"Escrevo pra não enlouquecer" "A escrita é minha terapia" "Jogo no papel tudo aquilo que me sufoca" Eu mesmo já escrevi coisas assim. Era um inocente. Décadas afastado da literatura, dos romances e da poesia. Eu nada sabia. Escrevi com sinceridade, achando que me expressava e serviria quase como um pedido de desculpas adiantado, por eu escrever coisas tortas e sujas. E entrei numa rede social onde se concentram muitos jovens com aspirações literárias. E vi que todos, quase todos, escreviam a mesma coisa. Que escrevem pra sobreviver, não enlouquecer e seguir em frente. Jovens. Todos eles. Na faixa de 20 a 30 anos. E o quadro que pintam de suas vidas é um armagedom. Jamais me senti tão envergonhado. Li o que escrevi e achei tudo uma farsa. Então eu jamais sofri? Tudo foi apenas uma fase passageira, tão comum nesses jovens, e que apenas teve o defeito de me perseguir pela vida afora? Toda a dor que senti era frescura? Não vou medir a dor de ninguém nem dizer que a garotada é fresca. Certamente tem lá seus sérios problemas, e só o dono da casa sabe onde a goteira pinga. Mas desconfio de tudo o que aparece em excesso. Me parece um personagem, criado pra vender cliques e, quem sabe, até livros. Todos teriam aprendido a escrever sobre sofrimento e, portanto, ninguém mais sabe quem realmente sofreu? Minha vida nunca foi normal. Certamente outros tiveram um passado tão ruim quanto o meu mas, a grande maioria, provavelmente não. Seria tudo pose? E me lembro de mim mesmo, jovem, escrevendo. Falava sobre minhas dores. Claro que com a cegueira da juventude, mas falava. Só que também, e principalmente, deixava transbordar em minhas laudas todo aquele encanto diante do mundo que só os jovens possuem. Falava sobre namoradas, fossas, boates, viagens, brigas, carros, motos e tudo aquilo que compunha o universo comum de um jovem daqueles anos. Eu não era um chorão. Aliás, homem não chorava. Era sempre só um cisco. E eventuais palavras ofensivas eram respondidas com socos na boca. Eu era, aparentemente, um cara normal e me orgulhava de assim parecer. Os anos passaram, descambei pro jornalismo e perdi o contato com a literatura. E isso permaneceu assim por décadas. Só política, brigas, ideologias, filosofias e broncas teológicas. Gastei minha idade adulta e produtiva nisso. E não só nada ganhei como, pior, perdi tudo. Me dei ao luxo então de voltar à literatura. Olhar pra dentro de mim. Me enxergar, ver os destroços e o que fizera da vida. E me dei conta de todos os erros de uma existência, aqueles que só percebemos com a experiência de vida. A isso somou-se outro problema, que quase me tirou de cena e me jogou na arena dos loucos. Mas segui em frente. Meus psicólogos e psiquiatras são resultado disso. Escrevi capenga, compus lamentações, linhas terríveis. E isso me aliviava. Escrevi livros e busquei um lugar onde mais gente também se interessasse por isso. E achei. Mas ao encontrar, sofri essa vergonha de achar que minha biografia pode, hoje, parecer uma farsa. Ou vergonha pior: ter sido, realmente e por toda uma vida, a tal farsa ambulante e agora reclamar da concorrência. Porque hoje todos sofrem e ninguém sabe diferenciar o tênis Nike original em meio aos trezentos de segunda linha que o camelô vende. E, pelo jeito, o apocalipse chegou. Com um Nike made in Taiwan.
amanhã é sexta feira. acho que posso passar adiante algumas coisas que aprendi sobre as mulheres: * sempre trate-as como princesas * olhe seus olhos e sua boca com devoção e desejo * pague as contas * proteja-as * faça-a gozar ao menos três vezes por noite o resto é uma vida feliz.
se você nunca foi humilhado ou destratado sem razão quem sabe enganado por quem amou até mesmo traído se você nunca perdeu empregos por razões idiotas ou amores por questões assim ou foi deixado de lado se seu sangue jamais te largou ou os amigos se esqueceram e você viu que nada mais nada mais restou se a morte não levou os seus de maneiras estúpidas e deu o dedo do meio pra suas lágrimas se ao olhar em volta nada vê só deserto e desespero escuro e cansaço e derrota se seu corpo não dói todos os dias e todas as noites e você se envergonha bem fundo de ter sido quem sempre foi se você nunca pediu a Deus que o matasse e acabasse com toda a agonia que gente normal chama de vida e teve de carregar má fama calúnias e mentiras cruéis desprezado e apontado o judas espancado nos almoços se você nunca passou por isso não escreva sobre sofrimento não cante a dor nem louve as trevas e desatino porque tudo que dói é lindo quando lemos escrito no papel mas ninguém suporta viver assim respeito é bom e quem sofre gosta