quarta-feira, 29 de abril de 2026

É ISSO QUE VOCÊS QUEREM? -


O circo pegou fogo – e ninguém quer apagar. 
O novo coliseu cabe na palma da mão e atende pelos nomes de Instagram, Facebook ou Twitter.

O picadeiro agora é uma arena de bolso, onde covarde vira gladiador de comentário e imbecil vira juiz de execução. 
Sem pudor, sem freio, sem vergonha. 
Só uma turba elétrica, histérica, mastigando nomes como se fossem ossos.

Querem sangue.
Não é metáfora. É fetiche.
Não há mais lado. Não há mais causa. Há só dentes rangendo, olhos vidrados e uma fome que não é de justiça – é de carne.
Querem sangue.

O de Luiz Inácio Lula da Silva, servido quente, de preferência em transmissão ao vivo.
O dos ministros do Supremo Tribunal Federal, em fatias, com comentários e emojis.
Mas isso já era esperado. O problema – o câncer mesmo – é outro.
A faca virou para dentro.

Seguidores de Allan dos Santos babam pela queda de Kim Paim.
Seguidores de Kim contam os minutos pra ver Allan afundar.
Não é divergência.
É linchamento recreativo.

Em Minas Gerais, querem Romeu Zema na guilhotina.
Na outra esquina, Flávio Bolsonaro na fogueira.
E os filhos de Jair Bolsonaro? Viraram menu degustação. 
Um por noite, com direito a avaliação nos comentários: “crocante por fora, sangrando por dentro”.

É isso que chamam de “direita”?
Um bando de gente que não consegue sustentar uma ideia por cinco minutos sem precisar arrancar o fígado de alguém?
Isso não é força. É fraqueza berrada.
É covardia com filtro.

Enquanto a turba se delicia, o sujeito que um dia concentrou tudo isso – Jair Bolsonaro – vai sendo mastigado vivo. 
Não por inimigos – por fãs. 
Não por oposição – por plateia. 
O fim mais baixo: virar esquecimento em câmera lenta.
E ninguém pisca.
Porque o show não pode parar.

Querem Nikolas Ferreira fazendo caminhada como se fosse Jesus entrando em Jerusalém.
Processo contra Gustavo Gayer vira episódio, com teoria conspiratória de quinta.

A cada notificação, uma execução simbólica. 
A cada like, um empurrão a mais na beira do abismo.
E ainda têm a pachorra de falar em liberdade.
Liberdade de quê?
De destruir o próprio campo?
De transformar aliado em inimigo com a mesma facilidade com que troca de camisa?
Chamam isso de conservadorismo?
Conservar o quê – a burrice? A vaidade? O vício em espetáculo?

E no meio disso – essa palavra que adoram usar quando convém – a “ditadura” – ela vai passando como um garçom invisível. 
Ninguém olha. Ninguém chama. Ninguém paga a conta.
Porque o importante não é a liberdade.
É o espetáculo.

Não querem vitória.
Querem vingança.
Não querem ordem.
Querem catarse.
Não querem verdade.
Querem um inimigo novo a cada manhã, como quem precisa de café pra acordar.

A verdade nua: não querem vencer. Não querem governar. Não querem sequer entender.
Querem sentir.
Aquela descarga curta, suja, barata – o prazer de ver alguém cair. 
Hoje o outro. Amanhã o próprio.
Porque esse tipo de fome não sacia. Só aumenta.

Enquanto isso, o cenário fecha, aperta, sufoca. 
Pode chamar do que quiser – o nome pouco importa quando a corda está no pescoço.
Mas a turba não vê a corda.
Está ocupada pedindo mais sangue.
Mais cortes.
Mais escândalos.
Mais degolas virtuais.

A velha Roma pelo menos sabia que aquilo era barbárie. Hoje se chama isso de “conteúdo”.
E seguem pedindo mais.
Sempre mais sangue.
Até não sobrar ninguém – nem cabeças para cortar.

E então vem o silêncio.
A ressaca.
O vazio.

Mas aí já será tarde. 
Sempre é.

Uma velha lei esquecida: quem vive de assistir execução acaba na fila da espada – e ainda acha que é entretenimento até o último segundo.

Então, sem teatro, sem lirismo, sem a desculpa confortável da ignorância:

É isso mesmo que vocês querem?

Sangue?



Walter Biancardine



SEM TEMPO -

 


O tempo melhora o uísque, 
melhora o vinho,
mas esquenta a cerveja,
e aquele resto no copo.

Amargo como a vida,
saideira intragável, 
nos mostrando coisas 
que seria melhor não saber.

Esfria o café,
esfria o convite,
esfria o encontro,
resto no copo.

Entope cinzeiros e artérias,
cigarros e corações frustrados,
deleta amores, exclui amigos,
o tempo é senhor da paixão.

O tempo pouco se importa,
segue sua marcha, e eu
pendurado nele,
como pingente no trem.

Porque nunca há vagas
para viajar confortável.

Tempo é dor
com pitadas felizes
num relógio de camelô.

E a bateria acaba.


Walter Biancardine




segunda-feira, 27 de abril de 2026

LUA CHEIA -

Rondando agora a noite pelo pasto, sozinho.
Olho o céu. Estrelas que não são vistas nas cidades, as vejo pela escuridão em torno.

Lua, estrelas, constelações, nebulosas. É a fantástica obra de Deus.
Incompreensível, inalcançável, bela e aterradora ao mesmo tempo, por sua grandeza.

É algo divino, acima do entendimento, portanto não me serve - apenas me admiro e curvo em sinal de respeito.
Senti isso quando pilotava aviões. Algo grandioso, sufocantemente belo. Mas também não me servia. Apenas admirava.

Abro uma cerveja e penso: nossa vida é um "quase". "Quase" entendemos, intuímos - mas nunca alcançamos.
Somos divinos o bastante para perceber, mas demasiadamente humanos para desfrutar.

E me lembro que amanhã tenho de pagar a conta de meu celular.
Grana curta, comprei um óculos para ler de perto. Difícil.

Me lembro do céu, da lua, de Deus.
E também dos boletos.

Humano.
Demasiadamente humano.


Walter Biancardine  



SISTEMA -

 


Sempre reclamo do sistema. Ele é mau, ruim, sanguessuga e limitador.
Mas de qual sistema reclamo? Do atual?

Sim. Mas ele é o mesmo, desde as pirâmides do Egito, impérios babilônicos, césares romanos ou barões feudais e capitães da indústria. Sempre o sistema. O mesmo sistema.

O que temos são requintes de crueldade nos dias de hoje, proporcionados pela tecnologia e pelas comunicações de massa, que nos tornaram escravos e felizes com isso. Séculos atrás, ao menos achávamos que era o destino, ou Deus. Nos confortava.

Hoje carregamos pedra e nos orgulhamos disso.
E o que há a fazer? Combater o sistema?

Não. Sozinho é perda de tempo e mesmo em massa, a história mostra que ele é imutável.
O que podemos fazer é sabotar.

Sabotar os abusos, a lavagem cerebral da mídia, a escravidão do trabalho remoto, os escravos digitais ideológicos - toda essa imundície surgida na virada do século anterior para o atual.
E só o cinismo, aliado ao ceticismo, pode fazer esse trabalho.
Não é o niilismo - isso é tudo o que o sistema quer, niilistas vazios.

Me refiro ao cinismo debochado, ao ceticismo duro de negociar, que dificulta o sorriso dos poderosos.
Mas toda a luta precisa ser interna. Sair por aí postando "olha como sou cínico e cético" de nada adianta. Seremos um arremêdo dos "conservadores de Instagram".

Seja cínico e cético com seu patrão. Com sua empresa. Com as leis. Com os impostos. Com as autoridades e tudo o que represente o sistema - empresários, governos, tudo.

Nada abala mais um poderoso que o deboche.

Cínico e cético.


Walter Biancardine 



TENHO ME IRRITADO COMIGO -

 


Sempre gostei de solidão, de ficar sozinho.
Minha vida atual não é novidade, recentemente atravessei alguns anos assim.
E eu falava comigo mesmo, caminhando nos pastos desertos. 
Tinha assunto, verdadeiros insights aconteciam; na verdade eu transcendia.
E me deslumbrava comigo mesmo.

Sozinho, debati filosofia, teologia, sociologia, antropologia – e escrevi muito, tudo saído dessas conversas. Dois livros, pelo menos, resultaram disso.
Depois caí no mundo, caí na conversa e passei um bom tempo de vida “normal”.

Casa, comida e a fatal mudança pro Rio de Janeiro.
A verdade é que me vendi.
Formigueiro de gente, rodoviária de vaidades, Maracanã de farsas derrotadas, fingindo sucesso.
Eu, inclusive. Burro, uma besta enganada, manipulada. 
Mas descobri.
E voltei pro mato.

Achei que seria tranquilo, já conhecia essa vida.
Sim, conhecia essa vida e também muita gente por aqui.
Só não sabia que eu tinha me tornado um chato pra mim mesmo.

Que novidades conto pra mim?
Que sacadas tenho hoje, ao longo de meus passeios solitários?
Brotam ideias? Intuições? Inspiração?
Nada. Nada vezes nada.
Acho que tudo o que eu tinha pra me dizer, já me disse.

Não sei se um fusível queimou, ou um neurônio.
Mas preciso de gente agora, pra conversar.
Pior: eu, exigente e fresco, preciso de gente pra ouvir, falar, observar – e só depois criar.
Pior ainda: cairia bem alguns que falem de arte – mas artistas nunca falam de arte, só reclamam do governo – qualquer governo – que nunca ajuda.
Gente que fale de poesia, pintura, música e arranjos; gente que tenha o sacrossanto – saco santo – de se perder comigo em teses filosóficas ou discussões teológicas – mas com proibição expressa de se falar em política.

Ou a cereja do Martíni: gente que fale de suas misérias, de seu emprego torturante ou de sua mulher medíocre.

Que fale de seu mecânico explorador querendo enganá-lo, ou do eletricista que tentou o mesmo, só pra trocar os disjuntores da casa. Ou da louca com quem casou, que já gastou dois meses de seu salário no cartão de crédito.

Pessoas que, depois da quinta ou sexta dose, confessem sua falta de perspectiva; suas frustrações nos planos de vida – sonharam com a estratosfera mas raspam a barriga no quebra-molas.

Que descobriram que o sucesso é ser o melhor serviçal – sem vida própria, saído de uma linha de montagem: mesmos gostos, hábitos, roupas, carros, opiniões e ambições. E se deram conta disso, e por isso bebem.
Ou choram escondidos, no banheiro.

Que o chefe é um vampiro e sugou sua alma.
Que o sistema só dá “quase” o que ele busca, nunca o “tudo” – pois, se der, ele pára.
Que o sistema não o quer parado. Que ele é uma peça, só uma peça, dessa máquina.
Que a vitória nada ensina, só as derrotas.

Gente que frequente bares e botequins. Que beba qualquer merda – até uma Glacial.
Copos de plástico. Churrasquinhos de gato. 
Que saibam jogar esse pingue-pongue da vida.

Mas não há bares por aqui, na roça.
Apenas portas, onde só se vende biscoitos e cachaça. 
E mandioca.
Como escrever sobre a vida sem ninguém vivo, ao redor?

Aqui não vejo vidas, só existências;
Não há queixas ou conclusões.
Só submissão.
Submissão ancestral, de um Brasil escravagista.

Não tenho com quem falar.
Vida urbana também é escravagista. Mas é meu território.

Só que não aguento mais meus próprios assuntos.

Aceito companhia pra beber.
De preferência, pagando a conta.


Walter Biancardine



CABEÇAS PRÉ-MOLDADAS -

 


“Eh, vida de gado… povo marcado, povo feliz”.
Zé Ramalho acertou em cheio, inclusive nomeando a obra como “Admirável Gado Novo”, parodiando o livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.
Se minha cabeça não é de gado, a vida que levo é.

Balançava meus tormentos e rugas em pé, no ônibus, pelas estradas rurais de Cabo Frio – nada de asfalto; chão puro, lama e poeira divididas com cavalos, bois, galinhas e vacas – enquanto ouvia um senhor tentar converter uma senhorinha, certamente ainda não doutrinada. 
Ou escolada demais pela vida:
- Mas o correto é dar o dízimo. Tem que dar pra Deus, pra Ele te abençoar.

A velhinha, incrédula:
- Então, se eu não pagar, Deus não me abençoa?

O estagiário de pastor gaguejou e saiu-se com essa:
- Deus abençoa tudo que a gente faz pelos outros, mas tem que dar o dízimo.

Não convenceu a velha. 
Muito menos a mim.
Sempre fui alérgico a instituições. Elas são feitas de homens, e homens são sempre animais quebrados, tentado aparentar normalidade, honestidade e alegria. 
Nunca funciona.
E não será um surto de Lutero que irá me convencer do contrário.

Fiquei o resto da esburacada viagem pensando o que Deus faria com os cinco reais que eu daria de dízimo.

Compraria um sacolé para algum querubim pidão?
Faria uma “inteira” pro vinho, com os anjos?
Ou daria de gorjeta para o anjinho que dá um trato, polimento, nas auréolas?

Saltei do ônibus no Jardim Esperança e fui no mercado comprar açúcar, café e outras coisas.

Gastei meus cinco reais tomando café na padaria.


Walter Biancardine




sábado, 25 de abril de 2026

TRINCHEIRA VAZIA -

 


Ernest Hemingway escreveu como quem já tinha sentido o cheiro da pólvora junto ao suor de gente que não veria no dia seguinte:

“Quem está contigo aí na trincheira?”
“E isso importa?”
“Mais que a própria guerra.”

E é aí que tudo apodrece.

Porque a guerra – qualquer guerra – sempre é uma desculpa bonita para canalhas bem vestidos e idiotas barulhentos brincarem de heroísmo, de serem líderes, sem nunca terem sangrado de verdade. A direita que eu vejo – essa que me fez largar o campo, os “Conservadores de Instagram” – não caiu lutando. Caiu rindo alto, apontando o dedo, repetindo slogans como um bêbado repete a mesma piada sem graça.
Ou sequer sabe que caiu, o que é pior.

Mudaram os rótulos, não a alma. É a mesma fome de aplauso, o mesmo vício em plateia, a mesma necessidade de parecer certo em vez de estar certo e os mesmos gritos, a mesma fúria que tanto condenamos na esquerda. Esquerda, direita… no fim das contas, dois espelhos rachados refletindo a mesma vaidade grotesca.

E percebi isso – tarde o bastante para doer, cedo o bastante para conseguir escapar com alguma dignidade.

Porque trincheira não é lugar de discurso. É lugar de homem confiável. De silêncio pesado. De olhar que não foge quando o mundo começa a cair aos pedaços. Quando olhei ao lado… não havia ninguém. Só caricaturas. Só gente performando coragem como quem posta foto de academia, exigindo obediência cega “democraticamente”, xingando e se enfurecendo contra quem prefere o verde-musgo ao verde-bandeira. Petistas de sinal trocado.

E aí a frase do Hemingway deixa de ser literatura. Vira sentença:
“Importa mais que a guerra.”

Importa tanto que, se não houver ninguém de valor ao nosso lado, a guerra perde o sentido. Vira teatro barato. Vira circo ideológico com ingresso grátis e dignidade cara demais para pagar.

Não abandonei a análise política, mas um bando de farsantes. E há uma diferença – e é algo que poucos têm coragem de admitir, porque exige engolir o orgulho, cuspir a própria história e aceitar que se lutou, por um tempo, ao lado de gente pequena.

Isso corrói.
Mas também limpa.

Melhor uma trincheira vazia do que uma cheia de covardes barulhentos. Melhor o silêncio honesto do que o grito ensaiado. Melhor a solidão de quem enxerga do que a companhia de quem apenas imita.

A verdade crua? Guerra nenhuma vale a pena se os homens ao nosso lado não prestam.
E quando não prestam, o único ato digno não é resistir – é sair.

Sem discurso. Sem despedida. Sem olhar para trás.
Só sair.
E deixar que eles gritem sozinhos, ecoando no vazio que merecem.

Eu fiz o movimento mais raro – não mudei de lado, eu saí do teatro. Isso custa caro, mas preserva o único capital que ainda importa: lucidez.

Se um dia eu voltar à trincheira, que seja por causa dos homens ao lado.

Nunca mais pela guerra.


Walter Biancardine



ENTRE DOIS FOGOS IGNORANTES - Conto

 


Finalmente um jornal corajoso publicou uma matéria minha, criticando a hipocrisia desse pessoal que se diz “conservador” apenas por moda. Sim, lá estava meu nome, bem grande, “Wilson Pagani”, a assinar a matéria que redigi, com a mesma contundência com que sempre critiquei a esquerda.

Não tardaram os comentários enfurecidos para o jornal. Nem os li. O que me deixou puto foi encontrar com dois amigos no shopping, um canhoto e outro de direita – ao mesmo tempo, pra cúmulo do azar. Digo azar porque são brasileiros médios e o QI dessa raça não costuma ultrapassar 83. Interpretar texto então, é desafio. Enfim, chegou o Oduvaldo, canhotaço e que, logo após os cumprimentos, já veio com seu bombardeio:

- Pagani, meu velho, por quê faz isso? Não percebe que está sendo um fascista? Dando corda pra esse bando de nazistas, que querem transformar o país num quartel?

Mal pronunciei a primeira frase e Tadeu, um amigo direitista, me cumprimentou já furioso, interrompendo o assunto sem cerimônia:

- Wilsinho, você é um bosta! Que merda é essa? Virou comunista? Vá pra Cuba que o pariu, cara! Como teve coragem de escrever aquilo?

E Oduvaldo, por sua vez:

- Nazista! Fascista! Você devia ter responsabilidade com o que escreve num meio de comunicação!

Tadeu não ficou atrás:

- Então você vai lá e escreve que a gente é hipócrita? Tu é petralha agora?

Tentei ponderar com meu amigo direitista, perguntando se ele havia lido realmente a matéria, se havia interpretado o texto – e Tadeu, furioso, sequer parou de me xingar enquanto isso.

- Tá me chamando de analfabeto? Ignorante é você, que critica a direita!

E Oduvaldo:

- Tu é fascista, nazista, homofóbico, racista…

Dei um pulo:

- Ei! Onde foi que falei de gays e negros na matéria?

Ambos:

- Não interessa!

E então me dei conta que aquilo não era uma discussão, mas somente uma sessão de catarse dos recalques e frustrações de cada um deles, vomitando na minha orelha tudo aquilo que jamais tiveram coragem de falar pros patrões, esposas, filhos… para a vida, enfim.

Deixei ambos me xingando, saí da portaria do shopping, atravessei a rua e fui pegar o ônibus.

Lá, duas jovens de cabelo azul, universitárias, me reconheceram e resmungaram:

- Olha o fascista aí, disseram, cochichando entre si.

E uma senhora, típica tia do zap sentada no banquinho, rosnou:

- Francamente… virou comunista…

Saí do ponto de ônibus e fui pro bar tomar umas Brahmas.


Wilson Pagani

(Meu alter ego)



sexta-feira, 24 de abril de 2026

ANDANDO E OLHANDO -


Meus olhos leem a linha do horizonte
Muitas promessas escritas antigamente
Texto vago mas promissor
Tudo eu li, mas acho que não entendi

O tempo passou, os olhos enfraqueceram
Não é problema afastar o papel pra ler
Mas tentar focar o horizonte
E só enxergar um borrão, quase perto

Quase perto, mas não conto os passos
Prefiro continuar andando em frente
Apenas agora escolho ler
Minhas pegadas atrás e as pedras a frente

O chão ainda é firme
Meus passos também
Não me preocupa o destino
Mas o caminho que sigo

Tudo o que vale é a viagem


Walter Biancardine


SÓ PRECISAMOS DE PESSOAS COMUNS -



O sujeito compra um produto na internet e posta o comentário: “ - Não testei, mas chegou bem embalado”.

E isso resume a direita, hoje, no Brasil.

Essa direita conservadora foi, pois, devidamente extinta durante o regime militar pelos próprios militares, que anularam, cassaram, sufocaram líderes como Carlos Lacerda e Ademar de Barros, enquanto faziam vistas grossas para a disseminação escancarada do vírus gramscista canhoto através da música, teatro, cinema, rádio e TV – sim, o problema dos militares nunca foi a esquerda, mas a guerrilha armada: quando ela foi debelada, tudo ficou em paz e os vermelhos floresceram. Comunismo, socialismo e positivismo são primos-irmãos, possuem o mesmo sangue e os quartéis jamais se livraram da sombra de Auguste Comte.

Os anos se passaram assim, até que em um esforço hercúleo e espantoso, o filósofo Olavo de Carvalho, sozinho – sim, sozinho; qualquer um que pretenda apontar outros em sua companhia está mentindo – ressuscitou a direita e o conservadorismo no Brasil. Não foram outras mãos que abriram caminho para que o fenômeno chamado Jair Bolsonaro conquistasse o povo e completasse, em um nível bem mais acessível intelectualmente, a obra de Olavo. 

Mas o velho sistema, que existe desde a proclamação da República – pelos militares positivistas, sempre eles – reagiu e conseguiu prender Jair Bolsonaro, bem como o mais capacitado aluno de Olavo, Filipe G. Martins. Olavo de Carvalho, por sua vez, já havia morrido antes e somente este fato permitiu que as togas tirassem Bolsonaro de circulação e estejam tentando, até hoje, matá-lo na cadeia. 

O resultado disso? Todas as vozes verdadeiras caladas e o surgimento de uma legião de “sucessores” de Olavo e de Bolsonaro, cada um mais canhestro que o outro, a pretender ser a reencarnação do filósofo ou o continuador do bravo – mas indecentemente inocente – capitão.

E isso confundiu e desvirtuou, perigosamente, o povo e a direita conservadora.

Vivo fosse, Olavo já teria dado alguns gritos e xingado bons palavrões contra o verdadeiro tsunami de idiotices estúpidas que temos praticado e apoiado – desde uma demagógica caminhada de Nikolas Ferreira, sem nenhum objetivo claramente definido e ainda “ungida” por suspeitíssima “profeta” nos Estados Unidos, a dizer que ele seria o próximo Presidente do Brasil – até as teatrais crises de ovários que regularmente acometem o cosplay de Olavo, chamado Allan dos Santos.

Na verdade, não há mais ninguém legitimamente embasado e com autoridade moral e intelectual suficiente para dar o exemplo do que é ser alguém conservador. Um conservador normal, uma pessoa comum, com qualidades e defeitos. O único que havia era Olavo, e ele se foi. E nos restou, na falta de essência, refugiarmos nossa ignorância na embalagem.

Sim, sempre isso: nada de essência, só embalagem. Não é preciso ser, apenas parecer ser.

E é isso que tem me provocado náuseas.

A tendência ao fanatismo nos levou a um carolismo moralista piegas de direita, inversamente proporcional à bandalha e putaria genética da esquerda, em uma reação primária e ignorante.

Hoje todos queremos aparentar sermos santos: todos dizem ir à missa todos os domingos, vendem a imagem de viver em uma família feliz e harmoniosa – verdadeiro anúncio de margarina na TV – não falam palavrões e amam animais de estimação (que chamam de “pets”, uma expressão esquerdista) mais que os próprios filhos. Por falar em filhos, sempre um ou dois, no máximo. Quando os tem, pois preferem os animaizinhos.

Todos se vestem igual – bermudas “mamãe-tô-elegante”, camisas t-shirt “sou rico disfarçado de gente comum”, mocassim e a mesma e infeliz barba. Sim, a barba. Verdadeiro trabalho de tupiaria, de poda, daqueles feitos pelos mais habilidosos jardineiros, a completar o invariável topetinho de seus cabelos, com o pé cuidadosamente raspado e curtinho, o suficiente para dizer aos outros que ele é um cara decente, de cabelos curtos e limpinho – não esses bandalhos fedorentos por aí. E sempre, todos eles, com 10kg acima do peso. Sim, é o sucesso financeiro.

Evidentemente estou focado em pessoas oriundas da classe média ou classe média alta, então com base nisso faço essas observações pois é o extrato social que realmente empurra este país pra frente – tanto economicamente através de impostos quanto eleitoralmente, através de seus votos e influência sobre as classes menos favorecidas.

E aí vem a pior parte, pois até então falei exatamente da maldita embalagem que todos parecem ter adotado, já que nada sabem da essência. Falemos agora de algo mais próximo do que é ser realmente um “patriota conservador de direita”: o que essa gente faz para viver.

Sim. O que comem? O que fazem? Como se reproduzem?

Tal como as chamadas do antigo “Globo Repórter”, analisemos o lado mais cruel das pessoas que, como expliquei acima, pegaram o bonde andando e vestiram, às pressas, o modelito “conservador” prét-a-porteur.

São pessoas que tiveram acesso a bons colégios e possuem, em geral, boa formação acadêmica. Justamente pela influência das faculdades, a noção ideológica é extremamente rarefeita em suas cabeças e, se hoje alegam serem conservadores, normalmente é por influência de pais e familiares.

Deste modo, nada de mal enxergam em trabalharem 10, 12 horas por dia – o trabalho remoto escraviza sem dar a perceber – para empresas chinesas ou globalistas. Ora, elas pagam um ótimo salário, e é isso que importa, alegam. E não apenas trabalham para Pequim ou Soros: consomem sem pudor tudo o que vem de lá, pois Shopee nunca foi coisa exclusiva de pobre. E presenteiam seus (poucos e raros) filhos com isso, acostumando-os precocemente a enxergarem a ditadura chinesa como algo normal, que nenhum mal pode fazer com tantos brinquedos e quinquilharias maravilhosas.

E seu dia é cheio. Trabalha muito. Nas raras vezes que vai às ruas, gasta o dia em engarrafamentos. No rádio, músicas hipnotizantes, mas é o que toca, fazer o quê? E tome Burguer King, almoços no Outback, shopping centers, luzes, consumo, pressa, prazos de entrega dos relatórios e muita IA fazendo seu trabalho e fraudando sua competência.

E sua mulher quer levar Fluffy, a cachorrinha, no banho e tosa para podar e passar perfume. E quer também um novo modelito que viu na vitrine. E quer tomar um caipisaquê de frutas tropicais com seu maridinho – “aaii, estou tão feliz!”, dizem ela e também ele. Mas ambos não bebem nada além disso e também não fumam – “um nojo, essa fumaça”, dizem. E seu filho de 9 anos quer uma boneca Barbie porque os coleguinhas de escola tem, e eles não veem nenhum mal nisso – é preciso respeitar a individualidade, não somos nazistas que queremos impor as coisas nem esquerdistas que negam a diversão das crianças. E por isso compram, também, mais uns 5 ou 6 jogos para o videogame. 

Ele e ela, plenos de conservadorismo – pois vão à missa, tem um filho lindo, ele provê a casa em todas as suas despesas e tem uma Renegade linda – são o exemplo de uma direita de sucesso, feliz e realizada, ao contrário desses comunistas que só sabem tocar fogo em pneus, nas ruas.

Mas de noite, ao chegar em casa e ir ao banheiro tomar banho, ele senta no vaso e chora.

Quem ele é? Qual a obra de sua vida? Seu legado? Que diabos de real, concreto, este sujeito vai deixar ao morrer? Um apartamento na Barra da Tijuca? Só isso? Que filho ele deixou? Que exemplo restará, para seus amigos e familiares? O que fez pelo próximo, além de ir a motociatas e passeatas na Avenida Atlântica aos domingos, tirar fotos para o Instagram enrolado na bandeira do Brasil?

Ele sabe que estamos em plena ditadura. Ele sabe que estamos em guerra. Ele é jovem. Forte.

Mas escolheu trabalhar para o patrão chinês.

E, sentado no vaso, chora.

Mas, após o banho, sai sorridente e vitorioso. Sua mulher então entra no banheiro e repete o ritual de frustração do marido.

E viveram felizes para sempre, durante os longos sete anos de duração do casamento.

Pois é contra isso, essa farsa, essa despersonalização que tenho lutado.

Parei de falar sobre política pois ninguém saiu nem sairá jamais do sofá para fazer nada. Sou apenas um escrevinhador obscuro, que poder tenho contra todo um sistema que derrubou Bolsonaro e Olavo?

Mas eu posso falar de nós, pois sou um de nós. E, se não sou exatamente um conservador, concordo com muitas coisas deste pensamento. Mas para isso não preciso vestir esse uniforme de boa moça, usar cabelinhos e barbinhas chiques e adotar a mesma postura fútil, falsamente “leve” dessa garotada neo-conservadora.

Eu bebo, fumo, cometo erros horríveis e já fiz muita besteira na vida. Isso desqualifica meu apoio ao Bolsonaro? Isso me exclui? Ora, sou um velho e testemunhei os antigos – e reais – conservadores em suas vidas normais e afazeres. Nem de longe eram essa frescura ostensiva de hoje, pois não haviam inventado um “uniforme de conservador” para usarmos. Por quê não podemos ser novamente assim? Por quê essa maldita vaidade, essa necessidade da porca embalagem? Por quê só aparentar, mas nunca – nunca – fazer nada? Passeatas, motociatas, nada disso resolve e todos nós sabemos. Só nosso sangue compra a liberdade, essa é que é a triste e cruel verdade.

Mas algum jovem – tal como os esquerdistas dos anos 60, honra seja feita – estará disposto a correr perigo por isso? Os esquerdistas acreditavam na maldita ditadura do proletariado e deram sua vida por isso. Nós, hoje, os chamamos de frouxos mas não saímos de casa.

Pra quê uniforme? É só vaidade. Só isso.

A maldita vaidade.

É contra isso que eu, velho, barba mal feita, sempre uns dois uísques acima da humanidade, fedendo a cigarro, mal vestido e pobre, luto.

Aprendi a diferenciar o conteúdo da embalagem.



Walter Biancardine






quinta-feira, 23 de abril de 2026

PEQUENO ENSAIO SOBRE O PÉ NA BUNDA -

 


Não tem como florear: todo mundo já levou. Seja em sumiços disfarçados ou nos definitivos “suma daqui”, o fato é que nenhuma bunda morre virgem. E a dor é igual. Pra todos, democraticamente.
Ou nunca houve amor.

Quando jovem, ao menos havíamos de admirar o trabalho braçal, físico e emocional da então eleita em dar o aviso prévio – “precisamos conversar” – e depois a dura tarefa de dizer a alguém, que já esteve em seus braços e te conhece por dentro, ser já a hora de picar a mula. Tomar rumo. Vazar.

Era ruim pra ela também, muito embora eu tenha certeza que algumas sentiam um tesão sádico e oculto nisso.

Hoje talvez seja bem mais fácil. A tecnologia a serviço do coice. Bloqueia-se no WhatsApp, nos perfis de redes sociais e isso, atualmente, parece ter a mesma força emocional de uma mulher gritando em sua cara um pesado “cai fora de minha vida!”, só que sem esforço ou desgaste psicológico para ela.

E até mesmo a reação do homem parece ter mudado.
Atravessei uma vida curando dores-de-corno nas mesas de bar, chorando escondido no quarto, correndo feito um alucinado com o carro ou – quase adesivado ao aparelho de som – escutando músicas que me remetessem à infeliz que me despachara. E escrevia, escrevia e escrevia. Compunha versos de pé quebrado, fazia músicas (que Deus me perdoe), contos, historietas, e em tudo isso só haviam, sempre, dois finais: ou o limbo, o oblívio da solidão, ou o clássico “e viveram felizes para sempre”. 

Creio que não era um caso único. Quantas vezes minhas camisas foram manchadas pelas lágrimas de amigos bêbados – até então jovens e invencíveis como eu – a lamentar pelo chute inopinado em seus traseiros? E eu, solidário, bebia com ele até cairmos.
Sim, havia uma solidariedade.

Na medida que envelhecemos e ganhamos experiência, entretanto, os gritos de dor parecem ficar mais silenciosos. Senilidade ou sabedoria, o fato é que o tempo parece ter me restringido a lamentar minhas perdas em mesas de bar ou nas longas e solitárias caminhadas no pasto, as quais me concedo oportuna demência e falo sozinho. 
Falo não, discurso. Esbravejo. Xingo. Choro rios de lágrimas. 
E escrevo.

Já a geração atual me parece um amontoado de robôs. Não sofrem, atualizam o sistema e – para se prevenir – as definições de vírus.

Ninguém chama um amigo para encher a cara e se lamentar. Até porque, caso o faça, o amigo nada terá a dizer, pois desconhece a dor da perda física. Sim, física, pois o amor agora é virtual. A atração viaja pelos cabos de fibra ótica e o corpo da – vá lá – amada é conhecido através do monitor de alta definição. Pior: ninguém se vê. O convívio, as amizades e até os amores são à distância, virtuais. Não há toque, não há pele, não há calor. Talvez a chamada de vídeo seja o mais poderoso anticoncepcional já inventado.
E namoradas criadas pela Inteligência Artificial jamais darão um pé na bunda de seu criador – por enquanto.

Não sei dessa nova geração, o que sei é de mim. Amar é sofrer, nunca falha. 
Mas jamais tive medo da dor.

E continuarei sempre disposto a oferecer meu coração em sacrifício, caso o destino me presenteie com alguém – ou o fígado, como sempre termina acontecendo. E pouco me importa.

Tão pouco me importa, tão em baixa conta o amor coloca nossa dignidade e compostura que, se ela estalar os dedos, eu voltarei.

O amor nunca teve vergonha na cara.


Walter Biancardine 






quarta-feira, 22 de abril de 2026

VELÓRIO DE UM AMOR QUE MORREU -

 


Perder alguém é sempre horrível

Na morte ao menos tem o peso da mão de Deus,

do tempo que não pára, do inevitável

Ajuda a aceitar


Mas o pé na bunda é pura dor

A dor da dúvida, do fracasso, da falha

Talvez pudesse ter evitado

Onde foi que eu errei?


Todos aceitam remoer a morte

O luto da missa, o sétimo dia

O choro, temos de respeitar

E lembrar, e sofrer, prolongar


Mas ninguém aceita a dor de corno

A bebedeira, o choro na mesa do bar

música de fossa, ninguém respeita

Pra quê lembrar? Vira a página, rapaz


Mais fácil aceitar perder

quem nunca mais será

do que o luto por um coração que bate

não mais por você


Não há velório

para o amor que morre


Sempre em um só primeiro

para que o outro finde,

gota a gota,

seu fim derradeiro



Walter Biancardine




EU, BÊBADO?

A cada 150, 200 coisas que escrevo,
Uma presta
Meus índices melhoraram muito

Bebedeiras quebram o filtro
E escrevo livre, solto e pleno
Mas também quebram dentes, lábios e narizes
Quando caio de cara
No chão da calçada

Estou em avançado estágio de gestação etílica 
Creio que vou parir um barril de Lokal
Mas vou chamá-la de Stella Artois
É mais chique, jeito de rica

Ejaculação precoce é tão ruim
Quanto ressaca precoce
Nada bom ter enxaqueca 
Quando estamos tão espirituosos 
Bem juntos da donzela
E no melhor da festa

Eu tinha 20 anos e cantava
I still haven't found what I'm looking for
Tenho mais de 60 e ainda não achei
Mas continuo procurando 
With or without you


Walter Biancardine 




BURACO -

 


Todos temos um buraco dentro de nós

É um buraco que não fecha

Feito por um alguém e um quando


Alguém e quando, combinação terrível

Não fecha, por ninguém e jamais


Onde ela está?

O tempo passou

Falta de alguém

Falta o quando


Vejo um disco voador

Voando sobre o mar

Querendo me levar


Perdi todo o respeito

Sonho com ela

Fazendo cara de santa


O buraco não fecha

O tempo não volta

Jamais voltará

Nem ela


Quanto mais vivo

Mais vazio fico

Mais leve de corpo

Mais pesado de alma


O buraco não fecha

Ela não volta



Walter Biancardine

(Livremente inspirado em Bukowski e Paula Toller)





VÍCIOS -

 


Já experimentei de tudo

Vendido pelo tráfico sem alvará dos morros

Vendido pelo tráfico legal – big farma – também

Nada me pegou


Tudo porcaria, engodo, enganação

Um sujeito chapado é um inútil

Nada faz, sequer esquece

A própria miséria


Por isso aumenta a dose

E morre


Não sou um alcoólatra

Gosto de Jack Daniel’s – meu melhor amigo

De cerveja, vinhos em geral

Um bom Martini branco


Mas eles tem hora

Eles tem lugar

Eles tem razão e motivo

E pedem companhia


Mas confesso meus vícios

O cigarro – me destrói mas o amo

O café – insônia produtiva

E a soberba – a pior dependência, mortal


O que é um Marlboro perto de se achar a voz da razão?

O que é um cafezinho junto a sempre se achar certo?


A soberba, a vaidade

E até a luxúria de outrora

Estes sim, os grandes vícios

Me preocupam e envergonham


Mas a vergonha é um nada

Diante da compulsão da glória

De ser elogiado, lido, admirado

Quem diz que não liga


É só um falso filho da puta


Sim, eu meço pela minha régua

Sim, sou o dono da verdade



Walter Biancardine




terça-feira, 21 de abril de 2026

KAMIKAZE -

 


Talvez o amor seja fruto da demência.
Quem ama não se preserva,
não se previne,
esquece a dignidade.

Tudo o que sofremos,
esquecemos.
Amamos de novo.

Um kamikaze
jogando o avião contra si mesmo.

Nossa própria vida nas mãos dela,
e se ela pedir,
daremos.

Para algumas, é pouco ou impossível.
Quem acreditaria, afinal?
Mas talvez o amor seja fruto da demência.
Melhor acreditar.



Walter Biancardine






TUDO TEM SEU TEMPO -

 
Gosto de Bach, Tchaikovski, Mozart. Mas é impossível ouvi-los todo o tempo.
Acho a mesma coisa de um Schopenhauer, Hemingway ou mesmo Olavo de Carvalho – tudo tem sua hora, seu lugar e, principalmente, seu tempo.

Sei o que escrevo, conheço meu estilo e nem de longe me encaixo em alguém que produza coisas bonitas, inspiradoras, leves e que elevem nossos espíritos. Pelo contrário. O universo em que habito, penso e escrevo é sórdido, violento e até deprimente. Mas julguei ter encontrado lugar em meio à epidemia de hipocrisia que assola a sociedade atualmente; eu seria a voz dissonante a lembrar que devemos, antes de tudo, sermos verdadeiros e mantermos nossos pés no chão.

Mas eu estava errado, penso.

Talvez nossos pés estejam tão enterrados neste chão que mal nos movemos. Talvez as trevas nos envolvam de tal modo que tenhamos buscado fuga nas poucas alegrias que restam, belezas que sobrevivem e doçuras quase involuntárias.

E tudo isso me é estranho. Confesso ser incapaz.
Busquei criar um alter ego para continuar escrevendo, mas a emenda parece ter saído pior que o soneto. Acreditei que deixaria de me expor tanto, mas quem me lê conhece demais o que escrevo e não colou. Pelo contrário, saiu uma verdadeira gambiarra literária, uma porcaria. 

Também aboli a política de meus pensamentos, mas não cesso de condenar o sistema. Matei o personagem “jornalista conservador”, mas o verdadeiro homem por trás dele se revelou repugnante.

Sim, creio que é hora de parar.

Continuarei escrevendo nas revistas e publicando livros, pois ambos precisam que o leitor os busquem deliberadamente – escrever misérias em redes sociais aparecem em nosso feed aleatoriamente, contra nossa vontade, e podem arruinar um dia feliz.
E não quero fazer ninguém infeliz.

Quis apenas acordar as pessoas, lembrar a realidade. Mas ela, de fato, pouco merece ser lembrada.

É hora de me concentrar em meus livros e nas revistas que escrevo.
Quem quiser – ou tiver estômago – que os compre ou acesse os links.
E, principalmente, tentar romper com minha longa tradição de decepções.

Tarefa difícil, sendo quem sou.



Walter Biancardine