domingo, 22 de março de 2026

O ESCRITOR E O BLUESMAN -



As profissões juntas no mesmo título já definem o tipo de escritor a que me refiro.
Não é o cronista mundano, o romancista que sai nos jornais ou os viciosos onanistas dos "bad romances".

Eu falo do temerário, do suicida que chama seus demônios pra resolver as diferenças na porrada, em cada capítulo de seus exorcismos impressos.
Esse é o escritor. E assim é, também, o bluesman.

Há que se escrever com machucados pelo corpo. Dores nas costas, alergias, sangramentos, cascas de feridas. Mãos calejadas e músculos exaustos.
Há que se escrever com angústia, dor na alma, vícios terríveis e medo.

Ônibus lotado, o dinheiro acabou e ainda é dia 15.
Essa mulher parece que não enxerga o que passo! A vida que levo!
Esse merda é patrão ou feitor? 
Onde entrego o currículo?
As vagas já fecharam?

Mosquitos, poeira, sujeira.
Suor, tensão e vontade de chegar em casa. 
Que casa?

Pobreza, miséria e a lucidez cruel, que não aponta um bom final - apenas recomenda se embebedar. 
De novo.
Mas a bebedeira só te deixa mais realista, lúcido. 

E eu escrevo uma história ou um testamento?
Esse crioulo toca música ou está ganindo de dor?
Linhas ou gemidos?
Acordes ou agonias?

Em cada linha, cada acorde, há um lamento a suplicar por redenção.  Sempre.
E que a ressaca e o eterno pé na bunda inspirem, pois são o ser humano em seu estado mais cru de puro e natural egoísmo. 

A fome desespera. Traz riffs, versos, linhas, parágrafos inteiros de luta animal pela sobrevivência. 
Boca seca. 
Gosto ruim. 
Dor no estômago. 

Que a solidão e o frio da noite entoem longos uivos nas cordas da guitarra e nas tortas linhas de minhas histórias de desejo, amor, de sexo feroz com quem sequer o enxerga - e o tesão sem recíproca é o acorde dissonante, tão ardido quanto a frase terminada em reticências. 
É o coito interrompido do fracasso, o colo que recusou o choro.

Esse escritor escreve blues em forma de livros. Neles, sangra sua alma e pede redenção. 
Sinceridade constrangedora, oração laica imprecando um Deus pagão que alivie sua carga.

O bluesman é um escritor com mais sorte - a melodia sussurra coisas, estados de espírito que nenhum parágrafo jamais dirá. 
Mas ambos se unem em desgraça. 
Choram por misérias verdadeiras que todos sentem, mas ninguém admite.

Ambos banidos. Ambos outsiders. 
Muito bons de se ler ou ouvir na vitrola, mas péssimos de se ter por perto - a menos que sejam de sua turma,  no bar.

Só que não existem mais turmas, não existem mais bares, sequer o papo furado, a filosofia de botequim.

Mas os escritores, os bluesman,  esses sempre estarão lá. 
Pois que as angústias, dores e paixões humanas sempre existirão,  sempre doerão.

Enquanto houver um único maldito ser humano sobre a terra.


Walter Biancardine


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