terça-feira, 6 de outubro de 2026

A LAMA QUE AGARRA AO CHASSIS DO CARRO

 
Por mais que se faça cara de nojo, é possível se acostumar com uma casa suja. O tempo corre e a sujeira passa a fazer parte da paisagem, e mesmo teias de aranha compõem a decoração quase gótica da casa de um idoso.

A velhice traz o dom de nos acostumarmos com pesos-mortos. A sujeira é um deles, porque você nunca vai ver um velhote varrendo a casa e balançando o bundão ao som de "segura o tchan".

Outro peso-morto que os dias em excesso nos acostumam é a dor. Dor física, aquela que o tio do pavê sempre traz guardada no bolso: "dor nas juntas - junta tudo e joga fora", caso a infâmia da comida falhe. E o tal idoso acima, que jamais varreria a casa bailando, não o faz justamente por colecionar dores pelo corpo.

Outra coisa ruim que acabamos por nos acostumar é a insônia. Passa a ser normal varar madrugadas escrevendo, e os jovenzinhos que anseiam "farmar uma aura" de escritor maldito se deliciam em atravessar noites de tormentas, usando litros de café de alta octanagem como combustível.
Também já fiz isso, mas confesso que minha insônia sempre foi genética. Muitas madrugadas passei em claro simplesmente ouvindo rádio AM.

E então um belo dia, motivado por tempestades psíquicas, busco o atendimento psicológico. A psiquiatra me receita alguns remédios e ontem - precisamente ontem - foi meu début em seu uso.
E que paulada levei.

A verdade é que nos acostumamos a tudo, desde sujeira até dores, e só quando nos livramos delas é que nos damos conta de seu verdadeiro tamanho e poder sobre nossas rotinas de vida.
No meio da coleção de remédios receitados havia um que serviria pra dormir e, de quebra, atenuaria dores do corpo - até mesmo a tão mal-falada fibromialgia - e é a razão de eu escrever isso.

Tomei o remédio à noite e, em uma hora, desabei na cama.

Sono de chumbo, quase morte. Um sono tão pesado que, quando acordei hoje, tive a consciência imediata do quão violento foi esse "apagão". 
Dormi a noite toda, sem interrupção e - o mais incrível - sabendo que estava apagado.

E então acordei. E mais diferenças notei.

A verdade é que ainda me obrigo a levantar da cama. Preciso me convencer disso. Mas, após levantar, me dei conta que as velhas dores amigas simplesmente sumiram. A pior delas tem sido minhas costas quebradas, em decorrência de desavenças com um negão orçando lá pelos seus dois metros, há coisa de uns trinta anos atrás, e que hoje em dia me cobra seus piores efeitos - e ela sumiu.

Só isso me fez enxergar a vida e o mundo de uma maneira menos péssima. Me animei, lavei pratos, copos e fiz meu café numa agilidade perdida há uns dez anos ou mais. Posso arriscar dizer que, se tal efeito permanecer, em breve minha casa não terá mais as teias de aranha góticas que decoram a sala e o quarto.

Resta agora dar tempo ao tempo e começar a sentir os efeitos das outras medicações. Sim, pois o ponto principal ainda permanece igual e tudo ao redor me parece, ainda, somente trevas.

Tenho certeza, entretanto, que por mais que eu consiga controlar essas condições, jamais deixarei de farejar e enxergar toda a imundície à minha volta.

Não é minha depressão que as causa.

É a vida.




Walter Biancardine



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