ela tinha esse talento
quando começava
a gostar de mim
arranjava uma guerra
a gostar de mim
arranjava uma guerra
não uma discussão normal
não
era sempre um espetáculo meio sujo
meio teatral
como gente chutando porta
antes da casa pegar fogo
bastava perceber
que estava ficando confortável demais
que ria das minhas piadas
que dormia mais perto
que começava a olhar pra mim
como quem finalmente encontrou
um lugar onde cair morta em paz
aí vinha o desastre
uma frase atravessada
uma acusação ridícula
um ciúme inventado
qualquer fósforo servia
e ela explodia
porque algumas pessoas
preferem destruir tudo
a admitir que precisam de alguém
amor assusta certos tipos
não pelo risco de sofrer
isso qualquer bêbado aguenta
o que assusta
é baixar a guarda
é permitir que alguém veja
a ferrugem atrás do sorriso
os remendos
as rachaduras
ela tinha pavor disso
queria amor
como quem quer um cachorro na vitrine:
bonito, manso
e do lado de fora do vidro
então brigava
brigava pra fugir.
brigava pra correr primeiro
brigava pra não ouvir
aquele barulho terrível
que existe quando duas pessoas
ficam honestas demais
uma diante da outra
e eu?
eu ficava ali
fumando em silêncio,
assistindo mais uma mulher
confundir carinho
com armadilha
o mundo está cheio delas
mulheres que dizem querer abrigo
mas dormem abraçadas
ao próprio incêndio
no fim
ela foi embora
como todas as outras pequenas covardias elegantes
deixou perfume no banheiro
um copo sujo na pia
e aquela velha sensação
de que algumas pessoas
não querem amor
querem apenas
a possibilidade dele
desde que possam fugir
antes que seja tarde demais
e tudo o que ofereci
foi um abraço apertado
tão apertado
que colaria tudo dentro dela
já quebrado
Walter Biancardine
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