segunda-feira, 5 de outubro de 2026

DOCE DEMAIS ENJOA


Não fui votar este domingo, nem fiz campanha pra ninguém.
Não publiquei uma só frase de apoio ou de crítica a qualquer candidato a qualquer cargo, porque abandonei o jornalismo.

Meu ofício é o mesmo que faço desde molecote cheio de espinhas: escrever contos, crônicas, poesias e outros descalabros assim.
A escrita é como o desenho que também pratico: uma arte. E artistas não devem se meter em política, pois só falam e fazem merda por mais doces, ternos ou suaves que sejam.

Não, meus queridos. O mundo nunca seria melhor se governado por doces poetas.
Pelo contrário, seria uma suruba ou o caos absoluto. E incluo nesse rol os filósofos - vivesse eu num local com Michel Foucault como governante e jamais sairia de casa, permanecendo com a bunda colada na parede.

Tudo o que é dito, sonhado ou imaginado por poetas, filósofos, músicos ou qualquer artista deve ser tomado sempre como um palpite. Palpite à parte das discussões, que até podem inspirar ações concretas de governantes mais sensíveis, desde que não se ajoelhem em felação ao dito cujo, mas que nunca sejam determinantes ou orientadoras das demais políticas.

A arte flutua acima da imundície, e a política é vida real, é imunda, é máfia pura. E água e óleo não se misturam.
Mesmo eu, que vivo de ruminar toda essa sujeira em meus escritos, não sou uma pessoa em condições de sugerir ou influenciar nada. Não é esse meu mundo, nada ganho com ele e nem quero.

Quem é artista pode ter a opinião política que quiser, votar até no Azul Caneta, pouco me importa.
Só não abra a boca sobre isso em público, ou será um desonesto se valendo de sua influência (temos um Gramsci aqui?) pra conduzir idiotas pela orelha, nas urnas.

Nestas eleições nada palpitei, nada falei, nada reclamei pois sou escritor, contista, poeta e artista (vá lá) plástico.
Apenas olhei à distância os demais, igualmente artistas, mas que cederam à vaidade de se tornarem "condutores de povos" - afinal, ter um talento na arte não dá a ninguém autoridade pra fazer análises políticas. 

Carregando minha arte nas costas, declaro-me uma perfeita besta política.

E, mais ainda, uma besta surda.
Nem perca seu tempo comigo.




Walter Biancardine



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