabei descobrindo que o serviço público é esquizofrênico. O sistema é montado para sermos tratados como lixo. Alguns funcionários nos tratam como lixo. Mas outros nos surpreendem com sua humanidade e gentileza. E por isso menti onde morava.
O pessoal do posto de assistência social em que fui me tratou tão bem que, após minha última mudança de endereço, permaneci dizendo que morava no mesmo lugar. Era isso ou ser transferido para uma outra unidade, verdadeiro açougue – eu já havia passado de ônibus em frente e vi o matadouro – e nenhuma intenção tive disso.
- Sr. Pagani?, perguntou a moça do CRAS.
- Sim?
- Se o senhor confirma seu local de residência, então está tudo certo. Apenas agora existe a determinação de que eventualmente apareça um fiscal por lá.
- Fiscal? Pra quê?
- Pra saber se o senhor tá vivo, se mora lá mesmo, essas coisas… disse ela, sorrindo sem maldade.
Me despedi também sorrindo, mas uma pulga passou a morar atrás de minha orelha.
Que se dane, pensei. Se não nos tratassem como bichos, isso não aconteceria. Se o fiscal aparecer lá, simplesmente digo que tinha saído pra fazer um bico.
O sistema nos trata como lixo e ainda nos ensina a enganar.
Bela merda.













