A chuva voltou.
O chão do local onde durmo começou a inundar novamente.
Paredes verdes de limo e umidade. O preto do bolor forma figuras esfumadas, expressionistas, no rebôco.
O teto, forro quebrado e laje aparecendo, permanece pingando. As janelas, embaçadas, vazam.
E não há portas - tenho de entrar e sair pela janela molhada.
Não tenho energia elétrica, então sequer posso ler. Mas não há o que ler: todos os meus livros, a biblioteca de uma vida inteira, ficaram pra trás, juntamente com a história de minha existência - roupas, ferramentas, lembranças de bons momentos, utensilios de cozinha, sapatos, cobertores, lençóis, travesseiros e o bendito ventilador - ninguém ofereceu um carro para me ajudar a trazer - sim, sou o vilão de um drama contado por uma boca maldita.
Vim com uma muda de roupa dividida em duas bolsas, mais o notebook. E, se não há energia elétrica, então não há internet.
Ele jaz esquecido no fundo da mochila.
Também não há água na construção, tenho de me valer de um cano solto em meio ao mato - banho, escovar os dentes, tudo. Seja noite, dia, com chuva, frio, não importa.
E mesmo que houvesse condições no prédio, nele não existem banheiros ou cozinha - trata-se de uma velha bilheteria que vendia ingressos de um parque aquático, em ruínas, após anos de abandono.
Mas é um teto.
E um teto situado dentro de terras não é uma marquise - sempre serei grato por isso.
E se tenho o chão sempre alagado por dois dedos de água, ao menos descobri uma velha maca de ferro - atendimento de emergência de banhistas afogados - que é bem alta e me mantém a uma boa distância do chão. Nela tento, desesperadamente, deitar e dormir - sem ventilador, com calor, suor e mosquitos.
A privação do sono, sabidamente, enlouquece. O humor fica instável e imprevisível, o cérebro trava, a lucidez é um desafio e a burrice nos amarra mãos e pés. O quadro de tortura medieval se completa com o chão alagado, paredes mofadas, bolor, insetos e uma enlouquecedora coceira pelo corpo.
Sim, o nome é tortura - por mais que eu seja grato pelo teto - e sob ela me encontro há uns vinte dias.
Quantos mais virão?
Quantos ainda resistirei?
A minha pele já está tomada por bolhas e ferimentos. A coceira - em todo o corpo - infernal, incessante e diuturna, me faz coçar até sangrar e arrancar nacos de pele.
Não durmo porque coço. Porque suo. Porque tusso. Porque os mosquitos me atacam.
E a privação do sono, como disse, enlouquece.
Os dias seguem com bichos andando ao redor e a escuridão encobrindo insetos impensáveis e dolorosos.
Chão sempre alagado, não posso pisar descalço - o que pouco se me dá, pois minhas Havaianas arrebentaram.
O que sei é que mofo, bolor, umidade, calor ou frio são a receita certa para celas solitárias em um bom romance russo de terror político.
Mas eu sou o personagem. O condenado.
Se a morte é meu destino, um eventual perdão poderá vir do tempo, entretanto - do quão rápido eu consiga sair daqui.
Sou realista, não teatral - ninguém lê esta merda, o Google Analytics me vedou o acesso após estuprar meu YouTube, roubar 28 vídeos meus e me privar da renda (ninguém faz pix para quem escreve, o que importa é a dopamina dos videos) - e assim escrevo para mim mesmo, uma espécie de diário. Nem tudo o que posto aqui eu publico no Facebook - e este desabafo é um exemplo.
E meu realismo me diz que não vou durar muito - seja física ou mentalmente - aqui. Ninguém duraria. É uma câmara de tortura sub-humana. Uma fossa mortal.
Mas ainda me restam forças e, com elas, a chance de conseguir um emprego. E o emprego pode trazer uma quitinete salvadora - chão seco, casa limpa, sem umidade. E luz elétrica, água quente, potável, banho, cozinha - dormir limpo e com ventilador.
Geladeira, fogão e internet.
E saúde, novamente.
Meu prazo é curto.
Mas sigo tentando.
Pela minha vida, e pelo único amor que me resta nela.
Amores não morrem.
Walter Biancardine
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