quinta-feira, 13 de março de 2025

A VIDA É UMA GANGORRA -

 


Posso dizer que nasci privilegiado, em uma época de fartura familiar, prestígio e tranquilidade. Assim segui até meus vinte e poucos anos quando, em decorrência da doença – e consequente falência – de meu pai, associado ao AVC de minha mãe ocorrido logo depois, tudo mudou.

Não mais longas temporadas em Cabo Frio, não mais carros importados, lanchas, dinheiro no bolso e – inevitavelmente – respeito e deferências alheios, pois os ratos sempre abandonam o navio que faz água; e tudo isso registrava eu em meus escritos, consciente que estava dos mesmos jamais serem publicados por ninguém.

Fiz o que pude, para manter-me à tona: estoquista de auto-peças, entregas, fretes e até mesmo abri uma espécie de padaria, em um condomínio de Copacabana, a qual não deu certo e acabou de enterrar-me. Mas o pior ainda estava por vir: a morte de meu pai.

Tão desbaratinado fiquei que pedi demissão de onde trabalhava e, em uma ânsia auto destrutiva, recolhi-me em casa disposto a só sair do quarto quando as trombetas do apocalipse tocassem. Mas então veio a OEA, oferecida por parentes do lado materno da família – e a gangorra da vida, na qual sentava eu no banco de baixo, ergueu-se novamente e a dupla infalível (dinheiro e aduladores) voltou a povoar minha vida.

Por estes anos deixei de escrever, pois não queria correr o risco de cagoetar em papel coisas que jamais deveriam sair das quatro paredes dos sofisticados escritórios daquele organismo diplomático. Por outro lado, meu filho acabara de nascer e isso me colocava em uma posição ainda mais vulnerável e, por isso e tal qual alguns monges, fiz meu “voto de silêncio” secular.

Finda a missão – a qual, creio, bem a desempenhei pois continuei a receber salários durante um ano após minha saída – um bom amigo, já falecido, sugeriu que seguisse meu antigo sonho, a aviação: “Esse negócio de escrever é fazer vestibular para pobre”, dizia ele. E fui tentar sonhar.

Por oito anos e milhares de horas de voo persisti em tal afã. Metade deles tive uma boa remuneração – comprei carros, montei minha casa e mudei-me para Cabo Frio – e a outra metade gastei em voos de teste, sem ganhar um tostão e definhando diariamente, apenas com a esperança de ser aprovado em um projeto que algumas entidades norte-americanas selecionavam pilotos, por aqui. E não fui aprovado por minha arrogância: na última etapa das provas vinha eu para pouso, quando o Controle avisou haver “tesoura de vento” na cabeceira da pista. Por incrível que pareça, dei o “Ok, ciente” e prossegui como se nada houvesse. Resultado? Pouso “placado” e minha desclassificação. E pobreza novamente, é claro.

Quase um ano errei sem rumo, buscando trabalho aqui e ali, quando um outro parceiro me ligou e disse que uma rádio, aqui de Cabo Frio, precisava de repórteres – segundo ele, “eu escrevia direitinho e daria conta”.

Jamais entendi como ele soube que eu escrevia, pois não só o conhecia apenas das noitadas de farra como, também, já fazia alguns anos que meus maiores textos eram listas de compra no mercado.

O resto é história conhecida: da rádio fui para jornais, revistas e TV e, me perdoem os desgostosos, mudei a maneira de se produzir notícias na cidade – até então aprisionada no velho e provinciano formato de “relações públicas dos poderosos”. Quem era burro eu chamava de burro, ladrão de ladrão e incompetente de incompetente, chegando ao ponto de, pelos idos de 2006 ou 2007, afirmar em alto e bom som, na redação do jornal, que “não existe jornalismo imparcial” – e isso deixou minha então editora em estado de choque.

É óbvio que fui “cancelado” pelo seleto e unido clubinho esquerdista da mídia cabofriense, e hoje sou “persona non grata” em qualquer publicação por aqui. Por estes tempos também minha mãe e irmã morreram, e tive de aprender a conviver com isso - mas, até hoje, em cada dia nublado, vejo minha mãe coando café.

De tudo isso, o que fica são as lições que aprendi. Ao contrário de muitos, que creem só haver aprendizado na miséria e privações, posso dizer com conhecimento de causa – pois vivi os dois lados, fartura e escassez – que tanto na riqueza quanto na pobreza extraímos preciosas lições, apenas alegarmos que a miséria nos ensinou é mais poético.

Na infância convivi com artistas, militares de última patente – alguns, depois, foram Ministros – e depois, na OEA, apertei a mão de Chefes de Estado e importantíssimos “sabe-se-lá-o-quê” ao redor, conhecendo e aprendendo que todos eles são apenas seres humanos como eu – humanos, demasiadamente humanos, diria Nietzsche. Alguns, apenas vulgares e rasteiros; outros, claramente obtusos e despreparados e, alguns poucos, realmente perspicazes e de inteligência relevante – mas, em sua maioria, uns medíocres.

Por outro lado, ao dirigir um caminhão ou vagar sem rumo e teto pelas estradas, encontrei pessoas sem nenhuma cultura, nenhum preparo, mas com um coração de ouro. Elas não fazem rodeios e vão direto ao que você precisa: “Quer água ou um café, um cigarro?”, “coma este prato de comida aqui” ou “tem um barraquinho lá atrás, pode dormir nele que não chove dentro”. E isso não tem preço, apenas o elevadíssimo valor da compaixão.

A pobreza, entretanto, não é sinônimo de virtudes pois a mediocridade de alma e a inveja – uma inacreditável e rasteira inveja – campeia em muitos, fazendo com que ambicionem uma simples sandália Havaiana que esteja calçando.

Ao final de toda a mixórdia descrita acima, posso dizer apenas que o maior e mais valoroso bem que um ser humano pode ter são seus amigos – os verdadeiros amigos – que lhe oferecerão tudo em maus momentos e comemorarão contigo nos bons. O dinheiro perdemos e ganhamos, a corja de aduladores é inevitável quando estamos no andar de cima, tal qual os dedos apontados e condenatórios quando nos afundamos na miséria. Mas os amigos, estes ficam e são incondicionais.

E por quê, mesmo tendo dado alguns passos à frente, ainda sigo nesta vida difícil?

Em primeiro lugar porque, no Brasil, o sucesso é um insulto pessoal. As pessoas até podem querer ver você bem, mas nunca melhor que elas. Em segundo lugar, por ser eu verdadeira mula, empacado em minhas teimosias e incapaz de defender coisas que não acredito, apenas em busca de chances e oportunidades profissionais.

E em terceiro e último lugar, por eu não ter amigos.

Aprenda comigo, jovem. E faça tudo ao contrário.



Walter Biancardine



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