sexta-feira, 8 de maio de 2026

BAR SÃO JORGE -

 


Sentado sozinho
eu e as garrafas
que molham tudo
e pingam na calça

Mesa de plástico
cadeira de plástico
coração de papel
não pode molhar

Peço um salgado
um cachorro vem junto
guardanapo e focinho
estou sozinho

Agonia não passa
traz outra cerveja
molha a mesa
guardo o cigarro

O coração fica
não tem onde guardar
cachorro abana o rabo
não tem onde ficar

Nem eu
nem eu, meu amigo
nem eu

Coração desmanchou
o cachorro ficou
não estou mais sozinho

Me fazem companhia
garrafas de cerveja
e um focinho

Ele não tem pra onde ir
nem eu, meu amigo
nem eu


Walter Biancardine



CASAL DIGITAL -

 


Segurava sua mão
Olhava seus olhos
Beijava sua boca

Mãos tremiam
Olhos embaçavam
Bocas molhavam

Sentia seu cheiro
Cheiro de nervoso
Com perfume bom

Sua voz tremia
Medo e vontade
Acontecia

Olhe em volta
Ninguém olha
Só pra si mesmos

O amor morreu
Distância em tudo
Mas tem mil seguidores

Um casal de sucesso
Não se toca
Não se olha

Não se ama


Walter Biancardine



DIAS NUBLADOS E MUDANÇAS -

 


Diz a letra de uma música que "cariocas não gostam de dias nublados". Mentira. Sou carioca da gema e gosto.
O dia mais fresco, brisa fria e até uma garoa me tornam mais reflexivo, calmo, quase em paz comigo mesmo. O suor é uma abominação. Só na cama, em companhia da eleita. 

Prefiro escrever em dias nublados ou chuvosos, se não puder escrever à noite. A coisa estranha disso tudo é como mudei. Gostava de sol, embora nunca do calor. Detestava entardeceres - e agora amo. Abandonei meus contos, romances, poesias. E voltei a eles, filho pródigo que gastou tudo na orgia política.

A tal ponto mudei que meus últimos entardeceres os gastei terminando meu livro - nunca mais política, filosofia ou teologia - um estranho misto de contos, crônicas e poemas. Uma salada, vamos ver se aprovam essa mistura.

Sim, tal como meus livros "Pretérito Perfeito", um romance, e "Gislaine dos Três Verões", coletânea de contos, reuni algumas poesias, contos e mesmo crônicas, que nem de longe abordam aquilo que me fez conhecido pelos meus seguidores.

Irão comprar? Se comprarem, gostarão? Ou deixarão de me seguir, comprando ou não o livro?

Não sei. O que sei é que não posso mais continuar traindo a mim mesmo, mantendo a antiga e frustrante vida de falar apenas para uma bolha de já convertidos. O que eu tinha a dizer, já sabem. E se não sabem, nada valeu a pena. Por isso volto aos romances, contos e poesias.

Em breve pretendo lançá-lo. 

Vamos ver se levam fé.


Walter Biancardine 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

JÁ GASTEI, AGORA É TARDE -

Não sei o que é pior: viver em uma terra onde tudo pode ser pirateado na cara dura - Brasil - ou ter a autoestima mais baixa que a altura dos rodapés da minha casa.

O caso é que estou terminando os últimos preparativos para meu novo livro - o sétimo, número cabalístico - e me vi às voltas com procedimentos como o registro da obra, ISBN, ficha catalográfica e código de barras.
Tudo isso preserva meus direitos. Resguarda minha autoria.
Impede cópias não autorizadas.
E custa dinheiro.

E minha autoestima, metros abaixo do nível do mar, me fez pensar: "mas quem diabos iria me copiar?"
A verdade é que, pra um ilustre desconhecido como eu e - pior - dotado de talento apenas mediano, gastar dinheiro com essas proteções soa quase como arrogância, algo típico de um metido, alguém que "se acha".
Mas paguei. Sou um boçal.

Agora é ver se o tal livrinho vende, ao menos quantidade suficiente pra eu me ressarcir dessas despesas de soberba.

Vamos ver que bicho dá.


Walter Biancardine


quarta-feira, 6 de maio de 2026

LINHA DO EQUADOR - Um poema da quinta série -


Queria ser um trator
e esmagar as pedras em seu caminho
ou toneladas de areia
tornando os buracos impossíveis de cair

Queria ser um polvo
estendendo quantos braços precisasse
e te envolvendo em um abraço 
impossível e infinito

Queria ser seu travesseiro
com sua cabeça a sonhar
secando as lágrimas
colhendo seus sorrisos

Mas sou só um número
na agenda de seu celular
uma voz sem rosto
existo mas não sou visto


Walter (cheio de espinhas)


POR DO SOL -

 


Andava agora à noite pelos pastos. Faço sempre isso.
Longe, no poente, ainda um ligeiro clarão vermelho, quase apagado, que nada ilumina mas mostra o oeste e faz do céu um quadro de Rembrandt - claros e escuros impossíveis de reproduzir.

Vi minha primeira estrela, e fiz o pedido. Depois veio Vênus. e mais outras. E outras. A imensidão do céu enegrecia e brotavam estrelas que não se pode ver sob a luz das cidades.

Muito longe, à direita do nascente, um vago claro apontava Cabo Frio. À esquerda, o Segundo Distrito e Barra de São João. 
Longe, indiferente diante das horas, pastavam bois, vacas e cavalos. Mais cavalos. O gado tem hora de se recolher.

A vastidão do céu nos curva em direção à humildade.
E eu ali, só eu, sem ninguém pra compartilhar aquilo. 
Não posso dar tal grandeza de presente, mas poderia dividir o deslumbre com alguém.
Mas não havia ninguém.

Se não dividem minhas dores, também é certo que não participam de meus prazeres.

A dor, a agonia, nada disso é diário - embora muito mais frequente que gostaria. Mas o por do sol é.
Sempre.

E, enquanto eu estiver aqui, sozinho, só pra mim.


Walter Biancardine



NASCI DOENTE -


Ninguém se torna escritor. Se nasce assim.
Tal qual nascer com pés chatos, desvio na coluna ou miopia. Eu sei porque nasci com esses quatro defeitos: sim, também nasci escrevendo.

Um escritor vive uma vida esquizofrênica, e precisa lidar com ela tal qual alguém que é bissexual. Se é casado, vai trair a mulher com um homem. Se estiver com um homem, vai traí-lo com uma mulher. Se é escritor, vai trair sua escrita sendo balconista de uma loja. E se for balconista, vai trair seu emprego gastando as noites escrevendo.

É um defeito de nascença, uma praga genética que condena o infeliz a ser sempre um miserável, pobre e espancado por alguns casamentos. A imaginação não cabe nem mesmo em Bodas de Ouro. E quem pensa demais não casa. A não ser gente com tendências kamikazes como eu, que atira o coração deliberadamente contra o costado de um navio chamado “Amor”. 
Morte inevitável. 
Sobra o fígado, com cirrose.

Ser escritor não é profissão, é sina. E das piores. Se seu filho ou neto se mostra muito à vontade escrevendo redações, dê a ele um celular, computador, tablet – qualquer coisa que esvazie a pobre cabecinha de tais pensamentos. O final é sempre a indigência, solidão e bebedeira.

Sim, existem Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo – mas gente assim são as infalíveis exceções, que somente servem pra comprovar a regra.

Escrever também é como um vício: ou você escreve ou morre. 
Ou mata alguém. 
Ou enlouquece. 

E esse povo hoje, que posa de “escritor” deixando tudo nas mãos de um ChatGPT e enche os bolsos das editoras pagando revisão, diagramação, capa e até noite de autógrafos na FLIP, não passa de vaidosos. Para eles, escrever um livro é como comprar um carro zero. 
Vaidade. 
Só pra agregar valor. 
Nada sofrem. 
Nunca sofreram.

Se seu filho é bom em redação, dê uma surra de chinelos nele e diga – desta vez cheio de razão – que é para o bem dele.


Walter Biancardine



segunda-feira, 4 de maio de 2026

NADA



Walter Biancardine

QUARTO 7



Tem um barulho aqui.
Não sei de onde.
Parece rádio, mas não tem rádio.
Fica vindo e indo. Às vezes some. Às vezes fica alto.
Hoje tá baixo.
Melhor.

Tem um homem na outra cama. Ele levanta toda hora. Vai até a porta. Volta.
Acho que ele trabalha.
Ninguém manda, mas ele vai.
Deve ser coisa importante.
Eu fico.

Minha perna não gosta de mim.
A cabeça também não ajuda muito.
Mas eu lembro das pessoas.
Isso eu lembro.
Demora um pouco, mas vem.
Veio hoje.
Ele entrou.
Ficou parado na porta, meio torto.
Eu conheço ele.

Esperei.
A cara veio primeiro. O nome não.
Mas não precisa nome.
- Ô… você.
Ele falou que era ele.
Eu sabia.

Ele sentou.
Trouxe cheiro de rua. Poeira. Sol.
Aqui não tem isso.
Aqui tem cheiro de limpeza. Limpa demais.
- Trouxe cigarro?
Ele disse que não pode.
Nunca pode nada.
Antes podia.
Antes eu fazia o que queria.
Ou acho que fazia.
Agora eu não lembro direito.

- Que dia é hoje?
Ele falou.
Domingo.
Domingo é bom.
Sempre foi.
Acho.

Perguntei dos meninos.
Eles tão grandes.
Um casou.
Casar é bom.
Dá trabalho, mas é bom.
O outro tá longe.
Trabalhando.
Trabalhar é bom também.
Cansa, mas passa o tempo.

Aqui o tempo não passa.
Ele fica parado olhando.
Às vezes eu durmo pra ver se ele anda.
Acordo e ele tá no mesmo lugar.

Tem um cara aqui que trabalha.
João.
Ele anda muito.
Deve estar cheio de serviço.
Ninguém ajuda ele.
Falei isso e ri.
Ele riu também, mas meio errado.
Acontece.

Perguntei onde ele mora.
Ele disse longe.
Longe é um lugar ruim.
As pessoas somem quando vão pra longe.
Mas ele veio.
Então não sumiu.
Ainda.

A cabeça falha um pouco.
Às vezes dá um branco.
Eu sei que deu ruim aqui.
Bati na testa.
- Deu problema.

Ele falou que deu.
Eu ri.
Não sei por quê.
Talvez porque é verdade.
Quando é verdade, às vezes dá vontade de rir.
Ou chorar.
Confunde.

Ele ficou quieto.
Ele fica quieto bastante.
Eu também.
Não precisa falar sempre.
Só precisa ter alguém ali.

Segurei o braço dele.
Firme.
Pra ver se ele era de verdade.
Era.
- Vou ganhar um dinheiro e sair daqui.

Eu falei baixo.
Não queria que os outros ouvissem.
Ele respondeu alguma coisa.
Não entendi direito.
A cabeça falhou de novo.
Mas a mão dele tava ali.
Depois não tava mais.
Acontece rápido.
As coisas somem rápido agora.

Ele levantou.
Disse que voltava.
Volta.
As pessoas falam que voltam.
Algumas voltam.
Outras ficam no “depois”.
Eu espero.
Dá pra esperar.
Aqui tem tempo.
Muito tempo.

Deitei.
Olhei pro teto.
Tem uma mancha lá.
Parece um mapa.
Já vi esse mapa antes.
Não lembro onde.

Fechei o olho.
O barulho do rádio voltou.
Sem rádio.
Fiquei escutando.
Esperando.

Ele volta.
Eu sei que volta.
Só não sei quando.

Mas domingo é bom.
Acho que é domingo.


Walter Biancardine




DOMINGO NO ASILO -


Fui visitar meu irmão.
O lugar cheira a desinfetante e tempo perdido.
Não tem outra palavra.
Tempo ali não passa. 
Ele fica. Gruda nas paredes. E na pele.

Assinei um papel na entrada. Sempre tem um papel. 
Nome, documento, horário. Como se alguém fosse fugir dali.
Uma moça de jaleco me deu um sorriso rápido. Cansado. Não era pra mim. Era automático.
- Quarto 7.

Fui andando pelo corredor. Portas abertas. Gente sentada olhando pro nada. Um velho ria sozinho. Uma mulher falava com alguém que não tava ali.
Ninguém parecia com pressa.
Cheguei.

Ele tava na cama. Magro. Mais baixo do que eu lembrava. Como se tivesse encolhido por dentro.
Olhou pra mim.
Demorou meio segundo.
- Ô… você.

Ainda lembrava.
- Sou eu.

Ele abriu um sorriso torto. Faltava um dente. Não lembro quando perdeu.
- Veio?
- Vim.

Sentei numa cadeira dura. Daquelas que não deixam ninguém confortável tempo demais.
- Trouxe cigarro?
- Aqui não pode fumar.
- Ah.

Ficou quieto. Mexeu no lençol. As mãos tremiam um pouco.
- Que dia é hoje?
- Domingo.
- Bom.

Não sei por que era bom.
Ficamos ali. O silêncio não incomodava ele. Em mim, raspava.
- E os meninos? Meus filhos? - ele perguntou.
- Tão por aí.
- Trabalhando?
- Você sabe… Um tá fora, morando em Londres. Outro casou agora, você deve lembrar.
- Casou… é mesmo… - ele repetiu, como se testasse a palavra.
- É.
- Não vieram?
- Não.

Ele pensou um pouco. Ou fingiu.
- Devem tá ocupados.
- Devem.

Ele assentiu. Aceitou rápido demais.
Isso doeu mais do que se tivesse reclamado.
- Aqui é bom - ele disse, olhando pro teto.
- É?
- Tem comida na hora. Ninguém enche o saco.
- Olha aí.
- Tem um cara aqui… o João… - ele riu - ele acha que ainda trabalha.
- E trabalha?
- Trabalha nada. Fica andando pra lá e pra cá. Igual doido.

Rimos. Meio sem graça.
Ele esqueceu do João logo depois.
- Você tá morando onde?
- Longe. São Jacinto.
- Com quem?
- Com ninguém. Só eu, as vacas e os cavalos.
- Melhor - e deu uma risada.

Ele fechou os olhos um pouco. Abriu de novo.
- Eu fiquei doente, né?
- Ficou.
- Foi do nada.
- Foi.
- Cabeça…

Apontou pra própria testa. Deu um tapinha leve.
- Deu ruim aqui. Mas vou melhorar.
- Claro que vai.

Ele riu. Aquela risada meio boba, leve demais pra situação.
- Ainda bem que você veio.
- É difícil, moro muito longe, mas quando dá eu venho.
- Não sempre.
- É como eu disse, não dá sempre.
- Eu sei.

Não parecia saber.
Uma enfermeira apareceu na porta.
- Hora do remédio.

Ele fez careta.
- Já?
- Já.

Ela veio, deu os comprimidos, água. Ele engoliu sem reclamar. Bom paciente.
Ela saiu.
- Você vai embora?
- Daqui a pouco.
- Fica mais.
- Sem problema.

Fiquei.
Sem falar muito. Ele também não.
Em algum momento, ele segurou meu braço.
Forte.
- Estou vendo um negócio, vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui.

Veio baixo. Quase certo.
Fiquei olhando pra mão dele.
- Primeiro você tem que se tratar, ficar bem de novo…
 
Ele não reagiu.
Talvez não tenha entendido.
Talvez tenha entendido demais.
- É mesmo - ele disse.

Soltou meu braço.
Olhou pro teto de novo.
Como se já tivesse ido embora dali.
Fiquei mais um pouco. Não sei quanto.
Levantei.
- Eu volto qualquer dia.
- Volta?
- Volto.

Ele assentiu. Confiante. Como criança.
Saí do quarto.
O corredor continuava igual. Ninguém indo a lugar nenhum.
Assinei outro papel na saída.
Sempre tem um papel.

Lá fora tinha sol. Mas a rua era vazia, isolada na cidade. 

Andei como um condenado, debaixo do sol, até o ponto de ônibus mais perto.
Entrei no ônibus.
Sentei perto da janela, lado contrário ao sol.

Fiquei pensando no “vou ganhar muito dinheiro e vou sair daqui”.
Não era sonho. Nem plano.
Era só… o que sobrou.

Olhei pra rua.
Eu também não tinha pra onde levar ele.
E isso é o tipo de coisa que ninguém gosta de dizer em voz alta.

Não havia inocentes.
Nunca houve.


Walter Biancardine



LIMITE ESTOURADO

Toda agência bancária é sempre gelada.Frio de máquina. Não de inverno.

Sentei. Esperei minha senha. Aquela porcaria de bip com a demora calculada pra te torturar.

Um cara do meu lado coçava o braço sem parar. Uma mulher falava sozinha olhando pro celular. Ninguém ali parecia estar resolvendo nada.
Chamou.
Mesa 12.
O sujeito nem levantou. Só apontou com o queixo.
- Boa tarde.
- Boa.

Sentei. Tirei o papel do bolso. Já amassado.
- Tô devendo no cartão de crédito. Foi cancelado.

Ele pegou, mas já tava digitando antes.
- CPF.

Falei.
Tec-tec-tec.
Fiquei olhando pra tela. Não dava pra ver direito. Um monte de número. Sempre número. Eles devem sonhar com números.
- O senhor tá com atraso já faz um tempo.
- Minha vida toda tá com atraso.

Ele não reagiu. Só continuou.
- Vamos ver o que dá pra fazer.
- Se der pra fazer.
- Dá sim.

Sempre dá. Pro banco, sempre dá.
Mais tec-tec.
- A gente pode parcelar isso aqui.
- Aham.
- Fica em tantas vezes…

Falou o número.
Balancei a cabeça.
- Não tenho isso por mês.
- Mas dilui a dívida.
- Dilui onde? Assim não dilui nada.

Ele respirou pelo nariz. Pequeno incômodo.
- Tem outra opção também.

Claro que tem.
- Qual?
- Título de capitalização.

Eu ri. Meio sem querer.
- Sério?
- O senhor cria uma reserva, participa de sorteios…
- Sorteio?
- Isso.
- Eu não tô conseguindo pagar o almoço direito e vou entrar num sorteio? Pagando por mês?
- É uma forma de organização.
- Organização do quê, cara? Mais dívida?

Ficou um silêncio meio ruim.
Ele ajeitou a cadeira.
- Senhor, são produtos que ajudam o cliente a se reestruturar.
- Eu preciso me reestruturar ou pagar o que eu devo?

Ele travou um segundo. Voltou.
- As duas coisas.
- Com dinheiro de onde?

Ele não respondeu. Foi pro teclado de novo.
- Se não fizer nada, a dívida continua.
- Firme e forte, inclusive.
- Pode ir pra cobrança.
- Já deve ter ido. Nunca atendi os chamados que vocês me fazem todos os dias.

Ele me olhou.
- O ideal é evitar negativação.
- Ideal era não ter chegado aqui.

Outro silêncio.
Passou uma senhora atrás da gente arrastando o pé nos chinelos. Um segurança olhava pro nada.
- O senhor precisa assumir um compromisso.
- Eu já assumi quando usei o cartão.
- E agora precisa honrar.
- Com o quê? Assumindo outra dívida que não posso pagar?

Nada.
Ele deu uma batidinha leve na mesa com a caneta. Impaciência controlada.
- Eu tô tentando te dar uma solução.
- Não, você tá tentando fechar um negócio aqui, bater sua meta.

Ele não gostou.
- Não é isso.
- Tá bom. Esquece. Deixa pra lá.

Puxei o papel de volta.
- Eu sei que o senhor me entende.
Ele não respondeu.
- Eu não tenho dinheiro. Você sabe disso. Eu sei disso. E você tá aí me oferecendo parcela maior e um negócio de sorteio. Se eu tivesse isso, já teria pago o cartão e não estaria aqui, negociando.

Fiquei olhando pra cara dele. Perguntei:
- Isso ajuda quem?

Demorou.
- Ajuda quem consegue seguir.
- Então não sou eu, amigo.

Ele ficou quieto.
Pronto. Chegamos em algum lugar.

Levantei.
- O senhor não vai fazer nada?
- Hoje não.
- A dívida vai aumentar.
- Eu sei.
- Pode complicar mais.
- Já complicou.

Fiquei um segundo ali. Sem pressa.
- Boa sorte aí com os sorteios.

Sai.
A porta demorou. Sempre demora quando você quer ir embora.

Lá fora tava quente. Barulho de ônibus, gente, vida.
Passei a mão no bolso. O papel ainda tava lá. Amassado.
A dívida também.

Pelo menos lá dentro ninguém fingiu muito tempo.

Fui na padaria tomar um café com pão na chapa.

Aquilo eu podia pagar.


Walter Biancardine



domingo, 3 de maio de 2026

INTERNAUTAS ANÔNIMOS – O vício em dopamina

 


Temos os Alcoólicos Anônimos, que por frescura deixou de usar o termo alcoólatra, e temos mesmo algo semelhante voltado aos viciados em drogas e jogatinas. Como hoje em dia um negócio em alta é inventar doenças, existem também grupos de apoio às mulheres que amam demais, aos viciados em sexo, em descabelar o palhaço no Xvídeos e até em comer cachorro-quente. 

O caso é que já passou da hora de fundarem um grupo de apoio aos viciados em internet – leia-se “viciados em um orgasmo de dopamina a cada quinze segundos”, pois os reels, vídeos do Tik Tok, tweeters ou o tempo que se leva para ler o primeiro parágrafo de uma postagem no Facebook e dar uma resposta furiosa é exatamente esse: quinze segundos.

Na era pré-internet sabíamos das coisas lendo jornais, ouvindo comentários nos botequins, salas de espera do dentista ou mesmo das vizinhas fofoqueiras. E isso tinha seu tempo próprio, um ritmo normal, humano, potável. Um boato por mês? Um escândalo a cada quinze dias? Uma nova fofoca toda semana? Sem problemas, tudo digerível, avaliável, julgável e – principalmente – sabidos de forma absolutamente passiva: sabíamos, nos escandalizávamos, comentávamos com o fofoqueiro e pronto, morria aí o assunto.

Hoje não. Hoje somos “celebrities das redes sociais”, não podemos decepcionar nosso público se não postarmos nossos comentários furibundos e dar a todos o merecido orgasmo de quinze segundos. Sim, somos ídolos. Temos públicos. Viramos, todos, artistas. Até nossa casa é mostrada em fotos, junto com as férias na praia ou o prato cheio na churrascaria.

A verdade é que somos todos doentes, e não nos demos conta.

O viciado nunca admite o vício. O paranóico jamais admite sua patologia. E a cura, infelizmente, será compulsória – tal como a dos citados.

Chegará o dia em que teremos uma guerra. Uma guerra não, uma hecatombe, uma catástrofe – é questão de apenas esperar. E neste dia as redes ficarão fora do ar. Bombardeios, explosões, tudo isso levará pelos ares nosso mundo de fantasias. Deixaremos de ser “celebrities” e passaremos a ser novamente pessoas comuns. Pior: refugiados. Sobreviventes. Nenhum glamour. E sem instagram.

Some as horas em que você passa na internet. Pese quantos quilos de fúria você engole ao ler postagens que te desagradem. E veja o que sobrou de sua vida, de sua cabeça, de sua paz.

Mas sei que perco meu tempo. Eu mesmo estou aqui, na internet.

Mas ao menos jamais escondi meus tombos.

Eu bebo. Eu fumo. E uso a internet.


Walter Biancardine



DONO DE ESCRAVOS -


Princesa Isabel assinou uma lei.
Libertou o povo das senzalas mas a República os prendeu na favela.

Então o brasileiro descobriu que podia ser empresário. E o governo escravizou os empresários, arrancando suas bolas através de impostos. E os empresários escravizaram os empregados pagando salários ridículos – senão o lucro acaba, dizem eles.

Cabeças de merda, nunca imaginaram que seus empregados poderiam ser também consumidores de seus próprios produtos. O lucro acaba, sempre repetem.

Aqui nunca existiu classe média. É a que consome, a que paga impostos.
Não. Aqui, pobre paga imposto também. Aqui se vive da pobreza, da miséria e dos funcionários das estatais e servidores públicos. Aqui se vive da Corte.

Sujeito trabalha o dia todo e seu salário, dividido pelos trinta dias do mês, não compra um frango assado. Escravidão tão boa que vieram as multinacionais – era preciso explorar também. Eles sim, sabem explorar, oferecem alguns mimos e deixam o cativo feliz e se sentindo superior.
E a Corte descobriu que miséria dá voto. Sempre deu. Sempre imploramos por heróis, as novelas da TV mostram isso.

E a Corte quase extinguiu o salário, trocando o contracheque por vale-transporte, vale-gás, bolsa família, bolsa escola, passe gratuito pra idosos, pra deficientes, farmácias que dão remédios gratuitos (comprados pelo Governo em licitações fraudadas), programa Minha Casa Minha Vida – no fim das contas, você descobre que trabalha a troco de casa e comida. Tudo dado pelo governo, comprado com seu dinheiro de impostos. E os empresários nada pagam, além de uma carga tributária trabalhista que esfola o pequeno comerciante. Mas ajuda as grandes empresas, elimina a concorrência.

Aqui, grandes empresas são feudos. Nelas trabalham os privilegiados. Somos servos da gleba e ainda não saímos da era feudal, embora jamais tenhamos atravessados uma Idade Média.
Mas as igrejas nos amansam. As músicas excitam e fazem esquecer a fome – e a vergonha na cara também. As novelas hipnotizam, condicionam e desviam a atenção. O futebol é nosso Coliseu, e o pão e circo come solto.

Se trabalha a troco de teto e comida, a ração é futebol, carnaval e novela e vivemos na senzala do tráfico. Tudo isso pra que, a cada eleição, surja um vigarista prometendo que tudo vai mudar.
E ele se elege. E nada muda, nunca.

Mas a gente acredita. Daqui a quatro anos, vem outro.

Vivemos na Idade Média e tiramos onda de modernos.

E fotos pro Instagram, também.


Walter Biancardine










sábado, 2 de maio de 2026

BRASILEIROS E BRASILEIRAS -


Ouçam o que digo
Tomem energéticos
Comprem um copo Stanley
Fiquem no vídeo game até amanhecer

Sejam pais de pets
Mães de plantas
Amorosos herbívoros
Soltem pombas pela paz

Abracem a lagoa
Deixem a barba crescer
Arranjem um coach
Façam cursos de tudo

Chorem no Zap
Tirem a foto do perfil
Se ofendam com o que digo
Comprem um Renegade

Abominem o cigarro
Não bebam álcool
Só energéticos, anfetaminas
E soja transgênica

Proíbam os homens machos
Banheiros pra quem quiser
Mulheres pagando
Anúncio de margarina

Matem os velhos
Abortem crianças
Prendam os brancos
E héteros

A vida é de vocês
E podem fazer o que quiserem
Só nunca mais se metam
Em política nas redes

Ou na vida.


Walter Biancardine



quarta-feira, 29 de abril de 2026

É ISSO QUE VOCÊS QUEREM? -


O circo pegou fogo – e ninguém quer apagar. 
O novo coliseu cabe na palma da mão e atende pelos nomes de Instagram, Facebook ou Twitter.

O picadeiro agora é uma arena de bolso, onde covarde vira gladiador de comentário e imbecil vira juiz de execução. 
Sem pudor, sem freio, sem vergonha. 
Só uma turba elétrica, histérica, mastigando nomes como se fossem ossos.

Querem sangue.
Não é metáfora. É fetiche.
Não há mais lado. Não há mais causa. Há só dentes rangendo, olhos vidrados e uma fome que não é de justiça – é de carne.
Querem sangue.

O de Luiz Inácio Lula da Silva, servido quente, de preferência em transmissão ao vivo.
O dos ministros do Supremo Tribunal Federal, em fatias, com comentários e emojis.
Mas isso já era esperado. O problema – o câncer mesmo – é outro.
A faca virou para dentro.

Seguidores de Allan dos Santos babam pela queda de Kim Paim.
Seguidores de Kim contam os minutos pra ver Allan afundar.
Não é divergência.
É linchamento recreativo.

Em Minas Gerais, querem Romeu Zema na guilhotina.
Na outra esquina, Flávio Bolsonaro na fogueira.
E os filhos de Jair Bolsonaro? Viraram menu degustação. 
Um por noite, com direito a avaliação nos comentários: “crocante por fora, sangrando por dentro”.

É isso que chamam de “direita”?
Um bando de gente que não consegue sustentar uma ideia por cinco minutos sem precisar arrancar o fígado de alguém?
Isso não é força. É fraqueza berrada.
É covardia com filtro.

Enquanto a turba se delicia, o sujeito que um dia concentrou tudo isso – Jair Bolsonaro – vai sendo mastigado vivo. 
Não por inimigos – por fãs. 
Não por oposição – por plateia. 
O fim mais baixo: virar esquecimento em câmera lenta.
E ninguém pisca.
Porque o show não pode parar.

Querem Nikolas Ferreira fazendo caminhada como se fosse Jesus entrando em Jerusalém.
Processo contra Gustavo Gayer vira episódio, com teoria conspiratória de quinta.

A cada notificação, uma execução simbólica. 
A cada like, um empurrão a mais na beira do abismo.
E ainda têm a pachorra de falar em liberdade.
Liberdade de quê?
De destruir o próprio campo?
De transformar aliado em inimigo com a mesma facilidade com que troca de camisa?
Chamam isso de conservadorismo?
Conservar o quê – a burrice? A vaidade? O vício em espetáculo?

E no meio disso – essa palavra que adoram usar quando convém – a “ditadura” – ela vai passando como um garçom invisível. 
Ninguém olha. Ninguém chama. Ninguém paga a conta.
Porque o importante não é a liberdade.
É o espetáculo.

Não querem vitória.
Querem vingança.
Não querem ordem.
Querem catarse.
Não querem verdade.
Querem um inimigo novo a cada manhã, como quem precisa de café pra acordar.

A verdade nua: não querem vencer. Não querem governar. Não querem sequer entender.
Querem sentir.
Aquela descarga curta, suja, barata – o prazer de ver alguém cair. 
Hoje o outro. Amanhã o próprio.
Porque esse tipo de fome não sacia. Só aumenta.

Enquanto isso, o cenário fecha, aperta, sufoca. 
Pode chamar do que quiser – o nome pouco importa quando a corda está no pescoço.
Mas a turba não vê a corda.
Está ocupada pedindo mais sangue.
Mais cortes.
Mais escândalos.
Mais degolas virtuais.

A velha Roma pelo menos sabia que aquilo era barbárie. Hoje se chama isso de “conteúdo”.
E seguem pedindo mais.
Sempre mais sangue.
Até não sobrar ninguém – nem cabeças para cortar.

E então vem o silêncio.
A ressaca.
O vazio.

Mas aí já será tarde. 
Sempre é.

Uma velha lei esquecida: quem vive de assistir execução acaba na fila da espada – e ainda acha que é entretenimento até o último segundo.

Então, sem teatro, sem lirismo, sem a desculpa confortável da ignorância:

É isso mesmo que vocês querem?

Sangue?



Walter Biancardine



SEM TEMPO -

 


O tempo melhora o uísque, 
melhora o vinho,
mas esquenta a cerveja,
e aquele resto no copo.

Amargo como a vida,
saideira intragável, 
nos mostrando coisas 
que seria melhor não saber.

Esfria o café,
esfria o convite,
esfria o encontro,
resto no copo.

Entope cinzeiros e artérias,
cigarros e corações frustrados,
deleta amores, exclui amigos,
o tempo é senhor da paixão.

O tempo pouco se importa,
segue sua marcha, e eu
pendurado nele,
como pingente no trem.

Porque nunca há vagas
para viajar confortável.

Tempo é dor
com pitadas felizes
num relógio de camelô.

E a bateria acaba.


Walter Biancardine