Na verdade, basta entender que minha vida sempre foi tentar ouvir um velho disco de vinil no CD player. Não encaixa. Não é próprio pra isso.
Este sou eu, o inadequado.
Editores dizem que o som do vinil é muito bom, mas não vende em um mercado que sequer CDs ouve mais. Em outras palavras, “não sou vendável”.
Escrevo sobre a vida.
E a vida fede. É suja, ruim e má muitas vezes.
Ao fim de um dia de trabalho voltamos pra casa com a bunda ardendo, pois somos enrabados das 8 às 6 da tarde e ainda temos de sorrir – é “networking”, dizem os hipócritas.
Vendemos nossa alma ao diabo quando temos uma profissão, e alugamos nossa existência ao patrão quando temos um emprego.
Mas é a vida. Ou não há como pagar aluguel, luz, água, gás, condomínio e os pequenos luxos (“é pra isso que trabalho, eu mereço”) como internet, Netflix, Spotify e a academia.
O cara vende a própria vida pra ter isso.
Quem faz seus horários é a empresa. Vigia suas palavras e opiniões por causa dos colegas de trabalho. Se veste como fosse feito em série no escritório. Come o que todos comem, vai onde todos vão, gosta do que eles gostam e dizem em casa, aos domingos:
- Minha vida é um sucesso!
Então escrevo mostrando como esse sujeito morreu. Vive ainda, mas morreu.
Não tem alma, não tem gostos, não ousa ter nada que seja dele – só dele.
O medo assombra essa alma. Acha que chegou ao céu e mal reconhece os diabos à sua volta. E mente pros amigos dizendo que isso sim, é coisa de um homem decente e correto.
Este sou eu, o inadequado.
Editores dizem que o som do vinil é muito bom, mas não vende em um mercado que sequer CDs ouve mais. Em outras palavras, “não sou vendável”.
Escrevo sobre a vida.
E a vida fede. É suja, ruim e má muitas vezes.
Ao fim de um dia de trabalho voltamos pra casa com a bunda ardendo, pois somos enrabados das 8 às 6 da tarde e ainda temos de sorrir – é “networking”, dizem os hipócritas.
Vendemos nossa alma ao diabo quando temos uma profissão, e alugamos nossa existência ao patrão quando temos um emprego.
Mas é a vida. Ou não há como pagar aluguel, luz, água, gás, condomínio e os pequenos luxos (“é pra isso que trabalho, eu mereço”) como internet, Netflix, Spotify e a academia.
O cara vende a própria vida pra ter isso.
Quem faz seus horários é a empresa. Vigia suas palavras e opiniões por causa dos colegas de trabalho. Se veste como fosse feito em série no escritório. Come o que todos comem, vai onde todos vão, gosta do que eles gostam e dizem em casa, aos domingos:
- Minha vida é um sucesso!
Então escrevo mostrando como esse sujeito morreu. Vive ainda, mas morreu.
Não tem alma, não tem gostos, não ousa ter nada que seja dele – só dele.
O medo assombra essa alma. Acha que chegou ao céu e mal reconhece os diabos à sua volta. E mente pros amigos dizendo que isso sim, é coisa de um homem decente e correto.
E eu, na minha imundície, mostro a miséria humana que é um infeliz assim. E os editores se unem aos mais delicadinhos e me pregam na cruz da execração, porque ouso feder onde todos andam perfumados; tenho o atrevimento de mostrar as latas de lixo nos fundos daquele edifício de luxo e falsidade.
E ninguém, nunca, vai comprar um livro meu.
Pra quê?
Ando pelos acostamentos das estradas e faço um inventário da vida dos outros, olhando calcinhas largadas, pinos de cocaína, latas de cerveja, embalagens do Bob’s e até bichos mortos. Vejo isso tudo e faço uma crônica.
Porque é nos acostamentos que largamos aquilo que não queremos ou não podemos levar pra casa.
E eu ando nesses acostamentos.
E também vejo gente que gasta o Bolsa-Família inteiro no jogo do Tigrinho ou exibindo cervejas no boteco, deixando o resto da família se virar nas ruas porque ele quer mostrar que “tá com a vida ganha”.
Então escrevo que tanto faz. Rico, remediado, pobre ou indigente, a merda é sempre igual.
E a porca vida não deixa de ser justa, pois fode todos nós sem distinção de escolaridade ou faixa de renda.
E ninguém, nunca, vai comprar um livro meu.
Pra quê?
Ando pelos acostamentos das estradas e faço um inventário da vida dos outros, olhando calcinhas largadas, pinos de cocaína, latas de cerveja, embalagens do Bob’s e até bichos mortos. Vejo isso tudo e faço uma crônica.
Porque é nos acostamentos que largamos aquilo que não queremos ou não podemos levar pra casa.
E eu ando nesses acostamentos.
E também vejo gente que gasta o Bolsa-Família inteiro no jogo do Tigrinho ou exibindo cervejas no boteco, deixando o resto da família se virar nas ruas porque ele quer mostrar que “tá com a vida ganha”.
Então escrevo que tanto faz. Rico, remediado, pobre ou indigente, a merda é sempre igual.
E a porca vida não deixa de ser justa, pois fode todos nós sem distinção de escolaridade ou faixa de renda.
E isso vira livro.
Contos, crônicas, poemas.
Linhas que nada costuram.
Letras que nada cantam.
Coisas que ninguém compra.
E os editores fogem de mim como o diabo da cruz.
Walter Biancardine
Linhas que nada costuram.
Letras que nada cantam.
Coisas que ninguém compra.
E os editores fogem de mim como o diabo da cruz.
Walter Biancardine

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