quarta-feira, 26 de agosto de 2026

JOGANDO BOLA DE GUDE COM DADOS


Na verdade, basta entender que minha vida sempre foi tentar ouvir um velho disco de vinil no CD player. Não encaixa. Não é próprio pra isso.
Este sou eu, o inadequado.

Editores dizem que o som do vinil é muito bom, mas não vende em um mercado que sequer CDs ouve mais. Em outras palavras, “não sou vendável”.

Escrevo sobre a vida.
E a vida fede. É suja, ruim e má muitas vezes.
Ao fim de um dia de trabalho voltamos pra casa com a bunda ardendo, pois somos enrabados das 8 às 6 da tarde e ainda temos de sorrir – é “networking”, dizem os hipócritas.

Vendemos nossa alma ao diabo quando temos uma profissão, e alugamos nossa existência ao patrão quando temos um emprego.

Mas é a vida. Ou não há como pagar aluguel, luz, água, gás, condomínio e os pequenos luxos (“é pra isso que trabalho, eu mereço”) como internet, Netflix, Spotify e a academia.

O cara vende a própria vida pra ter isso.
Quem faz seus horários é a empresa. Vigia suas palavras e opiniões por causa dos colegas de trabalho. Se veste como fosse feito em série no escritório. Come o que todos comem, vai onde todos vão, gosta do que eles gostam e dizem em casa, aos domingos:
- Minha vida é um sucesso!

Então escrevo mostrando como esse sujeito morreu. Vive ainda, mas morreu.
Não tem alma, não tem gostos, não ousa ter nada que seja dele – só dele. 

O medo assombra essa alma. Acha que chegou ao céu e mal reconhece os diabos à sua volta. E mente pros amigos dizendo que isso sim, é coisa de um homem decente e correto.


E eu, na minha imundície, mostro a miséria humana que é um infeliz assim. E os editores se unem aos mais delicadinhos e me pregam na cruz da execração, porque ouso feder onde todos andam perfumados; tenho o atrevimento de mostrar as latas de lixo nos fundos daquele edifício de luxo e falsidade.

E ninguém, nunca, vai comprar um livro meu.
Pra quê?

Ando pelos acostamentos das estradas e faço um inventário da vida dos outros, olhando calcinhas largadas, pinos de cocaína, latas de cerveja, embalagens do Bob’s e até bichos mortos. Vejo isso tudo e faço uma crônica.
Porque é nos acostamentos que largamos aquilo que não queremos ou não podemos levar pra casa.

E eu ando nesses acostamentos.

E também vejo gente que gasta o Bolsa-Família inteiro no jogo do Tigrinho ou exibindo cervejas no boteco, deixando o resto da família se virar nas ruas porque ele quer mostrar que “tá com a vida ganha”.
Então escrevo que tanto faz. Rico, remediado, pobre ou indigente, a merda é sempre igual.

E a porca vida não deixa de ser justa, pois fode todos nós sem distinção de escolaridade ou faixa de renda.


E isso vira livro.
Contos, crônicas, poemas.
Linhas que nada costuram.
Letras que nada cantam.

Coisas que ninguém compra.

E os editores fogem de mim como o diabo da cruz.





Walter Biancardine


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