quarta-feira, 13 de maio de 2026

CAFÉ DA MANHÃ COM INCÊNDIO -

 ela tinha esse talento

quando começava
a gostar de mim
arranjava uma guerra

não uma discussão normal
não

era sempre um espetáculo meio sujo
meio teatral
como gente chutando porta
antes da casa pegar fogo

bastava perceber
que estava ficando confortável demais

que ria das minhas piadas
que dormia mais perto
que começava a olhar pra mim
como quem finalmente encontrou
um lugar onde cair morta em paz

aí vinha o desastre

uma frase atravessada
uma acusação ridícula
um ciúme inventado
qualquer fósforo servia

e ela explodia
porque algumas pessoas
preferem destruir tudo
a admitir que precisam de alguém

amor assusta certos tipos
não pelo risco de sofrer

isso qualquer bêbado aguenta

o que assusta
é baixar a guarda

é permitir que alguém veja
a ferrugem atrás do sorriso
os remendos
as rachaduras

ela tinha pavor disso
queria amor
como quem quer um cachorro na vitrine:
bonito, manso
e do lado de fora do vidro

então brigava

brigava pra fugir.
brigava pra correr primeiro
brigava pra não ouvir
aquele barulho terrível
que existe quando duas pessoas
ficam honestas demais
uma diante da outra

e eu?
eu ficava ali
fumando em silêncio,
assistindo mais uma mulher
confundir carinho
com armadilha

o mundo está cheio delas

mulheres que dizem querer abrigo
mas dormem abraçadas
ao próprio incêndio

no fim
ela foi embora
como todas as outras pequenas covardias elegantes

deixou perfume no banheiro
um copo sujo na pia
e aquela velha sensação
de que algumas pessoas
não querem amor

querem apenas
a possibilidade dele

desde que possam fugir
antes que seja tarde demais

e tudo o que ofereci
foi um abraço apertado
tão apertado
que colaria tudo dentro dela
já quebrado


Walter Biancardine


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