quinta-feira, 1 de outubro de 2026

QUANDO A PERFORMANCE AVILTA A VERDADE


"Escrevo pra não enlouquecer"
"A escrita é minha terapia"
"Jogo no papel tudo aquilo que me sufoca"

Eu mesmo já escrevi coisas assim.
Era um inocente.
Décadas afastado da literatura, dos romances e da poesia.
Eu nada sabia.

Escrevi com sinceridade, achando que me expressava e serviria quase como um pedido de desculpas adiantado, por eu escrever coisas tortas e sujas.
E entrei numa rede social onde se concentram muitos jovens com aspirações literárias.
E vi que todos, quase todos, escreviam a mesma coisa.
Que escrevem pra sobreviver, não enlouquecer e seguir em frente.
Jovens. Todos eles.
Na faixa de 20 a 30 anos.
E o quadro que pintam de suas vidas é um armagedom.

Jamais me senti tão envergonhado.
Li o que escrevi e achei tudo uma farsa.
Então eu jamais sofri? Tudo foi apenas uma fase passageira, tão comum nesses jovens, e que apenas teve o defeito de me perseguir pela vida afora?
Toda a dor que senti era frescura?

Não vou medir a dor de ninguém nem dizer que a garotada é fresca.
Certamente tem lá seus sérios problemas, e só o dono da casa sabe onde a goteira pinga.
Mas desconfio de tudo o que aparece em excesso. Me parece um personagem, criado pra vender cliques e, quem sabe, até livros.

Todos teriam aprendido a escrever sobre sofrimento e, portanto, ninguém mais sabe quem realmente sofreu?

Minha vida nunca foi normal. Certamente outros tiveram um passado tão ruim quanto o meu mas, a grande maioria, provavelmente não. Seria tudo pose? 

E me lembro de mim mesmo, jovem, escrevendo.
Falava sobre minhas dores. Claro que com a cegueira da juventude, mas falava. Só que também, e principalmente, deixava transbordar em minhas laudas todo aquele encanto diante do mundo que só os jovens possuem.

Falava sobre namoradas, fossas, boates, viagens, brigas, carros, motos e tudo aquilo que compunha o universo comum de um jovem daqueles anos.
Eu não era um chorão.
Aliás, homem não chorava.
Era sempre só um cisco.
E eventuais palavras ofensivas eram respondidas com socos na boca.

Eu era, aparentemente, um cara normal e me orgulhava de assim parecer.

Os anos passaram, descambei pro jornalismo e perdi o contato com a literatura. E isso permaneceu assim por décadas.
Só política, brigas, ideologias, filosofias e broncas teológicas.
Gastei minha idade adulta e produtiva nisso.
E não só nada ganhei como, pior, perdi tudo.

Me dei ao luxo então de voltar à literatura.
Olhar pra dentro de mim.
Me enxergar, ver os destroços e o que fizera da vida.
E me dei conta de todos os erros de uma existência, aqueles que só percebemos com a experiência de vida.
A isso somou-se outro problema, que quase me tirou de cena e me jogou na arena dos loucos.
Mas segui em frente. 
Meus psicólogos e psiquiatras são resultado disso.

Escrevi capenga, compus lamentações, linhas terríveis.
E isso me aliviava.
Escrevi livros e busquei um lugar onde mais gente também se interessasse por isso.
E achei.

Mas ao encontrar, sofri essa vergonha de achar que minha biografia pode, hoje, parecer uma farsa.
Ou vergonha pior: ter sido, realmente e por toda uma vida, a tal farsa ambulante e agora reclamar da concorrência.

Porque hoje todos sofrem e ninguém sabe diferenciar o tênis Nike original em meio aos trezentos de segunda linha que o camelô vende.

E, pelo jeito, o apocalipse chegou.
Com um Nike made in Taiwan.




Walter Biancardine



Nenhum comentário: