não escrevo sobre filosofias
nem cito dizeres da Clarisse
quero que Dostoiévski se foda
e Kafka jamais acorde
não me meto em profundidades
nem tento parecer um gênio
só rabisco o que vejo na rua
nos bares ou nos lixos da vida
fingem não existir ou nem viram
como se Hemingway jamais tivesse
diarréias ou Virgínia Woolf
não arrotasse após um Champagne
não é nesse mundo fino que vivo
meu carpete é de terra e sempre
sujo o chão de casa e também
as folhas que escrevo
todos os dias levo um pé na bunda
todas as noites tenho insônia
e nas manhãs nunca quero acordar
nem abrir a porta do inferno da rua
a barriga dói de fome e nada sei
de amanhã nem de nada no futuro
o psiquiatra me olha e balança
a cabeça em desalento
eu também me olho no espelho
e penso o mesmo que o psiquiatra
mas tenho ao menos pra onde correr
e que se fodam a cirrose ou ressaca
não resolvem o futuro nem passado
muito menos me dão um emprego
mas me fazem cair de cara no chão
e desmaiar dessa vida de merda
em que momento então eu vou lembrar
de Dostoiévski ou de um bêbado igual
chamado Bukowski que ao menos tinha
algum trabalho e sobrevivia?
pego o determinismo e enrolo junto
com todo meu livre arbítrio e enfio
na bunda do primeiro filósofo que
me citar que é aporia
porque Nietzsche não paga meu almoço
Shakespeare nunca me alugaria a casa
e nenhum deles ainda que reunidos
convenceria aquela maldita que a amo
porque amor custa dinheiro e precisa
de emprego pra provar que é verdade
e escrever não paga diária
nem empreitada
resta beber e esperar
o fim dessa agonia
e que se fodam todos os belos
magníficos e geniais poetas
e escritores que me esfregam
em minha cara bêbada
de que me serve toda essa grandeza
diante de minha fome
e dor de corno?
Walter Biancardine
Nenhum comentário:
Postar um comentário