A partir deste 31 de março não mais estarei, diariamente, nas páginas da querida revista Carta de Notícias, bem como após o dia 30, domingo, igualmente será o início de uma nova fase no prestigiado site europeu ContraCultura: para ambas publicações, escreverei somente aos domingos e o amigo leitor se verá livre de meus impropérios diários, nas citadas revistas.
Tal mudança se deve à necessidade de buscar emprego – qualquer um, pois bem sei que, no Brasil, escrever é um luxo para diletantes ricos – e assim fazer frente às minhas despesas, por mínimas e quase ridículas que sejam.
Confesso que o salto dado – de morar de favor no meio do mato para alugar uma casa, comprar um carro e ter uma vida quase normal – pode ter parecido temerário, para muitos. Entretanto, em nenhum momento se tratou de ambição ou preocupações sociais: era, pura e simplesmente, um remédio radical para meu equilíbrio psíquico, sob grave ameaça. Miséria e solidão compulsória tem limites; após anos de privações atingi o meu e a oportunidade de deixar tal ilha de náufrago surgiu, através da assessoria nos trabalhos de agradável pós-doutoranda (pós-PhD), que bem me remunerou e permitiu-me a sanidade mental.
Tal contrato, entretanto, termina neste mesmo 31 de março. Assim sendo, é hora de voltar à vida real e roçar a barriga atrás de um balcão do comércio, sendo vigia noturno, repositor de supermercados ou o que for, pois bem sei de minhas deficiências acadêmicas – as quais, graças a Deus, jamais foram intelectuais e permitiram-me um aprendizado autônomo razoável – e contar com o sacrossanto salário, ao final do mês.
Sei que o trabalho rotineiro e seus horários não deixam muita folga para as aventuras do conhecimento, por isso – e por pura teimosia – combinei com meus pacientes editores a possibilidade de escrever somente aos finais de semana, pois é uma maneira de não me afastar totalmente do mundo da cultura e (creiam) emburrecer-me.
Se os últimos anos foram torturantes em termos de privações e de uma solidão atroz, por outro lado permitiu-me o privilégio de escrever seis livros, estudar, aprender e esculpir, no duro granito de minha ignorância, algo que nada ou ninguém poderá tirar-me: o saber, por mais rarefeito que seja.
Acrescento que hoje, aos sessenta e um anos de vida e tendo já desfrutado de todas as experiências e situações possíveis, pouco ambiciono e nenhuns projetos de glória pessoal ou prosperidade possuo. Tudo o que desejo é morar em um bairro comum, pagar minhas contas, ver seres humanos ao meu redor e, se possível, ler, estudar, aprender e escrever em meus momentos de folga, enquanto a lucidez permitir.
Dado os meus parcos gastos mensais – quase ridículos – não preciso de grandes salários para manter-me e esta é minha arma para tentar, o mais breve possível, conseguir trabalho. Assim, tomei tal decisão (ainda que obviamente motivada pelo fim do contrato) e é hora de seguir em frente.
Aos quatro ou cinco leitores que eventualmente sintam minha falta, lembro que todos os domingos estarei (ainda) nas páginas do Carta de Notícias e do chiquíssimo ContraCultura, com o brinde de eventuais postagens, como essa, em minha página pessoal.
Não é um adeus, é mais um “a gente se vê por aí”.
Walter Biancardine
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